O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 24 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 23

 

A pequena e estranha raiz nadadora conduziu Kadiya e Jagun por algum tempo, descendo novamente o Rio Nothar, e logo virou para a esquerda, começando a subir um afluente sem nome. Dirigiam-se agora, sem dúvida, a um território proibido, a selva traiçoeira chamada Inferno de Espinhos.

Para não perder de vista a frágil guia, tinham de se aventurar por trechos abertos e desprotegidos do rio. Às vezes a água era tão rasa que Kadiya e Jagun desembarcavam e puxavam a canoa. Num desses trechos, Jagun encheu o barco de junco para que parecesse uma moita arrancada e carregada pela água.

Naquele primeiro dia, Kadiya deitou-se no fundo do barco, espiando através do trançado de junco. Jagun fez o mesmo quando começaram a ver pequenos grupos de skriteks. Kadiya tampou a boca para conter a náusea. Ouvira falar muito das temíveis criaturas que estava vendo agora, mas nada do que tinha imaginado era tão horrível quanto a realidade.

O primeiro grupo parecia estar caçando a pé e havia jovens entre eles. Ali, no seu território, nem sempre eles recorriam ao afogamento e caminhavam ousadamente à procura da vítima. Separaram-se, um grupo seguindo em frente para vigiar do alto de um monte de lixo, enquanto o resto caminhou na direção deles, batendo no chão os pés de três dedos, abrindo caminho no mato com os cabos de lanças rústicas e bordões. As criaturas da floresta saíam dos esconderijos, saltavam, corriam ou tentavam voar, assustadas com o barulho, e o outro grupo de skriteks as apanhava com facilidade. Não esperavam para levar a caça até seu acampamento, mas comiam imediatamente, algumas das vítimas ainda com vida, e eles brigando pelos pedaços maiores e melhores. Assistindo a isto, Kadiya sentiu na boca o gosto amargo da bile. Mas continuou a olhar e ver o que eles faziam. Pois havia aprendido uma coisa com Jagun: conhecer bem os hábitos do inimigo, seus movimentos, o que come, onde dorme, quais os costumes do grupo, aprender tudo isso e lembrar.

Enquanto se escondiam dos demónios do pântano, a guia cintilante aparentemente — por instinto, se isso era possível — procurou também um lugar mais seguro, deslizando devagar sob o abrigo da folhagem.

O segundo grupo de skriteks que encontraram passou mais tarde, quase no fim do dia. Dessa vez não ouviram gritos roucos, nem batidas com as lanças na vegetação cerrada. Caminhavam descontraídos, como que seguindo uma trilha que Kadiya não podia ver do barco. E havia mais alguém com eles! Um ser humano! Kadiya deixou escapar uma exclamação abafada e Jagun a advertiu com um gesto para ficar quieta.

Era sem dúvida um homem que caminhava ao lado dos skriteks, e não era prisioneiro. Estava vestido de vermelho, com a roupa molhada e suja de lama. Um capuz cobria sua cabeça e parte do rosto. Estava armado com espada e lança curta. Conversava com os companheiros monstruosos numa série de ruídos guturais que pareciam impossíveis para a garganta de um ser humano, aparentemente discutindo com um dos afogadores — apontando numa direção, enquanto o skritek queria seguir por outra. E ele venceu a pequena disputa.

Em toda a história, nas lendas, no folclore dos nyssomus e dos uisgus, das terras baixas e da Cidadela, jamais houve uma trégua entre os skriteks e outra raça. Agora via que Jagun estava certo. Voltrik ou Orogastus tinha aliciado aquelas criaturas horríveis para seu serviço. Porém, os skriteks eram famosos por suas traições. Era um homem bravo o que caminhava com eles, mesmo que estivesse servindo a uma causa assassina. Sua atitude confiante parecia sugerir que estava protegido por algo mais do que a força das armas ou a persuasão das palavras.

Deve ser uma das Vozes! Kadiya estremeceu. Levou a mão ao amuleto. Esconda-nos, pediu ela, silenciosamente. Proteja-nos!

Quanto ao que — ou a quem — aquele grupo procurava, Kadiya não tinha dúvidas. Não sabia onde estavam Anigel e Haramis, mas ela estava ali. Aquele bando de skriteks, farejando as trilhas, acompanhado por um dos servos de Orogastus, estava à sua procura. Era espantoso o fato de o acólito do feiticeiro não ter detectado sua presença. Certamente Orogastus tinha outros meios de busca, além dos olhos e dos ouvidos. Kadiya mal acreditou quando o bando passou sem nenhum sinal de alarme. Mas a magia do Trílio Negro não era vencida facilmente.

Kadiya esticou o corpo e olhou para a água. A raiz-guia boiava imóvel, como se estivesse sobre uma mesa. Kadiya tirou o amuleto de sob a blusa. O âmbar cintilava com força e a raiz verde, na água, cintilou em resposta, voltando à vida. Antes virada para a margem onde terminava a trilha, agora ela mudou o curso, até ficar paralela à margem oposta. Jagun apanhou a vara e o barco se moveu.

Seguiram muito próximo da margem, sempre alertas ao menor movimento, parando uma vez ou outra enquanto Jagun usava o ouvido e o olfato para detectar qualquer coisa estranha. Ouviam só o zunido dos insetos e as vozes finas dos habitantes da lama, os sons naturais do dia.

Porém, essa tênue confiança foi logo abalada. Chegaram ao fim da parte mais larga do rio e a uma barreira que parecia uma ilhota, erguendo-se alta da água. Na terra escura, a raiz-guia apontava direto para a frente. Um pouco acima deles, esqueletos negros de árvores apodrecidas formavam um emaranhado sobre o qual apoiavam-se o que pareciam trepadeiras. O chão estava coberto de plantas redondas, como bolas enormes, vermelho-azuladas.

Jagun apontou para a que estava mais próxima.

— São assassinas, alimentadas pela imundície deste solo. Evite chegar perto delas como evitaria uma faca envenenada, filha do rei.

O silêncio era completo naquele pedaço de terra onde não medrava qualquer forma de vida que não fosse maléfica.

A raiz-guia continuava apontando na mesma direção. Deviam continuar em frente.

Um cheiro pútrido quase fez Kadiya vomitar. Não precisou o aviso de Jagun. Notou o movimento entre as árvores mortas, um som pegajoso e uma skritek apareceu.

Não parecia alerta, mas arrastava-se, apoiada num cajado, balançando o corpo de um lado para o outro. A carne esverdeada do corpo atarracado era manchada, a barriga enorme, toda ela muito mais pesada na parte superior. Apoiou-se num galho que se partiu, esfarelando na sua mão. A skritek caiu de joelhos. Por mais que se esforçasse, não conseguiu ficar de pé e arrastou-se até encontrar uma árvore um pouco mais resistente.

Contorceu o corpo e abriu a boca para um grito rouco. De baixo da barriga enorme saiu um objeto branco, contorcendo-se como se tivesse vida própria, caiu no chão e começou a saltar. Foi seguido por outro e mais outro, e outro ainda, até Kadiya contar dez crias gordas, dez vermes gordos, esbranquiçados, do tamanho da cabeça de um bebê humano.

A mãe skritek caiu exausta, encostada na árvore, e os dez filhotes, que pareciam reclamar alguma coisa, avançaram juntos para a fêmea que acabava de lhes dar à luz. Evidentemente estavam se alimentando.

Jagun aproximou-se da princesa.

— As crias nascem famintas. — Ele falava muito baixo. — E aquela infeliz fêmea não tem carne suficiente para satisfazer toda a ninhada.

Duas ou três daquelas coisas nojentas afastaram-se da carcaça da mãe. Duas arrastaram-se como vermes na direção da canoa escondida. Kadiya não via nada que parecesse uma cabeça naqueles seres disformes, embora andassem com a parte da frente um pouco mais alta. Depois de se balançar no ar, eles seguiram em linha reta para a canoa e começaram a entrar na água.

Jagun moveu-se rapidamente. Sua zarabatana estava pronta e o primeiro dardo bateu no corpo da larva com uma pancada surda. O segundo acertou a que vinha logo atrás. Os filhotes bateram com a parte da frente no chão e ficaram imóveis.

Jagun tirou da sacola de caça uma tira dobrada de um material fino como um véu. Partiu pela metade e deu uma parte para Kadiya, indicando, com gestos, que ela devia seguir seu exemplo. Enrolou a tira fina na cabeça, cobrindo os olhos, o nariz e a boca. Examinou o nó na tira de Kadiya antes de continuar.

Outras larvas de skriteks caminhavam para a canoa, com a parte da frente erguida, farejando a presa. Dessa vez Jagun não apontou para elas, mas para as plantas azul-avermelhadas que cobriam o solo da ilhota. A primeira, atingida pelo dardo, explodiu como se algo muito potente estivesse se libertando de dentro dela. Uma nuvem azul ergueu-se no ar, seguida por outra e mais outra, até formarem uma neblina espessa de esporos que desceu lentamente. Jagun levou o barco para o meio do rio e ficaram ali até a nuvem se esgarçar e cair toda no solo. Onde estavam os skriteks viam-se agora massas gelatinosas que aos poucos desapareciam na terra.

Kadiya inclinou-se para fora e apanhou a haste do trílio que resistiu, apontando sempre para a frente. Finalmente, deslizou dos dedos dela e voou, como se Kadiya a tivesse lançado para cima. Não havia dúvida, a haste estava agora onde haviam estado os skriteks, apontando para o interior da ilha. Kadiya olhou para Jagun, ele deu de ombros.

Então o oddling disse, com a voz abafada pela máscara fina.

— Para lá fica o Inferno de Espinhos, Olhos Penetrantes. Parece que não temos escolha.

Que não tinha escolha era evidente. Não podia deixar a trilha destinada para ela pela magia da Arquimaga. Kadiya subiu para terra. A raiz do trílio continuou resolutamente seu caminho, dando uma volta para evitar as plantas venenosas.

— O que há lá adiante? — perguntou Kadiya, passando os braços pelas alças da mochila.

Jagun balançou a cabeça.

— Terra desconhecida, filha do rei. Se tivermos sorte, podemos chegar às terras dos uisgus.

Kadiya desviou cuidadosamente de uma planta redonda, sem olhar para onde estavam os ossos da fêmea skritek devorada.

— Sorte? — A princesa riu com amargura. — Ninguém consegue ter sorte por tanto tempo.

Chegaram a um canal cercado de mato com água verde e espumosa. Havia uma árvore morta atravessada sobre ele. As marcas na lama indicavam que era usada como ponte. Kadiya abaixou-se para apanhar a raiz do trílio, temendo que ela caísse na água e se perdesse. A raiz-guia ficou rígida e reta na sua mão. De uma das extremidades saía um vapor que parecia um fio de fogo negro e, embora nenhuma brisa soprasse, ela apontava para a frente na direção que deviam seguir, a selva de plantas enormes e espinhosas, duas vezes mais altas do que um homem.

Viajaram durante horas. Finalmente, Jagun disse:

— Vamos parar aqui esta noite.

O lugar para onde a raiz os levara era uma pequena elevação, sem plantas espinhosas nem bolas cheias de veneno, circundada por uma relva alta de hastes cortantes. Embora tivessem visto poucos sinais de ruínas, desde que deixaram Noth, era evidente que aquela elevação não era obra da natureza. Kadiya segurou um pequeno arbusto para ajudá-la na subida e a planta saiu na sua mão, com raiz e terra, deixando a descoberto o que parecia ser pedra trabalhada. Não era o granito escuro das ruínas que ela conhecia, mas um mineral mais macio, tão liso que parecia impossível que o mato pudesse crescer sobre ele. E refletia a luz do poente com um brilho estranho.

— O que é isto? — Kadiya perguntou.

Talvez a raiz-guia os tivesse levado a algum aparelho tão enorme que ela nem podia imaginar o que era nem para que servia. Cavou mais um pouco a terra. Aquela ruína não era de pedra. Tinha uma superfície lisa e macia.

Jagun olhou para a descoberta e desviou os olhos apressadamente.

— É dos Desaparecidos.

Fez um gesto breve no ar e olhou fixamente para a raiz do trílio na mão de Kadiya. A chama negra que até ali indicava o caminho a seguir curvou-se por um momento, depois ficou reta, circundada por um halo verde.

De repente, a dúvida que a atormentava há tanto tempo dissipou-se. Kadiya subiu até o topo da pequena elevação e viu que estava de pé na borda do que parecia uma bacia enorme. Os lados desciam íngremes e deslizamentos freqüentes provocados pelas tempestades haviam retirado a lama e os detritos de partes da superfície que era lisa e sem marcas.

Kadiya ficou atónita e depois começou a rir.

— Caçador, esta terra guarda muitas surpresas. Talvez a sorte esteja conosco, afinal, pois sinto...

Ergueu os braços -abertos e respirou fundo. Os Desaparecidos pareciam aprovar sua presença naquele lugar, até mesmo a recebiam alegremente. O coração de Kadiya ficou mais leve. Os terrores e sofrimentos dos últimos dias pareciam pequenos e distantes. Não sentia mais a fadiga da jornada, apenas uma excitação crescente e a crença de que, fosse o que fosse, o que a esperava a ajudaria a atingir seu objetivo.