O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 43 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 42

 

O Rei Voltrik, ao lado da Voz Verde, esperava no parapeito da Alta Torre da Cidadela, e as nuvens escuras pareciam se amontoar a poucos ells acima das suas cabeças, escondendo a bandeira de Labornok o mastro. Lá embaixo, a fortaleza, os prédios e pátios externos estavam estranhamente silenciosos numa hora em que os servos ruwendianos sobreviventes e os homens livres costumavam estar trabalhando ativamente. Mas nesse dia só a batida cadenciada do martelo do ferreiro quebrava a quietude, como um toque discordante de mau presságio. O Rei Voltrik estremeceu.

— Os conquistados faltaram ao trabalho hoje por causa da maldita festa das três luas. Quase metade do pessoal da Cidadela avisou que está com febre e não pode sair da cama — e os que vieram trabalhar estão se arrastando, sem fazer nada.

— Há alguma coisa no ar — admitiu Voz Verde. — Com certeza logo teremos outra tempestade.

— Não é disso que estou falando — disse Voltrik, zangado. — Alguma coisa maléfica está se preparando e acho que Você sabe o que é e está com medo de contar!

Voz Verde inclinou a cabeça encapuzada, num gesto de submissão.

— Meu Mestre Todo-Poderoso logo estará aqui, Grande Rei, e ele o tranqüilizará e responderá a todas as suas perguntas.

O rei explodiu numa risada sem alegria e afastou-se bruscamente do acólito, olhando para a grande extensão de terra, ao norte. A luz estranha da tarde emprestava uma densidade especial à selva, e o cheiro que vinha do pântano era extremamente acentuado.

— Se vou me tranqüilizar — disse Voltrik —, por que o feiticeiro ordenou que você chamasse os homens para a Cidadela, exceto um pequeno contingente, e que ficassem preparados para lutar?

— Mera precaução...

— Mentiroso! Traidores malditos! — o rei virou bruscamente e segurou Voz Verde pelo ombro. Mesmo só com uma das mãos, sacudiu o assistente de Orogastus até os dentes do homem baterem uns nos outros. — Elas estão vindo para me apanhar — as três princesas bruxas! É isso, não é? Eu podia estar seguro, bem longe daqui, em Derorguila, mas você e Orogastus garantiram que tudo estaria bem — que as bruxas foram capturadas e seus talismãs confiscados. Mas mentiram! E agora elas estão vindo para me apanhar, como diz a profecia!

— Não, Grande Rei...

— Estou encurralado aqui! — uivou Voltrik. — Que Zoto tenha pena de mim! Os soldados me odeiam porque terão de passar a estação das chuvas neste buraco do inferno e os cavaleiros estão fartos da falta de ação, só bebida e mulheres o tempo todo, e só tenho para me servir covardes, idiotas e infames traidores que planejam me tirar o reino depois que os demoníacos ruwendianos acabarem comigo.

Voz Verde caiu de joelhos e ergueu as mãos em atitude de súplica.

— Não é nada disso, não é nada disso! Meu mestre explicará tudo quando chegar.

— Se ele chegar — berrou Voltrik. Desembainhou a espada e bateu com o lado da lâmina no nariz de Voz Verde. — E se ele não chegar, sua cabeça raspada de orelhas de abano vai se separar do corpo, e eu saio imediatamente deste monte de lixo amanhã cedo! É melhor arriscar os perigos da chuva do que ficar aqui como um nunchik cretino, no matadouro.

Um violento pontapé do rei fez o assistente do mago se esparramar no chão.

Então ouviram um grito como o som de um imenso clarim.

Sobressaltado, Voltrik olhou para todas as direções, menos para a direção certa, e saltou assustado quando o pássaro gigantesco branco e preto surgiu das nuvens, soltou outro grito e desceu suavemente, aterrissando no parapeito.

Do meio das asas imensas, ainda abertas, Orogastus olhou para o rei atónito e inclinou levemente a cabeça.

— Saudações, meu senhor — disse ele, calmamente. — Estou aqui, como prometi e preparado para lhe entregar seus inimigos, como prometi também.

— Pelos dentes de Zoto! É uma daquelas coisas que servem à Arquimaga! E agora, servem a você?

Orogastus deslizou das costas do lammergeier. Agradeceu brevemente, o pássaro respondeu com um girar dos olhos e subiu para as nuvens com uma única batida das asas.

— A Arquimaga — disse o feiticeiro com satisfação indisfarçada — está morta. Sua sucessora não é outra senão a Princesa Haramis, que recusou seu pedido de casamento e que está agora sob meu poder — embora ela ainda não saiba disso.

— Por Dez Infernos! — Voltrik embainhou a espada, com uma careta de alívio. — E as outras duas ordinárias reais?

Orogastus caminhou para a extremidade norte da torre e sentou no parapeito com a cabeça abaixada e a metade do rosto coberta pelo capuz. Usando a comunicação sem palavras, deu ordens rápidas ao seu acólito. Voz Verde levantou-se e desapareceu no alçapão.

Então, o feiticeiro tirou o capuz e sorriu para Voltrik com todo o encanto e a autoconfiança que haviam enfeitiçado um príncipe ardente dezoito anos atrás.

— As outras princesas estão vindo — disse Orogastus. — Kadiya conduz um bando indisciplinado de anões dos pântanos, armados com zarabatanas e lanças de pedra. O terrível exército de Anigel consiste em algumas centenas de oddlings mal-encarados das florestas, alguns covardes nyssomus, um grupo de imundos ruwendianos. e seu filho, o traidor, com seus traidores cheios de picadas de insetos.

— Mas as princesas têm seus talismãs! Orogastus fez um gesto afirmativo.

— Mas não sabem usá-los adequadamente. Sem dúvida pensam que basta dar uma ordem e os talismãs se encarregarão de nos destruir. Mas eu juro por minhaalma imortal que não é assim que os instrumentos mágicos funcionam. São armas sutis, e as princesas são jovens imaturas, com mais entusiasmo do que cérebro, e não entendem dessas ccoisas.

Sentado ao lado do feiticeiro, Voltrik franziu a testa e mordeu o bigode. Apontou para o Pântano

— Não podemos enfrentá-los lá. Não com o começo das chuvas. Jamais os acharemos no pântano, nem com a ajuda daqueles abomináveis afogadores.

— Não — admitiu Orogastus. — Exatamente por isso foram encorajados a atacar a Cidadela, onde nossas forças superiores e meus encantamentos poderosos darão cabo deles de uma vez por todas!

Voltrik animou-se.

— Você os fará explodir com seus relâmpagos! Vai devastá-los com a magia que usou para tomar a Cidadela.

— Depositarei as cabeças da Princesa Anigel e da Princesa Kadiya a seus pés. Haramis, que é minha criatura, o servirá de corpo e alma.

Voltrik riu nervosamente.

— Acho que vou gostar disso. Se você puder fazer com que ela se submeta usando sua mágica. Sempre gostei de mulheres altas e, de qualquer modo, preciso ter” mais filhos•••

— Haverá uma batalha, senhor — disse Orogastus, quase com indiferença. — Ocorrerá dentro de dois dias, sem dúvida na festa das três luas.

Voltrik estava de pé, com os olhos brilhando, e disse em voz muito alta:

— Ótimo! Que diabo, é disso que precisamos para aquecer nosso sangue outra vez! Há um mês parado aqui, metade desse tempo, doente, quase à morte, sinto o coração estagnado como este maldito lodaçal! Você já planejou a estratégia para o combate?

— Sem dúvida, meu senhor — Orogastus levantou-se. — E desta vez é certo que venceremos. Meus grandes poderes estão afiadíssimos e estou ansioso para servi-lo. O exército da Cidadela está pronto e Lorde Osorkon logo chegará com mais cinco mil homens... E para que vossa majestade não se preocupe com o suposto poder das princesas e dos seus talismãs, tenho também isto.

Orogastus tirou uma bolsa de dentro do manto, abriu-a, mostrando ao rei uma caixa talhada com caveiras e outros símbolos da morte. Levantou a tampa revelando uma esfera grande e opaca do tamanho de uma fruta ladu, sobre um ninho acolchoado de veludo negro.

— Esta é uma arma mais mortal do que todas as minhas outras juntas. Foi o segundo presente de despedida do meu falecido Mestre Bondanus.

— O que deu as Pastilhas de Ouro?

— Sim. As pastilhas foram uma dádiva de vida — mas isto provoca a mais terrível das mortes. Só deve ser usado como último recurso, pois sua força mortal atinge a todos, amigos ou inimigos, que estiverem ao nível do solo, num taio de mil ells. Se for necessário usar esta arma — se não houver outro meio de matar as princesas —, eu pessoalmente a usarei.

O Rei Voltrik empalideceu com os olhos pregados na caixa.

— Como se chama e como funciona?

— É conhecida como Eflúvio Maldito e é uma arma mais antiga do que os Desaparecidos, usada contra eles pelos ancestrais do meu Mestre, na grande batalha pela conquista do mundo. A esfera é de vidro. Quebrada contra uma pedra, emite vapores que matam na primeira inalação. Estou disposto a usá-la para garantir nossa vitória — mesmo sabendo que matará tanto nossos homens quanto os do inimigo. Mas o senhor não precisa temer, desde que fique na parte mais alta da fortaleza. Os vapores pesados não sobem além da altura de um homem.

Orogastus fechou a caixa e a guardou.

— Provavelmente não será necessário. Eu a mostrei apenas para provar que as princesas não podem vencer de nenhum modo. Nós somos invencíveis.

Os olhos do feiticeiro brilhavam como estrelas e a voz suave infundia confiança e eliminava qualquer temor.

— Acredita em mim, não acredita, meu rei?

— Sim — respondeu Voltrik, num murmúrio trêmulo. — Acredito.

Sabendo que suas forças teriam de percorrer cerca de quinze léguas fora das trilhas conhecidas, através do Pântano Labirinto, do acampamento secreto no Rio Skrokar até o esconderijo de Kadiya, ao norte da Cidadela, a Princesa Anigel pediu ao seu talismã para escondê-los da vista do inimigo durante a viagem. E, maravilha! A neblina espessa, como um miasma opaco, cegava os humanos, mas não perturbava nem um pouco os oddlings.

A princesa achou que era uma resposta ao seu pedido e seu exército iniciou a jornada. A frota de canoas dos nyssomus transportou todos a salvo até além do castelo Manoparo, chegando à confluência do Skrokar com o Mutar. Daí, subiram o grande rio, pelos canais secundários, ao longo da margem norte, então, viraram para a direita, entraram num canal pequeno e tortuoso e ao cair da noite chegaram ao esconderijo de Kadiya.

O lugar era outra ilhota no pântano, iluminada pela luz de lanternas de vidros contendo pequenos vermes verdes e luminosos. Um chefe uisgu, com grandes círculos de tinta vermelha em volta dos olhos e uma armadura completa de escamas de peixe douradas, esperava o barco de Anigel na praia, e anunciou que conduziria a princesa, Antar e os cavaleiros labornoks à presença de Kadiya.

Desembarcaram à luz pálida das lanternas e seguiram a trilha até a tenda simples de couro onde Kadiya e seus comandantes uisgus estudavam um mapa da Cidadela, que estava aberto sobre uma mesa rústica.

Havia mulheres uisgus também no comando, mas nenhuma usava os vestidos longos e bordados. Todas vestiam calções de palha trançada e, sobre eles, túnicas cobertas com escamas e conchas, que iam até os joelhos, como uma cota de malha. Usavam elmos também, alguns feitos com metal encontrado nas ruínas. O elmo de Kadiya cobria o cabelo longo trançado e enrolado na cabeça. A não ser pela altura, ela podia ser tomada por uma comandante uisgu.

Quando a Princesa Anigel dos cabelos de ouro viu a irmã, esqueceu tudo o mais e, chorando de alegria, correu para ela com os braços abertos.

Mas Kadiya retribuiu o abraço com certa hesitação, sem tirar os olhos do rosto de Antar, que estava parado na entrada da tenda, na frente dos seus homens. O príncipe olhou de uma para outra e franziu a testa.

— O que está acontecendo? — exclamou Anigel, desapontada. — Nós estamos juntas outra vez, e vivas!

— Sim, estou viva — disse Kadiya com voz seca. — Mas quem são esses que a acompanham, irmã? Qual o trato que fez com eles? A confiança não pode se basear no derramamento de sangue de irmãos. — Olhou diretamente para o príncipe. — Já esqueceu tão depressa de quem era a espada que dilacerou nosso mundo?

Foi como se Kadiya tivesse trespassado a irmã com uma lâmina afiada. Com uma exclamação de dor, Anigel disse:

— Não devem temer Antar, nem desconfiar dele. Empenho minha vida como garantia. Meu talismã também! — Tirou a tiara da cabeça. À medida que se aproximava da irmã, a luz do trílio, dentro do âmbar, pulsava, cada vez mais forte. Anigel estendeu o talismã para Kadiya.

— Alteza — o príncipe olhou diretamente para Kadiya. — Em nome do que devemos jurar para que aceite a verdade?

Num gesto lento, Kadiya desembainhou seu talismã. Ergueu a espada verticalmente, segurando-a pela ponta, de frente para Anigel e Antar. Os três olhos se abriram e os cavaleiros murmuraram, consternados.

— Irmã, fique de frente para eles e deixe que os talismãs façam o julgamento.

Magoada, Anigel obedeceu.

— Senhores do Ar, grandes servos de Deus — entoou Kadiya —, revelem quais entre esses cavaleiros nos servirão com amor e quais nos prejudicarão e façam a estes últimos o que eles fariam a nós.

Uma luz azul silenciosa e, intensa explodiu no ar. O Príncipe Antar e seus quinze companheiros leais estremeceram em suas armaduras. Na terra molhada dois cavaleiros jaziam imóveis.

Depois de alguns segundos, Sir Owanon inclinou-se sobre eles. Balançando a cabeça, disse:

— Onbogar e Turat. Mortos.

Anigel gritou horrorizada. Mas o Príncipe Antar perguntou aos outros homens:

— Onde está Rinutar?

O cavaleiro não estava entre eles, e não fora visto desde que desembarcaram na praia. Antar queria enviar um grupo de homens à sua procura, mas Anigel o deteve.

— Eu o encontrarei — disse ela, em voz baixa.

Pôs o talismã na cabeça e seus olhos, voltados para a direção da Cidadela, pareciam ver através dos homens.

— Está no meio do rio, numa canoa roubada.

— Matem o traidor! — exclamou Sir Penapat. — Ele avisará os soldados da Cidadela!

— Não é necessário — disse uma voz.

O espanto agora foi de Kadiya e Anigel. A Princesa Haramis abriu caminho entre os homens armados e aproximou-se das irmãs. Vestia o manto branco da Arquimaga e tinha na mão a coroa de estado.

— Haramis! — exclamaram as duas princesas em uníssono.

— Kadiya! Anigel! — Abraçou as irmãs e disse: — Sim, sou eu. Deixemos que Rinutar siga seu caminho. O Rei Voltrik e Orogastus já sabem que vocês estão aqui e que pretendem atacar amanhã, antes de a lua nascer, no começo da festa.

Uisgus e labornoks, Kadiya e Anigel, até o pequeno Jagun começaram a falar ao mesmo tempo.

Haramis ergueu seu talismã. A luz dourada do trílio no interior do âmbar pulsou com um brilho intenso, assim como as pedras de âmbar dos dois outros talismãs. Fez-se silêncio.

— Irmãs — disse Haramis. — Eu sei quantos seguidores vocês trouxeram para este acampamento. — Procurava não demonstrar sua incredulidade, pois todos mereciam sua cortesia.

— Vi várias outras canoas de uisgus aproximando-se, bem como uma grande frota de ruwendianos armados, vindos do nordeste livre. Mas se atacarem a Cidadela, todos seus amigos leais morrerão, pois esta aventura está destinada ao fracasso.

— Quem disse isso? — perguntou Kadiya, furiosa. — Seu muito amado feiticeiro?

Haramis corou. Não merecia isso, embora não pudesse culpar Kadiya por pensar assim. Olhou nos olhos da irmã.

— Não importa o que você pensa que houve entre Orogastus e eu. O fato é que não fui eu quem trouxe o inimigo para o nosso meio. — Olhou para Anigel, que estava ao lado do Príncipe Antar. A princesinha mais nova corou, mas não disse nada. — Quanto ao destino desta empreitada — não sou cega e posso vê-lo perfeitamente. Seus nativos só têm armas leves. As forças do Conde Palundo provavelmente não chegarão a tempo — mas, mesmo que cheguem, terão de enfrentar os cinco mil homens que descem o rio sob o comando de Osorkon. A outra metade do exército de Voltrik já está em posição de combate, preparada para repelir qualquer ataque. Os grandes portões da Cidadela foram reparados.

— Talvez — disse Kadiya com um largo sorriso — tenhamos o necessário para abri-los. E para vencer seu bruxo também!

— É uma probabilidade que joga com muitas vidas — disse Haramis. — Talvez não saiba que não pode contar mais com a ajuda da Arquimaga.

— Por que não? — perguntou Kadiya. — Ela sempre nos ajudou. Está dizendo que ela vai ajudar Orogastus nesta batalha?

— Não — disse Haramis, com voz cansada. — Estou tentando dizer que a Arquimaga está morta.

Anigel deixou escapar uma exclamação de dor mas Kadiya disse:

— Como você sabe?

— Sei porque eu estava lá. — A dor daquela perda ameaçou envolvê-la. Haramis não havia ainda chorado a morte da Arquimaga, mas controlou-se mais uma vez e continuou com voz firme: — Orogastus as espera com todas as armas antigas que possui e chamou os skriteks do Pântano Verde. Estão convergindo para o Knoll da Cidadela para atacar e devorar todos que encontrarem à sua frente! Acreditam realmente que podem enfrentar isso — mais as armas de Orogastus?

Fez-se um silêncio, longo demais para Haramis.

— Vocês serão massacrados — disse ela, em voz baixa. — Recuem, eu peço. Eles não podem persegui-los no pântano, na estação das chuvas.

— Não! — Kadiya bateu com a mão fechada na mesa. — Você está enfeitiçada por Orogastus. Isso é evidente, pois roubou o manto da Arquimaga.

— Pensa mesmo que eu queria tomar o lugar dela? — perguntou Haramis. Toda a fadiga, toda a dor pela morte da Arquimaga ameaçaram dominá-la outra vez.

— Sim, eu penso — disse Kadiya. — Você sempre desejou avidamente o poder, Haramis. Não pode admitir que eu ou Ani tenhamos um plano melhor do que o seu.

A injustiça daquelas palavras atingiu Haramis dolorosamente. Teve a impressão de que ia sucumbir ao golpe. Kadiya olhava para ela com fúria, mas Anigel percebeu a dor nos seus olhos.

— Acho que está sendo injusta, Kadi — disse ela. — Vamos ouvir o plano de Haramis.

Kadiya olhou irada para as duas irmãs.

— O que vai ser da coroa, Haramis? — perguntou ela. — Você e Orogastus compartilharão os tronos de Ruwenda e de Labornok, depois de se livrarem de Voltrik com esse seu plano?

— É claro que não! Kadiya, você não compreende. — Haramis estava quase perdendo as esperanças de conseguir explicar seu plano. Como fazer com que as irmãs compreendessem?

Então, Jagun falou, para surpresa de todos:

— Deixem que os talismãs nos digam se ela diz a verdade ou não, como fizeram com os homens do Príncipe Antar.

Haramis empertigou o corpo.

— Como quiserem. Mas se seus talismãs são iguais ao meu, devem ser muito cuidadosas nesse teste. Pois estou certa de que o meu talismã, assim como os seus, pode matar.

— Que seja assim — disse Kadiya.

Anigel olhava de uma irmã para a outra, com imensa tristeza. Os pensamentos das três podiam ser lidos facilmente mesmo pelos cavaleiros labornoks e pelos uisgus.

— Querida Haramis — disse Anigel, tristemente —, queremos muito acreditar em você, mas nós a vimos com Orogastus. — Tinha lágrimas nos olhos, mas sua voz estava firme. — Não temos escolha senão pedir sua permissão para fazer o teste com você.

Haramis olhou para a irmã, um tanto confusa. Todos na tenda esperavam tensos, e no silêncio ouviram as primeiras gotas de uma nova tempestade, bem como o murmúrio de muitas vozes lá fora. Outro grupo de recrutas acabava de chegar.

— Não pedi para testar sua lealdade — disse. Haramis —, embora você tenha trazido seu príncipe. — Anigel corou e ela continuou: — Seja como querem. — Ergueu seu talismã na frente do rosto. — Façam o teste, então.

Nesse momento, os uisgus e os cavaleiros saíram apressadamente da tenda, ficando apenas Antar e Jagun, que fez no ar o signo do Trílio Negro na frente de cada princesa. Haramis entregou a ele a coroa e o caçador ajoelhou num canto, com ela na mão e a cabeça inclinada sobre o peito.

Kadiya e Anigel estavam lado a lado com seus talismãs erguidos. Mas dessa vez foi a princesa mais nova quem falou:

— Queridos Senhores do Ar, tenham piedade de nós três, mas demonstrem claramente qualquer perigo que possamos representar para o grande equilíbrio do mundo.

Os três talismãs cintilaram, enchendo a tenda com sua luz rubra. As princesas estavam imóveis como estátuas, com os olhos muito vivos e os lábios entreabertos.

Então a tiara, o bastão e a espada sem ponta adquiriram um aspecto espectral, saltaram das mãos das princesas e pararam no ar, um pouco acima delas. E ali se fundiram. O bastão encaixou no punho da espada com as três esferas e a tiara, com as figuras monstruosas sob as pontas, formou um círculo fechado. As três asas com o âmbar no centro ergueram-se formando anéis concêntricos. Uma voz misteriosa disse:

Este Cetro do Poder contém o potencial para o equilíbrio permanente, bem como para a ruína completa deste mundo. Pense sensata e sabiamente antes de dar alguma ordem a este cetro e lembre-se de que aqueles que o criaram, no fim, tiveram medo de usá-lo.

A luz vermelha apagou-se. Os talismãs voltaram, separados, para as mãos das princesas.

Depois de um longo silêncio, o Príncipe Antar perguntou:

— Os talismãs responderam?

Haramis olhou para ele, incrédula, mas foi Anigel quem perguntou, como quem acorda de um sonho:

— Você não viu e ouviu?

— Nada, graciosa senhora, a não ser sua invocação.

As três irmãs entreolharam-se. Instintivamente, uniram-se num abraço.

— Então parece que minha sinceridade foi provada — murmurou Haramis. — Não foi?

— É claro que foi — disse Kadiya secamente —, mas vamos atacar a Cidadela assim mesmo.

Haramis franziu a testa.

— Estão mesmo resolvidas?

— Estamos — disse Anigel. — Se não vier conosco, Haramis, pelo menos não fique no nosso caminho, nem nos entregue ao inimigo.

— Não farei isso — garantiu Haramis. — Mas agora devo deixá-las. Preciso ir ao Knoll da Cidadela e lá. não sei o que vou fazer. Mas sei que preciso estar lá.

Jagun aproximou-se com a coroa na mão.

— Se quiser, Princesa Haramis, posso levá-la numa canoa.

— Eu agradeço — disse Haramis. — Mas antes de partir — voltou-se para as irmãs —, quero dizer algo que descobri durante minha visita a Orogastus. Grande parte da sua suposta mágica é feita com aparelhos dos Desaparecidos e é possível que seus talismãs possam inutilizar esses aparelhos. Meu talismã tocou um deles e o instrumento deixou de funcionar. Pode acontecer o mesmo com os seus. — Abraçou as irmãs. — Kadiya, Anigel, tenham cuidado — e que os Senhores do Ar as protejam!

Apanhou a coroa das mãos de Jagun e com seu manto branco, acompanhada pelo caçador nyssomu, Haramis deixou a tenda, onde ficaram apenas o Príncipe Antar e as duas princesas. O trovão rugiu e a chuva começou a cair copiosamente.

Kadiya olhou para o homem alto com armadura azul e franziu a testa.

— É verdade que não viu nada? Nem a luz vermelha, nem a fusão dos talismãs? Não ouviu uma voz estranha?

— Nada, princesa — respondeu Antar.

— A visão foi para nós, Kadi — disse Anigel. — E especialmente, eu acho, para a pobre Haramis.

— Pobre? — disse Kadiya. — Ora, aqui estamos nós, exiladas, preparando-nos para uma batalha, enquanto ela, com a coroa e o manto, prefere assistir confortavelmente instalada.

— Se conseguirmos vencer sem o cetro, então ela sem dúvida será a mais privilegiada. Mas se precisarmos dele...

Kadiya empertigou-se e segurou com firmeza o punho da espada.

— Não vamos precisar.

Então, com voz brusca, pediu ao Príncipe Antar para chamar seus cavaleiros e os chefes dos oddlings, a fim de explicar a todos os planos da invasão.