O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 3 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 2

 

Barni correu tanto que ficou sem fôlego. Sentia uma dor terrível, como de uma facada, no lado do corpo, e era tamanha a dor de cabeça por causa do golpe desfechado por Voltrik que começou a ter visão dupla. Cambaleando na escada do coro, ouvia ao longe o ruído dos pés com armadura e a voz do inimigo gritando: ”Por aqui!”

A capela estava quase completamente escura e a luz fraca das lâmpadas votivas não chegava até a escada. Mas isso mudou no momento em que o Rei Voltrik e os cavaleiros com tochas acesas passaram pela porta central e amontoaram-se no vestíbulo.

O escudeiro, quase no topo da escada, tomado de pânico, tropeçou e caiu, batendo a cabeça dolorida. Sentiu que perdia as forças e temeu falhar mais uma vez com seu dever.

— Dama Branca! — soluçou, em voz alta. — Ajude-me. Ajude a pobre rainha e as princesas.

Uma brisa suave encheu seus pulmões e sua visão clareou. A cabeça ainda doía, mas ele podia se mover outra vez. Mais como um verme rastejante, dotado de muitas pernas, do que como um homem, arrastou-se até o topo da escada e atravessou o assoalho rachado até a parede que ficava atrás das banquetas do coro. Era uma parede de pedra trabalhada, com o selo real de Ruwenda gravado e pintado na sua superfície, e num campo azul-celeste o heráldico Trílio Negro, com uma saliência dourada no centro.

Barni arrastou-se até ela e apertou a saliência com as duas mãos. Imediatamente um quadrado de pedra girou para dentro, formando uma portinhola pela qual um homem podia passar com dificuldade. Assim que ele entrou e fechou o painel, Lorde Manoparo, com sua barba grisalha e dois outros cavaleiros ruwendianos, Korban e Wederal, entraram na estreita passagem secreta, vindos do esconderijo iluminado, com as espadas desembainhadas.

— Esperem, esperem, sou eu! — gritou o escudeiro com voz rouca, erguendo-se sobre os joelhos.

— Pela Flor! O jovem Barni! — Manoparo embainhou a espada e ajudou o jovem a se levantar. — Vamos, vamos meu jovem..

— Depressa! Se querem salvar as senhoras, tranquem rapidamente a porta externa e destruam o mecanismo do painel para que o inimigo não possa entrar!

Praguejando, Korban e Wederal, com quatro golpes vigorosos das suas espadas, destruíram o mecanismo secreto do painel coberto de madeira. Nesse mesmo instante os inimigos começaram a bater violentamente na parede, no outro lado, com gritos marciais. Então, cessaram as batidas e o silêncio parecia mais ameaçador.

— Foram apanhar um aríete — disse Wederal.

— Ou mais provavelmente foram chamar o feiticeiro! — observou Manoparo. — Voltemos para a fortaleza.

Arrastaram o escudeiro com eles para a câmara secreta, que tinha cerca de sete ells quadrados e estava equipada para um longo sítio, com uma porta maciça de madeira reforçada com ferro e protegida por três vigas de madeira. As paredes eram recobertas por tapeçarias antigas e o chão por tapetes espessos e colchões. Em lugar de janelas, havia dois vãos muito altos e tão estreitos que mal davam passagem para um dedo. Havia uma mesa pequena e uma banqueta onde sentava-se a Rainha Kalanthe, guardada por um quarto cavaleiro, Lorde Jalindo. Caixas de alimentos e garrafões de água e vinho ladeavam a lareira pouco maior do que um braseiro. Um candelabro alto coberto de prata e outros, em nichos, na parede, iluminavam fracamente a sala.

Lorde Manoparo curvou-se na frente da rainha pálida e calma, com as três filhas que se encolhiam contra sua saia. Kalanthe estava usando uma grande coroa de platina, que cintilava com suas esmeraldas e rubis, encimada por um broche de brilhante em forma de sol, com uma gota de âmbar do tamanho de um ovo. No interior do âmbar havia um fóssil do Trílio Negro, do tamanho de uma unha.

— Minha rainha, o inimigo nos encontrou — Manoparo indicou Barnipo encolhido na frente dela. — Este escudeiro nos avisou e procuramos impedir a entrada dele nesta câmara, do melhor modo possível. Mas sem dúvida vão trazer o feiticeiro para quebrar as portas com sua magia negra e acabar com todos nós.

A Princesinha Anigel soltou um grito estridente de terror e não se entregou à histeria porque sua irmã, Kadiya, a esbofeteou rapidamente, mandando-a ficar quieta. Haramis a embalou nos braços, enquanto a rainha interrogava Barnipo.

— E meu real marido?

O escudeiro caiu de joelhos, com as lágrimas descendo pelo rosto sujo.

— Oh, minha senhora, ele está morto e nossa pobre Ruwenda perdida.

Os quatro cavaleiros gemeram surdamente e as princesas reais gritaram, horrorizadas. A Rainha Kalanthe apenas inclinou a cabeça e perguntou:

— Como foi que meu senhor caiu?

— Uma desgraça! — exclamou o jovem. — Que Deus e os Senhores do Ar me perdoem, pois foi minha culpa. — Continuou a se acusar e censurar até Lorde Jalindo colocar a mão no seu ombro.

— Vamos, vamos. Você não tem ainda quinze anos, e nenhum de nós acredita que um homem tão jovem possa ter influência na morte de reis. Conte-nos simplesmente o que aconteceu.

Barni contou. E quando descreveu a morte vergonhosa do Rei Krain, a Princesa Anigel desmaiou nos braços da irmã Haramis e a Princesa Kadiya exclamou, com voz embargada:

— Eles pagarão!

Mas a rainha ficou imóvel, olhando para a porta, no outro lado da sala, segurando no colo a cabeça ensangüentada e molhada de suor do escudeiro do rei, que chorava como se tivesse o coração partido ao meio.

— Não foi culpa sua, pobre Barni — consolou ela. — O malvado Orogastus o enganou. Ninguém o culpa por isso. A culpa é do Rei Voltrik e daquele monstro, o Hamil, que deu a ordem para esquartejar meu amado.

— Eles pagarão — murmurou Kadiya, mas só Haramis ouviu.

De repente ouviram uma grande explosão. Os cavaleiros empunharam suas espadas e colocaram-se lado a lado entre as mulheres e a porta. A rainha levantou-se de um salto, e o escudeiro escorregou para o chão.

— Uma mulher da nossa casa real — disse Kalanthe, com os olhos cintilantes. — É disso que o diabólico Voltrik tem medo! Então, a profecia não é apenas uma invenção dos oddlings, afinal, uma vez que o próprio feiticeiro de Labornok a confirma!

Virou-se para as filhas. Anigel voltara a si e os três pares de olhos fixaram-se na mãe.

— A queda de Labornok deve ser provocada por uma mulher da nossa casa. Vocês viverão, minhas filhas — e provarão que a profecia é verdadeira.

Agora o inimigo atacava a porta do esconderijo com machados e clavas, uma vez que a magia destruidora e explosiva de Orogastus, se fosse usada num espaço tão pequeno, podia derrubar as paredes. A Rainha Kalanthe ergueu então uma das tapeçarias, feita de tecido muito antigo, encontrado ainda em certos lugares da Cidadela, que havia sobrevivido aos fundadores da fortaleza e enchia de espanto aqueles que durante Oitocentos a haviam ocupado. O pano era cinzento e, quando a rainha o puxou para o lado, tornou-se azul e sobre ele moviam-se sombras que ninguém jamais soube dizer o que eram.

Na parede, atrás da maravilhosa tapeçaria, apareceu um pequeno armário, que dava para abrigar apenas uma pessoa. Kalanthe abriu a porta e ordenou:

— Minhas filhas, entrem!

Haramis moveu-se rapidamente, levando com ela Anigel, cujo corpo frágil estremecia ainda com os soluços. O espaço era pouco para duas pessoas e Kadiya,desembainhando sua adaga, disse:

— Não faz mal. Eu fico com minha mãe.

— Para dentro! — ordenou a rainha, com um tom de voz terrível que as princesas jamais tinham ouvido.

Kadiya olhou para ela boquiaberta, depois empurrou e ajeitou as irmãs para poder entrar também no armário. Mas não dava para fechar a porta.

— Uma última coisa — disse a rainha, tirando a coroa e passando-a para as mãos de Haramis. — Agora, rezem, minhas queridas, para que possamos nos encontrar outra vez num mundo melhor.

Deixou cair a tapeçaria. Por uma pequena abertura as três princesas assistiram ao que aconteceu então.

Depois de atacar com as machadinhas de guerra o centro da porta de madeira, começaram a destruir os batentes até soltar as dobradiças de metal. As vigas de madeira desmoronaram e começou a terrível luta final.

O Príncipe Antar, com armadura esmaltada de azul e elmo encimado por duas asas, foi um dos primeiros a passar pela porta destruída. Ele e Lorde Manoparo enfrentaram-se, segurando com as duas mãos as espadas que soavam como sinos a cada golpe. Outros cavaleiros de Labornok entraram e enfrentaram os quatro outros Companheiros Fiéis, enquanto o Rei Voltrik e Orogastus apenas assistiam. A rainha havia recuado para a frente da lareira, procurando ficar o mais distante possível do esconderijo das filhas, que podiam vê-la claramente, bem como a batalha que se travava na sala.

Lorde Manoparo desfechou um golpe certeiro no elmo alado do Príncipe Antar. As presilhas soltaram-se e o capacete caiu. Estranhamente, o rosto do príncipe não estava contorcido com o furor da luta, mas repleto de angústia. Mesmo assim, Antar continuou a lutar com habilidade e grande força e em certo momento, apanhando Lorde Manoparo sem defesa, ergueu a espada e a abaixou com tamanha força sobre o adversário que partiu ao meio o elmo e a cabeça do ruwendiano.

Então Korban e Wederal foram mortalmente feridos e desarmados. Só Lorde Jalindo continuou lutando até ser vencido pela força dos labornoks. Quando caiu o último Companheiro Fiel, os vitoriosos começaram a esquartejar todos com suas espadas.

Oh, o horror! Os olhos da Princesa Kadiya ardiam como fogo e ela rosnava em silêncio, como um filhote de lothok tirado do seio da mãe assassinada. Os bárbaros estavam se divertindo com a carnificina, desmembrando os ruwendianos vencidos e zombando dos seus gritos de agonia. Kadiya mal podia conter o ímpeto de sair do esconderijo e se vingar. Segurando com força sua adaga, espremida entre as duas irmãs, cada músculo do seu corpo estava tenso, pronto para a luta..

— Fique onde está! — sibilou Haramis. — Pela Flor, fique onde está! Quer nos matar a todas?

Anigel tirou do corpete o amuleto do trílio e levou-o aos lábios.

— Rezo para a Dama Branca, guardiã da nossa terra!

— Rezo para que aqueles demónios brutais não nos encontrem — murmurou Haramis, segurando também seu amuleto.

— Rezo para que alguém venha nos salvar — pediu Anigel. Tremendo de medo e de raiva, Kadiya sentiu diminuir a força com que segurava o cabo da adaga. Quase instintivamente, sua mão procurou o decote do seu corpete. Lá estava o amuleto, sob a camisa de seda, morno contra seu coração disparado.

— Eu rezo para que algum dia eu seja aquela que fará com que Voltrik, Antar, o General Hamil e o feiticeiro paguem com seu sangue tudo que fizeram hoje!

— Reze também para se controlar — disse Haramis. — Do contrário, sua tola temeridade pode ser a perdição de todas nós. E pare de se remexer, praga, se não daqui a pouco vamos despencar aos pés de Voltrik.

— Quietas, quietas! Eles podem ouvir — implorou Anigel. O esquartejamento e as risadas dos cruéis cavaleiros tinham cessado e o Rei Voltrik começou a falar.

Relutantemente, Kadiya murmurou uma prece para se controlar. A raiva fervia ainda dentro dela, mas aos poucos foi sendo abafada, como é abafada a fogueira de modo que possa ser reavivada mais tarde, no momento propício.

— Olhe! — murmurou Anigel, com voz apavorada e quase inaudível. — Nossa mãe!

O Rei Voltrik falava com a rainha, evidentemente interrogando-a sobre o paradeiro das princesas. A sala estava abafada e cheia de fumaça, as velas nos nichos, quase no fim, alguns tapetes chamuscados com a queda do grande candelabro. O rei retirou o elmo e os guantes e a julgar por sua expressão feroz era evidente que a Rainha Kalanthe o desafiava. Com o corpo ereto e o escudeiro Barnipo agachado a seus pés, atordoado, ela disse:

— Jamais lhe direi onde estão as minhas filhas.

— Orogastus, obrigue-a a falar! — berrou Voltrik. — Ou descubra as princesas com sua poderosa visão mágica!

— Não posso forçar a vontade dela, meu rei — respondeu o feiticeiro. — Ela está além do medo. E não posso ver as que estão escondidas, como não podia fazer isso na sala do trono. A antiga Cidadela deve estar protegida por algum encantamento misterioso que bloqueia minha visão mágica. Possuo um aparelho mágico que pode realizar esta tarefa, vencendo qualquer obstáculo, mas é muito grande e muito pesado e não pode ser removido do meu abrigo no Monte Brom.

— Então teremos de usar outros meios para soltar a língua desta dama. — Voltrik aproximou-se vagarosamente da rainha com a espada desembainhada e segurou seu braço esquerdo. — Chega, cadela real! Vai me dizer imediatamente onde estão as jovens, ou terá a mão decepada. Se ainda assim não falar, farei o mesmo com a outra mão, depois os pés, em seguida os membros, um por um até conseguir o que quero, pois é assim que Labornok responde à insolência dos seus inimigos.

— Senhor! — exclamou o Príncipe Antar, revoltado. — Ela é uma rainha e essa punição é para escravos rebeldes.

— Silêncio! — ordenou Voltrik. O murmúrio dos labornoks encheu a sala, mas cessou quando Voltrik ergueu a mão com a espada e disse: — Vai falar, mulher?

Então tudo aconteceu tão depressa que os cavaleiros e o príncipe não tiveram tempo de reagir, mas as princesas viram claramente. O escudeiro Barnipo, quase desmaiado, num assomo de energia saltou sobre o Rei Voltrik como um fedok atacando a presa. Desarmado, enterrou os dentes na mão esquerda do rei, a mão que segurava o braço da rainha.

Com um grito de dor, Voltrik recuou, com Barnipo praticamente dependurado nele, e começou a brandir a espada ao acaso. Por desgraça, atingiu o pescoço da rainha que caiu e seu sangue espalhou-se sobre a lareira. Os cavaleiros labornoks, gritando, brandiam suas espadas contra o jovem que continuava com os dentes fincados no braço do rei, mas todos com certo cuidado, para não serem atingidos pela espada enlouquecida de Voltrik. O escudeiro Barnipo, ferido por dezenas de espadas, caiu finalmente, rindo no meio da dor, até o próprio rei decepar sua cabeça.

Então Voltrik deu vazão à sua fúria, praguejando com tamanha violência que seus próprios homens se encolheram, pois a Rainha Kalanthe estava morta, fora do alcance da sua coerção, e as três princesas ainda escondidas.

— O que vamos fazer? — perguntou o Príncipe Antar. Orogastus disse:

— Elas não podem estar longe. Certamente ficaram com a mãe até o momento em que este animalzinho vil — chutou o corpo do escudeiro — chegou aqui por um caminho mais curto, para avisá-las. Devemos revistar toda a fortaleza.

Acalmando-se, Voltrik disse:

— Orogastus fala a verdade. Você, Milotis, com estes cavaleiros, fica encarregado de revistar a capela e a área próxima. Procurem passagens e escadas secretas entre as paredes! Depois disso, revistem a Torre Alta. Antar e Orogastus, venham comigo. Vamos reunir o resto dos nossos homens e revistar esta fortaleza desde o parapeito mais alto até a mais profunda masmorra.

Então, o rei começou a amaldiçoar a alma de Barnipo, o escudeiro que havia arrancado um bom pedaço de carne da sua mão, que agora latejava tremendamente. Orogastus tratou o ferimento, dizendo que Voltrik devia ter muito cuidado, porque a mordida de um ser humano pode provocar a mais séria infecção.

— Que seu braço apodreça — murmurou Kadiya ferozmente — e que o sangue envenenado chegue até o coração já apodrecido de Voltrik!

— E que os Senhores do Ar levem Barni para o mais alto dos céus — murmurou Haramis —, pois com seu ato de bravura poupou nossa mãe da tortura e nos deu mais tempo para nos salvar.

O rei, seu filho e o feiticeiro saíram e, depois de um breve exame da passagem externa da fortaleza, Sir Milotis e seus homens também se retiraram para revistar o coro. Durante alguns minutos fizeram muito barulho, derrubaram móveis e depois desceram para examinar a capela.

— Acho que agora podemos sair — disse Kadiya.

Assim, com as juntas doloridas, tremendo, saíram do armário para a terrível desordem da sala. A realidade da situação pegou-as de repente como um jato de água gelada. Segurando a mão de Haramis, Anigel mordeu o lábio até tirar sangue. Kadiya passou por cima dos corpos até chegar ao da mãe.

— Ela parece estar em paz — admirou-se a jovem. — Seus olhos estão fechados e o rosto tranqüilo. — Apanhando um manto de seda negra, deixado por alguém, ia cobrir o corpo da mãe, quando Haramis disse:

— Tola! E se alguém voltar e vir o corpo coberto? Kadiya concordou.

— Você é mais sábia do que eu, irmã.

— Dê-me o manto — disse Haramis — para embrulhar a coroa. Eu a levarei comigo — embora tenha pouca probabilidade de vir a usá-la.

Anigel deu um grito abafado de medo. Com os olhos cor de safira arregalados, apontou para um canto na sala, ao lado da porta.

Uma pilha de almofadas movia-se e não havia ninguém lá.

— Afastem-se — ordenou Kadiya, desembainhando a adaga, e avançou para a porta. Retirou as almofadas, uma a uma com a ponta da adaga e jogou-as para o lado, até descobrir uma parte do tapete, que se movia, erguida como uma tenda.

— Pela Flor, um alçapão! — disse Haramis. — Depressa, Kadi, puxe o tapete para o lado!

— Oh, tenha cuidado — exclamou Anigel. — Pode ser o inimigo.

— Inimigo inimigo inimigo! — disse uma voz fraca e trémula! — Andem depressa, meninas, do contrário eles vão interceptar nossa fuga.

Quando Kadiya retirou o tapete, as três princesas boquiabertas viram uma criatura pequenina, com um vestido longo de fustão, um xale verde xadrez e avental de couro. O rosto pálido era largo, os lábios grossos e os belos olhos dourados salientavam-se de forma inumana acima das duas narinas muito pequenas. Das orelhas pontudas, que atravessavam dois orifícios do chapéu, pendiam enfeites de prata. As mãos largas de dois dedos com polegares opostos eram manchadas e cheias de cicatrizes, resultado de muitos anos no preparo de poções estranhas.

— Immu! — exclamou Anigel, num transporte de alegria e alívio. — Querida Immu, você veio nos salvar, afinal. Pensamos que tinha fugido com os outros oddlings.

— Fugido fugido fugido! Que bobagem! — Immu subiu para a sala e num gesto dramático apontou para a abertura no chão. — Desçam aquela escada, pois preciso arranjar um jeito de disfarçar este alçapão.

Haramis e Anigel seguraram as saias longas e desceram desajeitadamente, mas Kadiya moveu-se ágil como um vart da floresta. Na passagem rústica outra surpresa as esperava.

— Uzun! — exclamou Haramis. — E Jagun também! As duas outras pequenas criaturas seguravam lanternas de luz verde, contendo vermes luminosos dos pântanos. Eram nyssomus, como Immu. Jagun estava com um boné de caçador de pele de fedok e roupa de couro marrom muito parecida com a de Kadiya. O músico Uzun estava com sua bata de sempre, de veludo marrom bordado. Seu gorro de brocado dourado estava cheio de teias de lingits da passagem secreta. Kadiya abraçou seu pequeno mentor.

— Você não nos abandonou, Jagun!

— Abandonar! Abandonar! — O Mestre dos Animais estava indignado. — Nós simplesmente nos escondemos, o que era a coisa mais prudente a fazer. Só vocês, os humanos, são bastante tolos para ficarem parados como togars mesmerizados ao luar, vendo a morte marchar pela estrada até chegar à sua porta!

— A honra exigia que defendêssemos a Cidadela — disse Kadiya, zangada.

— Muito bem, vejam o que sua honra lhes valeu — disse Uzun, o músico. — Se tivessem fugido para o Pântano Labirinto, para nossa gente, em Trevista, nós os teríamos acolhido.

— E depois? — perguntou Kadiya.

— Depois. — O Mestre dos Animais ergueu os ombros estreitos. — Podiam ficar morando conosco.

— Mas este é nosso lar — protestou Anigel gentilmente.

— E agora é deles — disse Immu, com voz seca. Tinha acabado de camuflar o alçapão e desceu a escada, apanhando sua lanterna. — E estão dispostos a acabar com vocês. Conosco também, se nos apanharem.

— Mas, de qualquer modo, vocês vieram nos salvar — disse Anigel, com voz suave. Segurava o amuleto do trílio. — A Dama Branca atendeu a nossas preces.

— Tem razão — Uzun desenhou reverentemente no ar um sinal cabalístico com três pontas. — Meus conhecimentos de magia doméstica são muito limitados, como sabem, queridas princesas. Sou muito melhor com a harpa e a flauta! Mas ontem eu fiz a mágica da água, para saber se nosso destino era ficar com os humanos aos quais servimos há tanto tempo ou voltar para nosso povo, e a Arquimaga falou.

Haramis disse:

— Arquimaga! É um dos nomes da Dama Branca!

— Dama dama dama! — censurou Immu. — Fique quieta, menina, e deixe Uzun explicar, pois precisamos sair daqui imediatamente.

Haramis abaixou a cabeça.

— Continue, amigo Uzun.

— Na verdade, a Dama Branca chama-se Binah. Arquimaga é seu título, pois ela é uma feiticeira, a mais poderosa de toda a Península.

— Ou era — disse Jagun sombriamente. — Ela está morrendo, está muito velha, e seus poderes enfraquecidos não podem vencer os do terrível Orogastus.

— Temos ordem de levá-las até ela — disse Uzun.

— Por quê? — perguntou Kadiya, agressivamente. — Se ela está morrendo, pouco pode ajudar, e não é hora para visita a doentes.

Haramis acrescentou:

—- Na minha opinião, faremos melhor indo para Trevista. La podemos esperar o fim das chuvas de inverno, que chegarão dentro de poucas semanas. Talvez mais tarde possamos nos disfarçar e viajar com uma caravana, alcançando a costa e tomando um navio para Var. O Rei Fiodelon sem dúvida nos concederá santuário.

Uzun falou com dignidade:

— Quanto a esses planos, não sei de nada. A Arquimaga nos encarregou de levá-las até ela — assim como nos encarregou, há muitos longos anos, de servir aos humanos deste castelo, prevendo um dia de grande necessidade para todos os povos que habitam o Pântano Labirinto.

— Se hoje não é esse dia — disse Immu — eu sou um voluminal de rabo enrolado!

Fechou com força os lábios grossos e inclinou a cabeça para o lado, escutando, movendo as orelhas e balançando os brincos de prata, que pareciam piscar na luz verde dos vermes luminosos.

— Eles saem da capela — disse ela, afinal. — Mas outros vão continuar a busca na torre central, seguindo as ordens de Voltrik. Até os três lacaios do feiticeiro, que são chamados de suas Vozes e que têm pacto com o Skritek, fazem parte da busca! Está na hora de sairmos daqui.

— Haramis, filha mais velha do rei, você vem comigo — disse Uzun. — Jagun e Immu seguirão outro caminho, com suas irmãs. Ordens da Arquimaga.

Por um momento parecia que Haramis ia recusar. Abandonar as irmãs? Levou a mão ao peito e segurou o amuleto que nunca havia deixado de usar desde o dia do seu nascimento.

— Mas eu não posso deixá-las! Sou a mais velha, herdeira do trono, responsável por elas. E sempre que é preciso, sou eu quem toma as decisões.

— Hara, faça o que ele diz — recomendou Anigel. — Confie na Dama Branca.

— Minhas irmãs, isso não me agrada — disse Kadiya. Sua testa bronzeada de sol estava franzida e seu cabelo, arruivado como o da rainha, despenteado, escapando das tranças. — Se ficarmos juntas, minha adaga nos oferece alguma proteção. Eu daria alegremente minha vida.

— Vida vida vida! — Immu estava perdendo a paciência. — Por que você é sempre tão exaltada? E por que Haramis deve tomar as decisões? Anigel não é tão decidida quanto vocês duas, porém ela demonstra grande sabedoria! Diga a elas, Uzun! Diga a elas as outras palavras da Arquimaga!

— Eu não as repeti — admitiu o músico timidamente — para não assustá-las. A Arquimaga Binah ordena a presença das três porque não estão preparadas para seguir seu grande destino. Na verdade, vocês nem sequer o conhecem.

Haramis e Kadiya ficaram revoltadas, mas Uzun continuou.

— Vocês três, Pétalas do Trílio Vivo, estão destinadas a salvar esta terra do jugo opressor do Rei Voltrik e de Orogastus, mas somente quando suas falhas e fraquezas forem corrigidas poderão ter sucesso. A Arquimaga lhes dirá como isso pode ser feito.

Anigel segurou as mãos das irmãs.

— Hara..Kadi..por favor!

Disfarçando a fúria que cintilava nos seus olhos, Kadiya inclinou a cabeça, concordando. Logo depois, Haramis disse:

— Está bem..

— Pela Flor, é mais do que tempo! — exclamou Immu. E continuou: — Haramis, você deve acompanhar Uzun. Anigel e Kadiya, venham comigo e com Jagun.

Assim dizendo, a mulher oddling empurrou Anigel pela passagem estreita e o caçador as seguiu, conduzindo Kadiya como um fazendeiro conduz seus togars. Num momento a luz das lanternas vivas desapareceu na escuridão.

— E nós dois devemos partir juntos — Haramis disse para o músico. — Velho amigo, espero que a Dama Branca tenha reforçado bastante sua mágica, pois suas canções para a flauta, embora excelentes, não deterão por muito tempo os guerreiros de Labornok nem seu feiticeiro criador de tempestades.

— Também temo isso, princesa — admitiu Uzun. — Mas confio na Arquimaga, como você deve também confiar. Ela ordenou que eu a levasse ao topo da Torre Alta da grande fortaleza.

Haramis sobressaltou-se, Seu rosto pálido, emoldurado pelos cabelos negros, destacava-se, espectral, no escuro.

— Ficaremos encurralados lá em cima! Os inimigos sem dúvida nos encontrarão! Oh, por que não dei ouvidos a Kadi?

— Venha — insistiu Uzun, correndo na frente com a lanterna.

Haramis não teve outra escolha senão segui-lo.