O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 15 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 14

 

A flauta flipe tocava ”Lagoa do Ocaso Cor-de-Rosa”, uma das melodias favoritas de Haramis, a balada triste e etérea de um solitário homem do rio, longe de casa e das pessoas que amava. Quando a última nota argêntea ecoou entre os picos nevados, a princesa disse:

— Muito bonito, querido amigo.

— Eu gostaria de tocar mais — disse Uzun, desculpando-se —, mas não consigo mover os dedos com a rapidez necessária. — O músico aconchegou-se no manto forrado de peles e estendeu os pés calçados de botas para perto da fogueira de gravetos. A noite aproximava-se rapidamente, trazendo com ela o vento gelado das geleiras que cortava a pele como uma faca.

— Não faz mal, Uzun. Acho que se você continuasse a tocar eu ia chorar de tristeza. O homem da canção pelo menos tinha esperança de voltar para a família e para sua terra, mas para mim não existe mais lar, e os que eu amava estão mortos.

— Talvez não suas irmãs, princesa

Haramis olhou para a vertente rochosa e árida, além do Rio Vispar que haviam seguido, subindo cada vez mais na direção dos Montes Ohogan. Acima das cordilheiras escuras, o vulto majestoso do Monte Rotolo desenhava-se contra o céu listrado de nuvens, tingido de vermelho pelo sol que desaparecia no horizonte.

— Rezo para que Kadiya e Anigel estejam vivas — disse Haramis —, mas você sabe tão bem quanto eu que Kadiya estava preparada para morrer bravamente, quando nos separamos. Quanto a Anigel, não me surpreenderia saber que ela morreu de medo! — Piscou os olhos para conter as lágrimas.

— Pobres tolinhas! — Forçou seus pensamentos de volta para os problemas do presente. — E logo iremos juntar-nos a elas se essas miseráveis sementes de trílio continuarem a nos conduzir para o alto da montanha. Quase não temos mais madeira para o fogo, nem raízes ou frutas para comer. Não há peixes desde que o rio ficou branco, e sua água tem um gosto estranho. Você sabe o que é aquele pó branco?

— Para mim, tem gosto de pedra — disse Uzun. — De qualquer modo, se fosse veneno...

— Já estaríamos mortos — concordou Haramis. — Mesmo assim não me agrada. E eu me preocupo com você, Uzun. Não devia estar aqui em cima, neste frio. Não pode ser bom para você. Seu corpo não foi feito para viver neste lugar.

— Estou perfeitamente bem! — protestou Uzun. — Preciso só me aquecer um pouco e secar minhas botas.

— Mas vão ficar encharcadas outra vez quando continuarmos a caminhar na neve, amanhã — observou Haramis. — Meu sangue é mais quente do que o seu, Uzun, e eu posso suportar o frio. Mas você é nyssomu, nascido para viver no calor do Pântano. Durante todo o dia vi seu rosto ficar cada vez mais contraído de dor e seu passo cada vez mais lento.

— Eu estou atrasando a viagem — murmurou ele, cabisbaixo.

— Isso não importa. Deus sabe que não tenho pressa nenhuma de morrer congelada! Mas não acredito que você vá melhorar. O mais provável é que piore à medida que a temperatura ficar mais baixa.

Haramis levantou-se, tirou as luvas forradas de pele e começou a descalçar as botas molhadas de Uzun.

— Precisamos tirar essas botas. Nos seus pés jamais vão secar.

— Não, não — eu devo servi-la. Nunca você me servir!

— Fique quieto — ordenou ela, com fingida severidade. Haramis tirou as botas, o forro de feltro ensopado e a palha — boa proteção contra o frio, quando seca, mas reduzida agora a uma pasta úmida grudada nos dedos —. Calçou os pés do músico com suas luvas forradas de pele, como se fossem meias. Depois, pôs as botas perto do fogo de modo que o calor atingisse a parte interna e serviu um pouco de chá darei do bule de barro escurecido pela fuligem. O velho oddling suspirou.

— Sinto-me muito melhor. Mas não devia ter se rebaixado..

Haramis encostou a ponta do dedo nos lábios dele, ordenando silêncio.

— Uzun, escute. Pensei muito no assunto e já resolvi. Quero que você volte. Já me acompanhou até onde permitem suas forças, agora devo seguir sozinha.

- Não! Não! — exclamou ele, agitado, derramando um pouco de chá.

— Eu disse que já resolvi, não disse? Sabemos que estamos quase chegando àquela parte das montanhas onde nenhum ser vivo — exceto talvez os fabulosos Olhos do Redemoinho — pode sobreviver por muito tempo. Nossa comida está quase no fim e temos pouca chance de conseguir mais. Logo nem veremos mais as árvores anãs, e não teremos fogo. Se na verdade meu destino é especial, como disse a Dama Branca, devemos supor que os Senhores do Ar me darão abrigo e sustento, de um modo ou de outro, enquanto eu estiver seguindo as sementes do trílio. Mas você, querido amigo, deve voltar. A missão é minha e devo realizá-la sozinha. Foi o que a Arquimaga disse. Ela não disse também que você devia me deixar antes do fim da jornada?

Uzun inclinou a cabeça, em silêncio. Enxugou os olhos com a manga, e tomou um gole de chá.

— Se você voltar agora — continuou Haramis —, poderá estar livre da neve em menos de um dia. Mais um dia e chegará na parte fértil do Rio Vispar, com muitos garsus e outros peixes, frutas maduras e nutritivas e as noites sem geada. Pode seguir o rio para o sul até encontrar os uisgus. Eles o levarão de barco até Trevista, onde está seu povo.

— Mas como posso deixá-la sozinha? O Triúne sabe que não entendo nada da vida ao ar livre, mas você — perdoe-me, princesa! —, você está menos preparada do que eu para sobreviver nestas condições!

— Não preciso de nenhum conhecimento especial de sobrevivência agora. Não há mais peixe para pescar, nem vartsdo-pântano para caçar, nenhuma planta comestível para apanhar e preparar. A comida que tenho na mochila vai impedir que eu morra de fome, durante algum tempo, e eu sei esperar que o sedimento do rio se deposite no fundo antes de beber a água. Posso escalar as rochas com relativa agilidade — sem dúvida tenho treinado bastante nos últimos dias — e as sementes encontrarão abrigos secos para meu descanso, por mais algum tempo, pelo menos, até chegar à região onde tudo é coberto de neve. Se eu não tiver chegado ao meu objetivo então... — Ela deu de ombros. — Bem, talvez os Olhos do Redemoinho se apiedem de mim e me conduzam aos fabulosos vales dos altos Ohogan, onde dizem que habitam os vispis, entre fontes de água quente e relvados floridos, enquanto as tempestades de neve passam lá em cima, sem alcançá-los.

Uzun disse em voz baixa, com ar pensativo:

— Na verdade, eu estava imaginando se a Dama Branca não havia nos enviado a um lugar assim.

— O que você sabe sobre os vispis?

— Eles nunca descem da montanha. Fazem comércio de minérios e pedras preciosas com os uisgus, que passam a mercadoria aos nyssomus, para ser levada até os humanos, na feira de Trevista ou nos mercados menores das aldeias em Dylex. Eles aceitam em troca especialmente animais domésticos — as espécies mais fortes e selvagens de volumniais, togaras e nunchiks peludos. Aceitam também sal e todo tipo de doces — o mel da abelha-d’água é a base do comércio de troca dos uisgus com eles — e alguns outros produtos.

— Como são eles?

— Nenhum nyssomu viu um vispi e viveu, pois suas terras são proibidas para os povos do pântano.

— Isso faz sentido — murmurou Haramis —, uma vez que vocês provavelmente morreriam gelados antes de chegar a elas.

— O povo das pradarias — continuou Uzun —, os uisgus, diz que os vispis são mais altos do que os humanos, e mais magros. Eles são nosso povo, porque seus filhos nascem completamente formados, não como uma larva faminta, como os dos skriteks. Dizem que os Olhos do Redemoinho, os guardiães dos desfiladeiros das montanhas, que no passado protegiam nossas terras de qualquer invasão, pertencem aos vispis e servem à Dama Branca.

— Alguns dos nossos guardas do forte nas montanhas contavam histórias de vispis dançando na neve recém-caída. Diziam que eles são muito belos — observou Haramis.

— Dizem também que são os mais antigos dos nossos povos. Mas ninguém sabe ao certo. Nossos contadores de histórias contam que eles vivem nas encostas dos Montes Rotolo, Gidris e Brom, onde, segundo dizem, fluem fontes e rios de água quente, que servem de moderadores do frio e da esterilidade da terra, permitindo o crescimento das plantas. E ao redor das terras dos vispis existem cavernas onde o gelo derrete lentamente, repletas de pedras preciosas, barras de ouro e platina, bem como pedras de menor valor, que descem as encostas, levadas pelas torrentes das montanhas. Supõe-se que algumas dessas cavernas pertenceram aos Desaparecidos. Uma vez ou outra, muito raramente, os vispis oferecem alguns objetos antigos para troca.

— Muito interessante — murmurou Haramis. Atiçou o fogo com a ponta de ferro do seu cajado, colocando os gravetos não queimados sobre a pilha de brasas. Ficou calada por algum tempo. De repente, disse: — Uzun, quer tentar scry para mim?

— Para suas irmãs?

— Não, para eles, para os vispis. Uzun respirou fundo.

— Eu... posso tentar. Se eles são realmente do nosso povo, devem ter auras, como os outros seres.

Haramis apontou para o bule que tinha ainda um dedo de chá quente no fundo. Com um gesto afirmativo, Uzun o apanhou e o fez girar, cada vez com maior velocidade, com os olhos fixos no pequeno vórtice de líquido. Então, seu corpo enrijeceu, os olhos pareciam perdidos no espaço e gotas de suor oleoso brilharam na sua testa.

Haramis esperou. O brilho rosado nos picos cobertos de neve aos poucos transformava-se num cinzento opaco. No céu, até então sem nuvens, farrapos de cirrus chegavam do sul, arautos das chuvas de inverno. Em certos anos, as tempestades chegavam mais cedo. Se isso acontecesse, ela estava perdida..

— Movis — murmurou Uzun. Sobressaltada, Haramis segurou o ombro dele.

— Viu alguma coisa?

— Movis — repetiu ele. Com os imensos olhos dourados fixos nos dela, Uzun aos poucos voltou a si e pôs o bule de chá no chão. — O nome da sua grande aldeia é Movis, e fica mais acima, a oeste.

— Você viu claramente? — perguntou Haramis, entusiasmada. — É muito longe daqui?

— Não sei dizer, só sei que fica lá, mais ou menos naquela direção. Os vispis podem se esconder completamente dos que procuram vê-los deste modo, mas eu disse seu nome e me permitiram uma visão rápida de Movis... e disseram que estão à sua espera.

O coração de Haramis batia disparado. Ergueu a mão sem luva e segurou o amuleto sob a túnica, aquecido com o calor do seu corpo. Movis! Um lugar real, não um sonho febril da Arquimaga agonizante! Afinal, as sementes não a haviam conduzido a uma busca vã, mas a um lugar real. Pelo menos era o que esperava.

— Você me serviu bem, Uzun. Este seu scry renovou minha confiança, dissipando toda incerteza. Eu confesso que começava a pensar que a Dama Branca era apenas uma bruxa doente e senil que havia me mandado para uma morte certa.

— Movis não fica perto — disse o pequeno músico, preocupado. — Fica a muitos dias de jornada, por caminhos extremamente difíceis.

— As sementes me guiarão — disse ela, sorrindo. — Não se preocupe, vou encontrar, e os vispis certamente me ajudarão na procura do Círculo das Três Asas.

— Na verdade, falaram comigo amistosamente — admitiu Uzun. Mexeu os dedos dos pés, ainda agasalhados nas luvas de Haramis, e a preocupação desapareceu aos poucos dos seus olhos. — Talvez tudo dê certo, no fim. — Uzun bocejou, pedindo desculpas à princesa.

Haramis riu.

— Tem toda razão — disse ela. — Vou sentir falta do seu rosto e da sua música, mas você me servirá melhor voltando agora. Pode fazer desta viagem uma balada, para cantar quando eu for rainha de Ruwenda. Na verdade, do modo que você fala às vezes, acho que já começou a fazer isso.

— Muito bem — Uzun suspirou. — Eu volto. Você vai viajar muito mais depressa sem minha companhia. Posso deixála agora com o coração mais leve, sabendo que a Arquimaga deu ordem aos vispis para tomar conta de você. Enquanto estiver viajando para o sul, uma vez ou outra tentarei saber, por meio do scry, onde e como você está.

— É claro — disse Haramis. Apanhou as botas e as meias de feltro de Uzun, que estavam quase secas. — Guarde dentro do seu saco de dormir que acabarão de secar durante a noite.

Ajudou-o a entrar no saco de dormir forrado de penas e Uzun se encolheu, encostado numa rocha, no outro lado da fogueira. Antes de Haramis abrir seu saco de dormir e tomar as últimas gotas de chá, Uzun estava dormindo e roncando.

Haramis limpou o lugar do acampamento, depois foi até o regato. A geada começava a cobrir as rochas e retalhos de neve entre os picos agudos cintilavam na luz do poente. Encheu a bolsa de pele até a metade, estremecendo quando seus dedos tocaram a água. De manhã, depois de congelar e derreter, a lama cinzenta em suspensão estaria depositada no fundo e a água podia ser bebida.

Uma pequena poça de água refletiu a luz das estrelas e cintilou a seus pés. Um perfeito instrumento para o scry...

Serei capaz de fazer esta mágica? Por falar nisso, o scry é realmente mágica ou uma habilidade mental, como a comunicação sem palavras dos oddlings? Será que eu poderia ver minhas irmãs? Sei que podem estar mortas, mas sinto que não estão. É claro que, mesmo que eu possa vê-las, não vou provar nada. É possível que a Arquimaga tenha erguido barreiras — uma espécie de encantamento — para nos proteger de labornoks como Orogastus, que poderiam nos procurar e nos matar. Mas talvez, se eu procurar minhas irmãs, cujo destino está ligado ao meu, a barreira não impeça a mim de vê-las. Não custa tentar.

Ajoelhou ao lado da poça de água, procurando não ficar na frente da luz da estrela, e fez uma oração breve. Então, procurou não pensar em nada, concentrando-se no pequeno ponto brilhante na água, e imaginou o rosto da irmã Kadiya.

Kadi. Kadi. Você está viva? Deixe-me vê-la!

Um sorriso. O forte odor de água perfumada, bolhas de sabão, cabelo ruivo boiando...

Nada mais.

Haramis sentou nos calcanhares. Por um momento, uma fração de segundo, teve a impressão de ver imagens confusas. Mas nenhuma visão real de Kadi, apenas fragmentos de sensações, sem dúvida nascidos da sua imaginação avivada pela fadiga.

Suspirou. Bem, não esperava mesmo conseguir. Scry era um talento dos oddlings, que nenhum humano possuía. Estava ali agachada como uma perfeita idiota, quase congelada na margem do rio, quando podia estar confortavelmente agasalhada no saco de dormir, o lugar próprio para essas fantasias. Suspirando outra vez, subiu a pequena encosta e foi se deitar.