O Trílio Negro
Capítulo 21
Haramis lançou ao ar a última semente do trílio numa manhã em que as encostas do Monte Rotolo estavam envoltas numa neblina perolada. Quando ela acordou, o ar parecia estranhamente mais aquecido. As paredes da caverna onde havia passado a noite — num sono surpreendentemente profundo — cintilavam com a neve derretida. Seu manto forrado de pele, que havia enrolado no saco de dormir, estava encharcado, Pesado demais e inútil, uma vez que não tinha meios de secá-lo. Com sua pequena faca, a princesa deu um talho na parte lateral e outro no fundo do saco de dormir impermeável, fazendo
Uma espécie de capa, um pouco desajeitada, mas protetora. Depois de tomar um pouco d’água, ela soltou a última semente e saiu da caverna para segui-la sobre a neve que chegava aos seus joelhos.
A semente-guia flutuava languidamente, ajustando seu vôo aos passos lentos da princesa, mantendo-se sempre ao alcance de um braço. Além dessa distância, Haramis não via nada, tão espessa era a névoa, e ela caminhava apoiando-se pesadamente no cajado com ponta de ferro. Não deu importância à sensação de tontura provocada pelo ar rarefeito da montanha. Tudo parecia distante e nublado. Mal notava onde punha os pés, desde que não perdesse de vista a semente.
Muitas vezes ela tropeçou e caiu, encharcando mais ainda o vestido de lã, as botas e as luvas. A umidade penetrava no forro exposto na parte inferior do saco de dormir, que logo ficou pesado demais. Haramis caiu mais uma vez e deixou para trás o agasalho improvisado. O ar estava agora tão quente que não ia mais precisar dele.
A semente. A semente alada. Era tudo que ela via, a única coisa em que a mente cansada podia se concentrar. Haramis seguiu subindo cada vez mais. Às vezes a neve chegava aos seus joelhos, outras vezes estava mais rasa, mas sempre pesada e molhada, grudando nas suas botas, fazendo com que suas pernas parecessem feitas de chumbo.
Depois de três ou quatro horas de caminhada o tempo mudou ameaçadoramente. Estonteada, Haramis não notou que o tom perolado da névoa transformava-se num cinza sombrio, e que o ar começava a ficar muito mais gelado. Não sentia mais as mãos nem os pés, mas para ela isso não tinha importância, como não era importante a dor surda no estômago vazio.
Então, começou a nevar.
Haramis parou, sem compreender o que estava acontecendo. Sementes? O mundo estava repleto de sementes aladas do trílio? Qual delas era seu guia mágico? Esta...? Não.
A névoa ia se esgarçando com a neve que caía e Haramis, mais uma vez, viu os rochedos e penhascos da montanha que estava escalando. O vento agora soprava flocos de neve no seu rosto. Haramis percebeu que perdera o cajado. A semente-guia? Tinha desaparecido.
Desapareceu como todas as outras — não no fim do dia, depois de conduzi-la a um abrigo seguro, mas ali, quase na crista de uma cordilheira com picos agudos da qual o vento tinha tirado toda a neve. A última semente do Trílio Negro, levada pelo vento, e assim ela chegava ao fim da sua missão.
A neve ardia no seu rosto, enchia de lágrimas seus olhos e depois de algum tempo Haramis não sentia mais as faces nem o nariz. Uma letargia mortal a envolveu e o que ela mais desejava agora era dormir. Para que continuar a luta? Cada respiração era um golpe de espada. Seu coração batia disparado como se quisesse quebrar as costelas. Suas mãos estavam congeladas.
Vou até o topo da cordilheira, pensou ela. Só mais vinte passos. De lá vou olhar para meu reino pela última vez.
O vento tentou impedi-la. Como uma criatura enorme e maldosa, uivava e empurrava, formando quase uma parede à sua frente. Curvando-se, Haramis ergueu um pé, depois o outro, impulsionou o corpo para a frente, opondo seu peso ao vento com toda a força que ainda lhe restava.
Pai! Mãe! Eu falhei e logo estarei em sua companhia. Eu queria tanto que o sonho se tornasse realidade, que minha tarefa se realizasse miraculosamente, queria tanto acreditar que a pobre Arquimaga conhecia meu destino. Mas parece que ela não conhecia, e portanto não existe nenhuma magia, afinal. Exatamente como eu suspeitava.
Vento.
Neve. Frio.
E seu corpo movendo-se ainda, agora quase além de toda dor. Com os dentes descalçou uma luva e deixou-a cair na neve, depois levou a mão gelada ao peito, sob a túnica coberta de gelo para tocar pela última vez o amuleto do trílio e pedir pelo menos um pouco mais de forças.
Deixe-me ao menos chegar ao topo da montanha. Mais cinco passos, a ação mais árdua, mais terrível de toda sua vida. Deus, ajude aquela que confiou em Ti. mais um passo.
Chegou!
No topo da cordilheira havia um parapeito de rocha com uma fina camada de neve. Quando Haramis se ergueu, o vento amainou e a neve deixou de açoitá-la. Lá atrás, no caminho que acabava de percorrer, o ar redemoinhava ainda, cinzento e tempestuoso, mas à sua frente o céu estava azul e o panorama magnífico dos picos nevados estendia-se para oeste a perder de vista. A seus pés, a encosta da montanha descia íngreme para o abismo que parecia mergulhar no infinito da névoa.
— Aqui estou — murmurou ela, cambaleando e quase perdendo os sentidos. Mas a mão que segurava o amuleto não estava mais insensível. O calor voltava aos poucos, dolorosamente. Em vez de sucumbir ao chamado da morte, Haramis forçou seus olhos a se abrirem pela última vez.
À sua direita, a pouca distância, ergueu-se um redemoinho na neve, cintilando ao sol como poeira de diamantes.
Haramis caiu de joelhos e olhou para ele, completamente indefesa. Os flocos brilhantes rodopiaram e cresceram, transformando-se num imenso cone branco, girando sobre a ponta afilada. E dentro do redemoinho estavam os Olhos.
Olhos verdes como gelo. Dezenas deles. Olhando para ela.
— Eu procuro o Círculo de Três Asas — murmurou ela.
- Nós somos seus guardiões, viemos ao seu encontro.
— Eu os saúdo — disse a Princesa Haramis, com dignidade. Então, caiu para a frente e mergulhou numa noite profunda e misericordiosa.
Seguiu-se um tempo povoado de sonhos, durante o qual ela sofreu grande dor e depois encontrou um alívio profundo e repousante. Os Olhos do Redemoinho habitavam seus sonhos, às vezes ameaçadores, às vezes gentis, olhos de seres altos e graciosos, com roupas esvoaçantes de cores claras, enfeitados com uma profusão de jóias, que murmuravam, cuidavam dela, mandavam que fizesse isto ou aquilo. E Haramis obedecia como uma criança.
Perguntou quem eram, e responderam que eram o Primeiro Povo, guardiões do Cetro do Poder dos Desaparecidos, desde tempos imemoráveis.
Haramis perguntou se esse Cetro era o talismã que ela procurava, e eles disseram: De certo modo, é, e de outro modo, não é. Pois, na idade das trevas, o Triplo foi desmembrado e suas partes espalhadas para evitar que caísse nas mãos dos poderes do mal.
Sonhando ainda, a princesa perguntou se eles eram, na verdade, os guardiões do Círculo de Três Asas, o seu talismã.
Sim, pois essa parte do Triplo guardamos em segurança numa caverna de gelo. As outras duas partes, mandamos para longe por meio da Dama Branca, para serem guardadas por outros, até desaparecerem os poderes da Dama de Noth, quando então o Cetro precisará ser usado para restaurar o equilíbrio do mundo.
Haramis disse:
— Minhas irmãs procuram os outros dois talismãs.
O poder do mal desta era, que neste momento a acompanha, esperando que seja bem-sucedida na sua missão, também está à procura deles...
Haramis teve a impressão de que um par de Olhos mudou de cor, passando do verde gelado para o branco brilhante das estrelas. Viu então um belo homem olhando para ela e perguntou:
— Este é ele?
E eles responderam:
- Sim.
No sonho, o homem estendia a mão para ela e Haramis retribuía seu sorriso. Então ele disse:
— Eu não sou o que eles dizem. Não se deixe enganar. Esses pequeninos compreendem apenas uma parte do imenso todo. Reserve seu julgamento até me conhecer realmente.
Haramis acordou numa cama estreita com cortinados a toda volta, espantada por estar tão aquecida, até compreender que o calor vinha do colchão sob seu corpo.
O hipocausto aquece a base da cama e o assoalho, disse uma voz suave. O calor das fontes de água quente é canalizado, e assim aquecemos nossas casas.
As cortinas se abriram e Haramis viu uma mulher nativa de uma raça que ela não conhecia. O rosto era mais estreito que o dos nyssomus, e a boca e o nariz mais humanos. Os olhos enormes — verdes, e não dourados — e as orelhas que apareciam entre os cabelos platinados e fartos indicavam que pertencia à família dos nativos. Suas mãos tinham também três dedos, mas as garras eram vestigiais e pareciam unhas humanas — exceto pela espessura e pela tendência natural de terminarem em ponta.
Quando ela sorriu, Haramis notou que os dentes não eram presas, mas pequenos e regulares. A princesa lembrou-se da voz harmoniosa da mulher nos seus sonhos. Só depois de algum tempo percebeu que os lábios da vispi não se moviam quando ela falava.
Mas é claro que não se movem, disse a mulher com um sorriso. Você não compreenderia a nossa língua, por isso usamos a fala sem palavras! Meu nome é Magira, e eu a saúdo, Princesa Haramis do Trílio. Agora, saia da cama e deixe que eu a ajude a se vestir, pois já está bem melhor e nosso povo quer conhecê-la antes que continue a sua missão.
— Mas você compreende a minha língua... — A princesa estava ainda um tanto confusa, sem saber o que era sonho e o que era realidade. O que Magira acabava de dizer sobre ”continuar sua missão” a preocupava.
Quando você fala, sua mente repete seus pensamentos, princesa. Nós, os vispis, não temos dificuldade para entender o que diz.. Aprova este vestido? Acho que o achará muito confortável e o enfeite de pele negra combina com seus cabelos.
— Sim, obrigada. O vestido é lindo.
Haramis deixou que Magira vestisse nela a túnica de tecido azul-claro, que parecia veludo, mas era mais leve, enfeitada com pele negra e macia. O decote, os punhos e a bainha eram enfeitados com faixas de prata com pedras lunares incrustadas e safiras. Os sapatos eram de couro prateado, o cinto de prata com uma bolsa feita de sementes. Haramis deixou que a vispi fizesse duas tranças com seus cabelos, e as atasse com uma fita azul.
Nosso sangue vispi é quente, por isso nossa roupa é muito mais leve do que a que os humanos precisam usar aqui. Use este manto também, as luvas, e agora eu a levarei à Prefeitura de Movis, que não fica longe daqui.
Obedientemente, Haramis calçou as luvas enfeitadas com pedras preciosas e Magira pôs nos seus ombros um manto esplêndido de pele branca e negra, cobrindo sua cabeça com o capuz. Então a princesa e a vispi desceram uma escada de pedra, entre janelas estreitas de vidro, atravessaram um vestíbulo e saíram da casa.
— Então, esta é Movis!
Haramis parou na entrada da casa e olhou a cidade que ela sempre pensara ser apenas uma lenda. O ar tinha um brilho dourado. Estavam quase no fim do dia. A princesa viu centenas de casas de pedra bem construídas, muitas grandes e outros prédios, bem maiores, circundando a praça central.
Espirais de vapor erguiam-se por toda parte — não apenas dos telhados das casas, mas também das grades no pavimento de pedra das ruas e de pequenas estruturas quadradas, ao lado de cada portão e pátio externo. Todas as casas ficavam no meio de jardins bem-cuidados e árvores pequenas, mas não se via nenhum ser vivo. A iluminação era estranha, sem sombras, pois a luz do sol não chegava ao solo do vale. Todo o Vale de Movis era coberto por uma camada de nuvens claras, como um teto dourado, apoiado sobre centenas de colunas de vapor branco. As encostas mais baixas eram verdes e cortadas em terraços, as mais altas, cobertas de neve. De uma imensa geleira, a água descia em cascata como um grande manto branco.
O povo preparou uma refeição festiva e todos estão à sua espera, disse Magira.
— Isso é ótimo — disse Haramis, apressando-se para acompanhar a vispi de longas pernas, que se movia num passo fluido pelas ruas sinuosas, com seus trajes leves flutuando como flâmulas ao vento. — Estou com muita fome, talvez seja o ar daqui.
Você dormiu durante cinco dias, princesa.
— Oh! — exclamou Haramis.
Durante esse tempo, nossos enfermeiros a atenderam e curaram sua carne congelada e outros ferimentos. Sem dúvida percebeu esses cuidados durante seus sonhos.
— Sim. E sonhei com mais alguém.
Magira diminuiu o passo, voltou os olhos cor de esmeralda para a princesa e disse, preocupada:
Sabemos que o malvado falou com você. Ele pode ver sua imagem só por meio do espelho de gelo, e isso não é sempre, mas apenas com intervalos de dois ou mais dias, uma vez que seu amuleto a protege da observação mental das forças do mal...
— Mas ele pode falar comigo nos meus sonhos?
- Sabendo que está aqui, ele pode. Se você estivesse acordada, não teria ouvido, é claro.
Haramis não quis mais falar em Orogastus, cedendo a um sentimento curioso que o feiticeiro provocava em sua mente. Mudando de assunto, perguntou:
— Diga-me, seu povo é auto-suficiente, neste vale?
- Cultivamos alimentos que podem se desenvolver com pouca luz e temos animais domésticos também — togars e nunchiks, na cidade, e os maiores, volumniais e alguns froniais, fora do centro. Nós os soltamos nas pastagens durante a estação seca, e os prendemos em cavernas na estação das chuvas e da neve. Nas cavernas crescem liquens e fungos luminosos e nutritivos, e para vocês nossos animais, durante a noite, podem parecer estranhos, porque essa dieta de inverno faz com que seus chifres, dentes e cascos brilhem no escuro.
— Esses são os animais que vocês obtêm por meio de trocas?
São, pois eles se reproduzem muito lentamente nas montanhas.
Haramis ergueu a mão e as pedras preciosas na sua luva cintilaram.
— Vocês trocam apenas pedras e metais preciosos? Magira riu.
Não precisamos de mais nada, princesa, pois todos os do nosso povo procuram esses ornamentos. Antigamente, nossa rede de comércio ia desde os Ohogan até a Floresta Tassaleyo, sempre com os tímidos e pequenos uisgus como nossos intermediários. Com o advento dos humanos de Ruwenda, alteramos nossos padrões de comércio, pois os humanos agora nos fornecem mais animais e doces do que todas as raças do nosso povo podem fornecer. Assim, os vispis prosperaram.
— Mas ainda proíbem aos outros a entrada em suas terras...
Magira ergueu os ombros delicadamente.
Os vales de fontes quentes são poucos e muito distantes um do outro e nosso meio de vida tem um equilíbrio precário. Nós do Primeiro Povo fomos feitos para este clima quando ele dominava a maior parte do mundo. Com o passar dos anos, as geleiras foram diminuindo e nós diminuímos em número, embora tenhamos conservado nossa cultura. Outras raças do povo, diferentes de nós, uniram-se à abominável Raça Básica na região que é hoje chamada de Pântano Labirinto. Mas as altas montanhas são nossas, e nós as protegemos por meio de ilusões ameaçadoras, como os Olhos do Redemoinho. Uma vez que somos um povo do Trílio e obedecemos à Dama Branca, guardamos também o Passo Vispi entre Ruwenda e Labornok...
Haramis parou, olhou para Magira e disse, em tom de censura:
— Então, onde estavam quando o Rei Voltrik invadiu Ruwenda?
Infelizmente, a Dama não nos avisou em tempo da aproximação do inimigo e, quando os guardiães vispis chegaram, suas ilusões foram penetradas pelo poder do feiticeiro. Ele fez com que os soldados de Labornok ignorassem os fantasmas e atacassem as pessoas de carne e osso que os projetavam. Os invasores mataram todos os vispis guardiães das nossas aldeias mais próximas do Passo — cerca de trezentas almas.
— Eu sinto muito — disse a princesa, com sinceridade. — Eu não sabia. Na Cidadela pouco sabíamos sobre a invasão, pois os labornoks atacaram com uma rapidez fatal, dominando nosso povo antes que soubéssemos o que estava acontecendo. Até agora eu não sei o que aconteceu com nosso povo de Dylex, nem com os castelos do sul.
Chegaram a um edifício grande, com todas as janelas iluminadas com o som de música suave vindo do interior. Magira abriu as portas e a Princesa Haramis viu uma quantidade incrível de vispis, centenas deles, sentados em volta de mesas redondas ou dançando numa pista central.
Na outra extremidade do grande salão erguia-se uma plataforma onde estavam alguns vispis luxuosamente vestidos. Na parede, acima deles havia uma bandeira com um enorme Trílio Negro delineado com diamantes reluzentes. As mulheres de Movis vestiam-se como Magira, com túnicas folgadas de cores pastéis e uma profusão de jóias. Os homens usavam mantos azul-escuros sobre túnicas brancas e calçavam botas altas, também brancas. Os cintos, golas e braceletes cravejados de pedras preciosas cintilavam como arco-íris de fogo à luz dos pequenos archotes pendentes do teto alto.
Quando Magira conduziu Haramis à plataforma dos dignitários, um clamor se ergueu do povo reunido. Por um momento, a vista da princesa escureceu, sua cabeça pareceu girar e teria caído se Magira não a amparasse. Os gritos vocais e mentais! Nunca vira nada igual! Haramis sentiu-se assaltada externa e interiormente e, mesmo sabendo que os agressores eram amigos, a sensação era terrível.
— Parem! ordenou, num grito involuntário.
Consternação.
Silêncio, arrependimento evidente.
Tremendo de alívio, ela disse:
— Muito obrigada. Eu agradeço muito sua acolhida, mas acho que não estou ainda acostumada com seu modo de expressá-la.
Um vispi de aparência venerável, cujos olhos não eram verdes, como os dos outros, mas completamente brancos, levantou-se na cabeceira da mesa e dirigiu-se a Haramis. A princesa sabia que ele era cego e sabia também que podia vê-la.
Querida princesa, perdoe-nos! Não tivemos intenção de assustá-la. Fomos levados pela alegria de tê-la conosco. Eu a saúdo em nome de todos os vispis. Sou Carimpole, Ouvidor de Movis. Há muito tempo a esperamos. Sabíamos que as sementes aladas a trariam à nossa cidade. se tivesse forças suficientes para segui-las. Nós a observamos durante toda sua viagem, desde que saiu de Noth. Nós a vimos enfrentar as dificuldades e a fadiga e o desespero. Nós a vimos subir para nossa terra alta e coberta de neve, onde sua grande inteligência não podia ajudá-la e só a força de vontade e a resistência física poderiam mantê-la viva.
Então, parecia que suas forças estavam falhando e que ia desistir, como fazem as pessoas que passam muito tempo voltadas para as coisas do pensamento, desprezando o corpo que sustenta o espírito que ele- abriga. Oramos para que tivesse forças naquele momento extremo, como orou também a Dama Branca, e lhe transmitimos nossas energias talvez, fazendo com que seu corpo servisse à mente, cumprindo afinal a difícil tarefa. E então, quando atravessou nossas fronteiras, tivemos permissão para ajudá-la e dar-lhe abrigo.
Haramis ouvia o murmúrio de todas aquelas mentes, tocando-a com gentileza, desejando seu bem. Disse então, com voz quase inaudível:
— Vocês.. estavam proibidos de me ajudar, antes?
- Sim. Para a princesa, a jornada era crucial. Uma parte essencial da sua missão.
— E agora — cheguei ao fim? Vocês vão me entregar o Círculo de Três Asas?
— Amanhã começaremos a ensiná-la a comandar os grandes pássaros que vocês, os humanos, chamam de lammergeiers. Seu talismã está a algumas léguas daqui, numa caverna de gelo, no Monte Gidris. Um lammergeier a levará até a caverna. Não sei dizer se este é o fim da sua missão. O fato de ter nas mãos o Círculo de Três Asas nada significa. É preciso que ele receba a força e o poder. Não sabemos como isso é feito.
— A Arquimaga disse-me para voltar a ela com o talismã, quando eu tivesse dominado a mim mesma. Disse também que meu destino está ligado aos destinos das minhas duas irmãs, e que nós três devemos ter sucesso em nossas missões, do contrário nada conseguiremos. Então devo ajudar Kadiya e Anigel?
Haramis, do Trílio, não sabemos. Acredito que terá de decidir por si mesma.
— Eu sou a mais velha e sempre fui responsável pelas outras. Há também uma profecia entre o povo do pântano segundo a qual uma mulher de Ruwenda destruirá o poder de Labornok. Aparentemente essa mulher sou eu, pois, por direito, a coroa de Ruwenda é minha, como é minha a obrigação de libertar nosso país vencido.
O grande pássaro a levará aonde quiser ir. Mas não podemos dar mais nenhum conselho. Agora, que está curada dos seus ferimentos, só podemos comemorar sua vinda e apressar sua partida. Porém, por enquanto, quer sentar-se à mesa conosco? Passou cinco dias tomando somente líquidos. Preparamos uma refeição que certamente vai agradar seu paladar humano.
— Muito obrigada — disse Haramis —, será um prazer. O Ouvidor bateu palmas.
Então que sejam servidas as carnes e as massas, e as frutas com mel e o vinho aquecido e adoçado com especiarias! Mais música e mais dança e alegria, pois a nossa princesa está perto do término da sua missão e o mundo mais perto de recuperar o equilíbrio perdido. Louvados sejam a Dama Branca, os Senhores do Ar e o Triúne acima de tudo!
Exclamações de alegria encheram o grande salão e as portas se abriram para os empregados com travessas pesadas e terrinas com comida quente. Os músicos começaram a tocar outra vez, e todos procuraram seus lugares nas mesas.
A Princesa Haramis descalçou as luvas e abriu o manto, sentando-se graciosamente no lugar indicado pelo Ouvidor Carimpole, com Magira ao seu lado. Fechou os olhos por um momento, sentindo-se outra vez atordoada. Tinha a impressão de estar enxergando através das portas fechadas do salão. As nuvens estavam mais baixas e delas caíam pequenos flocos de neve que derretiam ao contato do ar quente acima dos telhados, transformando-se em chuva, leve a princípio, depois mais intensa, tamborilando nos vidros das janelas, como se quisesse entrar. E junto com o ruído da chuva, Haramis teve a impressão de ouvir uma voz de homem murmurando seu nome.
A princesa abriu os olhos para a luz e a alegria do salão. Agora ouvia apenas as vozes dos vispis e sua música — que soavam de modo estranho, metade nos seus ouvidos, metade em sua mente.
Apanhou um copo de cristal que lhe estendiam, cheio de vinho, bebeu e tentou sorrir.