O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 42 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 41

 

O dia estava nascendo quando Hiluro começou sua descida para Noth. Haramis, na noite anterior, tinha chorado até adormecer, e sonhou com uma conversa com Kadiya, na qual a irmã, escandalizada, censurava sua ligação com Orogastus. Kadiya sem dúvida teria tentado apunhalar o feiticeiro e seria destruída por um relâmpago — como ousava dizer que a conduta de Haramis era escandalosa! Agora, a princesa acordou com a luz do dia nos olhos cansados. Todos os seus músculos doíam, mas sua posição nas costas do pássaro não encorajava muito movimento. Assim, ela não via a hora de aterrissar.

Quando o lammergeier começou a voar em círculos sobre a torre de pedra da Arquimaga, Haramis olhou para baixo, atónita. Na sua última visita, a torre estava coberta de vegetação verde, com um gramado florido em toda a volta. Agora, apenas alguns galhos esqueléticos subiam pelas paredes e o que restava do gramado era marrom e cheio de ervas daninhas. A pouca água do fosso estava suja e cheia de espuma malcheirosa.

— O que aconteceu aqui? — perguntou Haramis em voz alta.

Hiluro estremeceu e por um momento ela pensou que o pássaro ia responder, mas ele continuou em silêncio.

Os soldados do Rei Voltrik teriam chegado tão longe?, pensou ela. Não. A destruição seria diferente. Eles teriam queimado e demolido tudo, mas isto parece apenas morto. Não há nenhuma razão para tudo secar desse modo, não nesta época do ano!

Lembrou do grande número de jardineiros que trabalhavam na Cidadela. Talvez com a iminência da morte da Arquimaga, seus empregados — Haramis lembrava-se de a Arquimaga ter mencionado um empregado, o mordomo — não tinham tempo para cuidar das plantas. Mesmo assim, não podia estar tudo morto!

O lammergeier aterrissou na extremidade da ponte levadiça e Haramis desceu, preocupada com o que ia encontrar lá dentro. A Arquimaga estaria morta? Estava bem forte na noite passada, quando falou comigo, pensou.

Uma sensação de urgência apossou-se dela e Haramis atravessou correndo a ponte, o pátio de mosaico, quase todo coberto de musgo morto, passou pela fonte agora seca, atravessou o jardim, um solo árido com algumas flores mortas espalhadas, as raízes ainda na terra que não as alimentava mais. Não ficou surpresa quando viu que a porta pesada que levava aos aposentos da Arquimaga estava aberta.

O quarto estava quente e abafado e um oddling — um nyssomu que Haramis não conhecia —, agachado perto da lareira, colocava pedaços de turfa no fogo. Ergueu os olhos quando a sombra da princesa, de costas para o sol nascente, caiu sobre ele.

— Senhora Haramis — disse o oddling. — Bem-vinda a Noth — ela disse que a senhora chegaria em tempo. — Indicou a cama com um aceno da cabeça.

— Saudações... Você deve ser Damatole — disse Haramis.

A Arquimaga dissera o nome apenas uma vez, por ocasião da sua última visita, mas Haramis fora ensinada desde pequena a lembrar o nome, o rosto e as características principais de todos que conhecia ou de quem ouvia falar. Seus pais consideravam essa habilidade uma parte importante da sua educação para ser rainha.

— Sim, minha senhora. — O pequeno nyssomu fez uma reverência. — É uma honra para mim servir à Senhora Binah e à princesa. Ela dorme agora, mas logo vai acordar. Aceita um pouco de chá?

— Aceito — disse Haramis, agradecida. — É claro que aceito. Muito obrigada, Damatole.

O oddling saiu apressadamente do quarto e Haramis, apanhando uma banqueta, sentou-se silenciosamente ao lado do leito da Arquimaga, observando a mulher adormecida.

Binah parecia pior do que da última vez que a vira, com a pele ressecada e flácida. Ela acordou quando Damatole voltou com o chá.

— Haramis — disse ela, falando devagar. — Você veio.

— É claro que vim — disse Haramis. — Você me chamou. Além disso, preciso de mais informações sobre o uso dos talismãs. Infelizmente, o fato de encontrar o Círculo de Três Asas não me ensinou como usá-lo. Na biblioteca de Orogastus encontrei alguma informação a respeito — incluindo um livro segundo o qual os três devem ser unidos para formar um cetro...

— Ainda não — interrompeu a Arquimaga. — Você não está preparada para controlar esse poder. Precisa adquirir muita sabedoria — muito mais do que possui.

— Onde vou aprender toda essa sabedoria? — perguntou Haramis, irritada e impaciente. — Patinhando na lama do pântano, enquanto o exército de Voltrik saqueia meu reino? Ou a encontrarei em minhas irmãs — que usam seus talismãs para matar?

A Arquimaga disse, com tristeza:

— Elas também não possuem a sabedoria necessária — suspirou. Depois de um longo silêncio perguntou, com voz severa: — Por que ficou tanto tempo com Orogastus?

Haramis franziu a testa, procurando a resposta certa.

— Eu estava tentando descobrir como ele é — você mesma me disse para procurar conhecer suas fraquezas. É estranho. Aparentemente ele pensa que os aparelhos dos Desaparecidos são mágicos — foi o que ele disse! Ficou muito zangado quando eu quebrei um deles — disse que o aparelho estava morto. Mas máquinas não têm vida, têm?

— Não — disse a Dama Branca. — E você pensa que os aparelhos são mágicos?

— Não. Não posso explicar exatamente, mas não sinto que sejam mágicos. Porém, magia ou máquinas, eles lhe dão poder e esse poder, seja lá o que for, pode causar muito mal. Enquanto esse poder existir, vou procurar saber como funciona!

— Então, procurou Orogastus para descobrir o uso do poder? Acha isso prudente?

— O que é prudente? — respondeu Haramis, com amargura. — Você estava aqui na cama quando meu lar foi invadido, meus pais terrivelmente assassinados e centenas de vispis chacinados, porque você os chamou tarde demais para enfrentar um inimigo muito mais poderoso. Isso é sabedoria? Se é, qual a vantagem em ser sábia e prudente?

— Sei que você está sofrendo e está confusa, Haramis — disse a Dama gentilmente —, mas deve aprender a olhar além deste momento para ver um cenário muito mais vasto.

— Isso — respondeu Haramis — foi exatamente o que Orogastus disse. E se meus pais eram nada e suas mortes sem importância... — Começou a chorar, magoada, zangada e desamparada. E agora você vai morrer também, pensou, no seu desespero, e ficarei sozinha com meu reino ocupado por soldados inimigos, minhas irmãs não sei onde, e o Rei Voltrik tentando nos matar. Não sei o que fazer e parece que ninguém sabe.

— Eu protegi Ruwenda durante um longo tempo — disse Binah, suavemente —, muito mais longo do que você pode imaginar. Amei a terra e seu povo e os guardei e ajudei a crescer como deviam. Foi um grande trabalho que me deu muito prazer. Mas agora meu tempo está no fim e o seu está começando. — Virou a cabeça e seus olhos se encontraram. — Você disse que Orogastus a convidou para ir à sua torre. Diga-me, Haramis, por que ele convidou a você e não às suas irmãs?

Haramis olhou espantada para a Arquimaga.

— Não sei — nunca pensei em perguntar isso.

— E agora, que sabe a pergunta, qual acha que é a resposta?

Haramis franziu a testa, tentando lembrar as palavras exatas do convite de Orogastus, bem como tudo que ele havia perguntado quando estava na torre.

.— Acho que ele se sente muito sozinho — disse lentamente. — Falou da minha fama de estudiosa e do seu desejo de compartilhar seus conhecimentos comigo... Acho que está procurando alguém igual a ele, capaz de usar mágica e pensar como ele pensa, alguém que entenda o que ele diz.

— E você é igual a ele? — perguntou a Arquimaga, em voz baixa.

— Em certas coisas, sou — admitiu Haramis. — Não quero explodir ninguém com relâmpagos, nem invadir outras terras, nem matar pessoas — mas posso compreender o desejo de aprender, de tentar compreender o mundo...

— ...de ver os padrões da vida à sua volta?

— Sim — disse Haramis —, exatamente.

— E quando conquistar esse conhecimento, o que pretende fazer com ele?

— O que quer dizer?

— Usaria esse conhecimento para ferir e destruir, para manipular as pessoas e impor a elas sua vontade? — É claro que não! — respondeu Haramis, indignada. — Isso é errado. As pessoas devem ter liberdade de escolha e não serem usadas como fantoches para divertimento dos mais fortes e mais inteligentes. Mas, por que eu precisaria fazer alguma coisa com meu conhecimento? Por que não posso simplesmente estudar e aprender e ter prazer no que aprendo e no que posso ver? Por que terei de usar isso?

— Porque você é o que é e não pode esconder. Eu vejo, Orogastus vê e qualquer outro com algum conhecimento de magia pode ver. — A voz da Arquimaga era intensa agora. — Haramis, você compreende as palavras. A maioria das pessoas não conhece a importância das palavras, não sabe que dizer uma coisa significa dar a ela uma sombra de existência — e nomeá-la realmente significa lhe dar vida. Você ouve, escuta e lembra e isso é um dom muito raro. Sem ele, jamais poderá compreender a magia, a maior parte dela será praticamente inconcebível para você. Kadiya possui grande ardor e determinação e Anigel tem um coração amoroso e compassivo, porém esses dons, embora grandiosos e de grande valor, não são o que se exige para o uso completo da magia. Sua paixão é o conhecimento, Haramis, e isso, combinado com o sangue real de Ruwenda, fará de você uma maga. Se se negar o uso dessa habilidade, você — e eles — serão usados por pessoas como Orogastus.

— É por isso que me sinto como uma peça sem importância no jogo que você e Orogastus estão disputando? — perguntou Haramis.

Os olhos da Arquimaga chamejaram nas órbitas como se contivessem toda a vida que lhe restava.

— Você se sente como uma peça sem importância porque tem sido exatamente isso, Haramis. Mas está chegando na última casa do tabuleiro, onde pode escolher o que deseja ser.

— Uma rainha, é claro — disse Haramis, surpresa. — Não foi essa a escolha feita para mim há muitos anos?

— Não — disse a Arquimaga, quase num sussurro —, essa escolha só será feita quando você escolher. O importante é restabelecer o equilíbrio do mundo, o que só será feito se,” e quando, você e suas irmãs encontrarem seu próprio equilíbrio. A coroa pode não ser o seu destino.

— O que quer dizer? — perguntou Haramis, horrorizada. — Vamos perder nosso reino para Voltrik? Eu vou ser morta? Ou aconteceu alguma coisa com a coroa? Eu a deixei sob sua guarda — cometi um erro?

— De modo algum. — A voz da Arquimaga estava fraca, mas ainda audível. — A coroa está aqui e a salvo. — Virou a cabeça para a lareira. — Damatole...

Haramis pensou que o oddling não podia ouvir aquele chamado tão fraco, mas ele correu para o lado de Binah.

— Chegou o momento — murmurou a velha mulher.

Damatole fez um gesto afirmativo, foi até um dos armários na parede oposta e voltou com um embrulho branco que entregou para a Arquimaga. Ela segurou uma dobra do pano e a entregou a Haramis. O volume começou a escorregar da beirada da cama e Haramis o segurou. O pano branco abriu-se nos seus braços e ela viu, com surpresa, o manto da Arquimaga.

— Vista o manto, Haramis — ordenou Binah, num murmúrio. — É seu agora.

— Está dizendo que vou ser a nova Arquimaga? — perguntou Haramis, surpresa. Não quero esta incumbência, pensou ela, desapontada. — Já é difícil ser rainha — mas pelo menos fui treinada para isso! Mas ser a Arquimaga — ela não pode me pedir isso!

— Você tem o dom — murmurou Binah —, mas a escolha deve ser sua. Eu lhe dou minha bênção e meu amor, e um último aviso. Lembre-se de que a linha entre autoconfiança e superconfiança é estreita e facilmente transposta. Proteja-se sempre. Escolha sabiamente. — Então, com um suspiro áspero, a Arquimaga ficou imóvel.

Haramis olhou chocada para o corpo na cama. Isto não pode estar acontecendo, pensou. Estou sonhando. Estou na cama, na torre de Orogastus, e isto é um pesadelo. Tenho lido muitos livros de mágica, eu...

Só então percebeu que Damatole falava com ela.

— Dama Branca?

Voltou-se lentamente e olhou para ele.

— O que é, Damatole?

— Quais são as suas ordens, Senhora?

Ordens? Ele pensa que sou a nova Arquimaga. Por que, oh, por que eu me levantei da cama esta manhã — ontem de manhã — sei lá quando? Precisava dizer alguma coisa. Afinal, ele estava apenas fazendo seu trabalho. Mas não conseguiu pensar em nada.

— Deixe-me trazer-lhe água para se lavar e alguma coisa para comer — sugeriu Damatole. — Deve estar com fome.

Fome. Sim, agora que ele mencionou, estava com fome.

— Obrigada, Damatole — disse Haramis, suavemente —, isso seria ótimo.

Damatole serviu uma refeição simples, depois conduziu-a a um quarto pequeno com uma cama estreita. Haramis deitou, dormiu, acordou no meio da tarde e encontrou uma refeição na mesinha ao lado da cama. Comeu tudo e foi procurar Damatole. Encontrou-o no quarto da Arquimaga, mas a cama estava vazia.

— Você já enterrou o corpo, Damatole? — perguntou. — Eu podia ter ajudado.

— Não há nenhum corpo — respondeu ele. — Não está lembrada?... Não, vejo que não. A carne que abrigava o espírito de Binah transformou-se em pó, como vai acontecer com este lugar quando a senhora partir.

Haramis examinou a cama com mais atenção. Sim, havia pó no travesseiro, onde estivera a cabeça de Binah — onde está a coroa de Ruwenda?

Damatole abriu o armário na parede oposta e tirou um volume embrulhado em pano branco, que entregou para Haramis. A princesa o abriu e com alívio viu que a coroa estava inteira e intacta. Teria se transformado em pó se eu a deixasse aqui também? pensou.

— Vou apanhar uma sacola para levá-la — ofereceu Damatole, saindo do quarto, sem esperar resposta.

Haramis tentou pensar no que ia fazer agora, mas, quando Damatole voltou com a sacola de couro, não tinha decidido ainda. Porém, como o nyssomu evidentemente esperava que ela partisse, chamou o lammergeier. Então, lembrou que não era a única sem um lar agora.

— Damatole, você tem para onde ir? Ele fez um gesto afirmativo.

— Meu povo virá me apanhar. Está tudo arranjado. Só mais uma coisa. — Apanhou o manto da Arquimaga, ainda na banqueta onde Haramis o deixara, e o guardou na sacola, com a coroa.

— Por que me deu isto? — perguntou ela quando saíram juntos da torre, temendo já saber a resposta.

— Porque é seu, Dama Branca — respondeu o nyssomu. — E agora eu lhe digo adeus.

Uma lufada de vento fez esvoaçar os cabelos da princesa. Ela ergueu os olhos para as nuvens cada vez mais numerosas e imaginou se ia chover no dia seguinte, na véspera das três luas.

Hiluro desceu das nuvens e aterrissou ao lado dela.

- Para onde quer ir, Dama Branca?

— Não me chame assim — disse Haramis, em voz baixa.

— Não ainda. — Subiu nas costas do lammergeier, segurando a sacola com a coroa e o manto, e Hiluro subiu para o céu ameaçador.