O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 31 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 30

 

Os rimoriks desceram o rio, empurrando o barco de Anigel por mais três dias. Às vezes o canal principal passava perto da margem e da floresta, e a princesa olhava com espanto as árvores estranhas. Algumas eram muito altas, com galhos que se erguiam para o céu como braços sinuosos de dançarinas. Outras tinham os troncos delicadamente corrugados, como centenas de anéis sobrepostos, uns fora de centro, desafiando a gravidade. Havia árvores maciças, atarracadas como tuberosas gigantescas, largas na parte inferior, pontudas no topo, com uma coroa de galhos minúsculos cobertos de folhas que não paravam de tremer. Havia bosques de magníficas árvores-gonda, muito usadas para construção, maiores do que as que cresciam no Pântano Labirinto. Seus troncos, como imensas colunas, eram mais largos do que o portão principal da Cidadela, formando arcadas verdes iluminadas pela luz inclinada dos raios de sol. Havia árvores floridas, tão carregadas de flores vermelhas e cor de laranja que pareciam estar em chamas. Havia árvores desajeitadas, com poucas folhas nos galhos nodosos e orifícios enormes nos troncos, que abrigavam colónias barulhentas de cantores-noturnos. A variedade era quase estonteante e Anigel ficou satisfeita quando a corrente os levou para longe da margem.

Era evidente que na estação das chuvas o leito do Grande Mutar, largo e quase vazio agora, ficava cheio até a borda. Quanto mais desciam, maiores eram as pilhas de lenhos flutuantes que obstruíam o canal com os galhos secos e desbotados recobertos por uma quantidade imensa de cipós. Bandos de pássaros habitavam as terras de aluvião, procurando alimen-” to nos bancos de lama e nos remansos rasos, e erguiam-se assustados, em revoada barulhenta, quando o bote passava entre eles. Ocasionalmente aparecia um animal — quadrúpedes, gordos e cinzentos, comendo plantas aquáticas nos atoleiros, pequenos carnívoros que se alimentavam de peixes, que pareciam pelriks gigantescos e que os rimoriks saudavam como camaradas, e sempre uma grande quantidade das criaturinhas inofensivas listradas de amarelo que viviam também nas ilhas do rio e que haviam despertado Anigel para a Floresta Tassaleyo, voando em enxames entre a vegetação da margem.

Mas nenhum ser humano, nenhum oddling.

Anigel interrogou seus amigos. Disseram que os wyvilos já há muitos anos viviam num grande povoado. Procuravam a segurança na comunidade, como certos pássaros e peixes, porque eram constantemente atacados por seus primos, os glismaks, que habitavam mais abaixo, nas profundezas do coração da floresta.

Antigamente, disseram os rimoriks, não tinham aldeias permanentes e viviam em pequenos grupos familiares. Evitavam os incompetentes glismaks nunca dormindo no mesmo lugar. Mas depois que os wyvilos começaram a comerciar com os humanos, acumularam muitos objetos e não podiam mais levar aquela vida nómade. Tornaram-se cada vez mais ricos e passaram a correr maior perigo, porque os glismaks agora invejavam suas posses.

Mas não voltarão ao antigo modo de vida. Isso seria pior do que a morte para eles. Nós não compreendemos esse modo de pensar.

— Mas eu compreendo — disse a princesa. — Os humanos têm uma história parecida. Existe algo no interior de certas pessoas que as incita a fazer sempre melhor, a aprender mais, lutar mais, subir mais alto. Nem todos são assim, mas essa motivação pode ser passada de pais para filhos. Não é uma coisa má. É um grande mistério o modo como a força motivadora do mundo impulsiona as coisas vivas — especialmente os seres pensantes — para uma vida cada vez mais complexa — quando o normal talvez fosse que se cansassem de tanta pressão e voltassem à simplicidade, como o fogo volta às cinzas. Os muito velhos, entre nós, se cansam. Mas sempre aparecem mais jovens para levar adiante a luta por uma vida melhor.

Então, os humanos e o povo do pântano são parentes.

Eu... acho que sim- Mas não tenho certeza. Os nativos, que vocês chamam de Povo — segundo seus entendidos, pertencem realmente a este mundo. Nós os humanos não pertencemos.

Os rimoriks riram.

— Ô, sim, vocês pertencem.

Anigel disse, com severidade:

— Não sou estudiosa, mas aprendi isso com os melhores professores. Minha irmã, Haramis, que é muito inteligente, afirma que é verdade. E não somos só nós, os ruwendianos, que acreditamos nisso, mas toda a humanidade.

— Os humanos habitavam este mundo antes do povo do pântano, do povo das montanhas, antes do povo da floresta. Só os grandes afogadores estavam aqui antes deles.

Anigel não se convenceu.

— Como sabem? Vocês são apenas animais.

Mas os rimoriks riram outra vez, encerrando a conversa. Logo depois, Anigel avistou o povoado dos wyvilos e não estava mais disposta a pensar em mistérios.

Obviamente os wyvilos sabiam da sua chegada.

Mais de trinta canoas estreitas e transparentes deixaram a margem dirigindo-se rapidamente para o barco de Anigel. Cada uma transportava duas dúzias de remadores, com um patrão de pé na popa, dirigindo orgulhosamente com gestos sua tripulação.

— Acho melhor pararmos — Anigel disse para os rimoriks, um pouco preocupada. — Pela Flor, quantos wyvilos! Será que vocês. podiam tirar as cabeças da água, assim com um ar protetor?

Como resposta, as duas cabeças apareceram e os rimoriks sorriram para ela. Depois olharam para a frota de canoas que se aproximava.

O povoado wyvilo ficava numa grande clareira que mais tarde a princesa soube ser uma ilha, circundada por canais artificialmente dragados. A costa estava repleta de pequenos cais, com mais canoas leves e brilhantes ancoradas. (Os rimoriks haviam dito que as canoas eram feitas com o material da vesícula natatória de um gigantesco peixe de rio.) As casas, todas sobre estacas, eram belas, feitas de toras descascadas, com telhados de ripas de madeira, venezianas e varandas de todos os tipos, que naquele momento estavam repletas de nativos. A maioria das casas era ligada por passarelas de aparência frágil.

Uma parte do povoado, um pouco mais abaixo, na margem do rio, evidentemente fora há pouco tempo destruída pelo fogo. As casas queimadas estavam sendo demolidas e novas estruturas erguiam-se das ruínas. Anigel notou, com estranheza, que os wyvilos não tinham árvores no povoado, apenas uma grande quantidade de moitas, de arbustos e canteiros rasos, e nos tetos cobertos de musgo cresciam flores.

A primeira canoa dos wyvilos parou de repente a cerca de dez ells do barco parado de Anigel. As outras fizeram o mesmo, formando uma linha sólida de embarcações repletas de oddlings curiosos, muito diferentes de todos que a princesa conhecia.

Eram mais altos do que os nyssomus e os uisgus dos pântanos do norte, quase do tamanho de robustos adultos humanos. Tinham a cabeça alongada, não redonda, e o nariz parecia um pequeno focinho. Os olhos eram mais parecidos com os dos outros nativos, grandes e amarelos, mas tinham pupilas verticais — como Anigel sabia que os skriteks também tinham. As bocas abertas dos wyvilos espantados mostravam os dentes fortes. Uma parte do corpo era coberta de pêlo, a outra de placas de pele que pareciam escamas brilhantes. O povo das florestas usava tangas pintadas com cores vivas e uma quantidade de colares, braceletes, peitilhos, tornozeleiras e outras jóias — algumas de ouro ou platina com pedras preciosas. Capim de haste azulada trançado parecia ser tão apreciado como ornamento quanto os metais preciosos, e Anigel viu um nativo segurando a couraça enfeitada de aço dos cavaleiros ruwendianos e outro com um xale feminino franjado sobre os ombros fortes.

Enquanto eles se aproximavam, Anigel havia calmamente penteado os cabelos e posto nos ombros a capa de couro de Immu, para esconder a roupa rasgada. Agora, ficou de pé cautelosamente no meio do barco, com um rimorik de cada lado, na água, e ergueu as duas mãos. A capa se abriu, mostrando o amuleto com o trílio cintilante.

A multidão nas canoas soltou um brado abafado. Os dedos com garras apontavam e os que estavam mais atrás esticavam os pescoços para ver melhor, murmurando e resmungando na sua língua gutural.

— Eu vim como amiga — disse Anigel —, procuro o talismã mágico chamado o Monstro de Três Cabeças.

De repente, o povo da floresta ficou silencioso. Mais uma vez as bocas se abriram e os olhos se arregalaram. Anigel esperou, depois disse:

— Alguém entre vocês pode falar comigo?

Um dos timoneiros mais enfeitados fez um gesto brusco. Seu barco saiu da fileira e aproximou-se do barco da princesa.

— Este aqui fala — declamou ele, na língua da Península. Sua voz era áspera, quase ininteligível, e ele franziu a testa ferozmente. Usava um colar de ouro batido com pedras preciosas de várias cores, um belo chapéu ruwendiano de brocado, cor creme, com um broche de brilhantes e enormes plumas vermelhas. — Este é Sasstu-Cha, porta-voz de Let — rosnou ele. — Quem é você? E por que procura o favor dos wyvilos?

— Sou a Princesa Anigel, de Ruwenda. Devem saber que meu país foi tomado por inimigos humanos do norte. — Ergueu o amuleto com o trílio e continuou: — A Guardiã da nossa terra, a Dama Branca, ordenou que eu procurasse o talismã que libertará meu povo dos grilhões dos conquistadores. Ouviram falar desse Monstro de Três Cabeças?

O porta-voz hesitou.

— Sabemos de algo parecido. Mas não é nenhum talismã. Fica mais abaixo, a um dia e meio de viagem, depois mais algumas horas subindo o Afluente Kovuko — na terra dos glismaks.

A princesa deixou escapar uma exclamação abafada que provocou o sorriso do vvyvilo.

— Pode me ceder um guia para me levar até lá? — ela perguntou.

— Não.

Anigel brandiu o amuleto.

— Eu ordeno! Pela Flor!

Os wyvilos soltaram um grito lamentoso.

Desesperada, ela tirou a folha do Trílio Negro da bolsa e a levantou no ar. Eles gritaram mais alto ainda e, dessa vez, cheios de medo.

— Mas preciso chegar lá! Ajudem-me — implorou Anigel.

— Se for a Kovuko, sem dúvida morrerá — disse SasstuCha. — As árvores naquele lugar são tão vorazes quanto os próprios glismaks. Ninguém do nosso povo a levará. Mesmo que não fosse um lugar proibido pelo Deus do Céu, não poderíamos ir. Quatro sóis atrás, os glismaks atacaram Let e queimaram nossas casas. Sempre fazem isso no fim da estação da seca, porque sabem que estamos mais ricos, devido ao comércio com os humanos. Logo eles voltarão para outro ataque. Todos os wyvilos devem ficar para defender nossa terra. Nem mesmo o Sagrado Trílio Negro nos desviará deste dever.

Anigel empertigou o corpo e respirou fundo.

— Muito bem. Então irei com meus amigos rimoriks. Podem ao menos nos indicar o caminho com detalhes, para que eu encontre Kovuko o mais depressa possível?

— Sim, com prazer. E também comida, roupa limpa dos humanos, se quiser.

— Ficaria muito agradecida. Devo pedir outro favor também. Outros humanos, meus inimigos, estão me seguindo. Peço que não lhes digam para onde eu fui.

— Não diremos — garantiu Sasstu-Cha. Fez um gesto largo para seus remadores. — Agora, este pede que nos sigam, Princesa Anigel de Ruwenda. Aceite por esta noite a humilde hospitalidade de Let, depois siga seu caminho. E, se encontrar seu talismã libertador, pense não apenas na sua terra em perigo, mas um pouco na nossa também.