O Trílio Negro
Capítulo 31
Os uisgus eram extremamente sensíveis ao ambiente do pântano, notando as menores mudanças à sua volta. Caía a noite quando as mulheres que manejavam as varas do barco (tinham se revezado muitas vezes durante a descida do rio) pararam de repente. Kadiya as viu juntar as cabeças e conversar baixinho no seu dialeto.
Nessak, que falava a linguagem dos comerciantes, aproximou-se da princesa.
— Senhora, há mais inimigos à nossa frente. A maior parte está acampada na curva do rio. Precisamos encontrar um meio de evitá-los, para não sermos mais uma vez objetos dos seus prazeres cruéis.
Kadiya assentiu com um gesto. Teria de depender das habilidades deles, em terra e na água, como dependia antes de Jagun.
Jagun. seria para sempre uma lembrança dolorosa. Apesar de todas as esperanças da princesa e dos uisgus, ele não reapareceu no Mutar, e as mulheres não haviam recebido nenhum Chamado do caçador. Mas a princesa recusava-se a aceitar a idéia de sua morte.
— Há algum meio de evitarmos passar por perto dos nossos inimigos? — perguntou ela.
A névoa começava a subir outra vez, escondendo ora uma parte da margem, ora outra. Desde o começo da viagem não tinham visto nenhum sinal de ruínas.
Nessak balançou a cabeça lentamente.
— Senhora, os humanos malvados têm skriteks com eles, mas é verdade também que estão muito cansados e há outros perigos nesta região. Este é o território de caça dos loorus. Desse modo. — ela fez um pequeno gesto com a mão — quando chegar a noite precisamos nos esconder de algo mais além dos humanos e dos afogadores.
Loorus! Desde a infância, Kadiya ouvira falar das selvagens criaturas aladas noturnas. Eram os monstros com que as amas assustavam as crianças que ficavam fora de casa depois do pôr-do-sol. Mas, desde que haviam chegado àquela região, Jagun não os havia mencionado. Anos atrás ela vira pedaços curtidos do couro das asas dos loorus à venda em Trevista, mas eram raros, uma espécie de curiosidade. Olhou para o céu que escurecia rapidamente. Os loorus eram sugadores de sangue e podiam se agarrar a um homem e a um animal até deixá-los completamente secos, com garras capazes de matar qualquer presa menor.
— Senhora! — chamou uma das mulheres que estava na proa da canoa. — Veja aquilo!
Desde o começo da fuga, tinham passado por muitas curvas do rio e visto muitos canais. Agora, o rio parecia reto e ela notou uma luz na margem esquerda, certamente não era proveniente de nenhuma planta do pântano, mas de uma fogueira ou outra fonte de iluminação fixa. Ao mesmo tempo ouviram um clarim de guerra chamando os soldados, depois gritos dos homens e o ruído de alguém se afogando.
As mulheres uisgus levaram o barco imediatamente para a outra margem.
— Os humanos inimigos estão sendo atacados! — A voz de Nessak não era mais suave, mas estridente. — Talvez pelos loorus, senhora.
— Se são bastante idiotas para mostrar o caminho para os predadores, acendendo fogo — comentou Kadiya —, então, certamente não conhecem nada desta região. Os skriteks deviam tê-los avisado.
Nessak emitiu um som que podia ser uma risada amarga.
— Senhora, os homens que vêm de longe não dão atenção ao que dizem os afogadores. Não levariam a sério o aviso de um habitante dos pântanos. Não há nenhum entendimento entre eles, apenas a necessidade de derramar sangue para satisfazer seus senhores.
— Se os loorus os estão atacando agora — disse Kadiya, pensando rapidamente —, não podemos passar sem que nos vejam?
Nessak pensou por um momento.
— Pode ser uma boa chance para nós, senhora. Podemos tentar...
Tocaram a margem esquerda. Kadiya e algumas mulheres uisgus apanharam grandes quantidades de junco, atirando os molhos para as outras, que com eles cobriam a jangada fazendo-a parecer um monte de folhas levadas pelo rio. A única dificuldade era o tamanho da jangada. Era uma verdadeira ilhota flutuante, com menos de um quarto do tamanho da longa plataforma em que estavam as passageiras.
Terminados os preparativos, levaram a jangada para o meio do rio, onde a corrente era agora mais vagarosa, e começaram a deslizar com uma lentidão torturante. O fogo no campo inimigo ardia mais brilhante agora. As uisgus estavam deitadas na jangada, cobertas de juncos, mas observando a outra margem com olhos ansiosos.
Aparentemente, os invasores haviam aprendido alguma coisa em outras lutas contra os loorus, pois alguns homens brandiam tochas, ladeados por dois outros, armados de lança ou espada. Alguns animais abatidos contorciam-se no chão. Um skritek bateu na cabeça de um deles, e um homem com um curativo sujo de sangue numa das pernas ergueu uma espada leve, como se fosse uma faca de caça, para pregar no chão outro looru, que caiu batendo as asas violentamente.
Não havia nenhum sinal de orgulho ou de confiança naqueles soldados labornoks agora. As armaduras estavam enferrujadas, as plumas dos elmos amarfanhadas, e a roupa imunda. Muitos estavam feridos, e quase todos tinham o rosto e as partes expostas da pele inchados e vermelhos de picadas de insetos. Sob um toldo armado debaixo de uma árvore, uns quatro estavam deitados, imóveis.
Era evidente que o acampamento grande — pois não se tratava de um campo provisório de batedores — estava todo sob ataque organizado. Kadiya apanhou uma vara e a enfiou na terra da margem esquerda, dando maior velocidade à jangada. As mulheres uisgus fizeram o mesmo. Mas continuaram em marcha extremamente lenta.
Aparentemente, os loorus não esperavam tanta resistência. O bando voou rapidamente para longe do campo quando um deles foi atingido na asa por uma tocha lançada com precisão. Com um grito a criatura queimada mergulhou sobre seus atacantes, louca por vingança. Uma das garras da asa prendeu-se no queixo de um homem, arrancando o elmo. Ele soltou um berro de terror e o looru desceu verticalmente até o solo, prendendo sua vítima sob o próprio corpo em chamas.
Kadiya achou que agora a jangada teria mais chance de passar despercebida. Nenhum dos soldados estava perto do rio e, embora as tochas e a fogueira iluminassem parte da superfície da água escura, nenhum labornok ou skritek estava olhando naquela direção. Mas suas esperanças foram precipitadas. A jangada estremeceu debaixo delas e começou a ser arrastada para a margem direita. Kadiya tentou lutar com a vara contra o que pensou ser uma corrente mais forte. Então, a uma distância menor de um braço, a cobertura de juncos se ergueu. Uma uisgu gritou quando um braço com escamas apareceu da água pousando sobre os molhos de junco.
Ao mesmo tempo, sentiu que puxavam a vara que ela segurava e soltou-a em tempo, para não ser lançada para fora. A jangada agora movia-se diretamente para a cena da batalha.
— Afogadores — murmurou Nessak. — Debaixo da jangada. Estão nos levando para a margem!
Não era possível organizar uma defesa contra criaturas que podiam permanecer longo tempo sob a água sem serem vistas. Não podiam também se lançar ao rio e tentar nadar para longe, porque eles as afogariam num instante.
Kadiya compreendeu o que tinha acontecido. A maioria dos demónios do pântano lançou-se à água quando os loorus atacaram, deixando o combate a cargo dos homens. Devia haver um grande número deles agora no rio, a julgar pela velocidade com que a jangada se aproximava da margem.
No acampamento, o caos diminuía. Havia muitos loorus abatidos e os restantes voaram para longe, preparando-se para um novo ataque.
Então ela viu, à luz clara da fogueira, o homem vestido de vermelho com um capuz escondendo a metade do rosto. Só podia ser uma das Vozes de Orogastus, que há tanto tempo a procurava. Numa das mãos ele segurava um bastão que enfiou no chão, verticalmente. Um soldado correu e o ajudou a firmálo no solo. Na parte superior, bem acima das chamas da fogueira havia uma placa redonda. O homem de vermelho recuou e das suas mãos saiu um facho de luz que atingiu a placa. Ouviu-se uma pequena explosão. Chamas laranja-amareladas ergueram-se na borda da placa, que começou a girar com um som agudo ensurdecedor. O bando de loorus, com gritos de pavor, levantou voo rapidamente e desapareceu no céu escuro. A placa girou emitindo o som enervante por mais alguns minutos, depois, apagou-se, com uma chuva de fagulhas.
O homem de vermelho caminhou até a margem do rio para observar a jangada que se aproximava. Kadiya não o ouviu chamar, mas imediatamente apareceram vários homens usando os mantos rasgados e as insígnias manchadas dos cavaleiros.
Ordens foram então gritadas e os soldados correram da cena da batalha recente para a praia. Kadiya viu um punhado de arqueiros andrajosos com os arcos retesados. Porém, um oficial com uma armadura completa e limpa, vermelho-vivo, estendeu o braço e eles não lançaram as flechas. Nenhuma uisgu havia saído do esconderijo de hastes de junco, mas Kadiya tinha certeza de que os homens na praia sabiam da presença delas. Os skriteks saíram da água e começaram a balançar a jangada, rindo em triunfo, com os olhos enormes refletindo a luz da fogueira e das tochas.
O oficial, que Kadiya reconheceu como o General Hamil, voltou-se para a Voz Vermelha e disse alguma coisa. Imediatamente, o acólito de Orogastus gritou na língua dos nativos:
— Para terra, miseráveis! Ou preferem que nossos aliados peguem o que desejam? — Com um gesto indicou os skriteks.
Os montes de junco se agitaram e as mulheres uisgus saíram da jangada. Mas Kadiya não as seguiu. Segurou seu talismã.
Certamente, devia liaver uma chance. Os skriteks agarraram uisgus e as levaram para terra. Porém, Voz Vermelha não estava preocupado em capturá-las. Olhava com ar intrigado para onde Kadiya continuava escondida. O talismã parecia protegê-la de algum modo.
Voz Vermelha disse alguma coisa para o General Hamil e o oficial deu meia-volta. Uma das mulheres uisgus, com o filho no colo, tropeçou e caiu a seus pés, quando era arrastada pelos skriteks. Hamil abaixou-se e, segurando a criança por um braço, arrancou-a da mãe e a atirou para um skritek. O monstro rugiu de prazer e apanhou a presa no ar facilmente. Kadiya saiu do esconderijo, com o talismã na mão. — Não! — ela gritou.
Antes que pudesse fazer qualquer movimento as garras de um skritek que havia subido na jangada fecharam-se em volta dos seus braços, puxando-os dolorosamente para trás das costas. O talismã caiu na lama, e outro skritek abaixou-se para apanhá-lo. Mas o monstro recuou com um grito e Kadiya viu rolos de fumaça saindo da pedra de âmbar.
Empurrada para a frente pelo skritek, Kadiya ficou entre o general e a Voz, tensa e tremendo de raiva, impotente. Através do elmo aberto, Kadiya viu que ele não se parecia em nada com o homem esplêndido que ela vira na Cidadela. O rosto e o queixo, com a barba crescida, estavam cheios de picadas de insetos. Uma delas, bastante inchada, sob o olho esquerdo puxava a pálpebra para baixo, quase impedindo-o de enxergar. Mas ele sorria e agora deu uma gargalhada.
— Muito bem, Voz — disse ele. — Temos aqui uma coisa que compensa toda esta viagem na lama. A Princesa Kadiya! Sem dúvida fomos favorecidos pela sorte esta noite!
Ele estendeu a mão e segurou o rosto da princesa, enfiando as unhas dolorosamente na carne.
— Verme dos pântanos — disse ele, com verdadeiro prazer. — Está bem longe das suas sedas e confortos, agora, não é mesmo? Não foi preciso muita coisa para reduzi-la a uma criatura da lama — carne fraca, como todos da sua espécie! — Soltou o rosto de Kadiya e a esbofeteou com tanta força que as lágrimas afloraram aos olhos da princesa.
Hamil resmungou.
— Enxugue os olhos, menina. Não vai haver misericórdia para ninguém da sua casa. — Olhou para Voz Vermelha e disse com desprezo: — Então, as mulheres da linhagem de Krain vão derrotar Labornok! — A mão pesada caiu agora no ombro da princesa, fazendo-a voltar-se para o acólito de Orogastus.
— Isto — é isto que seu grande mestre diz que trará a morte para todos nós? Que piada!
Voz Vermelha não olhava para Kadiya, mas para o talismã, caído no chão, não muito longe deles. Abaixou-se para apanhá-lo, mas recuou, carrancudo.
— O que o assusta, Voz? — perguntou Hamil, jovial.
— É o talismã? Essa coisinha mágica tão cobiçada por seu mestre? Fique com ele, homem. O que está esperando?
Voz Vermelha ficou rígido. Parecia mais alto, mais maciço. Das aberturas para os olhos, na máscara, saltaram duas línguas de fogo e o general e seus homens exclamaram, apavorados:
— Hamil! — Como que trazida pelo vento da noite, soou uma voz que Kadiya já ouvira antes. Era o acólito falando, mas a voz era de Orogastus. — Você trabalhou bem. Melhor do que imagina. Mas precisa ter muito cuidado. Aquilo que está no chão, perto de vocês, pertence apenas à sua prisioneira. Nem você, nem qualquer outro que não possui o saber antigo pode manejá-lo — somente ela. Minha Voz Vermelha, obedeça! Obrigue a Princesa Kadiya a levar o talismã de volta para a Cidadela, mas não permita que ela faça uso dele.
O corpo da Voz Vermelha pareceu diminuir de tamanho. Os olhos ficaram negros outra vez e ele murmurou:
— Sim, mestre.
Hamil cuspiu, ruidosa e acintosamente, na lama, ao lado do punho da espada.
— Então ela e aquela vareta estão unidas por magia. Muito bem, Voz, como vai resolver o problema? Sem dúvida é o tipo de ação própria do seu mestre.
O acólito do feiticeiro tirou de sob o manto um pedaço de corda, feita de fibra incomum, mas de um material mosqueado, como a pele de um pequeno verme dos pântanos. Kadiya o viu fazer um pequeno laço na ponta, depois começou a enrolar a corda no dedo, murmurando palavras ininteligíveis.
Depois, com o cuidado de um pescador pronto para apanhar um peixe, abaixou o laço e com grande paciência o passou em volta do punho do talismã, puxando rapidamente. Certificou-se de que o laço estava firme, segurou a ponta da corda e ergueu a espada da lama. Hamil estendeu a mão para tocar o talismã, mas o homem de vermelho recuou rapidamente com ela.
— Lorde General, isto está realmente ligado à sua dona. Encoste a mão nela e pode ficar preso.
O general fungou com desprezo.
— Ouviu o que disse o meu mestre — continuou a Voz. — Isto é um objeto com grande poder que ele deseja possuir, e uma vez que está ligado magicamente à Princesa Kadiya, ela deve ser também levada a ele.
Hamil olhou pensativamente para a jovem.
— E o que acontece se ela conseguir usar essa maldita coisa, de algum modo?
A Voz observava Kadiya cuidadosamente através das aberturas da máscara.
— Lorde General, não sabemos o que ela pode fazer. Mas meu mestre deu-me algo para subjugá-la.
A espada balançava hipnoticamente na ponta da corda de pele mosqueada. Voz Vermelha com a outra mão tirou debaixo do manto um objeto pequeno e branco e o encostou na testa de Kadiya.
A princesa deu um grito e depois se calou, sentindo o frio do gelo penetrar seus ossos. Tentou se mover, mas o corpo não respondeu.
A Voz fez um gesto afirmativo.
— Pronto. Durante algum tempo, Lorde General, ela ficará inofensiva — mas não para sempre. Este instrumento só funciona uma vez e tenho apenas um. Mas podemos dominar esta jovem de outro modo. Aquilo que está ligado pode ser libertado — por força de vontade. Mas essa quebra da resolução de outra pessoa toma tempo. Devemos fazer com que o talismã continue em seu poder até estarmos em posição para recebê-lo de suas mãos.
— Recebê-lo de suas mãos? — Hamil começou a rir. — O, isso pode ser arranjado, é claro que pode!
Ordens foram dadas. Amarraram Kadiya como um fardo inerte, com o talismã nas costas. Passaram estacas através das cordas e dois soldados a carregaram como um trofeu de caça.
As uisgus da jangada foram mais uma vez reunidas e amarradas umas às outras pelo pescoço. Porém, tudo indicava que seus captores não iam fazer nada mais naquela noite. Talvez achassem tolice ficar longe do fogo, depois do ataque dos loorus. As cordas que prendiam as uisgus foram amarradas a duas árvores fortes entre os arbustos e os skriteks agacharam-se ao lado delas, rosnando e olhando para as prisioneiras com olhos famintos.
Os pensamentos de Kadiya processavam-se preguiçosamente. Teve uma sensação visual estranha, de alguém caminhando, passo a passo, num grande campo de neve. Pensou no General Hamil, um instrumento eficiente para o Rei Voltrik. Dele emanava uma sensação de mal, não de trevas extraterrenas como projetavam a Voz e seu mestre, mas de uma brutalidade que, de certo modo, era pior, por ser completamente humana. Entretanto, provavelmente seria mais fácil influenciar o general do que o fantoche do feiticeiro.
A princesa tentou usar sua fúria, como já fizera tantas vezes, para se livrar daquele gelo mortal. Mas estava presa. Não sentia nenhum calor, nem do talismã, cuidadosamente agarrado nas suas costas. Fechou os olhos e esforçou-se para pensar com clareza, mas seus nervos congelados pareciam pedirque se entregasse sem lutar.
Então, Kadiya ouviu um farfalhar de fazenda ao seu lado e lembrou-se de que há algum tempo não ouvia os grunhidos dos scriteks. Abriu os olhos e um hálito com cheiro forte de bebida soprou sobre seu rosto. Então, uma palma áspera cobriu sua boca e dedos fortes emaranharam-se nos seus cabelos.
— Princesa! — Era um murmúrio de bêbado. — O que me diz do tesouro que viu nas ruínas do pântano? Onde está aquela bruxa das lendas antigas que brinca com a magia, e que, segundo dizem, possui os instrumentos mais poderosos dos Desaparecidos? Orogastus quer tudo para ele. Ah, sei muito bem disso! Mais do que Voltrik, que talvez esteja morto, com aquele seu filho idiota. Mas o feiticeiro está muito longe, na sua torre, e sua Voz não passa de um cretino quando não está possuído pelo espírito do mestre. Conte-me os segredos que você descobriu! Compre uma morte decente, filha do rei. Se tiver de conseguir isso, será por minha vontade, somente por minha vontade.
Hamil! O homem estava fazendo um jogo à parte..
A mão foi retirada da boca de Kadiya, mas os dedos continuaram puxando dolorosamente seus cabelos. Estranhamente, as ameaças brutais do general pareciam anular em parte o encantamento gelado que a imobilizava. Então, não havia mais um objetivo comum entre os inimigos. Como podia tirar vantagem disso? Era tão difícil pensar com clareza.
— Prefere então enfrentar os skriteks, animal da lama? Muito bem, podemos arranjar um belo espetáculo amanhã cedo para você. Você vai assistir.
Os dedos soltaram seus cabelos e Kadiya ficou sozinha. Com todo seu tamanho, o general movia-se silenciosamente e Kadiya estava no chão, não muito longe da barraca. Então ela viu outro vulto movendo-se na sua direção, mas que não se aproximou demais. E ouviu o murmúrio sibilante.
— Então! Hamil pensa que pode vencer o mestre! Como se, em algum momento, ele tivesse sido necessário. Nem ele, nem o Rei Voltrik, nem o Príncipe Antar, nenhum deles é necessário desde que esta terra foi conquistada. O importante, jovem, é isso que leva com você! Orogastus permitirá que receba seu pagamento de sangue do rei labornok se contar a verdade a ele.
Voz Vermelha chegou mais perto. Então, pôs a mão no ombro dela, perto do punho do talismã.
— Vê, estou falando sinceramente. Posso libertá-la do encantamento do gelo. Podemos estar longe daqui antes da manhã sobre a qual Hamil estava falando, se você passar a posse do talismã para mim.
Reunindo todas as forças que ainda tinha, Kadiya disse:
— Não sou idiota, fiel servidor de um mestre infame!
— Infame? Ah, não, princesa. Verá que Orogastus é um amigo extremamente agradável. Sua irmã Haramis já está em sua companhia, aprendendo com ele uma arte maravilhosa que a sua Arquimaga nem sabe que existe. Ela tem gosto e talento para essas coisas, a Princesa Haramis, e já começa a ver tudo com os olhos do mestre. Você pode juntar-se a ela. Meu mestre não a impedirá de se vingar do Rei Voltrik e de Hamil. Eles começam a cansar sua paciência. Você pode ser rainha, se quiser — senhora de duas terras, e sua irmã terá um trono taumatúrgico para alcançar as estrelas.
Havia uma lógica venenosa nas palavras da Voz. Era fácil entender que Orogastus estivesse farto dos aliados labornoks. Que ele acreditava poder usá-la, uma princesa real, para governar Ruwenda e Labornok — sim, fazia sentido. É claro que estava mentindo quando disse que Haramis havia se submetido a Orogastus. Contudo, podia contemporizar.
— Eu. não posso fazer nada. amarrada como estou — disse Kadiya.
O homem de vermelho fez um ruído que era quase uma risada.
— Princesa, pode comandar o talismã, mesmo amarrada. Liberte pela palavra e pelo pensamento o que está carregando, que eu a livro das cordas.
Claro que Kadiya não acreditou. Mas tinha pouco tempo para pensar e sua mente parecia funcionar ainda com uma lentidão exasperante.. Então lembrou-se — lembrou da lâmina nascida de uma raiz. Podia dizer uma palavra mágica — enraizada em outra coisa qualquer — que o acólito de Orogastus não conhecesse.
— Eu lhe concedo.. permissão para tirá-la da bainha.
— As palavras que chegavam aos seus lábios não estavam em sua mente um momento atrás. — Plante a extremidade sem ponta no chão.
Kadiya ouviu a respiração acelerada do homem. Era estranho que ele acreditasse em suas palavras, mas a princesa não tinha tempo para pensar nisso agora. Sentiu que o talismã era tirado dos seus ombros. A espada estava completamente sem brilho. Voz Vermelha ficou de pé. Kadiya o viu enterrar a lâmina no solo como havia mandado.
Então, com um brilho cegante, a espada pareceu afinarse, até ficar estreita como uma haste de relva, mas os três globos não mudaram. Kadiya ouviu a própria voz num murmúrio feroz.
— Seja, ó talismã vivo, ó raiz do Trílio Negro, emblema e força da nossa casa, como sempre foi!
À sua ordem, as três esferas se abriram. Os três olhos estavam vivos e voltaram-se para Voz, que ficou imóvel e rígido. Por um momento, os olhos do homem cintilaram como estrelas, quando o feiticeiro, de longe, tentou invadir sua mente. Mas Orogastus não foi bastante rápido.
Um dos olhos do talismã expediu um raio de luz branca, seguido por um raio de luz verde do olho do oddling e um facho dourado do olho humano.
E a Voz de Orogastus ardeu em chamas.
O homem contorceu-se, envolto na claridade mágica. Uma coluna de chamas de três cores enrolou-se no seu corpo. Nem teve tempo de gritar. Então, o fogo desapareceu de repente, como tinha aparecido, e só sobrou um monte de cinzas no chão, do qual subiam espirais de fumaça.
No lugar do Olho Chamejante de Três Partes estava o talismã, sem vida e sem brilho.