O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 23 de 46

Páginas do PDF

O Trílio Negro

Capítulo 22

 

Repelido mentalmente, o feiticeiro reagiu mais com ironia do que com raiva.

— Divirta-se então com seus amigos vispis, Haramis! Mas vou chamá-la outra vez e mais outra, e vai chegar o momento em que terá de responder.

Seguro no seu refúgio no Monte Brom, com a tempestade de neve rugindo ainda lá fora, Orogastus procurava na sua biblioteca outras informações sobre a natureza dos três talismãs misteriosos.

O Livro das Profecias da Península eraa sua fonte principal, como sempre. Um tópico citava os talismãs, insinuando que seriam novamente reunidos e precipitariam então eventos miraculosos. Em outra profecia, conhecida por ele há muito tempo (e que Orogastus fizera questão de fazer chegar ao conhecimento do Rei Voltrik), as Três Pétalas do Trílio eram designadas como ”exterminadoras” do trono de Labornok, porém nada no livro insinuava uma ligação das princesas com os talismãs. Deixando de lado o livro antigo, passou a pesquisar sua grande coleção de referências místicas e taumatúrgicas.

Não encontrou nada nos vários livros de Labornok, nem nos volumes menos numerosos de Var e Raktum. A fonte mais antiga, a incunabular Cyclopedia dos Poderes das Trevas, que Orogastus trouxera da sua terra distante, Tuzamen, mencionava o assunto com extrema brevidade. Sob o título ”Talismã Triplo”, encontrou uma única frase. ”Um instrumento de grande potência, supostamente entregue à guarda dos vispis pelos Desaparecidos, em época imemorial.”

Sim! Mas o que ele fazia!

O mago continuou a pesquisa, procurando nos livros não especializados em magia. Finalmente, num pequeno livro, meio roído por lingits, um estudo sobre os nativos do principado da ilha de Engi (imaginem, Engi!), encontrou uma referência ao ”grande Cetro Triplo do Poder, que os vispis, o povo mais antigo dessa espécie, guardavam até que fosse requisitado, no tempo certo”. O reaparecimento do objeto misterioso fora ordenado pelos Desaparecidos, afirmava o livro. Exatamente o que ele devia fazer, nenhum ser humano sabia, mas abalaria as próprias bases do mundo.

”Então, temos três talismãs e três jovens procurando por eles”, pensou o feiticeiro, fechando o livro e levantando-se da mesa da biblioteca.

Com as mãos atrás das costas, foi até a janela e olhou para a tempestade. Não era uma nevada completamente fora da estação, pois as chuvas deviam chegar dentro de dez dias, portanto não podia atribuí-la à magia — especificamente, às artimanhas dos vispis, que eram amigos íntimos da Arquimaga Binah e que, segundo as lendas, sabiam controlar em parte as forças da natureza. De qualquer modo, aquela tempestade de neve enfatizava a urgência da sua procura, a necessidade de capturar e vencer as princesas, antes que as grandes tempestades de inverno o prendessem no seu refúgio das montanhas.

”Três talismãs, antes unidos na forma de um cetro e confiados aos vispis, mas evidentemente agora separados, e espalhados por toda Ruwenda. E as Três Pétalas do Trílio Vivo, as princesas, que juntando as três peças poderiam se tornar possuidoras de um imenso poder, de Três em Um...”

A indecisão atormentava a mente de Orogastus. Era evidente que estava em jogo muito mais do que a sobrevivência de Labornok e seu rei. O importante na verdade era sua grande ambição! Não seria melhor permitir que as princesas vivessem até o fim das suas missões, garantindo assim sua posse dos talismãs? Ou seu primeiro instinto era o mais certo — evitar a todo custo que elas tivessem sucesso, para que não pudessem reviver o poder e a força do Três em Um?

Mais informação! Precisava de mais informação, antes de resolver.

Orogastus caminhou até a lareira, onde o fogo desenhou reflexos de luz nos seus cabelos brancos. Com o corpo rígido, os braços abertos em cruz, recitou o encantamento com os olhos fechados. Quando os abriu, estrelas chamejantes cintilaram nas suas pupilas, mais vivas do que a luz do fogo.

Então Orogastus chamou sua Voz Verde, na Cidadela de Ruwenda, e ordenou que iniciasse uma pesquisa na grande biblioteca sobre tudo que se referisse aos talismãs, ao Trílio Vivo ou ao Cetro Tríplice dos vispis. A Voz devia contratar os auxiliares mais inteligentes que pudesse encontrar entre os labornoks.

— Mas não fale a respeito com nenhum ruwendiano — advertiu o feiticeiro —, e faça com que seus ajudantes jurem guardar segredo, sob pena de incorrerem na ira do rei.

— Obedecerei, Mestre Todo-Poderoso.

— Agora, diga-me como está o Rei Voltrik.

— Ele continua melhorando — disse Voz Verde. — A notícia de que o senhor chegou são e salvo à sua torre e localizou as princesas com seu espelho de gelo foi uma grande satisfação para ele. O rei envia suas congratulações e a aprovação real, além de votos pessoais de sucesso, e confia no seu zelo para continuar a procura das fugitivas. O Rei Voltrik pediu para ser levado à janela do seu quarto e abençoou os dois grupos de busca e naquele dia ele fez sua primeira refeição completa.

— Muito bom. Agora, informações sobre a ocupação e a pacificação.

— A Cidadela e vizinhanças estão muito quietas. Os ruwendianos não combatentes da classe média e os senhores do Knoll juraram lealdade a Labornok, embora com certa relutância. Não existe resistência organizada ao nosso governo. A maioria dos nobres sobreviventes, do reino do sul, fugiu para o pântano, mas não representa uma ameaça séria. Temos guarnições nas aldeias de Dylex que não foram queimadas, exceto nos enclaves remotos de Prok e Goyk, e recomeçaram os trabalhos da colheita e do processamento de mantimentos. Pode haver racionamento entre os locais, na estação das chuvas, mas nosso exército de ocupação será bem alimentado.

— Satisfatório. E a exportação?

— O mercado de Trevista foi reaberto. O comércio de medicamentos, especiarias, essências e tintas é atualmente um quarto do que era antes da guerra. Os mestres-mercadores esperam que melhore na próxima estação. O comércio de madeira ficará definitivamente parado até o fim das chuvas. A cidade de Tass, onde os produtos são armazenados, não foi tocada pela luta e seus artesãos entregaram-se covardemente, mas estão demorando a voltar ao trabalho. Grandes quantidades de madeira estão empilhadas nos pátios da cidade de Tass e na extremidade norte do lago, próximo à Grande Estrada. Tudo que precisamos para restabelecer o comércio é o reinício das caravanas de Labornok, o que será feito na estação da seca.

Orogastus suspirou.

— Muito bem. Estou satisfeito com você, minha Voz. Terá notícias minhas dentro de dois dias.

— Como queira, Mestre Todo-Poderoso. A imagem da Voz Verde desapareceu.

Orogastus dirigiu então sua Visão para o oeste e viu a grande frota do General Hamil subindo o rio, na direção de Trevista. O feiticeiro não se deu ao trabalho de falar com sua Voz Vermelha. Teria muito tempo para isso, quando os soldados chegassem ao Inferno de Espinhos. A essa altura teria confirmado a presença da Princesa Kadiya, por meio da sua consulta de dois em dois dias ao espelho de gelo, e elaboraria o plano para capturá-la.

Já havia recebido o relatório da Voz Azul informando que o grupo do Príncipe Antar não havia encontrado nem sinal da Princesa Anigel no primeiro dia de busca. Não foi uma grande surpresa para Orogastus. Os seus livros de referência explicavam o inusitado meio de transporte que ela estava usando — evidentemente uma inovação criada pela Arquimaga Binah. Com os poderosos rimoriks puxando o barco, Anigel provavelmente havia se distanciado muito dos inimigos, concentrados no Knoll da Cidadela. Agora, passados os dois dias de descanso do espelho de gelo, podia verificar a nova posição da princesa e talvez deduzir para onde ela se encaminhava à procura do talismã.

O feiticeiro vestiu outra vez a roupa do ritual com a máscara e voltou à Caverna do Gelo Negro para se dirigir ao maravilhoso espelho.

— Ô instrumento poderoso dos Desaparecidos, atenda ao meu pedido! — entoou ele.

O gelo azul iluminou-se lentamente — muito lentamente! — como uma vela com pavio perigosamente curto. A voz era um murmúrio áspero.

— Respondendo. Pedido... por favor.

Maldição! A luz estava trêmula. Talvez tivesse sido melhor deixar que ele descansasse mais tempo depois daquela primeira consulta, longa e cansativa. Bem, não podia fazer nada agora. Perguntaria sobre o paradeiro de Anigel e deixaria as outras duas de lado, por enquanto. Afinal, elas estavam ainda em lugares inacessíveis, ao passo que Anigel provavelmente estava ao alcance do Príncipe Antar.

— Visualize uma pessoa durante o tempo permitido pelos Poderes das Trevas — entoou Orogastus. — Indique no mapa a localização atual dessa pessoa.

— Pedido... aceito. Nome da pessoa. — A voz fantasmagórica ficou mais forte e o redemoinho dentro do espelho adquiriu um aspecto quase normal.

— Princesa Anigel, de Ruwenda — Orogastus visualizou a jovem em sua mente e esperou, ansioso.

— Procurando.

Apareceu o mapa, menos claro e menos brilhante do que da última vez, mas servia. Anigel estava no Lago Wum, perto da costa oeste do Pântano Verde, quase na metade do caminho. Evidentemente só podia estar a caminho da cidade de Tass, na extremidade do lago. Não podia ir para outro lugar. Porém, era muito estranho!

— Princesa Anigel, de Ruwenda. Localização, Sá cinqüenta e um dois, La vinte e dois quatro, no Gráfico Oma.

Então apareceu a imagem colorida, sem brilho, mas bem clara. O barco puxado pelos rimoriks movia-se a uma velocidade moderada entre o mato denso do Pântano Verde, na margem oeste do lago, onde pequenas sanguessugas das árvores, coisinhas pegajosas do tamanho de uma moeda, atormentavam a princesa e Immu, despencando da folhagem para dentro do barco.

— Se você pensa que essas sanguessugas incomodam — disse a imagem de Immu, no espelho, para a jovem enojada —, espere até chegarmos na Floresta Tassaleyo!

— Aah! — exclamou Orogastus, exultante. — Agora eu te peguei!

O espelho de gelo imediatamente o censurou.

— Péssimo controle. Use verificador de falhas para rever seu programa. Intervalo para recarregar.

O espelho ficou ofendido e a imagem desapareceu.

Mas isso não abalou a satisfação do feiticeiro. Tinha a pista básica para planejar a captura de Anigel, e sua voz ecoou de uma extremidade à outra da caverna gelada, agradecendo aos Poderes das Trevas.