O Trílio Negro
Capítulo 28
O lammergeier disse para Haramis, Lá está a caverna que você procura.
Nessa manhã, passada a tempestade, o brilho da face sul do Monte Gidris, todo branco, era tão forte que quase cegava Haramis. Ela protegeu os olhos com a mão enluvada, mas nem assim conseguiu ver o lugar indicado por Hiluro. O pássaro então começou a descida, voando em espiral, cada vez mais baixo, até a luminosidade disforme se transformar numa abertura côncava, logo abaixo do topo do monte, da qual saía uma geleira enorme.
O rio de gelo despencava num precipício, antes de começar a descida lenta na direção da bacia ruwendiana, partindo-se em enormes blocos que eram parcialmente cobertos pela neve recém-caída. As fendas e abismos da cachoeira gelada cintilavam com variadas tonalidades de azul. mas no centro da queda flamejava um surpreendente ponto dourado.
Quando o grande pássaro se aproximou, Haramis viu que era uma espiral de rocha, de cor leitosa, mas pintada de ouro. O que parecia uma agulha frágil, vista de longe, logo se transformou num afloramento de uns oitenta ells de altura e cinco ells de largura, aparentemente formado por quartzo branco com inclusões de metais preciosos. A erosão provocada pela queda da geleira, durante anos e anos, o transformara numa torre fina, esforçando-se valentemente para se manter acima de um mar caótico e gelado. No centro da espiral havia uma abertura sobre uma estreita plataforma de rocha.
— Só posso pairar para você descer, disse Hiluro. A plataforma é muito estreita para mim.
O enorme pássaro preto e branco desceu mais um pouco. A abertura da caverna tinha o dobro da altura de Haramis, mas parecia menor por causa da franja de sincelos que pendia da borda, como presas de diamante. Quase toda a pequena plataforma era coberta de gelo escorregadio, com pedaços de rocha branca aqui e ali.
Haramis tocou o amuleto, fez uma prece silenciosa e abraçou com força o pescoço coberto de penas de Hiluro, cruzando os dedos das duas mãos na frente. A princesa preparou-se, com o manto flutuando ao vento e os pés apontados para baixo. Ouvia o assobio agudo do ar passando entre as Penas do pássaro, acompanhado por um rugido trovejante e uma seqüência de notas musicais, que pareciam vir de um violino gigantesco.
Seus pés tocaram a superfície sólida. Haramis relaxou o corpo, desceu lentamente, e então largou o pescoço do pássaro. Abriu os olhos e viu o vulto imenso subir numa vertical. Precariamente equilibrada, apoiando-se nas mãos e nos joelhos, Haramis olhou para a moldura de ouro na entrada da caverna de gelo cintilante.
Pelo menos era o que parecia.
Impressionada e temerosa, Haramis olhou em volta. A espiral de rocha no meio da geleira vibrava como um diapasão sob o fluxo constante de gelo, enchendo o ar de sons musicais. Quantos milhares de anos de erosão foram necessários para desgastar o quartzo sólido com veios de ouro, formando aquela coluna esbelta e espiralada? Vista de perto, a torre de rocha parecia extremamente frágil. A abertura da caverna com seus grandes e amorfos pedaços de ouro, era parcialmente fechada pelas presas de gelo, que começavam a derreter à luz brilhante do sol.
Haramis ficou de pé, deslizou cautelosamente entre as presas semiderretidas de gelo e entrou na caverna. As paredes e o teto eram de gelo negro.
Sua atenção foi atraída por uma luz fraca no fundo, atrás do lençol de gelo. Caminhou para ela, sentindo o calor intenso do amuleto com o trílio sobre sua pele, como se quisesse atrair alguma coisa. O objeto brilhante seria o seu talismã?
Haramis aproximou-se da massa de gelo negro e da luminosidade. Não distinguia ainda do que se tratava, mas o amuleto estava cada vez mais quente. Seu talismã estaria preso sob o gelo? Nesse caso, como ia conseguir libertá-lo?
Chegou mais perto do brilho misterioso. O amuleto agora chegava a queimar sua pele. Haramis descalçou as luvas e segurando o cordão de ouro tirou a pedra de âmbar para fora da túnica. A flor parecia em chamas e o âmbar estava tão quente que ela mal podia tocá-lo. Tirou o cordão do pescoço, segurando-o na frente do rosto. O amuleto, em vez de pender para baixo, começou a puxar o cordão para a frente, na direção do brilho na parede de gelo. A luz chamejante do trílio transformou toda a parede numa placa de ouro brilhante. A claridade, dolorosa e ofuscante, refletiu-se nos olhos da princesa como um ponto grande dourado, circundado por um halo azul vivo.
O amuleto a arrastou para mais perto da parede. Agora o calor era tão intenso que Haramis afastou o rosto da pedra de âmbar. Com o canto dos olhos, na área não alcançada pela luz, ela viu Um filete de água descendo pela parede. O amuleto estava derretendo o gelo!
De repente, algo prateado desprendeu-se do ouro e deslizou para o chão. O amuleto se apagou e esfriou rapidamente, ficando inerte no cordão. Haramis inclinou-se para apanhar o objeto antes que ficasse preso outra vez no gelo. Sem enxergar ainda, sentiu seu peso na mão.
Esperou pacientemente que sua vista se libertasse da ofuscação. Seus olhos doíam e ela dominou o impulso de esfregá-los. Mas, apesar do desconforto, sentiu crescer no fundo do coração uma certeza absoluta. Por um momento, Haramis compreendeu o padrão do mundo e o lugar que ocupava nele. Sabia tudo, tinha poder sobre tudo, comandava tudo. Tornara-se o que sempre soube que seria... mas só por um momento.. e a sensação transcendente desapareceu.
Na caverna iluminada agora indiretamente pela luz do sol, Haramis percebeu que podia ver outra vez. Segurava um bastão de metal prateado, com a metade do comprimento do seu antebraço. Numa das extremidades tinha uma argola para o cordão e na outra, uma espécie de laço, bem maior, pelo qual ela podia passar a mão fechada. Na parte superior do laço Haramis viu o que a princípio pensou ser uma flor, do mesmo metal prateado. Olhou com mais atenção e percebeu que o que havia tomado por pétalas eram três pequenas asas, na posição vertical.
O Círculo de Três Asas. Seu talismã. Finalmente.
Então você saberá que a luta final por Ruwenda e por sua alma está para começar...
As palavras da Arquimaga pareciam ecoar na caverna de ouro e cristal e Haramis, sobressaltada, exclamou:
— Quem está aí?
O amuleto e o talismã acenderam-se ao mesmo tempo. Haramis instintivamente largou os dois e levou as mãos aos olhos. Mas mesmo através das mãos via o brilho intenso. A jovem manteve as mãos sobre os olhos até a luz se apagar. Estava um pouco ofuscada, mas não completamente cega como da primeira vez. Ajoelhou rapidamente procurando o amuleto e o talismã, esperando que não estivessem congelados no chão. Será que me acham indigna deles?, pensou, ansiosamente.
Com imenso alívio viu os dois sobre o gelo. Mas agora fundidos num só, com o amuleto do trílio encaixado entre as penas do bastão.
Uma fonte de poder. De magia...
Sim — aquilo era mágica!
— E como vou aprender a usar esta força? — Olhou fixamente para as três asas. — A Dama Branca disse que existem mais dois talismãs para minhas irmãs, e se nós três tivéssemos êxito na busca, a solução viria naturalmente. Mas isso não me diz muita coisa.
Do interior do anel prateado, sob as asas, erguiam-se pequenas nuvens de vapor perolado. Como num sonho, Haramis ordenou:
— Mostre-me se minhas irmãs tiveram sucesso! Então, ela viu Kadiya.
A princesa estava entre uma multidão de oddlings — uisgus, a julgar pela pequena estatura — e tinha na mão um objeto brilhante como uma Espada de Misericórdia, a lâmina sem ponta, com três pomos negros no punho. O povo do pântano a aclamava com entusiasmo.
Sim - murmurou Haramis. — Você tinha toda probabilidade de vencer. Mas a pobre pequena Anigel. Onde está você, tímida irmãzinha?
A imagem de Kadiya desapareceu do círculo e foi substituída por outra, a princípio irreconhecível — mas então Haramis deixou escapar uma exclamação abafada.
Anigel! Os cabelos dourados tremulando ao vento, o rosto, não mais redondo e docemente pálido, mas magro, corado, exultante. Olhos de safira semicerrados, indo de um lado para o outro, alertas. Haramis jamais teria imaginado. Ani, com roupas andrajosas e enlameadas, sentada num barco exótico, num rio, deixando uma esteira branca atrás. Ani, a tímida pequena Ani, sorrindo ferozmente enquanto duas criaturas aquáticas empurravam o barco numa velocidade de tirar o fôlego.
Impossível! — exclamou Haramis.
A imagem desapareceu.
A princesa olhou para o Círculo de Três Asas, vazio agora.
”Seriam visões reais? Era tão fácil então comandar o talismã?”
Uma terceira visão. A Arquimaga, na cama, muito mais fraca do que quando Haramis a vira, com os olhos fechados e o rosto pálido. Os lábios secos e enrugados não se moveram, mas Haramis ouviu-a dizer:
As três devem cumprir as tarefas que lhes foram destinadas, dominando-se a si próprias acima de tudo, antes que Ruwenda possa se libertar do jugo de Labornok e seja restabelecido o equilíbrio do mundo. Se uma falhar, todas falharão.
Mas isso não faz sentido! — protestou Haramis. — Eu sou a rainha de Ruwenda, é minha obrigação. E a profecia do seu povo diz que uma mulher derrotará o Rei Voltrik — não três mulheres!
A Arquimaga agonizante abriu os olhos insondáveis. Seus lábios continuaram imóveis.
Eu disse também que Voltrik não é o principal inimigo. A Arquimaga desapareceu.
Alguma coisa cintilou na parede onde o talismã tinha estado. Haramis ergueu os olhos e viu o rosto sorridente de um homem com cabelos brancos.
Era de idade indeterminada. A passagem dos anos não deixara nenhuma marca no seu rosto. Seus trajes eram negros e prateados e ele estava sentado a uma mesa repleta de aparelhos estranhos, ao lado de um livro enorme e um pequeno bloco. Segurava um estilo numa das mãos fortes e uma frutaladu rosada, meio comida, na outra. Foi este detalhe doméstico — inesperado num demónio com forma humana — que levou Haramis a começar a retribuir o sorriso.
— Princesa Haramis — a voz era clara como se ele estivesse ao seu lado. — Bem-vinda à nossa companhia.
— De que companhia está falando? — perguntou ela, muito séria. — A companhia dos assassinos labornoks? Sou diferente de você, Orogastus, escolho com muito cuidado meus companheiros.
O feiticeiro riu e pôs a pena e a fruta na mesa.
— Tem um raro espírito de humor, senhora. Devo admitir que o Rei Voltrik, o General Hamil e os da sua laia não são os companheiros que eu teria escolhido — se eu tivesse escolha.
— Se tivesse escolha? — perguntou Haramis, com ceticismo.
Orogastus continuou, com perfeita amabilidade.
— A companhia a que me referi é a dos magos. Confesso que nosso número está bastante reduzido atualmente, consistindo apenas em você, eu e Binah — aquela que chamam de Arquimaga. E temo que muito em breve seremos só nós dois.
— Está pensando em matar a Dama Branca, agora que ela está doente e fraca demais para se defender? — perguntou Haramis, com voz fria.
— Minha cara menina — é claro que não! Não sou um assassino desumano. O que vai levar Binah é a idade e a morte.
— Sua expressão era agora tristonha e pensativa. — Acho que esse dia chega para todos nós. Há mais ou menos trinta anos, havia no mundo somente duas pessoas com o poder da magia: meu mentor, Bondanus, e Binah. Bondanus passou seu poder para mim. Binah, contrariando toda lógica, vai diluir o seu, dividindo-o entre vocês três.
— Para salvar Ruwenda! — exclamou Haramis.
— Ruwenda... — O feiticeiro balançou a cabeça com ar zombeteiro. — Seu talismã pode fazer muito mais do que salvar Ruwenda! A visão de Binah, como sua vida, está se apagando. Na verdade ela não conhece a natureza do poder do Talismã Triplo! Mas você, Haramis, tem séculos à sua frente para estudá-lo e fazer bom uso dele.
— Séculos? — Haramis piscou rapidamente os olhos. Nunca havia pensado nisso. A prática da magia prolonga a vida tanto assim?
— Séculos — repetiu Orogastus com voz firme. — Contanto que você não se mate acidentalmente com ela, é claro. — Com um gesto, indicou o talismã na mão da princesa.
Idiota! Haramis disse para si mesma, fica aí parada com o talismã na mão. Aparentemente ele o reconhece. Mas como? Quanto ele sabe realmente sobre seu poder? Tudo indica que a Arquimaga não pode me ensinar, e não tenho tempo para descobrir, fazendo experiências — não, se quiser salvar meu reino e minhas irmãs.
— O Círculo de Três Asas — disse Orogastus, com um sorriso. — Estou feliz por você ter encontrado. Tenho alguns livros que falam a respeito dele e sempre desejei vê-lo.
— Tem livros que falam sobre o talismã? — perguntou Haramis. E pensou, Eu queria que ele fosse embora e me deixasse consultar sua biblioteca! — O que eles dizem?
— Muita coisa. Tanta que não posso explicar agora — você ficaria congelada antes que eu tivesse contado uma sexta parte. — Apontou para a caverna. — Está tão absorta na nossa conversa agradável que nem notou a passagem do tempo.
Haramis olhou em volta rapidamente. Orogastus tinha razão. O sol estava baixo no céu e a caverna começava a ficar escura e fria. Voltou-se para o espelho. A roupa de Orogastus parecia ser de material leve e havia muita luz onde ele estava.
O feiticeiro chamou-a com um gesto.
— Venha à minha casa, Haramis, à minha torre na montanha. Deixe que eu a ensine a usar o talismã. Seria agradável ter companhia aqui. O Monte Brom fica muito afastado e raramente tenho visitas.
— Você não quer a minha companhia — disse Haramis, com os olhos nos dele. — Só quer o talismã.
Para surpresa da jovem, Orogastus riu descontraidamente.
— Eu esqueci que tudo isso é novo para você. Ninguém pode tomar seu talismã e quem tentar morrerá. Mas você não sabe como usá-lo. Você o usa para ver ao longe! — Ele riu outra vez. — O mais ínfimo mágico oddling pode fazer isso com uma folha cheia d’água... Não, Haramis, você não compreende. Mas eu posso ensiná-la. Tenho uma grande biblioteca e um número sem conta de aparelhos dos Desaparecidos. Peço apenas a satisfação de compartilhar com você meus conhecimentos. Você tem fama de ser inteligente e estudiosa — não conhece o prazer da procura do conhecimento? A extrema satisfação de ver se transformar em lógica clara algo que não compreendemos?
— Sim — disse Haramis com um gesto afirmativo. — Sei o que isso significa.
— Então, venha ao Monte Brom — convidou Orogastus. — Com o talismã pode chamar seu lammergeier e mandar que a traga à minha torre e chegar em tempo para o jantar.
Então ele não sabe que Hiluro está aqui, pensou Haramis. Pelo menos ele não é onisciente. Orogastus ficou sério.
— Juro pelos poderes que nos são comuns que não tentarei tirar o talismã à força, e que não permitirei que qualquer mal seja feito à sua pessoa. Que meus poderes me abandonem para sempre se eu quebrar esta promessa. — Levou a mão ao coração.
— Assim seja — disse Haramis, automaticamente, a resposta aprendida durante anos, ouvindo promessas variadas. O espelho de gelo ficou escuro.
Muito bem, e agora? pensou ela. Vou à casa dele, procuro a Arquimaga, ou vou para outro lugar qualquer, para ver o que posso fazer sozinha?
As duas últimas alternativas não pareciam muito promissoras. Além disso, a Arquimaga não exigira que ela voltasse imediatamente. ”Quando você realizar a missão do Círculo de Três Asas, volte para mim”, foi o que ela disse. Queria dizer a simples possessão do talismã ou será que a capacidade de fazer uso dele faz parte do objetivo da missão?
Uma vez que Binah não me mandou voltar, quando falou há pouco no espelho, talvez queira que eu aprenda a usar o talismã, primeiro — e talvez este seja o momento de enfrentar Orogastus.
O feiticeiro era sem dúvida perigoso, mas pelo menos ela teria calor e comida na sua torre. A Arquimaga disse que eu devo conhecer as fraquezas dele, pensou ela. Provavelmente é parte do meu destino e será muito bom, para variar, cumprir meu destino num ambiente confortável!... E se tiver algum problema no Monte Brom, posso pedir a Hiluro para me levar embora.
Só então notou uma vibração crescente na espiral de rocha e sons que vinham de fora da caverna. O rugido trovejante da geleira misturava-se ao grito de aviso do lammergeier.
— Haramis! Venha para fora! Perigo! Grande perigo!
A princesa passou o cordão pelo anel menor do talismã, escondeu-o sob o corpete e foi para a entrada da caverna. As presas de gelo tinham-se partido com a vibração e a câmara no centro da espiral começou a se inclinar, balançando como um barco em águas revoltas. Haramis ergueu os braços. O pássaro branco e preto pareceu mergulhar diretamente do sol e alguma coisa se fechou em volta do seu corpo, erguendo-a da plataforma gelada. Ela viu um breve lampejo dourado, uma revoada barulhenta de prismas de arco-íris e o céu parecia girar, azul-violeta, atrás de uma enorme cabeça com crista.
Então o lammergeier planou suavemente, levantou a garra e a amparou com cuidado, enquanto ela subia para a concavidade macia entre suas asas. Haramis olhou rapidamente para o lugar onde antes estava a espiral de quartzo. Agora só a rocha, menos branca do que o gelo, marcava a superfície da geleira, e alguns pedacinhos de ouro cintilavam à luz do sol poente.