O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 21 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 20

 

O vento da montanha rugia no desfiladeiro, já trazendo grãos cortantes de granizo. O céu do fim de tarde tinha ainda alguns retalhos azuis, mas durante todo o dia as nuvens haviam se acumulado no sul, acima dos mais altos picos dos Ohogan — o Monte Brom, Monte Gidris e Monte Rotolo. Sem dúvida a tempestade chegaria antes da noite, como um dos arautos das chuvas que deviam começar dentro de duas semanas.

Orogastus estava extremamente cansado. Há oito dias haviam deixado a Cidadela de Ruwenda. O feiticeiro deixara sua escolta armada nas planícies de Labornok e agora, sozinho, aproximava-se do seu santuário, no alto do Monte Brom. Puxando mais para o corpo o casaco de peles, ordenou à sua montaria e aos froniais de carga que o seguiam.

Para a frente! Lá vão encontrar um estábulo aquecido, boa comida e água para beber. Vejam — estou mostrando!. Sigam a trilha! Continuem a subir! Logo o veremos, assim que vencermos a última curva lá em cima. Para a frente! Para a frente! Depressa!

Os três froniais ergueram as cabeças e as pontas douradas dos seus chifres cintilaram na luz mortiça do sol poente. Suas narinas se dilataram, pois graças às artes de Orogastus sentiam o cheiro da comida que os esperava no forte, no fim da trilha íngreme.

Apareceu então uma torre branca brilhante, com ameias e grades negras filigranadas nas janelas, na encosta do Monte Brom. Os animais revitalizados partiram no trote, passando depois para uma andadura rápida e macia. Com os tendões das pernas tensos e as caudas erguidas, venceram num instante as últimas poucas centenas de ells e então pararam bruscamente, bufando e relinchando, na beira do precipício onde a trilha terminava. Lá embaixo abria-se uma imensa fenda na montanha, com quase uma légua de profundidade e uns cinqüenta ells de largura, com uma torrente no fundo alimentada pela geleira. A fortaleza do mago ficava no outro lado da fenda e parecia completamente inacessível. O céu estava agora encoberto e fazia muito frio.

Orogastus tirou da bolsa que trazia no cinto um pequeno apito de prata e levou-o aos lábios. Uma nota muito alta e aguda soou, quase se perdendo entre os uivos do vento. Imediatamente as janelas negras da torre se iluminaram. O portão na torre de entrada distante se abriu, projetando uma faixa de luz na neve. Com um som surdo, apareceu uma abertura quadrada na rocha, logo abaixo do portão, e dela saiu uma ponte estreita, de forma estranha na parte inferior. O som surdo de trovão continuou até a ponte cruzar completamente o precipício entre a trilha e a torre.

Orogastus desmontou e vedou os olhos dos três froniais. Então, a pé, os conduziu para a estranha estrutura, que tinha uma grade muito baixa e não mais de um passo de largura. O vento uivante açoitava seu manto e balançava loucamente a pequena ponte. Um passo em falso e homem e animais despencariam no abismo. Mas Orogastus imobilizou a ponte com seus poderes mágicos e tranqüilizou os froniais. Eles o seguiram docilmente, mesmo quando surgiram os primeiros flocos de neve, e chegaram a salvo no portão. O feiticeiro então pôs a tranca na porta e apertando um botão na parede recolheu a ponte para o interior da montanha. Afinal, em casa!

Tirou o pesado manto de peles com uma exclamação de alívio. Os froniais relincharam e empinaram, mas o feiticeiro com uma risada retirou as vendas, os arreios da sua montaria e a carga dos outros animais. Então conduziu as fiéis criaturas por um corredor iluminado por lâmpadas estranhas, que brilhavam sem chama, até o estábulo feito na rocha, mas seco e equipado com todo o necessário para o conforto dos froniais.

Enquanto os alimentava e os preparava para o descanso, Orogastus resmungava bem-humorado. Normalmente esse trabalho era feito por seus acólitos dedicados, mas eles estavam na Cidadela de Ruwenda, cuidando do Rei Voltrik e aguardando suas ordens, assim o Mestre tinha de acomodar os animais e se encarregar do próprio conforto. Orogastus conhecia perfeitamente os trabalhos domésticos, pois recrutara as Vozes há apenas dez anos. Antes disso, era ele quem cuidava do seu refúgio sofisticado, construído por operários do Rei Voltrik, sob sua orientação.

Agora, subindo a escada de pedra em espiral, para seu apartamento no andar central da torre, Orogastus pensava que era bom estar sozinho. As últimas dez semanas foram as mais árduas e tensas da sua vida — primeiro, a morte do velho rei e a posse de Voltrik, depois os preparativos para a invasão e a marcha sobre Ruwenda. A vitória fora paradoxalmente fácil. Somente o estranho ferimento na mão do Rei Voltrik e a fuga das três princesas empanaram o brilho do grande plano do mago.

Bem, as Vozes garantiam que Voltrik estava se recuperando afinal, e se tudo corresse bem logo os esconderijos das princesas não seriam mais segredo para ele. Trataria desse assunto imediatamente, adiando o próprio conforto para depois da consulta ao espelho de gelo.

Entrou nos seus aposentos, deixou a carga com os suprimentos perto da lareira da sala de jantar, parando apenas para acender o fogo já preparado na lareira, com seu acendedor mágico. Foi até o quarto para trocar a roupa de viagem, molhada e suja, pelos trajes negros e prateados e o chapéu que usava para os encantamentos mais solenes.

Não quis perder tempo com um banho, mas limpou-se com uma esponja molhada, pedindo perdão aos Poderes das Trevas — e então riu baixinho, pensando que provavelmente esses poderes o preferiam sujo como eles próprios. Sentiu o frio gelado da malha metálica do manto do cerimonial sobre a pele e estremecendo esqueceu de recitar as preces rituais enquanto o vestia. As luvas de couro prateadas e o chapéu com a forma dramática de estrela cintilante e meia-máscara estavam mais quentes, mas em lugar das sandálias de praxe calçou botas forradas de pele, antes de se dirigir ao túnel que levava à Caverna do Gelo Negro, nas profundezas da montanha.

O ar saía da sua boca como uma nuvem branca no ar úmido do túnel iluminado e Orogastus o atravessou com passos rápidos, rezando para que o espelho de gelo lhe desse as respostas imediatamente, sem nenhuma demora. Nunca se podia ter certeza com aqueles instrumentos dos Desaparecidos. Mesmo observando todo o ritual e entoando os encantamentos adequados, podiam ser caprichosos. Mas, por favor — não esta noite, pois ele estava exausto e faminto!

Chegou a uma porta maciça, que estava sempre coberta de geada, mesmo na estação mais quente, reuniu toda a coragem e entoou o primeiro encantamento. Pediu perdão aos Desaparecidos por perturbar sua antiga tranqüilidade, mas ordenou severamente que o servissem, em nome dos Poderes das Trevas. Só então abriu a porta.

A Caverna do Gelo Negro estava como sempre. Como Orogastus a havia encontrado — fora chamado para ela! — logo que chegou a Labornok com o então príncipe herdeiro Voltrik. (Só mais tarde Orogastus mandou construir a fortaleza, para proteger a caverna e facilitar o acesso às maravilhas que ela guardava.) Era uma câmara enorme abobadada, rusticamente cortada no granito com veios de quartzo, no Monte Brom, com pedaços de gelo negro incrustados aqui e ali nas paredes. As lajotas do assoalho eram de um material estranho, que parecia obsidiana brilhante, e o mesmo material — muito parecido com o gelo — fora usado na construção de milhares de nichos e quartos pequenos com portas. Dentro deles ele havia encontrado os aparelhos fantásticos que o afastaram da magia abstrata, aprendida com Bondanus, e que haviam reforçado sua influência sobre o reino de Labornok. Orogastus não conseguiu abrir as fechaduras muito antigas de vários compartimentos. Mas outros — incluindo a sala do espelho de gelo — haviam revelado facilmente seu segredo.

Erguendo as mãos com as luvas prateadas, ele disse, em voz alta:

— Poderes das Trevas! Mais uma vez agradeço suas dádivas. Permitam que eu faça uso delas sem me prejudicar.

Abriu então uma das portas de obsidiana e entrouna do espelho.

Era uma câmara com poucos passos de profundidade. Em quase toda a parede interna uma massa informe de gelo cobria completamente os misteriosos aparelhos que flanqueavam o espelho circular. Tremendo de frio e de apreensão —pois, se o espelho se recusasse a responder, seu grande plano para dominar o mundo estaria desfeito —, ele entoou o encantamento:

— poderoso espelho de gelo! Olho vidente dos Desaparecidos! Acorda e atende ao meu pedido!

Esperou.

A princípio, a superfície cinzenta refletiu apenas a imagem do feiticeiro, um homem alto e robusto, envolto no manto negro e prateado, coroado por um diadema em forma de estrela e com a parte superior do rosto oculta pela máscara. Então, apareceu uma luz fraca no centro do espelho... e ouviu-se uma voz distante, áspera como a de um homem agonizante, que não parecia humana.

— Respondendo. Seu pedido, por favor.

Orogastus ficou imóvel. Embora estivesse quase congelado, o suor desceu da sua testa, até os olhos, sob a máscara. Aquele era o momento crucial. Se cometesse um erro no enunciado da pergunta, o espelho, ofendido, se apagaria e permaneceria assim pelo menos dois dias, até se ”recobrar” do insulto. Mentalmente, Orogastus ergueu outra prece aos Poderes das Trevas. Então, disse, com voz inexpressiva:

— Procurar três pessoas. Localizar a posição atual das três pessoas, no mapa.

A luz no espelho ficou mais intensa. Um turbilhão de sombras azuis-prateadas materializou-se no centro do disco.

— Pedido aceito. Diga o nome das três pessoas.

— Princesa Anigel, de Ruwenda. Princesa Kadiya, de Ruwenda. Princesa Haramis, de Ruwenda. — A cada nome Pronunciado ele procurava formar na mente a imagem da Princesa citada.

— Procurando — disse o espelho e Orogastus quase desmaiou de alívio. Ia funcionar, afinal.

O espelho disse:…

— Número um: Princesa Anigel, de Ruwenda. Localização: Sá quatorze dois, Lo setenta e um dez no Gráfico Oma. — A linguagem técnica foi seguida por um mapa em diagrama mostrando uma luz piscante no Rio Mutar, abaixo da Cidadela, a poucas léguas do Lago Wum.

Orogastus controlou-se heroicamente. Qualquer palavra ou movimento em falso podia desligar para sempre o espelho. O feiticeiro procurou memorizar o lugar indicado. Logo em seguida, o mapa desapareceu e foi substituído por um retrato colorido e animado da princesa, como se ela estivesse viva ali, dentro do gelo cinzento. Anigel estava sentada na popa de um barco, segurando duas correias que pareciam rédeas. A embarcação deslizava rapidamente na água. Atrás da princesa estava uma oddling que virou a cabeça para o pôr-do-sol vermelho e disse claramente:

— Acho melhor pararmos para a noite, meu bem. Naquela lagoa deve haver muitos peixes para os rimoriks.

Então a imagem desapareceu.

— Número dois: Princesa Kadiya, de Ruwenda — disse o espelho suavemente. — Localização: Mo vinte e nove quatro, Vi noventa e cinco no Gráfico Oma.

A luz piscante indicava que a princesa estava a oeste da selva infestada de skriteks, conhecida como Inferno dos Espinhos.

Contendo uma exclamação de espanto, Orogastus olhou fascinado para a imagem da segunda das trigêmeas, ajoelhada num banco de lama, ao cair da noite, tentando acender uma pilha de casca de trepadeiras. No fundo um oddling tirava alguma coisa de um barco dos nativos.

Kadiya disse:

— Já assoprei até ficar azul, Jagun, mas não consigo acender esta coisa danada. Acho melhor você tentar agora.

A imagem desapareceu.

— Número três: Princesa Haramis, de Ruwenda. Localização: Pa quarenta e dois três, No dezesseis oito, no Gráfico Oma.

A luz indicadora piscou na mais estranha posição — no alto da encosta do Monte Rotolo, o segundo pico mais alto dos Montes Ohogan, perto da nascente do Rio Vispar e a uma ou duas léguas da aldeia secreta dos oddlings vispis.

Quando a terceira imagem surgiu no espelho, Orogastus conteve a respiração. A cena estava escura, com uma luz violácea, e ele imaginou que devia ser dentro de uma caverna na frente da encosta de uma geleira. Um vulto destacou-se da sombra, transformando-se na figura de uma mulher com um manto branco, olhando para fora.

Haramis disse:

— Sobreviverei a esta noite? Eles estão lá à minha espera — os Olhos do Redemoinho — e só tenho mais uma das sementes de trílio que me trouxeram a este lugar de gelo e de morte. É o fim. Não tenho mais alimento e a neve alta me impede de seguir viagem. A não ser que os vispis venham me socorrer, terei falhado na minha missão para encontrar o Círculo de Três Asas.

A imagem desapareceu.

Então, soaram as palavras inevitáveis do aparelho mágico.

— Poder Bahkup temporariamente exausto. Pausa para recarregar.

A luz e a voz do espelho de gelo desapareceram.

— Agradeço a todos os Poderes das Trevas — Aysee Lyne, Inturnal Bataree e Bahkup — entoou Orogastus, com uma profunda curvatura —, e ao Grande Systema por eles operado, para todo o sempre, assim seja.

Então recuou, caminhando humildemente de costas, fechou a porta de obsidiana da sala do espelho e voltou correndo para seu apartamento.

Bem mais tarde, depois de um banho demorado e de um bom jantar, Orogastus consultou o antigo Livro das Profecias da Península, sentado na frente do fogo, na sua sala de trabalho, tomando um brandy suave. Lá fora, a tempestade de neve uivava entre as ameias da torre.

O Círculo de Três Asas...

Sim, era mencionado no livro, ao lado de dois outros símbolos obscuros — o Olho Chamejante de Três Partes e o Monstro de Três Cabeças. A referência não era muito clara, mas aparentemente os três estavam destinados a se unir, precipitando assim algum evento climático.

— Pode ser — pensou Orogastus — que as outras duas princesas estejam também procurando seus talismãs, como Haramis procura o seu. E quando os encontrarem e se reunirem, as três jovens poderão então ter poder para derrotar Labornok?

Durante algum tempo olhou pensativo para as chamas, resolvendo o que ia fazer. A necessidade de eliminar as princesas Anigel e Kadiya era evidente, mas a princesa Haramis era outra coisa...

Orogastus recostou na cadeira, fechou os olhos e levou as pontas dos dedos às têmporas.

— Minhas Vozes! — entoou ele. — Escutem-me!

Três imagens formaram-se em sua mente, um vulto impreciso, vermelho, outro azul e outro verde, aos poucos assumiram as formas dos seus três servos encapuzados. Não tinham olhos, mas sua expressão era de entusiasmo.

— Mestre! Conseguiu?

— Sim, fiquem atentos para a mensagem! Aqui está a posição atual da Princesa Anigel. e aqui a de Kadiya.

— Recebemos sua mensagem, Mestre Todo-Poderoso. E a Princesa Haramis?

— Eu a encontrei também. Mas, escutem! O General Hamil deve partir imediatamente, com pelo menos metade do seu exército, no encalço da Princesa Kadiya, que está numa região muito perigosa. A Voz Vermelha deve acompanhar Hamil e se comunicar comigo dia sim, dia não, até ela ser encontrada.

— Obedecerei — disse a Voz Vermelha.

— A procura da Princesa Anigel — continuou Orogastus — deve ser conduzida pelo Príncipe Antar e seus cavaleiros. A Voz Azul o acompanhará.

— O príncipe e seus cavaleiros voltaram de Trevista há quatro dias — disse a Voz Azul. — Será fácil para nós encontrar Anigel se ela está tão perto como disse.

— Nada é fácil quando se trata da Arquimaga Binah — censurou Orogastus com voz severa. — Não esqueçam que as jovens estão protegidas pelo que resta da sua magia. E se elas conseguirem encontrar certos novos talismãs muito poderosos, chamados o Olho Chamejante de Três Partes e o Monstro de Três Cabeças, seus poderes mágicos serão muito reformados. É imperativo que a princesa seja capturada e -morta, e que o talismã fique reservado para mim.

— Compreendemos — disseram as Vozes.

— Tenho outras instruções para a Voz Azul -acrescentou o feiticeiro — a respeito do Príncipe Antar.

— Acredito que já sei do que se trata, Mestre,— a Voz Azul riu malevolamente. — Seria triste se o príncipe sofresse um acidente mortal depois de ter cumprido seu dever.

— Não deve haver a menor sugestão de sua participação — advertiu Orogastus.

A Voz Verde disse:

— E eu acompanharei o grupo que vai procurar a Princesa Haramis, Mestre?

— Não. Você fica com o Rei Voltrik, cuidando para que ele se restabeleça completamente, tranqüilizando-o sempre que eu enviar os relatórios dos progressos das missões.

— Mas Haramis..

— Eu pretendo — disse Orogastus — cuidar pessoalmente da Princesa Haramis.