O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 34 de 46

Páginas do PDF

O Trílio Negro

Capítulo 33

 

Com a dor de cabeça mais terrível de toda a sua vida, Haramis sentou no leito enorme, gemendo e segurando a cabeça latejante com as duas mãos. Furiosa com a própria tolice, procurou lembrar com detalhes os acontecimentos da noite anterior. Mas a dor e a náusea a impediam de pensar.

Teria ele usado algum encantamento para enfraquecer sua vontade, enganá-la e atraí-la para sua casa?

— Entrei nesta armadilha como uma asa-de-gaze voando para a teia da lingit! Fui imprudente como Kadiya e mais tola do que Anigel! Ó, minha cabeça dói tanto!

Uma parede da câmara era de pedra coberta com tapeçarias, e havia duas janelas com vitrais por onde ela via a luz cinzenta do dia e a neve caindo. Velas novas em nichos dourados iluminavam as outras paredes recobertas até a metade com madeira de lei, onde estavam pendurados quadros com paisagens estranhas. O fogo crepitava na lareira emoldurada por azulejos coloridos, com atiçadores de formato estranho ao lado. Surpresa, Haramis percebeu que de uma pequena grade, ao lado da cama, saía ar quente. Olhou para a porta. Era de madeira-gonda pesada, com estrelas entalhadas, faixas e dobradiças de ferro e uma fechadura maciça.

Trancada. Encurralada

Como?

A cama de dossel com acolchoado de penas, lençóis macios e franjas de brocado.

Lembrou-se de Orogastus levando-a para a cama quando seus sentidos começaram a abandoná-la, depois de uma longa conversa ao pé do fogo e vários copos de brandy morno. Ele riu ao fechar a porta, ela ouviu a chave girar na fechadura e, por algum motivo estranho, começou a chorar. Então, sentada na beirada da cama, sentiu-se tonta e, com as últimas forças, tirou a roupa, deitou-se e mergulhou num sono profundo.

Veneno. Teria ele tentado envenená-la para roubar...

Haramis ergueu a mão trêmula. Mas o talismã estava ainda a salvo entre seus seios, no cordão de ouro. O bastão. O Círculo de Três Asas.

— Graças aos Senhores do Ar. Bateram na porta.

— Vá embora — gemeu ela. — Será que não pode me deixar morrer em paz?

— Haramis, você não está morrendo — disse Orogastus, calmamente. — Abra a porta.

— Você mesmo a trancou, seu vilão!

— Veja na mesa, ao lado da lareira, Haramis.

Devagar, para evitar que a cabeça latejante se partisse em mil pedaços, ela levantou e saiu da cama. Viu um par de chinelos de pele negra ao lado da cama, sobre o tapete, e numa banqueta um roupão de veludo pesado e acolchoado. Calçou os chinelos, vestiu o roupão e caminhou para a lareira.

Na mesinha graciosa, com uma cadeira de couro vermelho ao lado, estava um cesto com pão fresco e um suporte de prata e ouro com potes de cristal cheios de geléias. De um bule alto de prata saía uma fumaça cheirosa. E sobre o guardanapo de puro linho, a grande chave de bronze.

— Por favor, deixe-me entrar — disse o feiticeiro. — Não quero que continue sofrendo. Juro que não vou lhe fazer mal.

Estaria mentindo? Será que ela se importava? Qualquer coisa que ele fizesse não podia fazê-la sentir-se pior do que se sentia agora.

Apanhou a chave, quase cambaleou até a porta e, depois de algumas tentativas, conseguiu abrir a fechadura.

Ele girou a maçaneta e entrou, alto, todo vestido de branco. Um braço forte a conduziu até a cadeira na frente do fogo. Haramis deixou-se cair, desanimada.

-— Você podia ter aberto a porta facilmente — disse ela, em tom acusador. — Não negue! Não precisava nem arrombála com seus relâmpagos! Que fechadura pode resistir a um feiticeiro? Você, ou um dos seus demónios, já esteve, no quarto, pois o fogo está aceso e a mesa arrumada!

Ele estava servindo o líquido quente na xícara. Era chá darei, e o perfume a animou um pouco.

— Não tenho nenhum assistente neste lugar. E não estive no quarto, embora tenha feito o fogo se acender e a comida aparecer. É o que eu chamo mágica utilitária. — A voz profunda estava alegre. — Admito que podia ter forçado a fechadura, mas não é assim que se trata uma hóspede. Agora, tome seu chá e coma alguma coisa. Então, se achar que pode me perdoar, volte à minha biblioteca na torre principal e continuaremos a conversa interrompida ontem à noite.

Haramis olhou para ele, constrangida.

— E se eu não quiser aceitar mais a sua hospitalidade? Ele inclinou a cabeça, escondendo o rosto.

— Seu lammergeier está dormindo no alto desta torre. Ele virá se o chamar. No quarto do outro lado do corredor há uma varanda — coberta de neve e de gelo, mas com bastante espaço para você subir nas costas dele e voar para onde quiser... se é isso que realmente deseja.

Ele saiu e fechou a porta que havia deixado aberta.

Haramis levantou-se da mesa e foi até uma das janelas. Apesar da neve espessa que caía, viu o abismo negro que cortava o flanco do Monte Brom, isolando a torre de Orogastus do outro lado da montanha. Como ele havia chegado até ali, vindo da Cidadela? Sem dúvida não podia voar! E sobre o que tinham conversado na noite passada?

Haramis lembrava-se claramente de ter chegado na torre no começo da noite. Orogastus estava de pé, no portão aberto, seu vulto em silhueta contra a luz, como se ela fosse uma hóspede há muito esperada. Ele foi delicado, mas não solene, e não parecia um feiticeiro, mas um lorde bem-educado de um castelo pouco convencional.

Seu cabelo longo tinha o branco brilhante das nuvens de verão, emoldurando o rosto maduro mas sem rugas. Os olhos, que nos sonhos e nas fantasias de Haramis cintilavam como estrelas, tinham agora a cor das águas profundas. Vestia uma túnica folgada com cinto, calções justos e sapatos macios — tudo imaculadamente branco. Do seu pescoço pendia um cordão de platina com um grande medalhão onde estava gravado o emblema de uma estrela com muitas pontas.

Orogastus desempenhou o papel do anfitrião delicado, mostrando a ela certas partes da torre, como o solar, a sala de música (que foi uma surpresa para a princesa), a grande biblioteca e, finalmente, sua sala de trabalho, onde o fogo alto na lareira fazia desaparecer qualquer lembrança da tempestade que rugia lá fora. Tapetes de pele cobriam o assoalho e uma mesa com velas estava arrumada para dois.

Orogastus havia preparado pessoalmente um jantar simples. Depois, sentaram no tapete, na frente do fogo, tomando brandy...

”O que foi que eu disse?”, tentou, em vão, se lembrar. Comeu uma rosquinha e tomou quase todo o chá.

Uma pequena porta que não havia notado antes abria-se para o quarto de banho, suntuoso e de bom gosto. Lâmpadas sem chamas dentro de conchas de cristal acenderam-se quando ela entrou. As paredes e o assoalho eram de azulejos verde-pálido e aquecidos por um hipocausto central — imaginou ela. Havia um espelho alto com moldura de ouro, uma penteadeira com pentes e escovas com cabos também de ouro, uma coleção enorme de outros artigos exóticos de toalete, e potinhos de cremes, vidros com essências para perfumar a água, e talco com um pufe de penas. Água quente e fria jorrou automaticamente das torneiras douradas na banheira de pedra verde onde quase se podia nadar. A água parou quando a banheira ficou cheia. Havia pilhas de toalhas macias. Em vez do quartinho separado, havia também um vaso moderno, um luxo exótico do qual Haramis ouvira falar, mas nunca tinha visto.

Haramis mergulhou feliz na água morna, mas sem largar o talismã pendurado no cordão no seu pescoço.

Mais tarde ela foi se encontrar com Orogastus, vestida com os trajes de montar dados pelos vispis e o cabelo negro numa única trança longa nas costas. Ele estava na biblioteca, consultando um livro e tomando notas numa espécie de bloco brilhante e estranho, com uma pena. Quando Haramis entrou, ele colocou um marcador de couro franjado na página que estava lendo e fechou o livro. Tocou com um dedo um canto do bloco e a luz se apagou e com ela o que estava escrito.

— Não quero interromper — disse ela, educadamente. — Se quer continuar lendo, terei prazer em examinar de perto alguns dos seus livros raros.

— Seu gosto pelo estudo é famoso em toda a Península, senhora. Foi uma das razões pelas quais meu senhor real, o Rei Voltrik, lhe propôs casamento.

Haramis riu.

— Uma das razões, sem dúvida! — Inclinou-se, para examinar o bloco. — O que é isto? Vi que estava escrevendo nele, mas agora não vejo nada.

Com o rosto inexpressivo, ele respondeu:

— É um aparelho dos Desaparecidos, e todos os seus aparelhos são mágicos.

— Não tenho tanta certeza — disse ela, lentamente. Não parece mágico, pensou. Orogastus olhava para ela, desconfiado, e Haramis mudou de assunto. — Disse que possui muitas coisas dos Desaparecidos.

— Sim.

Haramis apanhou o pequeno bloco.

— Como funciona?

— Deixemos para outra ocasião — disse ele, amavelmente, tentando tirar o bloco das mãos dela.

Haramis segurou com força e recuou. O objeto deslizou da sua mão e bateu de leve no talismã que pendia do seu pescoço. Uma fagulha passou do talismã para o bloco, cujo brilho desapareceu por completo.

Haramis o pôs na mesa rapidamente. Oh, não, pensou, embaraçada, Eu não queria quebrar o aparelho, mas será que ele acredita — ou será que se importa?

Orogastus aparentemente controlava-se com grande dificuldade. Haramis recuou, nervosa, e enfiou o Círculo de Três Asas para dentro do corpete.

Orogastus apanhou o bloco e com a ponta do dedo apertou em vários pontos, mas o brilho não voltou.

— Está morto — disse ele com os dentes cerrados, erguendo os olhos furiosos para ela.

Haramis, que pensava num modo de se desculpar do que havia feito sem querer, quando viu a expressão dele, ficou furiosa também. Com os olhos faiscantes e a voz áspera, disse:

— Morto? Essa coisa jamais foi viva! Meus pais estão mortos — e foi você quem instigou os assassinos!

Ele ficou calado.

Haramis deu meia-volta e foi até a janela. A dança louca da neve levada pelo vento refletia o turbilhão que girava em sua mente. Desde a queda da Cidadela não tivera muito tempo para lembrar os eventos daquele dia, sem dúvida cenas que ela preferia esquecer. Mas agora, de repente, as lembranças vieram de roldão. O relato do escudeiro sobre a morte do seu pai, a visão da mãe, sangrando até morrer. As lágrimas desceram pelo rosto de Haramis.

— Haramis...

Ela não o deixou terminar.

— Que idiota eu fui! Você me atraiu para cá com suas artes negras, e porque sou jovem e tola conseguiu anular meus temores e me fez esquecer quem você é realmente. E quem eu sou!

Orogastus pôs a mão no ombro dela e a fez voltar-se. Falou com voz suave, quase triste, e havia um reflexo da tempestade de neve nos seus olhos.

— Lembra-se também de que beijei a palma da sua mão e disse que a amo desde que aquele miserável Voltrik me mostrou seu retrato? Por acaso esqueceu que eu disse que a reconheci como aquela destinada a compartilhar o poder comigo?

— Você é o inimigo da Arquimaga, ela que protegeu nosso reino contra nossos inimigos durante tanto tempo. Negue, se for capaz! Você é responsável pela destruição do grande equilíbrio do mundo, o adorador dos Poderes das Trevas! Você quer roubar meu talismã e o das minhas irmãs.

Ele a beijou.

Por um momento, Haramis ficou rígida nos braços dele. Mas os lábios do feiticeiro eram doces e seu calor fluiu por todo o corpo da princesa. Atordoada, sentiu que tudo girava à sua volta e que ele era a única coisa sólida e firme que existia. Erguendo os braços, Haramis o abraçou com força. O talismã contra sua pele aqueceu-se com as energias possantes e desconhecidas, que passavam dele para ela, depois dela para ele, com intensidade crescente, até seus lábios e seus corpos parecerem prestes a se incendiar.

Haramis ouviu uma voz em sua mente. Somos ambos mágicos, Haramis — nascidos para comandar as estrelas! Mentiram para você, os que dizem que sou o mal. Não sou. Procuro a sabedoria, a verdade e o poder e a alegria que eles nos trazem. Ouça-me apenas! Deixe-me explicar por que seus pobres pais morreram, por que tive de suportar a conquista do Rei Voltrik, por que você e suas irmãs foram perseguidas. Deixe-me mostrar a verdadeira importância dos três talismãs e do Cetro Triplo do Poder! Depois disso, tome sua decisão.•. com sua mente tão parecida com a minha. Eu a chamei de muito longe e a trouxe para cá. Você veio por sua própria vontade! Sabe que veio! Sabe que a amo. Agora, ouse me amar também! Agora, Haramis. Agora.

Haramis ergueu a cabeça e soltou-se dos braços dele. Seu corpo estava estranho, sua mente atordoada.

— O que você fez comigo?

— Haramis, você me ama. Seu corpo me diz isso, mesmo que seu coração queira negar.

— Não... Não...

Mas ela o abraçou outra vez.

— Estou com frio. Com tanto frio.

A neve açoitava as janelas, como se quisesse penetrar através dos vidros para alcançá-la, cobri-la com sua brancura imaculada e apagar as últimas brasas acesas dentro do seu corpo.

Haramis viu a Dama Branca morrendo, com toda aquela dor solitária. Viu a própria imagem refletida num espelho de gelo negro.

Ela o viu.

-— Vamos para sua sala de trabalho — disse Haramis. — É muito mais quente. Então, vou ouvir o que tem a dizer.

Mas naquela noite, sozinha na cama, lembrou-se dos pais e chorou até adormecer.