O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 18 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 17

 

Na manhã seguinte, Haramis acordou com o sol nos olhos e a sensação de que alguma coisa estava muito errada. Depois de algum tempo compreendeu o que a havia perturbado. O silêncio. Uzun sempre levantava antes dela e Haramis acordava com o ruído do oddling andando de um lado para o outro, cantarolando baixinho. Mas agora era dia claro, o ar estava parado, os pássaros silenciosos, e não ouvia nenhum sinal de Uzun, nem mesmo um ronco.

Haramis olhou para o saco de dormir do amigo, ainda encostado na rocha, onde ele o havia colocado na noite anterior. Aparentemente, Uzun dormia ainda. Haramis deixou com relutância o calor do saco de dormir, percebendo que a temperatura estava muito mais baixa do que na véspera, apesar do sol. Olhou para o céu sem nuvens, com os olhos semicerrados, e só então compreendeu que as nuvens do dia anterior eram o anúncio da chegada iminente de uma onda de frio.

Foi até o saco de dormir de Uzun e abriu a parte superior. Viu o rosto do oddling imóvel e inexpressivo e teve a certeza de que ele estava morto.

— Senhores do Ar — murmurou ela com horror. — Eu devia tê-lo mandado de volta ontem — não, muito antes!

Segurou Uzun pelos ombros e o sacudiu com força.

— Por favor, Uzun, acorde! Não morra! Por favor!

O corpo balançou molemente e o que restava de racional em Haramis lembrou que cadáveres fícam rígidos. Talvez ele estivesse vivo...

Haramis o deitou outra vez devagar, descalçou a luva da mão esquerda e encostou a palma na boca do oddling. Depois do que pareceu uma eternidade, sentiu a respiração na sua pele e com um intervalo maior aimda, mais outra. Uzun estava vivo, mas precisava levá-lo a algum lugar mais quente, e bem depressa.

Haramis aconchegou o saco de dormir em volta do músico, voltou para o seu e calçou as botas. Depois, encostou a mochila e o cajado com ponta de ferro numa rocha, ao lado de Uzun, olhando ansiosamente Para o céu. Tinha quase certeza de que não ia nevar naquele dia, e, com sorte podia estar de volta à noite. Não tinha Perigo deixar a mochila, não havia animais naquela região.

Ergueu o saco de dormir com Uzun dentro e tirando a neve acumulada no lado de fora, enfiou no seu. A camada adicional de agasalho talvez ajudasse, embora ficasse mais difícil carregar agora. Felizmente Uzun não era Pesado e o caminho era todo descida.

Haramis desceu o mais depressa Possível, o que era na verdade bem depressa, especialmente quando ela deslizava e escorregava, segurando Uzun contra opeito até conseguir parar. No final da manhã tinham saído dos campos nevados e ao meio-dia chegaram ao acampamento da noite anterior.

Era uma alcova nas rochas, seca, Protegida do vento e naquele momento banhada de sol. As Paredes da caverna estavam quentes. Haramis encostou Uzun na Parede e saiu à procura de madeira para o fogo. Uzun havia se encarregado desse trabalho na noite anterior, mas Haramis lembrava-se para que lado ele tinha ido e também que ele não havia demorado muito.

Voltou e verificou a condição de Uzun. Ele estava ainda inconsciente, mas a respiração parecia mais rápida, o que era bom sinal. Haramis fez a fogueira o mais Próximo possível do oddling e ferveu água para o chá. Uzun dormia ainda quando o chá ficou pronto e o cheiro a fez lembrar que não havia comido nem bebido nada. Tomou alguns goles de chá e comeu um pouco da ração da mochila de Uzun. Ele não vai precisar de muita comida na viagem para o sul. Toda a região tem bastante alimento. Sentindo-se mais animada, ergueu a cabeça do oddling Uzun e o fez tomar um pouco de chá. Para alívio de Haramis, o oddling pareceu reviver um pouco com o calor da bebida.

— Devagar, Uzun — murmurou ela. — Tome um pouco. Ele obedeceu e, cedendo à insistência dela, tomou mais alguns goles. Então, empurrou o bule, dizendo:

— Muito cansado.

— Eu também estou — concordou Haramis.

Era verdade. Estava exausta. Tomou o resto do chá, encostou na parede de pedra e pôs Uzun no colo. Talvez fosse bom conservá-lo perto do seu corpo, para aproveitar o calor. O sol estava delicioso. Haramis fechou os olhos e virou o rosto na direção da luz...

— Princesa! — O embrulho no seu colo remexia-se freneticamente. — O que estamos fazendo sentados aqui? A semente com certeza não parou tão cedo. — Uzun virava a cabeça de um lado para o outro, procurando se orientar. — Onde estamos? O que aconteceu?

Haramis balançou também a cabeça, um tanto confusa. Quase nunca dormia durante o dia — pelo menos, nunca, quando estava bem de saúde — e sentia-se como se estivesse drogada ou envenenada.

— Chá — murmurou ela. — Preciso tomar chá. — Estendeu a mão, encontrou o bule e tentou se levantar.

Uzun desvencilhou-se dos dois sacos de dormir.

— Vou preparar.

Tirou o bule da mão dela, pôs mais lenha no fogo e mais água para ferver. Para os olhos sonolentos de Haramis, ele parecia perfeitamente bem. Então os oddlings podiam ser congelados e descongelados sem nenhum efeito prejudicial? Parecia incrível. Pelo menos, Uzun podia voltar sozinho, agora.

Uzun levou o chá que Haramis tomou aos goles, sentindo que sua cabeça começava a entrar em ordem outra vez. Tomou metade do bule e deu o resto para Uzun.

— Uzun — começou ela, ansiosa para compartilhar o que havia aprendido na sua descida difícil da montanha.

— Acho que nós passamos tempo demais na biblioteca e na sala de música. Estamos agindo como um par de heróis idiotas numa missão — como se estivéssemos destinados a ter sucesso, não precisando portanto usar a cabeça e o bom senso. A Dama Branca disse que teríamos de nos separar antes do fim da missão, mas não disse que eu ia fazer isso arrastando-o para uma temperatura que seu corpo não suporta e deixando-o morrer congelado.

O oddling examinou atentamente a caverna.

— Conheço este lugar. Mas não foi aqui que paramos a noite passada, foi?

— Não, não foi — respondeu Haramis. — Este foi nosso acampamento duas noites atrás. Quando acordei esta manhã, você estava congelado, quase morto — na verdade, a princípio, pensei que estava morto. Sua pele estava tão fria quanto o ar e sua respiração tão lenta que levei algum tempo para ter certeza de que estava vivo. — Haramis estremeceu. — Então eu o enrolei nos dois sacos de dormir e o carreguei para cá, esperando que você descongelasse e sobrevivesse. — Respirou fundo. — Graças ao Deus Triúne, deu certo. Você está bem, não está? — perguntou, ansiosa.

Uzun ficou abalado com a história, mas, depois de pensar um pouco, respondeu:

— Sinto-me muito bem. Estou ainda com um pouco de frio, mas não é nada sério. Logo estarei pronto para continuar.

— Ótimo — disse Haramis. — Agora que está fora da neve, pode voltar sozinho para Trevista, e eu continuo minha jornada. — Procurou os apetrechos de pesca na mochila.

— Agora, volte para os sacos de dormir e procure descansar. Vou ver se apanho algum peixe para o jantar. Se pegar bastante, nós dois teremos comida amanhã também.

— Mas, minha princesa — protestou Uzun —, vai perder pelo menos dois dias. E pode ficar sem as sementes para mostrar o caminho.

— Os dois dias já estão perdidos, meu velho amigo — Haramis suspirou —, mesmo que eu siga viagem neste momento, só chegarei ao nosso último acampamento de madrugada — supondo que seja capaz de viajar à luz da lua com a mesma rapidez com que viajamos durante o dia, o que eu duvido. Mas amanhã não vou precisar de outra semente — tive o cuidado de marcar alguns pontos de referência quando descemos, e posso voltar sem nenhuma ajuda. Além disso, acho que não vai nevar esta noite, o que significa que posso seguir as marcas dos meus passos. Portanto, não se preocupe comigo, fique perto do fogo e descanse, Uzun, pelo Deus Triúne, você quase morreu!

— Acha que eu não ficaria feliz se morresse para servila? — perguntou ele, ofendido.

— Estou certa de que ficaria — disse Haramis, irritada. — Foi exatamente o que eu quis dizer, só temos na cabeça o eco de antigas baladas. Pode estar certo de que, quando eu estava descendo e escorregando na neve, carregando um amigo de infância que podia morrer porque fui tola a ponto de não notar que ele estava doente de frio, minha mente não estava procurando frases rimadas para uma canção sobre sua morte heróica. Fui uma idiota não notando que você estava doente e você foi idiota por não me dizer. Morrer congelado não vai ajudar nem um pouco Ruwenda, e eu ficaria louca de dor e de culpa. A perda de dois dias de viagem é um preço muito pequeno por sua vida. Talvez — continuou, pensativamente —, talvez uma rainha tenha de sacrificar, às vezes, a vida de um do seu povo, mas, pelos Senhores do Ar, se eu tiver de fazer isso, vou precisar de uma razão muito boa!

— Seria capaz de me negar a oportunidade de ser fiel até a morte? — Uzun estava ofendido.

— De modo algum — disse Haramis. — Apenas não acho que agora seja o momento certo para você morrer servindo-me. Afinal, se você morrer agora, quem vai ser meu músico-chefe quando eu recuperar meu trono — e quem vai ensinar meus filhos a tocar a flauta flipe?

Uzun alegrou-se consideravelmente.

— Muito bem, minha princesa, será como deseja. Voltarei para minha terra para esperar sua volta ao trono e minha volta ao seu serviço.

— Eu também espero ansiosamente por esse dia — disse Haramis, sorrindo, ajeitando melhor o segundo saco de dormir em volta dele. — Agora, durma, meu amigo.

As pálpebras de Uzun tremeram e se fecharam e Haramis passou a mão na testa do pequeno oddling. Ele estava mais quente agora, ia ficar bem. Aliviada, contendo as lágrimas, foi para o rio à procura de peixes.

— Princesa, acorde! — Uzun sacudia o ombro dela com urgência. — Vai nevar hoje, portanto, precisa partir o mais depressa possível.

Haramis abriu os olhos. Nuvens cinzentas cobriam o azul do céu, esperando o momento certo para cobrir tudo de neve. Ela sentou-se, com um gemido. Estava cansada ainda da descida da véspera. Carregar Uzun deu trabalho a músculos que não usava há muito tempo. Seus braços doíam, das mãos até os ombros.

Uzun atarefado, junto ao fogo, preparou o chá e o levou para Haramis.

— Princesa — perguntou, olhando em volta —, onde está a sua mochila?

Haramis tomou rapidamente o chá.

— Deixei no acampamento lá em cima — acho melhor eu voltar depressa antes que fique enterrada na neve!

Levantou-se rapidamente, enrolou o saco de dormir e o amarrou em volta da cintura.

— Acho melhor você também sair logo daqui, Uzun. Não vai querer ficar preso na neve!

— Tem razão — concordou Uzun, colocando um bom pedaço de pão para viagem na mão dela. — Coma isto enquanto caminha, e que os Senhores do Ar a acompanhem.

— A você também, meu amigo. — Haramis o abraçou com força, relutando em deixá-lo. Depois começou a subida.

Pelo menos não preciso ficar olhando uma semente voadora, assim posso prestar mais atenção onde ponho meus pés, pensou ela. Agora, se a neve pelo menos esperar um pouco.

Subiu a montanha rapidamente, pois não carregava tanto peso quanto da primeira vez que passou por ali e sabia exatamente para onde estava indo. Quando a neve começou a cair, tinha vencido metade do caminho e, quando chegou ao acampamento, uma pequena camada de neve cobria sua mochila.

Haramis a apanhou, comeu mais pão e abriu espaço perto da rocha, para dormir. Estava escurecendo rapidamente, mas com a neve não ia conseguir manter o fogo aceso, por isso entrou no saco de dormir com a mochila e esperou a chegada do sono.

Mas seus nervos que durante todo o dia tinham gritado, depressa, depressa, depressa, não conseguiam se acalmar agora. Haramis sentiu-se mais sozinha e desamparada do que nunca. Era a primeira vez em sua vida que ficava sozinha. Antes da invasão tinha sempre a companhia dos pais, das irmãs, de Uzun e dos outros habitantes da Cidadela. Depois, Uzun estivera com ela o tempo todo, a não ser nas horas que havia passado com a Arquimaga. Embora, algumas vezes, em casa, tivesse desejado um pouco mais de privacidade, agora, que tinha toda a privacidade do mundo, não tinha certeza de estar gostando.

Além da solidão, outras coisas a preocupavam. A primeira delas era Uzun. Pediu aos Senhores do Ar que o conduzissem a salvo e agora, com tempo para pensar, e nada mais para fazer, outras perguntas lhe vinham à mente. Por que Uzun não havia dito que não podia continuar, antes de quase morrer gelado? Por que a Arquimaga não a avisou para se separar de Uzun antes de chegar aos campos de neve, em vez de dizer apenas que o velho músico ia deixá-la antes de ela encontrar o talismã? Se contasse só com a ajuda dos dois, Uzun estaria morto!

É claro que a culpa era tanto sua quanto deles. Falhou também no seu julgamento, mas eles eram mais velhos. Não deviam saber mais do que ela?

Eu sou rainha de Ruwenda, pensou ela, e a responsabilidade é minha, mas ainda preciso dos conselhos de pessoas nas quais possa confiar — quanto posso confiar nos dois? Uzun não parece conhecer suas limitações mais do que Kadiya conhece as dela ou, se conhece, não as admite facilmente. Quanto à Arquimaga, será que não sabia o quanto Uzun é sensível ao frio, ou não julga que ele seja suficientemente importante para se preocupar?

Seus amados pais, lembrou ela, também não eram muito experientes nas coisas do mundo e na diplomacia. Era sabido na corte que Labornok cobiçava Ruwenda e, embora Haramis não quisesse se casar com Voltrik, seus pais podiam fingir que estavam dispostos a negociar, ou alegar que os preocupava a grande diferença de idade entre Haramis e Voltrik, sugerindo uma união com o filho do rei de Labornok. Qual era mesmo o nome dele? Oh, sim, Príncipe Antar. E se Ruwenda queria uma aliança com Var, uma idéia certamente válida, Haramis não era a única filha da casa real. Era difícil imaginar Kadiya como esposa de alguém, mas Anigel seria uma noiva esplêndida para uma aliança diplomática. Era tão dócil e gentil que podia se dar bem com qualquer pessoa. E se eu sou capaz de pensar em tudo isso, assim sem mais nem menos, pensou Haramis, o que meus pais e seus conselheiros estavam fazendo? Confiando na Dama Branca?

Evidentemente, concluiu ela, é preciso considerar a capacidade de uma pessoa, e suas intenções, quando pedimos conselhos ou quando dependemos da ajuda de alguém. Então, quem havia agora, se é que havia alguém, para ajudá-la? Pensando nisso tudo, Haramis adormeceu.