O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 25 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 24

 

O Príncipe Antar saiu à procura da Princesa Anigel com um grupo de vinte cavaleiros e sessenta soldados, além da Voz Azul do feiticeiro, que se encarregaria de informar a posição da jovem através dos contatos com seu mestre. Os homens de Labornok partiram da Cidadela em três grandes barcaças equipadas com caiaques auxiliares. Os froniais dos cavaleiros foram deixados para trás por ordem do príncipe, o que desagradou extremamente Sir Rinutar, Sir Karon e seus homens embora nenhum deles soubesse dizer o que iam fazer com as montarias no Pântano Labirinto. Cada barcaça levava duas equipes de remadores que se revezariam na viagem sem paradas, e os grandes barcos deslizaram velozmente nas águas calmas do Baixo Mutar e do Lago Wum.

Depois da segunda consulta promissora de Orogastus ao espelho de gelo, o mestre-mercador Edzar juntou-se à expedição, uma vez que tinha experiência em tratar com os wyvilos, os nativos da Floresta Tassaleyo que forneciam madeira aos compradores, tanto quanto com os nyssomus de Trevista. Por meio da Voz Azul, o mercador conversou com o feiticeiro e imaginou um plano que, segundo ele, era infalível.

Agora a força labornok aproximava-se rapidamente da cidade de Tass, a única povoação humana importante no lago. O centro de comércio madeireiro de” Ruwenda era um pobre aglomerado de docas, armazéns e galpões, situados numa ilha, com barreiras de vigas flutuantes que formavam grandes cercados para guardar os troncos abatidos. O mestre-mercador Edzar explicou aos cavaleiros que os troncos eram transportados para os pátios dos armazéns, na outra extremidade do lago, amarrados uns aos outros, e como jangadas seguiam para o norte, na estação das chuvas, quando os ventos eram favoráveis. A madeira mais valiosa, cortada, limpa e embalada, era transportada em barcaças, em qualquer estação do ano, e do norte, seguiam pela Rota do Comércio durante o tempo da seca.

No convés de proa do barco, sob o grande toldo que os protegia do sol escaldante do lago, os homens do príncipe, sem nada para fazer, exceto beber e olhar a paisagem, estavam fartos da viagem e das explicações intermináveis do mercador, ansiosos para começar a caçada.

A primeira expedição de busca no Pântano Labirinto, perto da Cidadela, foi um fracasso. Os homens eram cavaleiros, não marujos, e não sabiam se organizar para uma caçada na água. A força de vinte canoas auxiliares, cada uma levando um comandante, três homens armados e três remadores, percorreu o Pântano às cegas, de um lado para o outro, obedecendo às ordens dos capitães inexperientes. Desentenderam-se sobre quem devia procurar nas áreas mais próximas e quem devia rumar para as mais distantes, quem faria a busca nos canais limpos, quem iria aos canais de água imunda, cheia de vermes aquáticos venenosos, insetos agressivos e os vorazes peixes milingais.

Perderam horas procurando no mesmo lugar e deixando outros inexplorados, até o comandante do barco capitâneo sugerir ao príncipe que os barcos deviam ser dirigidos pelos barqueiros e não pelos cavaleiros, com a promessa de uma boa recompensa a quem encontrasse a princesa. Foi conduzida então uma busca ordenada e eficiente, mas sem resultados. O Príncipe Antar não parecia desapontado com a falta de sucesso da expedição.

Agora que se aproximavam de uma área mais promissora, o príncipe estava cabisbaixo e irritado. Sir Rinutar, o belicoso cavaleiro, comentou com seus amigos que o príncipe não parecia muito entusiasmado com aquela missão. O fiel e sincero Sir Penapat por acaso ouviu essa observação e furioso ameaçou quebrar a cabeça de Rinutar.

A briga inoportuna foi evitada pela intervenção do próprio Antar, que restaurou a ordem com a ajuda do seu ajudante, Sir Owanon. O príncipe retirou-se então sozinho para o tombadilho de proa, onde ninguém ousou perturbá-lo e onde ficou até o barco chegar às docas.

Antar chamou o mestre-mercador Edzar e mandou que descrevesse outra vez seu plano para os cavaleiros, explicando-o detalhadamente com a ajuda do mapa, para que não houvesse nenhum contratempo. Edzar envergava ainda o curto manto verde bordado a ouro, mas sua roupa era agora púrpura, e o chapéu, com aba larga, era feito de agulhas de pinheiro artisticamente trançadas e enfeitado com grandes flores cor de cereja.

— Como podem ver, senhores — começou ele —, três grandes rios, incluindo o Baixo Mutar, alimentam o Lago Wum. Mas há uma única saída, o Grande Mutar, que atravessa a Floresta Tassaleyo, e é a única passagem naquela selva imensa. Se o poderoso Orogastus interpretou corretamente sua visão, a Princesa Anigel dirige-se para a floresta e, para chegar lá, terá de passar por aqui.

Seu dedo indicava a extremidade sul do Lago Wum, que no mapa tinha o nome de Catarata Tass.

O magro e moreno Voz Azul adiantou-se. Geralmente ele ficava na cabine do capitão, evitando a luz do sol como um verme, mas a proximidade da cidade de Tass o fez sair da toca.

— Meu digno mestre-mercador, o espelho de gelo do meu Mestre Todo-Poderoso não só vê, como ouve também. A visão não dura mais que um minuto. Contudo, na sua segunda consulta, meu mestre ouviu claramente a serva da Princesa Anigel referir-se à Floresta Tassaleyo como sua meta seguinte.

O príncipe olhou para o mapa com a testa franzida.

— Se não a alcançarmos nas cataratas, teremos de descer o Grande Mutar no seu encalço. Faltam menos de quinze dias para a estação das chuvas... e em nome de Zoto, que tipo de embarcação vamos usar então?

Edzar disse:

— Talvez possamos descer nossos barcos pelo elevador dos troncos de madeira. Contudo, os barcos dos wyvilos, muito mais rápidos do que os nossos, ficam ancorados logo abaixo da cachoeira. Normalmente, não são usados por humanos. Pelos humanos de Ruwenda, quero dizer. Mas se precisarmos seguir a princesa no Grande Mutar podemos — bem — tentar convencer os wyvilos a nos transportar rio abaixo. Sir Rinutar riu maldosamente.

— Ora, como poderão recusar ajuda a um grupo de homens tão simpáticos?

Terminou de afiar sua espada e, com um gesto de espadachim, quase a encostou no nariz grosso do mestre-mercador. Edzar engasgou-se e os cavaleiros riram.

Voz Azul disse:

— Tenho autorização para usar certo tipo de mágica com os oddlings da floresta, se relutarem em nos ajudar. Com meu método de persuasão, aliado aos métodos de Sir Rinutar, não teremos dificuldade para conseguir o transporte, se for preciso. É claro que, se o plano do mestre Edzar der resultado, capturaremos a Princesa Anigel aqui, antes da cachoeira.

Sir Owanon, amigo do Príncipe Antar e seu segundo em comando, um homem jovem, inteligente e de bom temperamento, ergueu um dedo.

— Ouçam! Esse é o ruído da cascata?

— Sim, meu senhor — respondeu o mercador. — A Catarata Tass é praticamente intransponível. Tem mais de sessenta ells de altura e um grande volume de água, mesmo na estação seca. Abaixo dela, o Grande Mutar corre tranqüilamente até o mar. Os lenhadores wyvilos não têm dificuldade em levar a madeira até a cachoeira. É engraçado ver aqueles estranhos seres não-humanos, encarapitados numa fileira de toras enormes, no meio do rio, conduzindo-as com varas rio acima e cantando seus hinos bárbaros.

— E sem dúvida imaginando o melhor meio de fazer picadinho do fígado do primeiro infeliz humano que encontrarem — disse Sir Karon, com voz arrastada.

Quase todos os cavaleiros riram sombriamente.

— Não, não, meus senhores — protestou Edzar. — Apesar da sua aparência horrível, os wyvilos são — bem — relativamente civilizados. Estão confundindo com seus primos, os glismaks, que vivem mais para o sul. Esses são os oddlings com tendências canibalescas...

— Pedras de Zoto! — exclamou alguém. — Teremos de enfrentar comedores de homens?

— Você pode ficar segurando nossos mantos Stolafat, se a idéia o deixa tão apavorado — zombou Rinutar.

— Chega dessa conversa — disse o Príncipe Antar. — Mestre Edzar, descreva outra vez aquele seu plano infalível. — Voltou-se para os homens. — Prestem atenção e parem com as brincadeiras!

Edzar desenrolou o mapa com um gesto largo fazendo sinal para que todos se aproximassem.

— Vejam. A cidade de Tass fica nesta ilha, perto da margem leste do lago. O canal a leste é completamente bloqueado pelos cercados com as toras de madeira. A oeste há menor número de cercados, pois aí erguem-se as rochas chamadas Presas de Munjuno, através das quais correm águas velozes até a borda da cachoeira. A margem oeste do lago neste ponto, é rocha pura e praticamente intransponível, ao passo que na margem leste a floresta espessa só é penetrada pela rampa que vai do grande elevador das toras, na borda da cachoeira, até a enseada que fica em frente da cidade de Tass, onde a madeira é colocada na água. Nesta rampa leste é que devemos armar nossa cilada.

Edzar apontou primeiro para o mapa, depois para a margem leste, no lado oposto ao que estavam ancorados além do grande labirinto de toras flutuantes. O príncipe e seus homens viram carroças paradas na trilha, com rochas da altura de um homem. Mas aparentemente não havia movimento de homens ou animais por perto. A praia parecia deserta

— A guerra acabou com o comércio de madeira na cidade de Tass — explicou Edzar. — Os ruwendianos que trabalhavam na serraria, logo abaixo da cachoeira, no grande elevador e na rampa ainda não voltaram ao trabalho. Lorde Zontil, um dos mais fiéis ajudantes do General Haniil, foi encarregado de estabelecer uma guarnição aqui. Ele çspera ter resolvido tudo até o fim da estação das chuvas. A essa altura, todas as toras que estão vendo na água terão sido transportadas para o extremo norte do lago. E, quando chegar a estação seca, a produção de madeira deverá estar normalizada.

— Pare de nos aborrecer com sua conversa tola, mercador! — exclamou Sir Rinutar, batendo com a mão no mapa, impaciente. — Você garante que a fugitiva só pode chegar à Floresta Tassaleyo passando por aqui — por esta rampa?

Edzar empertigou-se, ofendido.

— Garanto. Neste lado do planalto de Ruwenda há uma escarpa que não pode ser escalada. Há muito, muito tempo, os oddlings cortaram uma trilha estreita no penhasco a leste da cachoeira. O grande elevador de madeira e a serraria lá embaixo, que usa a força da água, foram construídos pelos primeiros habitantes humanos de Ruwenda, utilizando as fundações que, segundo dizem, foram feitas pelos Desaparecidos. Não existe outro caminho do Lago Wum para o Grande Rio Mutar, a não ser o elevador e a trilha. A princesa terá de tomar o caminho das carroças para chegar a qualquer um dos dois.

As três barcaças da força de busca estavam sendo amarradas à doca da cidade de Tass, que também parecia completamente deserta. Os soldados armados de Labornok montavam guarda em toda a extensão do cais, enquanto ruwendianos carrancudos seguravam os cabos e colocavam as pranchas de desembarque. Um nobre labornok, com armadura enfeitada, acompanhado por vários oficiais, esperava impaciente o fim das manobras de atracação para cumprimentar o príncipe.

Porém, Antar estava inclinado sobre o mapa, dando suas instruções.

— Então, devemos nos dispor do seguinte modo. Dividiremos nossas forças em três companhias — Owanon comandará a primeira, Dodabilik, a segunda, e Rinutar a terceira — que ficarão no cais da rampa, no meio do caminho entre o ponto em que ela é cortada pela trilha e a parte superior do elevador.

— Não vai comandar nenhuma companhia, meu príncipe? — perguntou Sir Rinutar com uma leve sugestão de malícia.

— Não — respondeu o príncipe, secamente. — Voz Azul e eu coordenaremos toda a ação de um ponto estratégico. Ele pode usar sua visão até uma certa distância. Penapat também ficará conosco, porque ainda não sarou completamente da picada do verme aquático no pé, e se encarregará dos sinaleiros e mensageiros que transmitirão minhas ordens. Precisamos ter certeza de que a Princesa Anigel não vai escapar desta vez.

Era o começo da tarde do seu terceiro dia no Lago Wum e o som da Catarata Tass ribombava no ar como um trovão distante, e a sua parte mais alta era delineada por uma névoa brilhante. Anigel e Immu tinham se aproximado cautelosamente da ilha da cidade de Tass e o barco estava agora escondido sob um chorão que se erguia numa fenda do grande precipício na margem oeste.

Em volta do esconderijo, rochas imensas erguiam-se da água. Entre elas e a ilha, a menos de duzentos ells, as cinco Presas de Munjuno, aguçadas, marcavam o ponto do começo da queda-d’água. Um barco pequeno podia navegar contra a corrente ao norte das rochas e chegar a salvo nos cercados de toras e na margem oposta, mas passar ao sul das Presas significava ser apanhado por uma corrente veloz e carregado pela catarata.

— O que devemos fazer — disse Immu, arrumando a refeição frugal na sombra verde da árvore — é esperar o cair da noite, então atravessar acima das Presas. Há uma estrada na margem com menos de meia légua. Seguindo por ela, chegaremos a uma trilha íngreme que vai dar na serraria ruwendiana, no sopé da cachoeira, e lá podemos roubar um barco.

— Mas os rimoriks..! — exclamou Anigel.

— Mas mas mas! Libertaremos as boas criaturas e elas voltarão para as águas em que vivem. Pensa que pode guardálas -para sempre, como animais de estimação?

Anigel inclinou a cabeça.

— Eu não estava pensando nada. Immu bateu de leve no ombro dela.

— Não importa. O Grande Mutar é muito raso, a não ser no canal principal. Podemos fazer uma jangada com os troncos e descer o rio, se for preciso — deixando para trás pelo menos um dos seus grandes temores. Os soldados de Labornok jamais pensarão em nos procurar na Floresta de Tassaleyo. Se tivermos sorte, os wyvilos respeitarão seu amuleto do trílio, como os uisgus respeitaram, e eles a ajudarão na sua procura do talismã.

Anigel, mastigando as raízes secas, não parecia convencida.

— Você acha mesmo? Ouvi dizer que eles são muito hostis para com os humanos e muito feios também.

— Não são o tipo de povo que você convidaria para um baile de gala na Cidadela — concordou Immu. — Os nyssomus dizem que, há muitos anos, alguns membros da nossa raça foram capturados pelos skriteks e obrigados a se unir a eles, e dessas uniões nasceram os wyvilos e seus vizinhos mais primitivos, os glismaks.

— Como são eles? — perguntou Anigel, lambendo os dedos.

— Eu nunca vi nenhum, mas dizem que são uma mistura de skriteks com nyssomus ou uisgus.

— Horríveis! — disse a princesa.

— Seja qual for seu aspecto — continuou Immu, em tom de censura —, os wyvilos são também súditos da Dama Branca e adoram o Trílio Negro, portanto podemos esperar que nos recebam bem.

— Esses glismaks são hostis aos humanos? Immu suspirou.

— Como os skriteks, aqueles demónios do Pântano Labirinto, os glismaks detestam todos os seres vivos, a não ser eles mesmos. Vamos rezar para que o seu talismã...

— Veja! — exclamou Anigel, apontando para o outro lado do lago. — Veja, Immu! Uma frota de barcos saindo de trás da ilha — e o líder traz a bandeira de Labornok!

Com a mão em pala, Immu protegeu os olhos do reflexo da luz da água. O ar estava parado e fazia muito calor.

— Tem certeza?

— Ó, sim, eu tenho. O miton aguça todos os sentidos. — Anigel recuou cheia de terror. — É um grupo de busca à minha procura e estão indo para a margem leste.

— Pela Flor! — resmungou Immu. — Cortaram nosso caminho. Se ao menos tivéssemos chegado mais cedo.

— Não podem me capturar! Não existe outro caminho para descer o rio?

Immu franziu a testa, pensando.

— Descer descer descer. Só conheço um caminho. — Mas então sua expressão mudou e, com a mão de garras afiadas no ombro da jovem, apontou com a outra para a água, perto do barco. — Mas eles devem conhecer outro.

— Os rimoriks? — perguntou Anigel, em voz baixa.

— Pergunte — disse Immu. A princesa inclinou-se na amurada. Os tirantes que os atrelavam tinham sido alongados para a viagem no lago e a água ali era profunda. Os rimoriks tinham mergulhado para fugir do calor.

— Meus amigos, quero perguntar uma coisa muito importante.

Apareceu primeiro um vulto escuro, depois o outro. As duas cabeças pintadas de verde apareceram sem provocar nenhuma agitação na superfície da água, com as presas à mostra, num arreganho que Anigel sabia agora ser um sorriso e não uma demonstração de ferocidade.

— Amiga humana, pergunte.

— Vocês sabem onde estamos agora?

— Certamente. Na borda da Grande Queda de Água Branca. Tem outra pergunta?

— Existe um caminho para descer a cachoeira? Até o Grande Mutar?

— Existe. Há um caminho da Grande Água Plana para a Água que Corre para o Mar.

— Immu! — exclamou a princesa. — Eles dizem que há um caminho!

— Pergunte se podem nos levar por ele — a voz de Immu estava tensa e rouca.

— Podem nos levar até lá, no barco?

— Se quiser.

— Há humanos malvados em outros barcos em volta da ilha, agora. Podem nos levar de modo que não nos vejam?

— Sim. Podemos. Deseja ir agora? Nesse caso, precisamos primeiro tomar o miton.

— Disseram que sim! — exclamou Anigel, cheia de alegria. — Querem saber se desejamos ir agora! Oh, é maravilhoso! O que devo dizer a eles, Immu?

A oddling piscou lentamente os olhos amarelos e enormes. Então olhou fixamente para a humana que ela amava, vendo a pele, antes delicada, com marcas de picadas de insetos e bronzeada de sol, o cabelo, antes comparado a fios de ouro, como um emaranhado de palha, os olhos azuis, antes chorosos e cheios de medo, agora cintilantes e decididos.

— Minha doce criança, é claro que deve dizer a eles para nos levarem agora.

Dizendo isso, Immu começou a guardar calmamente a comida nas duas mochilas e as amarrou no banco do barco.

Anigel tirou o jarro com miton da bolsa no seu cinto. Tomou um gole, depois deu para os rimoriks.

— Agora, estamos prontas. Sente no seu lugar, Immu. A princesa voltou para o banco da proa e segurou as rédeas, enrolando-as nas mãos calejadas para maior firmeza. Mentalmente, deu a ordem.

— Meus amigos, vamos!

Os dois animais mergulharam, nadaram para a frente dando impulso com as nadadeiras munidas de garras, e tiraram o barco longo e leve do esconderijo para o meio do lago. Fazendo uma curva longa, nadando com toda sua força prodigiosa, seguiram para o sul — direto para as Presas de Munjuno e para a borda da enorme cachoeira.

Encostado na grade de pedra, o Príncipe Antar viu seus cavaleiros e os soldados desembarcarem dos barcos e começarem a tomar suas posições ao longo da rampa. Antar, Voz Azul e Sir Penapat, este último mancando, estavam na parte mais alta da Torre de Tass, um farol com quase quinze ells de altura no lado oeste da pequena cidade da ilha.

O príncipe e o cavaleiro, só com as túnicas e os calções, por causa do calor, observavam a cena do parapeito externo do farol, mas o magro Voz Azul, com o manto e o capuz, estava sentado numa banqueta perto da grande lâmpada apagada, seguindo com sua visão a distância o movimento das tropas em terra.

— Eu não gostaria de morar aqui — disse Penapat.

— Por que não, Peni? — Antar examinava os telhados lá embaixo com poucas espirais de fumaça saindo das chaminés. Lorde Zontu dissera que a maior parte dos moradores, exceto os marinheiros das jangadas, abandonava Tass na estação das chuvas. A guerra tinha apressado o êxodo.

— Muito barulhento — disse o alto cavaleiro. — A cachoeira. Me dá dor de dente.

— Dor de dente..

— Você não sente? Um som tão profundo que não chega a ser um barulho. Atravessa as rochas, faz tremer todo o farol, meu corpo também e me dá dor de dente.

Antar começou a rir — mas parou de repente, com a impressão de ter visto alguma coisa na água. — Meu Deus! — murmurou. — Peni, quer olhar para aquele lado? Vê o que eu vejo?

— Um barquinho — confirmou Penapat, intrigado. — Não devia passar além daqueles rochedos. O mercador disse que há uma corrente muito forte naquele lugar, que carrega o barco para a cachoeira.

— Azul! — rugiu o príncipe. — Venha aqui, depressa! Voz Azul ergueu-se da banqueta com relutância evidente e Antar o arrastou até a grade do farol, apontando para o pequeno barco.

— Aquele barco! Quem está dentro dele? — perguntou Antar.

Voz Azul fez um muxôxo.

— Tirou-me do meu transe, príncipe. É uma coisa extremamente perigosa..

A mão forte de Antar apertou o braço do homem vestido de azul.

— Aquele barco, seu verme cretino! Depressa!

Os olhos do vidente desapareceram, deixando no seu lugar um abismo negro e vazio, os lábios finos tremeram.

— Meu senhor. eu. eu não posso dizer quem está dentro dele.

— Anigel! — exclamou o príncipe. — É a princesa!

O barquinho, movendo-se com rapidez espantosa, estava agora bem além das Presas. Havia dois vultos dentro dele, um bem na proa, com o corpo ereto e rígido, o outro encolhido na popa. Uma brisa leve dissipou a neblina que pairava sobre a beirada da catarata. Podia ser vista claramente do farol uma linha quase reta azul-escura, franjada de branco. Além dela só se via o céu e, ao longe, árvores indistintas.

Antar por um momento viu de relance formas escuras e grandes puxando o barco para a cachoeira. Então, a pequena embarcação pareceu pairar por um instante, com a proa quase no ar, a popa ainda na água, antes de se inclinar para a frente e desaparecer.