O Trílio Negro
Capítulo 8
A tarde ia em meio quando o vigia do primeiro barco gritou com voz cantada: ”Trevista à frente!”
Pellan, o guia dos mercadores, encarregado do comando da frota improvisada dos labornoks, levou aos lábios uma pequena corneta de ouro e emitiu um aviso de três notas. Imediatamente os remadores dos quatorze barcos tiraram os remos da água e os homens na proa e na popa lançaram as âncoras no raso e lamacento rio. Pellan tocou outro aviso mais complexo na corneta, dando ordem de descanso para os marinheiros.
Um berro furioso soou na proa e uma voz rouca gritou o nome de Pellan, seguido de obscenidades. Embora a viagem rio acima tivesse sido feita em tempo recorde, o General Hamil descobriu um motivo para reclamar.
Com um suspiro o comandante dos barcos saiu da cabine de proa e dirigiu-se para a popa do barco. Ao contrário das outras embarcações, esta não transportava carroças de suprimentos, nem animais de carga, mas apenas as montarias dos nobres, amarradas no convés de proa (só Deus sabia o que os conquistadores pretendiam fazer com elas nos pântanos sem trilhas ao redor de Trevista), com suas rações e jaezes, mochilas de couro cheias de armas e armaduras, e um grupo de vinte ou trinta cavalariços, soldados e lacaios que durante todo o tempo jogavam, cochilavam ou trocavam gracejos pesados com os remadores.
Pellan parou na pequena cabine no centro do barco onde ficava a cozinha e seu pequeno alojamento — este ocupado pelo feiticeiro Orogastus e seus dois malévolos ajudantes —, a fim de dar ordens para que fosse servida uma boa caneca de vinho aos remadores e uma dose de bebida aos labornoks, para evitar descontentamento.
Passou por um grupo de sargentos que olharam furiosos para ele porque a parada da embarcação os privava da brisa fresca, e chegou finalmente ao convés de popa. Um toldo fora erguido naquela parte da embarcação para proteger os passageiros privilegiados, entre os quais estavam os homens do Príncipe Antar, o General Hamil e um punhado de oficiais de alta patente, que o acompanhavam na expedição de busca, além do mestre-mercador Edzar, designado como portavoz das forças dominadoras de Labornok no contato com os nativos de Trevista.
Os cavaleiros mais jovens debruçavam-se na amurada, olhando para longe, esperando avistar a fabulosa cidade dos oddlings. Sem as armaduras vistosas e brilhantes, eram homens vulgares, com blusões e calções manchados de suor e de poeira. Os nobres e oficiais vestiam-se do mesmo modo, distinguindo-se dos cavaleiros apenas pela limpeza das roupas. O gorducho mestre-mercador, por outro lado, parecia um cortesão pronto para uma audiência real, com a capa curta da guilda, verde, bordada a ouro, sobre a roupa fina cor-de-laranja. O chapéu de tecido verde-folha tinha abas enormes e uma faixa enfeitada com flores naturais.
— Por que paramos? — perguntou asperamente a Pellan o General Hamil. — Se aquilo lá na frente é Trevista, então mexa esse traseiro preguiçoso e continue a viagem! Suas ordens são para nos levar a Trevista o mais depressa possível.
Toda a frota estava parada no meio do Baixo Mutar, tão largo naquele ponto que os bancos de terra do Pântano Negro ficavam a quase uma légua de distância dos dois lados. Pellan ergueu a mão numa continência negligente.
— Precisamos obedecer aos protocolos do mestre-mercador, meu general, e esperar pela escolta de nyssomus que nos levará até Trevista.
— Mercadores? — exclamou o comandante-em-chefe dos labornoks. — Não somos um bando de vendedores, somos conquistadores — e o único protocolo que obedecemos é o nosso. Levante a âncora e vamos depressa!
— Senhor, isso não seria aconselhável. Não posso me responsabilizar pelos resultados. — O traidor ruwendiano tinha um rosto tão escuro e áspero quanto o couro da sua roupa. As maçãs de seu rosto estavam cobertas por um restolho de barba branca, resultado dos três dias de viagem rio acima, e sua expressão sugeria insolência. — Esses oddlings selvagens são muito sensíveis. Não posso prever o que farão se entrarmos em Trevista assim sem mais nem menos...
— Ruwenda é nossa e fazemos o que queremos! — rugiu Hamil, desembainhando a espada. — Agora, mexa-se, ou vou ventilar sua goela!
Sem se perturbar com a ameaça, Pellan voltou-se para o mestre-mercador labornok, que estivera distraindo o general e seus amigos com histórias fabulosas das cidades secretas dos Desaparecidos.
— Mestre Edzar, fale com ele. O general aparentemente não compreende a situação. — Sem terminar a frase, Pellan deu um grito, quando Hamil o segurou pelos cabelos e ergueu a espada.
— General! Pare, eu ordeno!
O Príncipe Antar, que fizera a viagem toda cabisbaixo, sentado sozinho na proa, abriu caminho entre os cavaleiros que esperavam excitados o derramamento de sangue e parou na frente do velho soldado. Com relutância, Hamil largou Pellan, que imediatamente colocou-se fora do alcance do general, enquanto o mestre-mercador curvava-se para o príncipe.
— Deixe-me explicar, senhor. Posso garantir que nosso novo aliado, Pellan, está tentando defender os interesses de Labornok.
— É bom que esteja — resmungou Hamil —, do contrário vai parar no fundo do Mutar com os vermes dos pântanos devorando suas jóias de família.
Quase todos os cavaleiros riram, mas o príncipe disse:
— Continue, Mestre Edzar.
— Lá adiante está Trevista. — O mestre-mercador apontou para um conjunto de pequenas elevações rio acima, manchas verdes distantes com sombras lilases que cintilavam no vapor do ar quente e enchiam o canal do Mutar de margem a margem. — Fica naquele grupo de ilhas, na confluência do Rio Vispar com o Alto Mutar. Mas não é o tipo de cidade que nós, os labornoks, conhecemos — nem que os ruwendianos conhecem —, e a chamada Feira de Trevista não se realiza sempre no mesmo lugar. O local é escolhido de acordo com o capricho dos nyssomus, de modo que nem mesmo os guias dos mercadores, como o nosso amigo Pellan, podem dizer com certeza onde está instalada hoje.
Osorkon, o enorme ajudante de Hamil, bufou com desprezo.
— Uma cidade numa ilha — e vocês não são capazes de localizar um miserável mercado oddling? Não deve ser tão difícil, nem que ele salte como um peixe na lama quente.
— Trevista não fica numa ilha, Lorde Osorkon — a mão de Edzar indicou todo o horizonte. — Fica em todas elas.
Ouviram-se exclamações de espanto dos homens.
— Trevista é — ou era — a coroa de glória da arquitetura dos Desaparecidos. Ao lado dela, a imensidão da Cidadela de Ruwenda não passa de um forte primitivo, um refúgio contra qualquer desastre que ameaçasse aquela antiga raça. Cada uma dessas centenas de ilhas contém ruínas e entre elas há um sistema complexo de canais com paredes solidamente fixadas no fundo do rio. Existem comportas, pontes enormes, estaleiros desmoronados — todos os tipos de estruturas ribeirinhas, para não falar nos edifícios públicos em ruínas, belas residências semidestruídas pelo tempo e enormes praças e arcadas, tudo coberto de mato denso, nos lugares que os nyssomus são proibidos de explorar.
— Qual a área da cidade habitada pelos nativos? — perguntou o príncipe.
— Ninguém sabe, grande senhor. Os nyssomus selvagens evitam todo contato com os humanos. Nós, os mercadores, somos conduzidos ao lugar da feira e lá cada oddling oferece mercadoria que acha que pode nos interessar. — Evitando o lhar furioso de Hamil, ele acrescentou: — Se esta frota entrasse em Trevista sem permissão — deve notar que não estou dizendo sem se anunciar, porque eles sempre sabem quando estamos chegando — é possível que nenhum nyssomu se dignasse a aparecer. Encontraríamos o lugar deserto. Quanto a invadir Trevista, com o objetivo de conquistá-la, seria uma aventura inútil. Aquele vasto conjunto de ruínas vale apenas pelas mercadorias que nos oferecem e por elas devemos cultivar a boa vontade dos oddlings.
— Falou muito bem, Mestre Edzar. — O príncipe olhou significativamente para o general. — E se conquistarmos sua confiança — garantindo que o comércio continuará como antes sob o governo de Labornok — acredita que estarão dispostos a cooperar?
— Podemos esperar que sim, grande senhor.
— Pois nós vamos estabelecer uma base em Trevista! — declarou Hamil. — São as ordens do Rei Voltrik. E é melhor que aqueles insignificantes pantaneiros não pensem em nos trair, ajudando a princesa fugitiva, se sabem o que é bom para eles!
— Está claro — disse o príncipe em voz baixa — que os nyssomus são mais leais às princesas do que a nós. Teremos de localizar as princesas usando sutileza e não com demonstração de força. — Olhou para os cavaleiros e depois para o General Hamil. — Está bem claro?
— Perfeitamente — resmungou Hamil, acrescentando com algum atraso —, meu príncipe.
— Embarcação a remo à vista! — cantou o vigia.
Os cavaleiros aproximaram-se novamente da amurada para ver a aproximação do estranho barco. Não era a remo, nem a vela, mas deslizava velozmente na direção da grande barcaça lobornoki, deixando uma esteira branca em forma de V na água lamacenta. Estava enfeitado com flores, da proa à Popa, e parecia transportar um único ocupante.
— O que é que faz aquele barco andar? — perguntou espantado Sir Owanon.
Pellan, mantendo-se fora do alcance do General Hamil, e tendo recobrado sua dignidade, respondeu:
— É impulsionado por um par de rimorkis, criaturas aquáticas que parecem grandes pelriks. Infelizmente, os rimorkis não se deixam domar pelos humanos. Mesmo entre os nyssomus, poucos sabem como dominá-los, pois é um truque que aprendem com seus primos insociáveis, os uisgus. Membros da tribo dos uisgus visitam Trevista regularmente, trazendo mercadorias do extremo norte do Pântano.
O príncipe pôs a mão no ombro de Edzar e o levou para longe dos outros, na direção da cabine no centro do barco.
— Explique o que quis dizer quando se referiu ao fato de a nossa frota não ser anunciada. Significa que os oddlings de Trevista acompanharam nossa viagem, apesar da velocidade com que subimos o rio?
O mestre-amador deu de ombros.
— Grande senhor, eles se comunicam a distância, usando a linguagem sem palavras, como Lorde Orogastus comunica-se com suas Vozes.
A porta da cabine de Pellan abriu-se tão bruscamente que o príncipe e o mestre sobressaltaram-se. O feiticeiro alto, vestido de branco e negro, apareceu com o rosto meio coberto pelo capuz. Atrás dele estavam dois vultos também encapuzados, os acólitos, conhecidos como Vozes, um baixo e forte, vestido de vermelho; o outro alto e magro, vestido de azul.
— Tem razão — disse Orogastus com sua voz profunda. — Os não-humanos usam uma forma primitiva de telepatia, e às vezes podem descrever eventos a distância por meio da Visão — embora sua capacidade para usar esses dois poderes seja muito inferior à minha.
O príncipe mandou que o mestre-mercador os deixasse e então disse com voz fria:
— Grande ministro, nunca me falou sobre isso, antes.
— Não foi preciso. Durante a invasão, não era importante e nós jamais pensamos em fazer guerra contra os nativos. Ao contrário... Vamos usar muito bem essas criaturas.
— Então tem um plano para conquistar a aliança desses pequenos oddlings, como fizemos com os skriteks? O rei meu pai sugeriu alguma coisa a respeito durante a marcha contra a Cidadela. — O tom de Antar era formal, um misto de deferência e ressentimento. Embora estivesse com 26 anos, nem o rei e nem o misterioso grande ministro haviam confiado a ele seus planos futuros.
— Quando chegar o momento, faremos aliança com certas tribos — Orogastus sacudiu a mão com um gesto de desprezo. — Mas não com esses vulgares nyssomus. Para nós eles só são úteis pelas ervas e outros produtos do pântano que vendem. Há muito tempo já retiraram os aparelhos e objetos antigos mais interessantes de Trevista e das cidades abandonadas próximas, e, devido à sua ligação amistosa com os ruwendianos, não acredito que estejam dispostos a fazer o esforço de procurar novos objetos interessantes para nós. Entretanto, pretendo fazer com que oddlings leais a nós explorem as partes mais remotas do Pântano Labirinto, onde eu sei que existem certas extraordinárias máquinas mágicas dos Desaparecidos. Esses engenhos, usados adequadamente, permitirão que Labornok estenda seu domínio, não só por toda a Península — mas, com o tempo, por todo o mundo conhecido.
O príncipe sentiu um aperto no coração. Então foi por isso que o Rei Voltrik havia concedido àquele presunçoso o título de grande ministro, contrariando a opinião dos conselheiros mais conservadores! Estaria o feiticeiro apenas aproveitando-se da credulidade de Voltrik, ou aquele plano louco era baseado em fatos?
A expressão de Antar demonstrava seu ceticismo tolerante.
— Então é o que diz? Labornok dominando o mundo..? Não admira que tenha insistido tanto para que Labornok declarasse guerra a Ruwenda! Mas isto também é novidade para mim. Qual é a natureza dessa maravilhosa aparelhagem que procura, e como sabe da existência dela?
— Falaremos sobre isso em outra ocasião, meu príncipe. O barco de Trevista está chegando e sua pergunta envolve assuntos da mais alta diplomacia real que só podem ser enunciados pelo próprio rei.
Orogastus respondeu com um gesto afirmativo ao murmúrio sibilante do homem vestido de vermelho.
— A Voz Vermelha lembrou-me de informá-lo que a condição do rei seu pai piorou um pouco. Minha Voz Verde, ao lado do leito, nos comunicou essa notícia. O Rei Voltrik sofre de febre e a mão ferida está tomada por humores tóxicos. Mandei minha Voz Verde administrar o remédio mais potente que possuo, a Pastilha Dourada, que deverá aliviar o sofrimento do rei dentro de dois ou três dias.
O príncipe franziu a testa.
— Por que não administrou antes essa pastilha miraculosa?
— É um medicamento dos Desaparecidos, meu príncipe, existem poucas, e só servem para o tratamento de doenças que podem ser mortais. Eu esperava que o ferimento do Rei Voltrik respondesse satisfatoriamente ao tratamento do médico da corte. Como não respondeu, torna-se indicada a terapia mais drástica: a Pastilha Dourada.
— E que vai curá-lo, certamente? O feiticeiro hesitou.
— Ao que sei, nunca falhou. Porém, só a usei cinco vezes antes — três vezes em mim mesmo, uma vez para a Voz Azul e uma vez na falecida Princesa Shonda, a segunda esposa do seu pai, quando seu pé começou a gangrenar por causa de um ferimento com espinho. Infelizmente, o ferimento do rei seu pai é extremamente perigoso. Por isso estou em contato distante com meu acólito em intervalos freqüentes, e ao mesmo tempo observo de perto o rei seu pai por meio da Visão.
O Príncipe Antar, com expressão pensativa e sombria, disse:
— Vou me lembrar do rei meu pai em minhas preces... E você deve também recomendar fervorosamente nosso rei aos deuses exóticos nos quais acredita, feiticeiro. Pois, se Voltrik morrer, a dor de Labornok será profunda. E quem sabe os bravos planos podem então vir a fracassar.
Antar fez meia-volta e afastou-se bruscamente.
A Voz Vermelha murmurou:
— Esse vai ser menos manejável do que o pai, Mestre todo-Poderoso.
O esguio Voz Azul, perto do ombro direito do feiticeiro, murmurou:
— Seria um prazer providenciar sua reconciliação.
— Não — disse Orogastus, com voz firme. — Ainda não. Mas seu zelo me agrada. E, quando chegar o momento apropriado, você será designado para modificar a atitude do príncipe e será ricamente recompensado se tiver sucesso.