O Trílio Negro
Capítulo 35
Hamil aproximou-se de Kadiya com passos largos, flanqueado por dois soldados que carregavam tochas. Agarrou-a pelos cabelos, obrigando-a a ficar de joelhos.
Kadiya via o riso dele e ouvia os dos outros homens.
— Agora você está fazendo a coisa certa, filha de Krain, humilhando-se — de joelhos. O que aconteceu por aqui?
Hamil olhou em volta — para a espada enfiada no solo e para a pilha de restos queimados. Uma das mãos da Voz Vermelha, chamuscada e esquelética, parecia apontar para o objeto poderoso que seu dono havia ambicionado possuir.
Depois de um longo momento de silêncio, Hamil riu outra vez, porém, menos confiante. Os homens armados, atrás dele, evitavam chegar perto do talismã.
— Então, parece que a Voz disse a verdade, mas não acreditou nela! Foi isso que aconteceu, sua ordinária? — O general sacudiu Kadiya pelos cabelos. — Ele tentou tomar o talismã que só pode pertencer a você e a espada o matou.
Largou os cabelos da princesa e passou um dedo no lábio inferior. Kadiya ouvira o suficiente sobre o general para saber que, com toda a sua brutalidade, era um homem mais esperto e mais inteligente do que parecia.
Alguns homens abriram caminho para outro oficial, um homem enorme. Seu manto rasgado era tão ornado quanto o de Hamil, mas estava sem o elmo, tinha uma atadura suja na cabeça e a barba crescida.
— O que há agora, meu general? — O tom áspero indicava que podiam ser companheiros na luta, mas não eram amigos.
Antes que Hamil pudesse responder, alguém, no meio dos homens gritou: ”Amarrem a bruxa na espada e joguem no pântano!”
Um murmúrio de aprovação ergueu-se entre os soldados. Outro sugeriu: ”Entreguem a bruxa aos skriteks!”
A aprovação foi mais unânime ainda. Os homens tinham se afastado de Kadiya, e a borda do círculo que formavam escondia-se nas sombras, onde a luz das tochas não chegava. Era como se aos poucos compreendessem melhor a importância do que tinha acontecido à Voz Vermelha.
Hamil voltou-se para os homens com uma expressão furiosa, que todos deviam conhecer muito bem, pois fez-se silêncio imediatamente, como se tivessem fechado uma porta. Então, ele se dirigiu ao oficial ferido:
— O que há, Osorkon? Ora, nós obedecemos ordens.
Sempre obedecemos ordens! Viemos até aqui para encontrar isto. — Agarrou outra vez os cabelos de Kadiya e a sacudiu de um lado para o outro. — Muito bem, nós encontramos. Temos outra coisa, também. — Apontou para o talismã. — Se o Rei Voltrik recompensa generosamente quem lhe entregar uma dessas bruxas, o que acha que ele dará a quem levar também o tesouro que nosso Grande Ministro de Estado tanto deseja possuir?
— Um tesouro — Osorkon acentuou enfaticamente a palavra — que já eliminou um dos que sabem muito mais sobre seus perigos do que qualquer um de nós.
— Sim — Hamil passou a língua nos lábios grossos. Ergueu Kadiya pelos cabelos e, abaixando um pouco a cabeça, fitou os olhos dela. — Acho que agora vai ser mais sincera. Sabemos como lidar com aqueles que são cheios de coragem e zelo, a ponto de fazer com que cedam à nossa vontade, mesmo que isso signifique matar uma pessoa que amam. — Estalou os dedos e o círculo se abriu outra vez, dando passagem a um skritek.
Pellan! — chamou Hamil, com voz autoritária.
Um homem esquelético adiantou-se das últimas fileiras de espectadores. Kadiya, que estivera muitas vezes com o mercador, nos seus dias de vida honrada e próspera entre seus companheiros, a princípio não o reconheceu. Foi um farrapo humano que caiu de joelhos e ergueu para o general os olhos mortos.
Hamil inclinou-se e examinou atentamente o talismã. Depois fez um gesto afirmativo, como se acabasse de ouvir o que queria saber.
— Ainda está lá.
Apesar da transformação da espada, o laço de corda mosqueada feito por Voz Vermelha ainda estava preso perto do punho do talismã.
— Pellan, mande esse selvagem estúpido apanhar a espada e colocá-la nas costas da mulher, usando somente a corda.
O homem engoliu em seco, depois deu a ordem na língua gutural dos skriteks. O monstro olhou para ele, para a espada, depois para Hamil. As mandíbulas se abriram, mostrando as presas, e a criatura respondeu na sua linguagem murmurante.
O rosto de Pellan empalideceu mais ainda, sob a poeira e a lama. Kadiya viu que ele apertava, uma contra a outra, as mãos trêmulas.
— E então? — perguntou Hamil, depois de um longo silêncio.
— Lorde General, ele diz que não toca naquilo — o guia indicou a espada com um aceno da cabeça. — Diz que é dos Desaparecidos e guarda todo o seu poder.
— O que tem isso? — A expressão de Hamil não mudou. Segurou a ponta da corda de pele e levantou a espada do chão. Depois, virou o corpo lentamente, para que todos os homens pudessem ver o que estava fazendo.
— Os Desaparecidos — observou ele. — Temos ouvido muitas coisas sobre esses Desaparecidos desde que entramos neste pântano. Vejam, vejam todos! O homem que usa o emblema de Labornok não precisa ter medo de lendas!
Osorkon tossiu.
— O que me diz dele? — apontou para os restos incinerados no chão. — Ao que parece, algumas lendas contêm advertências verdadeiras.
Hamil nem piscou, mas Kadiya teve certeza de que o general não morria de amores por seu subordinado imediato. Percebeu também que os soldados começaram a se aproximar, o que significava que o gesto do general havia eliminado em parte o terror que sentiam.
— Aquele — disse Hamil, com um gesto para as cinzas — era um homem que manejava brinquedos mágicos. Talvez os do seu mestre sejam seguros, mas esta coisa tem outra origem. Um homem que maneja certas armas sem se ferir fica descuidado. Acho que a Voz confiou muito nele mesmo.
O general estava outra vez ao lado de Kadiya. Pôs a pata pesada no ombro da princesa e a fez girar, quase derrubando-a. Mas Kadiya conseguiu manter-se de pé e sentiu que o talismã estava sendo amarrado outra vez nas suas costas.
Hamil voltou-se e chamou um homem que estava ao lado do que segurava a tocha. Erguendo a mão, apontou para o skritek que havia desobedecido suas ordens.
— Desse não precisamos mais — disse o general.
O skritek agachou-se, com um rugido. Na mão escamosa apareceu um machado com lâmina dupla. O grito de desafio da criatura foi respondido por vários outros.
O soldado saltou para a frente com a espada erguida e pronta. Ao que parecia não era a primeira vez que um labornok enfrentava um dos seus horríveis aliados.
A machadinha saiu da mão do skritek com tamanha força e velocidade que parecia uma névoa na luz incerta das tochas. Mas o soldado já avançava agachado, não ao encontro da arma, mas em posição de combate. Sua espada cintilou no ar e o sangue escuro jorrou. O skritek inclinou a cabeça para trás com um grito medonho e com a perna esquerda quase separada do corpo. Estendeu as mãos com as garras afiadas e uma delas, mais por acaso do que intencionalmente, agarrou o ombro protegido pela armadura do soldado e o derrubou. Antes mesmo de ouvirem o grito do companheiro, os soldados desembainharam as espadas e os outros skriteks apareceram em bando, prontos para a luta.
Soldados labornoks e skriteks lutavam e morriam em volta da fogueira. Um dos homens livrou Hamil das garras de um monstro, enfiando a tocha na boca semi-aberta da criatura.
A luta foi feroz enquanto durou, o que não foi por muito tempo porque os skriteks logo desapareceram na noite, deixando três de sua raça mortos e dois ainda vivos. Quatro soldados estavam imóveis no chão e vários outros feridos.
Logo no começo da desordem, Osorkon agarrou Kadiya e a levou para perto da barraca de Hamil, que estava despencada em um dos lados porque a corda fora cortada. Osorkon não entrou na luta, ficando apenas como observador. Quando tudo terminou, olhou para Hamil, com expressão sombria. Esperou que o general se aproximasse, limpando o sangue da espada com um punhado de folhas, para que Kadiya pudesse ouvir o que ia dizer.
— Nossos aliados parecem pensar diferente de nós no que se refere a servir — observou Osorkon, secamente. — Aquele verme de carga, traiçoeiro — com um gesto da cabeça, indicou Pellan, que estava encolhido num canto do que restava da tenda —, há dois dias chegou ao último lugar do rio que ele conhece. Desde então temos sido guiados pelos monstros. — Indicou o lugar em que as uisgus estavam amarradas. — O pântano ferve à nossa volta, há dois dias não temos notícias dos nossos batedores. Acho que devemos voltar, agora que atingimos nosso objetivo e você tem a jovem e o que ela encontrou.
Hamil franziu a testa.
— Pode haver outros tesouros ainda.
— E se os oddlings se revoltarem? Aprisionamos uisgus e o modo com que os temos tratado dá para revoltar o estômago de qualquer um. Agora, antagonizamos os skriteks. Se tivermos de depender de guias que têm toda a razão para nos odiar, somos uns idiotas.
— Oddlings — demónios escorregadios! Algum deles já demonstrou disposição para pegar em armas? Não! São covardes miseráveis, fracos como togares de quintal. Os uisgus se revoltarem...? Impossível. Não podem e não querem lutar. Não é verdade, verme? — Hamil cutucou Pellan com a ponta da bota. — Você não está sempre dizendo que esses miseráveis dos pântanos são covardes?
Pellan ergueu a cabeça e o braço esquelético, como para aparar um golpe.
— Sempre foi assim, Lorde General. Os skriteks podem lutar, mas só quando os demónios do Pântano Labirinto os atacam. Entre eles não há hostilidade, e jamais ergueram armas contra os humanos que entram no pântano. Ouvi dizer que fizeram um juramento, há muito tempo, que os proíbe de guerrear, e eles o cumprem à risca.
Hamil bufou com desprezo.
— Esta jovem atravessou o Inferno de Espinhos, sem dúvida, com a ajuda dos uisgus, do contrário não teria conseguido chegar até aqui. Com ela e mais aquelas — apontou as prisioneiras — em nosso poder, os uisgus não vão nos impedir de continuar.
Na manhã seguinte levantaram acampamento e seguiram uma trilha, subindo o rio. O General Hamil não falou mais com Kadiya, embora a mantivesse ao seu lado enquanto ouvia os relatórios dos batedores. Assim ela ficou sabendo que aquele grupo de labornoks não viajava sozinho. Alguma coisa — ou alguém — os acompanhava, embora os homens não tivessem tido oportunidade de ver o que era. Estariam sendo seguidos pelos povos do pântano, finalmente em pé de guerra e resolvidos a vingar seus companheiros? Será que podia esperar tanto?, pensou Kadiya.
Saindo da letargia gelada, a princesa ouviu um homem muito picado de mosquitos e sujo de lama dizer:
— Era Gam. Eu juraria pelo Escudo de Zoto. Só sua cabeça com os dentes arreganhados, enfiada numa estaca ao lado de uma moita. Nenhum sinal dos monstros. Só algumas pegadas muito imprecisas na lama — e isto.
Mostrou um dardo que tinha na mão — mais longo do que os que eram usados pelos nyssomus. Porém, a haste era pintada com duas linhas estreitas, uma azul, a outra amarela, e essa marca Kadiya vira antes: Jagun! Ou, pelo menos, sua marca de caçador.
— Gam — repetiu Hamil, passando os dedos sujos de lama seca na barba crescida do queixo. — Eu o vi matar aqueles piratas Westlinger -— dois com um só golpe. Bem, estou certo de que ele não se entregou facilmente. Foi obra dos skriteks?
— O dardo não é skritek — disse Osorkon, tirando-o da mão do soldado. — Eles não sabem fazer um trabalho tão perfeito.
— O que a nossa senhora princesa tem a dizer? — perguntou Hamil. Os carregadores a tinham posto no chão. — Tem mais alguns amigos esperando para se meterem nos nossos negócios? — Ergueu a mão para esbofeteá-la.
Kadiya respondeu com uma parte da verdade:
— Eu... nunca vi nada parecido... antes.
Osorkon não deu tempo ao general de forçá-la a responder de outra forma.
— Ela pode servir de isca, se eles tiverem outras armas. Não perca tempo maltratando-a. Vamos para terra mais firme, se estamos ameaçados de um ataque. Não podemos nos defender nem atacar enfiados nesta maldita lama dos demónios.
Um rugido selvagem soou na frente deles. Hamil empunhou a espada imediatamente e seus homens reuniram-se em posição de combate.
— Skriteks — gritou o batedor. — E pelo barulho devem estar perseguindo algum infeliz!
— Para a frente! — ordenou Hamil. — Cerrar fileiras! Temos terra alta adiante e precisamos de solo firme e seco.
Mais uma vez ouviram o grito dos skriteks. Os ouvidos de Kadiya zumbiam e ela estava quase inconsciente, sacudida pelos carregadores apressados. Não sentia mais os braços por causa da pressão das cordas. Mesmo que estivesse livre, com o talismã na mão, não tinha certeza de poder usá-lo. Entretanto, sob a dor, a impotência — e sim, sob o medo, fervia ainda dentro dela a fúria antiga. Devia haver algum meio de se livrar! Se ao menos aquela paralisia mágica passasse.
Os homens correram, guiando-se pelos avisos dos batedores. A terra agora era seca e aberta, com pouca vegetação baixa, mas ao mesmo tempo parecia a região cheia de perigos que Kadiya atravessara com Jagun. Aqui e ali havia trançados de cipós grossos e cinzentos, com folhas que pareciam pouco mais do que botões murchos, rodeados por nuvens de insetos. Quando amassados pelos pés dos homens, exalavam um cheiro pútrido.
Então, chegaram a uma casa.
Não era de pedra — mas feita com o mesmo material liso da concavidade onde ela e Jagun haviam passado uma noite, e igual ao lugar onde havia encontrado seu talismã. Numa das paredes havia uma porta ladeada por duas estátuas, iguais às das sentinelas no Caminho Proibido. Cada sindona empunhava uma espada. Kadiya piscou os olhos ardentes. As espadas — sem ponta, como a que ela levava nas costas — estavam cruzadas, proibindo a passagem.
Hamil parou. Havia avidez em sua voz, quando exclamou:
— Por Zoto — exatamente o que eu esperava encontrar! Uma fortaleza dos Desconhecidos, provavelmente cheia de tesouros! Capitão Loskar, vá até lá e dê um empurrãozinho naquelas espadas. — Com a cabeça, indicou as estátuas. — Os outros, fiquem prontos com suas flechas!
A obediência imediata das suas ordens dava a medida do poder que exercia sobre seus soldados. Um jovem oficial ergueu a espada e tocou o lugar onde as espadas sem ponta das sentinelas se cruzavam. O metal ricocheteou com um ruído estridente, a espada de Loskar voou da sua mão e com um grito de dor ele segurou o braço e caiu de joelhos.
— Flechas — dentro — ordenou Hamil
O zumbido das flechas de guerra dos labornoks, feitas para aterrorizar e para matar, cortou o ar. Penetraram na abertura, atrás das duas sentinelas. Não podiam ver o que havia no interior escuro. O ataque ordenado por Hamil não foi revidado. Ele gritou para os homens que carregavam Kadiya:
— Wunit! Vor! Empurrem a mulher e a façam passar sob as espadas das estátuas!
Os soldados a atiraram com força, com estacas e tudo. As sentinelas continuaram imóveis e Wunit e uns dez homens entraram atrás de Kadiya.
— Não tem perigo, meu general! — gritou Wunit. — Precisamos de tochas!
As tochas foram acesas e passadas para os homens. No interior viram apenas uma porta no fim de um corredor estreito, com um grande trílio gravado acima do batente.
— Esperem, eu vou entrar — disse Hamil. Apanhou uma tocha, curvou-se e entrou.
Imediatamente todas as tochas dos labornoks se apagaram. Ouviram-se gritos dos homens, sons de corpos se chocando e, depois, silêncio.
Kadiya estava de bruços, sem poder se mexer. A luz do dia não penetrava naquele lugar. A sombra da porta externa parecia uma cortina, embora ela não tivesse notado nenhuma quando foi atirada para dentro. Estranhamente, a paralisia que a imobilizava há tanto tempo estava diminuindo. Kadiya debateu-se como um peixe fora d’água, tentando ficar de pé. A escuridão que a rodeava era densa e completa, mas ela sentia diminuir também o medo que a acompanhava desde a sua captura.
A princesa continuou a se debater. De repente, seus braços estavam livres, ao lado do corpo. Tirou então as cordas das pernas. O chão sob seus pés não tinha pó nem qualquer sujeira do mundo exterior. Era escorregadio e inclinado num ângulo crescente. Kadiya começou a escorregar, usando os braços para se manter de pé. Caía cada vez mais depressa, e então bateu numa barreira invisível, sempre segurando o talismã, e continuou a escorregar em outra direção, para bater outra vez. Quase inconsciente, ela não largou a espada mágica. até bater na última barreira, voar no ar e cair desmaiada numa superfície plana.
A ponta de uma bota no lado do seu corpo a acordou.
Kadiya piscou os olhos, uma, duas vezes. Não estava mais no escuro, mas numa sala grande, e não pôde ver de onde vinha a iluminação, muito fraca.
— Ela é resistente, general.
Três homens formavam um triângulo em volta dela. Um era Hamil, os outros dois, Wunit e Vor. O resto dos soldados estava parado, carrancudo, atrás deles. Kadiya viu que os labornoks estavam contundidos e que procuravam não demonstrar o medo que sentiam.
A princesa ergueu a cabeça. Seus braços haviam recuperado a força, mas tinha dificuldade para alcançar o punho do talismã amarrado nas suas costas.
— Acha que ela conhece o caminho para sair daqui, senhor? — perguntou Vor.
— Pode ser — respondeu Hamil. — De qualquer modo, podemos usá-la para descobrir outras malditas armadilhas, enquanto examinamos este lugar. Faça-a andar.
Ninguém tocou em Kadiya. Ela conseguiu apanhar o talismã e levantou-se devagar, com a cabeça dolorida de tantas pancadas. Ainda atordoada, imaginou por que estava ainda com a espada e então lembrou-se de que tinham bons motivos para não querer tocar na arma mágica.
A luz cinzenta iluminou um pátio interno. Viram uma fonte cheia de água. No outro lado havia uma escada e Kadiya dirigiu-se para ela e olhou para cima. Não conseguiu ver nada, só escuridão.
Em cada degrau via-se uma pegada vermelha e brilhante.
Sem hesitar, Hamil ordenou:
— Para a frente!
Pôs o pé sobre a primeira pegada e começou a tremer violentamente, como se estivesse com a febre dos pântanos. Pálido, cambaleou para trás, desembainhou a espada e a brandiu na frente de Kadiya.
— Magia! — exclamou Hamil com voz rouca. — Deixem que ela vá na frente.
Empurrou Kadiya e o pé da princesa pousou sobre a pegada do segundo degrau.
Pelo trílio, ela ía gritar! Foi como se uma chama percorresse seu corpo. Então o talismã aqueceu-se também, mas Kadiya não conseguiu largá-lo. Ouviu o grito de espanto de Hamil. Kadiya estava no quinto degrau, fora do alcance dele, e a pegada cintilante no degrau seguinte desapareceu de repente. Seu pé pousou num círculo de prata com um Trílio Negro no centro. Hamil não esperava o movimento rápido que se seguiu. A princesa estava livre, completamente recuperada das escoriações e do encantamento, e cada degrau à sua frente tinha o mesmo símbolo amigo. À medida que subia, ganhava novas forças.
A fúria ferveu dentro dela. Podia Voltar-se e matar todos eles! Não. Seria uma tolice. Homens armados a observavam, alguns com os arcos retesados. Sua única arma era o talismã que ela não sabia ainda como devia ser usado.
Finalmente chegou a uma grande sala no fim da escada. Todas as paredes eram cruzadas e recruzadas por redes de luzes vermelhas. No centro havia um blocco do estranho material pálido do qual era feita a casa, com apenas um ponto de cor. Uma planta alta, feita de metal precioso, erguia-se no centro da sala, como se estivesse num jardim. Uma planta de trílio. A haste terminava num único botão grande e fechado.
Hamil, que a seguia, desconfiado, na frente dos seus homens, adiantou-se para olhar a planta, com a mão no punho da espada. Podia estar no coração do território inimigo, longe do seu exército, mas nada em sua atitude Sugeria que não acreditasse inteiramente em si mesmo e no seu poder. Olhou furioso para Kadiya, que estava de pé à sua frente, desafiadora, segurando o talismã.
— Não vamos passar daqui — disse ela) com voz calma. O general olhou para trás. Não disse uma palavra, mas Wunit e Vor colocaram-se cada um de um lado dele, com as espadas na mão.
— Ouvi dizer — disse Hamil em Voz baixa e cheia de ódio — que sangue é poder. Este é certamente um lugar de poder. Levem a mulher para o altar! ordenou.
Com as pontas das espadas eles a obrigaram a encostar na pedra sobre a qual se erguia a flor.
— Eu — disse Hamil em voz alta e sonora — sou um homem de sangue. Aprendi a pagar com sangue o que eu desejo possuir. Quando você morrer, Princesa, não mais estará ligada ao talismã mágico. Orogastus não tem mais poder aqui. Eu tenho! E pretendo decepar sua mão que segura a espada, e, quando todo o seu sangue se esvair o talismã será meu.
Ergueu a espada. A Flor gigantesca pairava sobre Kadiya, e a princesa teve a impressão de vê-la estremecer e explodir, desabrochando. Seria uma flor ou outra coisa como a sentinela? Kadiya não tinha certeza, pois uma luz verde cegante envolveu o trílio.
A lâmina sem ponta do seu talismã chamejou com uma luz verde viva, unindo sua força à da flor.
A luz pulsava em volta dela e Kadiya teve certeza de que alguma coisa tinha mudado no altar. Pois Wunit, Vor e os soldados fugiram correndo escada abaixo, pálidos e amedrontados.
Hamil estava cinzento de raiva. Avançou para ela. Sem que Kadiya soubesse como, o talismã se moveu, aparando o ataque da espada do general. O tempo parecia se mover em ritmo diferente — primeiro, rápido como um furacão, depois como se ambos estivessem amarrados a pesos enormes. Cada vez que ele atacava, Kadiya defendia-se. Hamil era três vezes maior do que ela, mas não conseguia vencê-la, nem passar pela guarda do talismã.
Ele lançou a cabeça para trás, com um uivo selvagem. Então, para espanto de Kadiya, deu meia-volta e desceu correndo a escada.
A princesa apoiou-se no altar. Acima dela, a enorme flor do Trílio Negro estava completamente aberta na haste prateada. Kadiya não ousou erguer os olhos. Levantou o talismã e os três olhos se abriram, de frente para outros três, maiores, no centro da flor do altar.
Então, foi como se uma janela se abrisse para a luz do dia. Os olhos chamejaram, e pareciam penetrar no mais recôndito da sua alma.
Ela, Kadiya, não era mais importante. Não existia mais Kadiya de Ruwenda.. apenas a Dama dos Olhos.
Então, toda a glória desapareceu. A coluna de luz no altar apagou-se. Não havia mais nenhum Trílio Negro. A sala estava vazia, a não ser por ela e seu talismã, agora sem brilho.
Kadiya voltou-se e caminhou para a escada. As cores das paredes empalideciam, voltando a um cinza opaco. Desceu, viu uma porta aberta e ouviu os gritos dos homens e o clamor das armas lá fora. Sentindo-se renovada, em espírito e no corpo, Kadiya saiu para uma batalha renhida.
Os labornoks caíam atingidos por dardos envenenados em todas as partes expostas dos seus corpos. Então, das moitas surgiram centenas de uisgus, manejando agilmente seus arcos, movendo-se num misto de saltos e dança. Havia skriteks também lutando contra os oddlings. Hamil, com o manto rasgado, lutava contra as lanças de três pequeninos uisgus. O general brandiu a espada horizontalmente para cortar ao meio os oddlings, mas Kadiya saltou para a frente dele, enfrentando-o. Mais tarde, a princesa jurou que estava possuída por um espírito. Quase deixou cair o talismã, mas, segurando-o com as duas mãos, brandiu a arma quando Hamil preparava-se para abatê-la.
— Para aquilo que você escolheu ser — disse ela, ofegante —, volte agora, homem de sangue!
Hamil girou o corpo, deixou cair a espada e levou as mãos à garganta. Seus olhos estavam em chamas, chamas saltavam dos seus lábios, cobriam seu corpo. De dentro dele veio um grito de tormento que fez Kadiya tremer. O Olho Chamejante de Três Partes fixava-se nele com toda a sua força e o general caiu no chão pesadamente. Como a Voz, antes dele, tudo que restou foi um monte de cinzas.
Outra língua de fogo saiu do punho do talismã e dividiu-se, ameaçando os skriteks. Os monstros fugiram apavorados, seguindo o exemplo dos labornoks. A chama desapareceu.
— Senhora dos Olhos...
Kadiya olhou para os jubilantes guerreiros oddlings.
— Jagun! — O nome parecia vir de uma lembrança muito distante, de um outro tempo. — Você está bem!
Mas outra voz se ergueu, silenciando até os lamentos dos feridos.
Minha filha!
Kadiya voltou-se para os sindonas que guardavam a porta. Acima das cabeças das sentinelas viu um círculo prateado e dentro dele um rosto sorridente.
— Dama Branca! Já fiz o que devia fazer?
— Ainda não.
Kadiya respirou fundo, quase com um soluço.
— O quê, então? Devo levar isto comigo — ergueu o talismã — até o fim?
— Deve — respondeu a voz, calmamente.
— Eu sou aquilo para o que fui feita... — Era quase uma súplica.
— Sim, está certa.
Tinha tanto que aprender!
— O que há ainda no meu caminho?
” Nenhuma resposta. A visão desapareceu e Kadiya ficou imóvel, com as lágrimas descendo pelo rosto arranhado e ferido. Haviam permitido que vislumbrasse algo além da sua compreensão, que devia ser seu objetivo. Mas, no momento, tudo que tinha a fazer era continuar. Voltou-se e olhou o campo de batalha. Lá estavam os uisgus, com Jagun sorridente ao lado deles. Ergueram as mãos numa saudação. Esquecendo os costumes do passado, clãs e tribos haviam se reunido para um objetivo comum. Devia ser essa a vontade de Kadiya, uni-los cada vez mais.