O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 33 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 32

 

O Príncipe Antar jamais passara noites tão terríveis como aquelas no Grande Mutar. O sol inclemente o torturava e a seus companheiros, como togaras no forno. Tinham levado apenas sete das maiores canoas de madeira (achando que as dos wyvilos eram por demais frágeis e inseguras), excessivamente carregadas com a força reduzida de quarenta e três homens mais os suprimentos.

Os labornoks, inexperientes, quase sempre paravam para a noite, em lugares muito quentes e cheios de lama, infestados de pegajosos sugadores de sangue, insetos que picavam e parasitas listrados de amarelo que perfuravam os sacos de mantimentos. As refeições, preparadas por cozinheiros amadores, eram sempre cozidas demais ou cruas. Dois homens foram acometidos pelo fluxo de sangue depois de comer frutos venenosos. Privados dos pavilhões confortáveis e das camas dobráveis, grandes demais para serem transportados nas canoas, os cavaleiros dormiam no chão, como os soldados, cobertos apenas com seus mantos.

Finalmente, quando a força, suja e exausta, chegou ao belo povoado Let, dos wyvilos, que lhes pareceu tão convidativo quanto o Palácio Derorguila, os malditos oddlings não permitiram que desembarcassem.

Os nativos foram ao encontro dos labornoks no meio do rio e não se impressionaram nem um pouco com a promessa do príncipe de uma generosa recompensa se os acolhessem por alguns dias. O porta-voz disse que esperavam um ataque dos glismaks a qualquer momento. Os humanos deviam seguir seu caminho. Não podiam fornecer guias nem alimento.

Sir Rinutar resolveu reclamar por conta própria, ofendendo todo o povo da floresta e seu porta-voz. Ameaçou-os com a fúria taumatúrgica do poderoso Orogastus, por meio de Voz Azul, se os wyvilos não atendessem imediatamente às exigências dos labornoks.

O amigo de Rinutar, Sir Karon, não quis ficar atrás no repúdio à insolência dos nativos e, de pé na canoa, desembai-nhou a espada, desafiando o porta-voz Sasstu-Cha para um combate singular. Nessa altura, os nativos apontaram suas catapultas e bombardearam os sete barcos com pedras certeiras.

O príncipe e a maioria dos seus cavaleiros, protegidos pelas armaduras, não foram feridos (embora o infeliz Sir Pe-napat por pouco não perdeu um olho), mas os vinte e um soldados, rebaixados relutantemente a remadores, que estavam sem as armaduras por causa do calor e por precisarem de liberdade de movimentos, sofreram ferimentos e lacerações.

Sir Karon sobressaltou-se com a surpresa do ataque e, brandindo a espada vigorosamente, emborcou a canoa. Sempre sacudindo a espada, o robusto cavaleiro, com armadura, desapareceu nas profundezas do Grande Mutar e nunca mais foi visto, bem como seu companheiro, Sir Bidrik. A Voz Azul, que também estava na canoa emborcada, emergiu das águas rapidamente e nadou para o barco do príncipe, onde foi puxado para bordo por Sir Owanon. Os três soldados-remadores debatiam-se pateticamente na água, gritando por socorro, pois não sabiam nadar e o seu barco já estava longe, levado pela corrente. Finalmente, foram puxados para bordo pelos companheiros das outras canoas.

Os wyvilos assistiram ao espetáculo calmamente, com suas atiradeiras em riste.

— Vão embora — ordenou outra vez o porta-voz Sasstu-Cha. — Não lhe faremos nenhum mal se partirem agora.

O Príncipe Antar murmurou para Voz Azul.

— Não pode encantar aqueles oddlings e obrigá-los a nos obedecer?

— Não, Grande Senhor — respondeu ele, calmamente, torcendo a ponta da saia longa sobre a borda da canoa. — Os instrumentos de encantamento que eu poderia usar estão no fundo do Grande Mutar, como Lorde Karon e Lorde Bidrik.

— Muito bem — suspirou o príncipe e, voltando-se para os remadores, ordenou: — Seguir em frente!

Assim, ridiculamente vencida, a equipe de busca continuou a descer o rio até o começo da noite, quando o príncipe calculou que estavam bem distantes de Let. Ancoraram então numa baía pequena e convidativa, perto do canal principal, com areia macia, e armaram o acampamento à luz da fogueira.

Sete soldados estavam feridos demais para remar ou combater e foram dispensados de qualquer trabalho.

— Amanhã — disse o Príncipe- Antar —, vocês sete e mais dois homens com ferimentos mais leves voltarão para a cidade de Tass numa das canoas. Digam ao mestre-mercador e aos comandantes dos barcos que devem esperar a nossa volta, sob pena de morte — mesmo que não tenhamos voltado no começo da estação das chuvas.

Os cavaleiros e soldados murmuraram descontentes, mas o príncipe não lhes deu atenção. Chamou Voz Azul.

— Chame seu mestre das trevas e peça para localizar a Princesa Anigel, a fim de determinarmos nossa rota amanhã. Diga a Orogastus também para informar meu pai, o Rei Voltrik, que continuo a obedecer fielmente às suas ordens e às ordens do Grande Ministro de Estado.

Dizendo isso, o príncipe afastou-se sozinho, pela praia enluarada. Os outros homens continuaram seu trabalho, cabisbaixos, com exceção da Voz Azul, que se retirou para um bosquete de chorões wydel, na beira da praia, ajoelhou e entrou em transe.

— Mestre Todo-Poderoso, ouça-me!

— Eu, Orogastus, o escuto, minha Voz!

— Meu senhor, infelizmente nossa expedição sofreu uma inconveniência no povoado Let, dos wyvilos. Os oddlings nos apanharam de surpresa com uma chuva de mísseis, emborcando o barco no qual eu estava. Perdi todo o equipamento mágico e os cavaleiros Karon e Bildrik afundaram com o peso das armaduras e se afogaram. Sete soldados foram feridos e deverão voltar para Tass conduzidos por outros dois com ferimentos mais leves e Sir Penapat está com um olho preto do tamanho de uma fruta ladu, atingido por uma pedra. Orogastus avaliou as notícias.

— O príncipe e os outros dezessete cavaleiros estão bem?

— Sim, Grande Senhor. E doze soldados — embora quase todos se queixem de escoriações e outras coisas.

— Localizei a Princesa Anigel. Está acampada um pouco abaixo de onde vocês estão, na desembocadura de um afluente que ela pretende subir amanhã, viajando a pé, quando não puder mais usar o barco. Seu grupo levará mais ou menos cinco horas para chegar ao acampamento se soldados e cavaleiros se revezarem nos remos, sem parar. Mande o Príncipe Antar partir de madrugada e perseguir a Princesa Anigel a toda velocidade — mas cuidar para que ela não seja molestada de nenhum modo, até encontrar o talismã, que deve estar muito perto agora.

— Transmitirei suas ordens ao Príncipe Antar, mestre.

— Informe também ao príncipe a boa notícia de que o rei seu pai está quase completamente restabelecido. Além disso, o General Hamil capturou a Princesa Kadiya e muito em breve tomará seu talismã, o Olho Chamejante de Três Partes.

— Mestre... — a Voz hesitou. — Esta noite, quando aportamos, tive uma grande agitação mental. Pareceu-me que meu Irmão Vermelho, que acompanha o General Hamil, foi vítima de alguma desgraça.

— Minha Voz Azul, deve ser bravo. Seu irmão pereceu servindo-me.

— Oh, que infelicidade!

— Os Poderes das Trevas receberão suas energias vitais e elas serão glorificadas. E vocês, as duas Vozes que me restam, receberão uma recompensa terrena mais do que generosa, quando minha grande ambição estiver realizada. Porém, lembre-se da outra tarefa que ainda tem de realizar, referente ao Príncipe Antar.

— Espero apenas o momento oportuno, Mestre Todo-Poderoso. O valente Sir Rinutar, seu fiel servidor, será posto a par do plano, quando tudo estiver terminado. Sem dúvida conduzirá nosso grupo de volta, em segurança, quando tivermos o talismã.

O feiticeiro disse então, com voz decidida, abandonando o tom de simpatia.

— Minha Voz, é extremamente importante não perder O talismã de Anigel!

— Grande Senhor, eu compreendo.

— O talismã de Kadiya está praticamente garantido. O da Princesa Haramis logo será meu — talvez antes mesmo que esta noite termine! Mas esses dois só terão poder total junto com o terceiro, aquele que você deverá trazer para mim.

— Por minha vida — disse Voz Azul —, eu o depositarei aos seus pés. E, se tudo correr bem, o Príncipe Antar não verá o pôr-do-sol, amanhã.

— Estou satisfeito. Adeus, minha Voz Azul.

O servo do feiticeiro voltou para o acampamento, onde o cozinheiro-daquela-noite preparava um cozido de carne-seca e vegetais, guarnecido com banha de porco salgada, enquanto outro tentava assar pães num forno refletor sujo. O cheiro não era convidativo.

Voz Azul aproximou-se do príncipe. A preocupação de Antar desapareceu e ele perguntou, ansioso:

— Tem notícias?

— Sim, Grande Senhor. A princesa fugitiva está a umas oito horas daqui. Aproxima-se do objetivo da sua missão e talvez amanhã ou depois seja capturada.

Falou da recuperação do rei e contou que o feiticeiro estava prestes a conseguir os outros dois talismãs. Não mencionou a morte do Voz Vermelha. O príncipe ouviu, distraidamente, depois afastou-se, sem uma palavra, para compartilhar o péssimo jantar com seus homens.

Naquela noite, uma forte tempestade caiu sobre a Floresta Tassaleyo, o primeiro sinal precursor da estação das chuvas, que começaria oficialmente dentro de seis dias, depois da festa das três luas. Os homens de Labornok acordaram com os trovões e correram para os barcos, procurando se abrigar da chuva. Porém, mais uma vez foram traídos por sua falta de experiência. A praia de areia fina, antes tão convidativa, foi completamente alagada pelas águas do Grande Mutar. Praguejando e gemendo, os homens tiveram de preparar os barcos, embarcar e depois remar para uma ilhota próxima, agora também sob a água, onde amarraram as embarcações pelo resto da noite. Dormiram mal, sob os mantos molhados, enquanto a tempestade rugia, balançando os barcos e enchendo-os de água.

O Príncipe Antar estava tão encharcado e infeliz quanto qualquer ”soldado. Mas não pensava no próprio desconforto, preocupado com a Princesa Anigel, que devia estar enfrentando aquela tempestade terrível.

Amiga, disseram eles, Amiga, acorde. É a primeira luz do dia. Pediu que a chamássemos. Acorde!

Dentro da árvore oca, Anigel bocejou e espreguiçou. Estava deitada sobre pó de madeira, seco e limpo, produto do trabalho dos vermes carpinteiros que se agitavam ainda em volta e acima dela para reduzir o gigante morto da floresta a um monte de húmus. O cabelo da princesa, seu saco de dormir e as belas roupas, presente dos wyvilos, estavam cheios de pó de madeira, mas era um preço muito baixo pelo calor daquele abrigo, durante a tempestade.

Naquela noite Anigel sonhou outra vez, mas a lembrança se foi com o primeiro chamado dos rimoriks. Pedira aos animais para a acordarem cedo, certa de estar próxima do objeto que procurava. Na noite anterior, acordada por um momento pelo trovão, vira o amuleto do trílio brilhar como fogo e o pequeno botão, dentro do âmbar, quase aberto.

Passou o pente pelos cabelos para tirar o pó de madeira e tirou o jarro de miton da bolsa no cinto. A folha do Trílio Negro já não parecia tão fresca e verde, a parte superior começava a secar e a nervura estava escura. Só a base mantinha-se ainda úmida e viva. O traço dourado que a guiava desde Noth só ia até a haste curva e curta.

Temos um peixe para você, amiga. Venha ver.

Apanhando suas coisas, Anigel saiu do oco da árvore. Os dois rimoriks estavam ao lado do barco, ancorado com a metade na terra. Anigel viu o gordo peixe winju sobre o musgo. Retalhos de névoa passeavam no meio das árvores, as samambaias e a relva alta inclinavam-se ainda ao peso da água da chuva. O céu estava claro e os pássaros brancos cantavam, saudando a chegada da manhã. Anigel notou que o regato estava muito mais cheio do que na noite anterior. Isso era bom, significava que podia usar seu barco por uma distância maior.

— Obrigada, meus amigos — disse Anigel —, mas acho que vou comer só este biscoito dos wyvilos e algumas cerejas. Seria difícil para mim fazer fogo nesta terra molhada e quero continuar imediatamente a viagem.

Isso será muito bom, disse um rimorik.

O outro disse:

Sabemos que seus inimigos aproximam-se rapidamente na Água que Corre para o Mar. Nossos companheiros nos dizem que os humanos estão muito molhados e muito zangados e mais ansiosos do que nunca para capturá-la.

Anigel suspirou.

— Por alguma estranha razão, não consigo me preocupar com eles, agora. Também não tenho mais medo do Monstro de Três Cabeças! Mas acho que não tem nada a ver com bravura. Apenas estou farta desta busca e ansiosa para terminar minha missão. Quando eu tiver o talismã. bem, talvez então eu pense num meio de me salvar do inimigo e voltar para minhas irmãs.

Os animais seguraram a popa do barco com os dentes e o empurraram para a água.

Tome o miton conosco e partiremos.

Depois do ritual, Anigel subiu no barco. Começaram a subir o afluente que os wyvilos chamavam de Kovuko, o sol apareceu e o vapor ergueu-se, em nuvens, das folhagens da Floresta Tassaleyo. O ar ficou tão quente e abafado que Anigel tirou quase toda a roupa, ficando só com a camisa que usava sob a túnica de caça e o chapéu de Immu de aba larga.

Foi uma surpresa para ela a quantidade de objetos humanos que havia encontrado nas casas do povo das florestas. Os utensílios domésticos e a roupa dos modestos nyssomus de Trevista eram quase todos feitos por eles, mas as casas que ela visitou rapidamente em Let estavam cheias de objetos ruwendianos e labornoks — chaleiras de ferro e colheres de prata, belas lâmpadas a óleo e candelabros dourados, móveis caros de couro, frigideiras e garfos para tostar, tapeçarias e quadros, elegantes animais de brinquedo, tapetes, harpas e mandolins, cartas de jogar, jogos de tabuleiro e todo tipo de bibelôs e enfeites criados pelos artesãos de Dylex. O porta-voz SasstuCha e sua mulher tinham até uma meia banheira de cobre, da qual se orgulhavam muito. Anigel tomou banho nela com sabonete perfumado. A roupa limpa que estava usando era dos filhos adolescentes do porta-voz, que gostavam de acompanhar sempre a moda dos humanos.

Uma vez acostumada com os rostos feiosos e os maneirismos um tanto rudes, Anigel gostou dos wyvilos. Eram sinceros e trabalhavam arduamente durante a estação seca, travando batalhas intermináveis com seus primos mais pobres, os glismaks, durante a estação das chuvas. O porta-voz contou tristemente que os mercadores humanos haviam posto embargo em um único tipo de mercadoria. Os wyvilos jamais haviam trocado por armas os produtos da floresta.

— Tanto os ruwendianos quanto os labornoks insistem nesse embargo por interesse próprio — disse Sasstu-Cha. — Pois, se tivéssemos armamento moderno — espadas e lanças de aço, e poderosos arcos —, poderíamos derrotar os glismaks para sempre e estender nosso domínio ao longo do Grande Mutar, até a terra dos vars, e vender nossa madeira para os agentes do Rei Fiodelon com maior facilidade e proveito.

Anigel não sabia o que dizer.

— Não me parece justo negar os meios de defesa ao seu povo. Por outro lado, meu pequeno país tem jurisdição sobre a parte norte de Tassaleyo e sua economia depende da exportação de madeira dessa região. Sem dúvida deve haver possibilidade de um acordo, para que os wyvilos e ruwendianos possam viver em segurança e com prosperidade.

— Se existe essa possibilidade, só os ruwendianos podem encontrá-la.

— Porém, não governamos mais. Sabe que os labornoks nos derrotaram!

— Tem certeza? E o que me diz do talismã que procura? Não é para salvar seu país?

— O Monstro de Três Cabeças! — Anigel riu com tristeza. — Acredita mesmo que sou capaz de domar essa coisa e usá-la contra nosso inimigo?

— Não — disse o porta-voz. — Não, se a sua procura termina com o Monstro de Três Cabeças que conhecemos.

Sasstu-Cha recusou-se terminantemente a descrever o monstro que conhecia. Porém, antes de Anigel deixar Let, ele disse:

— Logo teremos a festa das três luas. Quando elas sobem lentamente no céu, pode-se ver que cada vez estão mais próximas, para a estranha conjunção que só acontece a cada mil tempos de vida. Se acontecer este ano, então certamente haverá uma grande maravilha. E pode ser para você, Pétala do Trílio Vivo...

À medida que o barco de Anigel subia o Regato Kovuko, a floresta, nas duas margens, mudava de aspecto, tornando-se mais seca, com menor quantidade de relva e mato. Havia ainda muitas árvores altas como colunas, mas havia outras também de aparência muito estranha. Eram três vezes mais altas do que um ser humano, mais herbáceas do que árvores de madeira. Na base de algumas, havia uma roseta de folhas espessas de um verde-arroxeado e em outras, desenhos diversos em verde-dourado. Do centro da roseta erguia-se um caule carnudo, com galhos curtos e folhas menores, com flores brilhantes cor-de-rosa ou magenta, e cachos de frutas com um cheiro delicioso. Na extremidade superior do tronco havia outro conjunto de folhas maiores, recurvadas para cima, formando uma espécie de cálice. A aparência das árvores era exótica mas tentadora. Pareciam taças gigantescas com pés cravejados de pedras preciosas.

Encantada, Anigel quis parar para colher alguns daqueles frutos estranhos.

— Não, amiga. Seria sua última refeição.

— São venenosos?

— São deliciosos. Mas a árvore os usa como isca para apanhar a presa.

Com um arrepio de medo, Anigel lembrou-se das palavras do porta-voz Sasstu-Cha: ”As árvores daquele lugar são tão vorazes quanto os próprios glismaks...”

— Elas me devorariam?

— Ou a nós, amiga. Ou qualquer criatura bastante tola para tocar as ofertas tentadoras que pendem dos seus galhos.

Continuaram subindo o rio, que agora estreitava-se cada vez mais, cheio de rochas. As árvores ”normais”, em forma de colunas, começavam a escassear, dando lugar às taças e a outras espécies de aparência sinistra. A terra nas duas margens ficou mais alta e entraram num desfiladeiro largo e úmido. Nenhum pássaro cantava e Anigel não viu nenhum animal. A floresta era extremamente silenciosa, a não ser pelo ruído da água caindo nas fendas e gritos distantes que pararam de repente.

Quando o sol estava quase a pino, os rimoriks levaram o barco para a parte inferior de um remanso de água clara, cheio de rochas. Há mais de uma hora estavam empurrando a embarcação lentamente, por trás, esforçando-se na água sem profundidade suficiente para nadar, enquanto as margens ficavam cada vez mais íngremes e a paisagem mais rochosa. Então, as duas criaturas mosqueadas de verde voltaram os olhos grandes para a princesa e disseram mentalmente as palavras que ela temia ouvir:

— Amiga, não podemos levá-la mais adiante.

— Sim, eu compreendo. A água acima da corredeira é rasa demais.

Lentamente Anigel vestiu os trajes de caça, presente dos jovens e amistosos wyvilos. Botas azuis, uma túnica de couro azul que ia até os joelhos e um cinto enfeitado onde ela prendeu a bolsa. A renda da camisa de baixo aparecia nos punhos e abaixo da bainha da túnica de um modo que nenhum caçador de verdade toleraria, mas Anigel não se importou, pois há muito tempo desejava sentir alguma coisa macia e limpa sobre a pele. Verificou os suprimentos e resolveu deixar a capa de chuva de Immu. Se houvesse outra tempestade, sua roupa agora era à prova d’água e não fazia mal molhar as mãos e o rosto.

Pôs a mochila nas costas, o chapéu de palha de Immu na cabeça e a adaga num lugar fácil de alcançar. Então, disse para os rimoriks:

— Meus amigos queridos, o que vão fazer agora? Sua casa fica tão longe, que não vejo como poderão voltar. E a culpa é minha. Serão capazes de viver nesta floresta?

— Não existe nenhum da nossa espécie aqui. Só parentes muito distantes. Mas não importa. Esperaremos por você aqui, com o barco, até terminar sua procura. Então voltaremos juntos para nossa terra.

Os olhos de Anigel encheram-se de lágrimas. Entrou na água para beijar as cabeças brilhantes e molhadas. Então, os três tomaram o miton.

Mais uma vez, ao longe, mas ecoando agora pelas paredes do desfiladeiro, soou o grito doloroso. Anigel fingiu não ouvir. Havia uma pequena trilha que acompanhava o rio. Com um último aceno para os amigos, Anigel entrou sozinha na floresta.