O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 30 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 29

 

Chegou a noite e Kadiya dormiu entre os sindonas e o topo da escada. Depois de se servir dos alimentos oferecidos pelo jardim, achou que seria errado permanecer ali. A sentinela viva não voltou. Kadiya não a esperava e deitou-se, segurando o amuleto. Não foi num sono verdadeiro que ela mergulhou, acordou e mergulhou outra vez.

Tinha provas de que os invasores haviam conseguido entrar na terra proibida. E pensava também em Jagun — seria capturado pelo inimigo e torturado como o pobre uisgu que havia encontrado?

Para onde devia ir agora? Voltar pelo mesmo caminho — enfrentar os que a seguiam e que talvez estivessem ainda à sua espera? Seria pura idiotice. Mas não tinha nenhum guia, e de nada serviria ficar andando por aquele jardim estranho. À sua direita havia uma parede muito alta, resolveu seguir ao lado dela.

Tinha esvaziado a bolsa de caça de Jagun, da qual pouco tinha se utilizado, e posto para secar durante a noite. Desfez-se de alguns volumes que estavam completamente encharcados. As raízes comestíveis, apanhadas no jardim, e as frutas guardou num cesto de palha, primitivamente tecido, e encheu de água o cantil. Nada mais a prendia ali, mesmo assim Kadiya voltou para olhar o jardim pela última vez. Talvez fosse proibido, mas havia nele alguma coisa que a atraía — que parecia chamá-la, apesar da atitude fria da sentinela.

Com um suspiro, Kadiya ajeitou a bolsa de caça nos ombros. Fizera uma bainha provisória para o talismã, com uma alça, que passou pelo ombro e o peso servia para lembrar que tinha realizado parte da sua missão. Uma espada — quando o que precisava era de um exército!

Acompanhou o muro alto por algum tempo e chegou a um pórtico enorme. Lá dentro, depois de um parque imenso, cintilava uma cidade. Apavorada, entrou pelo pórtico e se aproximou do lugar. A vegetação quase encobria as casas silenciosas e a relva e o mato cobriam as ruas. Porém, sob toda aquela invasão verde não se notava nenhum indício de ruínas. As paredes que apareciam entre folhas e trepadeiras não eram de pedra, mas da mesma substância estranha da grande concavidade onde ela e Jagun haviam passado uma noite.

De repente Kadiya compreendeu que estava vendo a cidade do seu sonho. Outros muros erguiam-se além, protegendo-a completamente. A princesa caminhou, maravilhada, por uma larga avenida. Os prédios, dos dois lados, eram bem construídos e acima das portas e janelas havia inscrições indecifráveis em alto-relevo. A avenida levou-a a um portão da altura de um prédio de três andares, aberto. Kadiya passou pelo portão e entrou num mundo diferente, estava outra vez no pântano — e a avenida era agora ruínas de uma velha estrada. O que o tempo não havia tocado no interior da cidade, conquistara completamente ali fora.

Felizmente, a velha estrada não tinha desaparecido por completo. Kadiya notou a espuma amarela e ameaçadora nos dois lados do caminho, mas onde estava o solo parecia firme. Parou e cortou o galho de um arbusto para experimentar a solidez do solo à medida que andava.

Depois de percorrer uma boa distância no pântano, olhou para trás e balançou a cabeça, sem poder acreditar no que via. A cidade era só um monte de ruínas. Até o muro estava desmoronado e coberto de vegetação. Ilusão!

Porém, o que era ilusão? O jardim misterioso e a cidade de sonho, ou aquilo que via agora? Tudo que tinha acontecido com ela seria então encantamento? Mas sentia o peso da espada no ombro e ergueu a mão para sentir as saliências dos Três Olhos Chamejantes.

Caminhou durante várias horas sem ver nada estranho e ouvindo apenas os ruídos normais do pântano. A julgar pela luz do sol, que parecia sempre encoberta pela névoa, devia ser meio-dia, ou um pouco mais. À sua frente havia moitas de ervas espinhosas e árvores silvestres.

Então ela ouviu o trinado típico de um besouro rãs, repetido três vezes, num ritmo que ela conhecia. Jagun! Tinha de ser ele!

Um leve movimento entre as moitas e ela viu o rosto do amigo querido, com um largo sorriso. Um dos seus olhos estava inchado e escuro. Era evidente que as coisas não tinham sido fáceis para ele. O caçador oddling tinha uma compressa de folhas secas, atada com hastes de junco na parte superior do braço, perto do ombro, e parecia mover-se com dificuldade.

Jagun não perdeu tempo com cumprimentos.

— Eles estão aqui — os skriteks e os soldados. Kadiya pensou nas vítimas patéticas que tinha visto na outra estrada — e na fogueira distante e na flecha marcando o caminho. para alguém.

— Eu vi sinais de que o inimigo está muito perto.

O rosto de Jagun era uma máscara e sua atenção não estava em Kadiya, mas nos próprios pensamentos.

— Está próxima a festa das três luas — murmurou ele —, e a escuridão aumenta! Mas logo haverá muito fogo que só será apagado com sangue.

A festa das três luas. Na Cidadela, era sempre comemorada com banquetes, estranhas canções antigas cantadas pelos bardos e uma jangada cheia de flores era solta no rio, iluminada por candelabros com três velas cada um. Era o tempo em que o mal era afastado pela vontade de todos. E quando as três luas brilhavam no céu, muito unidas, em conjunção mística, o povo se rejubilava sob sua luz benéfica e cantava. Mas o que Jagun queria dizer? Estaria prevendo uma grande batalha durante as comemorações? Uma batalha na qual ela empunharia seu talismã para salvar Ruwenda?

Antes que ela pudesse fazer qualquer pergunta, o caçador disse:

— Os skriteks — e com eles a Voz do feiticeiro e um grupo de soldados humanos — atacaram uma aldeia uisgu. Fogo eles usaram, e magia, invocada do ar. Os cativos que ainda estão vivos logo servirão de alimento para os skriteks.

— Estão à minha procura! — exclamou Kadiya. — Por isso perseguem os pobres uisgus!

— Sua captura seria um grande triunfo. Mas eles querem mais do que isso. — Com um gesto da cabeça indicou a cidade dos jardins, escondida pela ilusão. — Você esteve lá. Terminou a sua procura?

Sem uma palavra, Kadiya tirou o talismã do ombro e o estendeu para Jagun.

Embora Kadiya conhecesse o caçador desde que era pequena, jamais vira tamanho júbilo nos olhos dele. Jagun estendeu a mão timidamente, como se fosse tocar a espada, mas depois recuou. Os lobos negros do punho continuavam fechados e sem brilho, mas a lâmina refletia a fraca luz do sol.

Kadiya levou a espada para mais perto dele. As lágrimas desciam pelo rosto de Jagun e ele caiu de joelhos aos pés da princesa.

— O talismã! Ó, Olhos Penetrantes, você o encontrou!

— Há uma crença entre meu povo — disse ela, falando devagar — de que uma ponta quebrada significa misericórdia. Mas para você... — Hesitou, depois tocou a cabeça dele delicadamente com a espada e, sem saber como, dos seus lábios soaram as palavras de absolvição. — Meu amigo querido, alegre-se. Receba de volta seu nome! Volte a usar o bracelete sagrado dos nyssomus. Você não quebrou nenhum juramento — apenas seguiu o curso das coisas como tinham de ser. A partir deste momento, liberte-se de toda culpa.

Então Jagun fez o que Kadiya jamais tinha visto. Quando o caçador chegou na Cidadela para falar com seu pai, o Rei Krain, saudou o monarca com as duas mãos erguidas, como ela o vira saudar a Primeira da Casa na aldeia dos nyssomus. Mas agora ele se inclinou para a frente até tocar o chão com os braços e com a testa.

— Inteiramente ao seu serviço, Portadora da Luz, Mensageira da Esperança, Protetora e Defensora — amiga do coração dos Desaparecidos!

Intrigada, ela ergueu o talismã. Era como se um eco distante reverberasse nas palavras de Jagun. Porém, alguma coisa dentro dela se encolheu, desejando apenas jogar no chão a lâmina negra para que voltasse a ser o que era — a raiz do Trílio Negro.

— Jagun. Não sei o que você quer dizer.

Jagun levantou-se rapidamente e, com os olhos nos dela, o robusto Mestre dos Animais e antigo guarda-caça real disse:

— Dama dos Olhos, o conhecimento será seu. E ninguém será chamado onde não estiver destinado a servir.

— Eu não sei como usar este talismã — protestou ela, sentindo-se completamente perdida. Até a raiva que sempre lhe dava força estava agora ausente.

— O conhecimento também virá. Agora deve começar o verdadeiro trabalho para o qual foi destinada.

Kadiya respirou fundo e guardou o talismã na bainha improvisada.

— Muito bem. Aqueles uisgus atacados pelo inimigo — disse ela —, onde estão?

— Perto do Alto Mutar. Eu os ouvi fazer o Chamado, mas a resposta do nosso povo vai demorar para chegar. Os skriteks — distendeu os lábios, mostrando as presas, tão diferentes dos dentes humanos — não são fáceis de controlar. Précisam ser recompensados com sangue... e carne.

Kadiya engoliu em seco, mas perguntou com voz decidida:

— Temos algum meio de ajudar os uisgus capturados?

— Olhos Penetrantes, eu diria que é impossível. Mas para você foi aberto o Caminho Proibido e você possui o triplo. Veremos.

— Então vamos.

Não seguiram a estrada, mas uma trilha tortuosa que atravessava a terra do Inferno de Espinhos. Quando a noite estava próxima, procuraram um lugar para acampar, porque não podiam seguir a trilha no escuro. Mas, antes de estarem prontos para dormir, a brisa trouxe um fedor pavoroso e conhecido. Os skriteks estavam perto!

Usaram folhas de cheiro acre para disfarçar o odor dos seus corpos. Depois, Jagun deitou-se de bruços, Kadiya o imitou e juntos arrastaram-se entre a relva. Momentos mais tarde, agachados, ombro a ombro, escondidos atrás das hastes grossas como troncos dos arbustos gigantes, observaram uma clareira.

Era uma espécie de acampamento. Um grupo de homens, com as armaduras enferrujadas, estava no centro da área aberta. Soldados labornoks. Entre eles e o esconderijo de Kadiya e Jagun havia uma série de lanças enfiadas no chão e atadas umas às outras com cipós, formando uma espécie de cercado. Um cercado cheio de cativos. Não havia nenhum homem entre eles. Cerca de doze mulheres nativas estavam sentadas ou deitadas em pequenos grupos dentro da jaula. Duas tinham filhos no colo. O sofrimento e o medo que as envolviam eram quase palpáveis e Kadiya sentiu um aperto no coração. Cuidadosa e silenciosamente, desembainhou seu talismã.

Ouviram um choro lamentoso e uma das mulheres imediatamente tapou com a mão a boca da criança. Quatro skriteks montavam guarda nos quatro cantos da jaula. Um deles ergueu a cabeça, com as mandíbulas salientes, deu um grito e apontou a lança para a mulher.

Kadiya abaixou a espada, segurando-a com a mão esquerda, e com a direita desembainhou a adaga. No ano anterior, a princesa vira um atirador de facas numa feira e, depois de muita prática, conseguiu dominar a arte. Tinha certeza de poder acertar a garganta do guarda skritek mais próximo, ó, se ao menos tivesse quatro arqueiros atrás dela!

Mas não tinha. e, a contragosto, controlou-se. Os outros skriteks, rindo, pareciam incitar o companheiro a embeber a lança na mulher e no filho.

Kadiya segurou o braço de Jagun. Não podiam fazer alguma coisa?

Jagun abriu a mão esquerda mostrando uma massa verde que ele segurava com cuidado. Era um aworik, um fungo estranho, muito raro, mas um grande amigo dos que eram perseguidos por qualquer predador dos pântanos.

Porém o inimigo moveu-se primeiro. Dois soldados humanos saíram de uma moita de espinhos, carregando um uisgu. O skritek que ameaçava a mulher e o filho hesitou e depois abaixou a lança.

Enquanto a atenção dos invasores estava voltada para o novo cativo, Jagun tirou do bolso sua zarabatana. Apoiado num joelho, atirou o aworik com toda a força, apontando para um ponto entre os soldados humanos e a jaula das prisioneiras. O fungo partiu-se quando atingiu o solo e de dentro dele voaram milhares de cápsulas de esporos, espiralando no ar, cortantes como navalhas. As cativas uisgus imediatamente deitaram-se de bruços no chão, protegendo os olhos. Mas os skriteks e os labornoks foram apanhados de surpresa. Os que não ficaram cegos contorciam-se freneticamente, enquanto as minúsculas lâminas dos aworiks laceravam as partes mais sensíveis dos seus corpos, antes de cair no solo.

Jagun estava com a zarabatana armada e Kadiya ouviu o silvo do primeiro dardo envenenado, embora não o visse passar por ela. Um skritek caiu. Com o talismã numa das mãos e a adaga na outra, a princesa levantou-se de um salto. O skritek mais próximo cambaleava cego, brandindo a lança. A jovem atirou a adaga com um impulso giratório, como tinha praticado durante tanto tempo. A arma acertou a garganta do monstro e ele caiu, contorcendo-se nos espasmos da morte. Outros dardos envenenados da zarabatana de Jagun abateram os outros dois skriteks. Um soldado com o rosto ensanguentado avançou para eles, mas Kadiya estava preparada, com sua espada-talismã erguida como um experiente Companheiro Fiel. Brandiu a lâmina e sentiu o impacto quando a espada amassou a garganta do homem. Ele caiu, sufocado no próprio sangue. Kadiya parou por um momento atónita, sem poder acreditar que tivera a coragem de usar a espada.

O acampamento era um pandemônio de gritos e imprecações. Os dardos de Jagun estavam dizimando o que restava dos soldados labornoks. Skriteks agonizantes rugiam e se contorciam, batendo na terra com seus talões. Kadiya ergueu a espada pela segunda vez e com um golpe cortou as tiras de junco da jaula. O junco desapareceu, derretido, não cortado.

— Para fora! — gritou ela para as mulheres prisioneiras, muitas das quais já estavam de pé. Kadiya apontou com a espada. — Corram! Para os arbustos espinhosos!

Elas fugiram, com Kadiya atrás, pronta para revidar um ataque de outros skriteks ou outros soldados. Jagun a acompanhou, depois de retirar a adaga da princesa da garganta do skritek.

Kadiya e os uisgus chegaram a um grande rio, sem dúvida o Alto Mutar, e viram uma jangada presa a uma longa barcaça, igual às que eram usadas pelos mercadores. Quatro soldados estavam de guarda, intrigados com o barulho que ouviam ao longe, e um skritek emergiu da água com um peixe vivo na boca.

— Jagun! — Kadiya, num segundo, percebeu o perigo. Precisava dos dardos envenenados do caçador. Ela não podia enfrentar todos sozinha. Mas Jagun estava muito atrás, certificando-se de que não tinham sido seguidos.

Os soldados labornoks com as espadas em punho aproximavam-se, tentando cercá-la. As mulheres oddlings gritavam apavoradas e o skritek nadou na direção delas.

Kadiya sentiu um calor na mão, tão intenso que largou o punho da espada e a segurou pela lâmina sem corte e sem ponta, erguendo-a na frente do rosto. Os três olhos estavam abertos, atentos ao soldado mais próximo que avançava para ela.

Com um grito rouco, o homem recuou cambaleando, deixou cair a arma e levou a mão aos olhos. Kadiya não sabia o que tinha acontecido, mas imaginava. Virou o talismã para o outro soldado. Ele gritou e chocou-se com o primeiro, que estava cego, o qual imediatamente girou o corpo e atingiu o terceiro com um golpe mortal. Kadiya virou a espada para o último homem. Mas vendo o que aconteceu aos outros, ele abaixou-se, avançando para atacá-la. Então, girou o corpo no ar e gritou. Na sua nuca estava um dardo envenenado de Jagun. Um aplauso tremendo partiu da margem quando o skritek foi atingido por outro dardo. Os dois soldados cegos continuavam a se atacar mutuamente como loucos. Jagun mandou que todos subissem na jangada. Cortou a amarra com a adaga de Kadiya e jogou a arma para dentro da embarcação. Duas mulheres uisgus apanharam espadas e outras as varas para impelir a jangada.

— Depressa! — gritou Jagun. — Mais skriteks estão chegando! Vamos embora!

Kadiya apressou-se em ajudar os feridos. As varas mergulharam na água e a jangada moveu-se. Uma das mulheres começou a cantar a canção dos remadores do rio, e as outras, com as varas, responderam, acelerando seus movimentos. Então, a corrente impetuosa os levou rio abaixo. — Jagun! — gritou a princesa.

Mas o caçador limitou-se a balançar a cabeça e voltou-se para enfrentar cinco skriteks que saltaram das moitas, aos berros. Sem poder fazer nada, ela viu o caçador levar a zarabatana à boca para se defender dos monstros uivantes... então a jangada entrou numa curva do rio e a brava figura de Jagun desapareceu.

Suas únicas armas eram agora as duas espadas, a adaga de Kadiya e o talismã. As mulheres uisgu não tinham sequer muita roupa, protegidas apenas por seu pêlo sujo e emaranhado. Eram onze ao todo, e duas crianças. Quatro tinham curativos feitos de folhas, sujos de sangue, e outras apresentavam ferimentos causados pelos esporos do aworik ou por seus captores.

— Senhora?

Kadiya estava absorta em sua dor pela morte de Jagun. Ao chamado, ergueu a cabeça. Uma mulher uisgu sentou-se ao lado dela.

— Eu sou Nessak de Dezaras, antes Primeira da Casa e Representante da Lei. Todas essas — indicou as outras mulheres — são também de Dezaras. A desgraça abateu-se sobre nós durante uma viagem. Nossos homens foram entregues aos skriteks pelos soldados humanos e nos obrigaram a assistir. Esses invasores procuram segredos, Grande Senhora, que nós não conhecemos. Pois nos comprometemos, sob juramento, a jamais entrar no lugar proibido dos Desaparecidos — o lugar que esteve sempre fechado, em todos os tempos. Quando viram que não podíamos falar sobre o que não sabíamos, o humano que comanda os outros, vestido todo de vermelho, ordenou que nos prendessem até a chegada de outros humanos que andam com os skriteks e que procuram erguer as Trevas contra a Luz. Esse homem desceu o rio um pouco antes da sua chegada para nos salvar. Agora somos seus servos para sempre, Senhora, e agradecemos por nos ter libertado. Poderia dizer quem é e de onde vem?

— Sou filha do Rei Krain, que não vive mais — e meu nome é Kadiya. Esses súditos do mal tomaram nossa terra. Meu pai morreu por suas mãos cruéis, bem como todos que o seguiam. Minha mãe também.

Emocionada, Kadiya olhou para o talismã. Se já tivesse aquela espada, quando os labornoks invadiram a Cidadela! De certo modo, a arma havia derrotado os soldados — o que poderia fazer contra o Rei Voltrik?

— Há uma profecia — continuou a princesa, acariciando os olhos fechados do punho da espada — de que a derrota desses homens cruéis virá pelas mãos de uma mulher da minha casa. Minhas irmãs e eu empreendemos longas jornadas, por ordem da Arquimaga Binah, que vocês chamam de Dama Branca, à procura daquilo que vingará nosso povo.

Pela primeira vez, depois do que lhe pareciam dias e dias, ela pensou em Anigel e Haramis. O que teriam conseguido? Estariam mortas e ela era a única que restava para exigir o pagamento pela destruição da sua casa?

— Anigel. Haramis... — Disse os nomes em voz alta, como se as estivesse chamando.

Alguma coisa se moveu sob seus dedos e Kadiya tirou a mão do punho da espada. Dois olhos abriram-se. Olhos? Não, não dessa vez. No lugar deles, viu duas imagens, duas visões! Lá estava Haramis, com um Trílio Negro, completamente aberto, na mão. E Anigel segurava outro igual. Kadiya teve certeza de que as irmãs estavam vivas e que em algum lugar esperavam por ela e pelo momento da prova final. Os olhos se fecharam, transformando-se mais uma vez nas esferas negras no punho da espada. Kadiya suspirou.

— Senhora — disse a mulher uisgu, solenemente —, posso ver que é a Portadora da Luz, Mensageira da Esperança — a Dama dos Olhos, do povo dos Desaparecidos.

Kadiya balançou a cabeça enfaticamente.

— Não, Representante da Lei, não pertenço ao povo dos grandes do passado, embora isto — pôs a mão no talismã — possa ter vindo do tempo deles. Não sei como carregar a luz, nem como transmitir esperança. Tudo que sei é que devo vencer o Rei Voltrik e seu feiticeiro, Orogastus, nem que tenha de fazer isso sozinha.

— Senhora — disse Nessak com voz suave —, não está sozinha. Os malvados que nos capturaram quebraram um grande juramento e foram punidos. Você esteve no Palácio do Conhecimento e passou incólume pelos sindonas. Foi enviada para nós. É a Dama dos Olhos — a muito esperada. Assim, os uisgus se erguerão ao seu lado, embora a guerra sempre fosse proibida entre nós. As trevas caminham pela terra, o grande equilíbrio foi destruído, e da luta que virá, ninguém pode fugir! Quando chegarmos a Dezara faremos o Chamado e o povo da raça uisgu marchará ao seu lado.

Kadiya conteve a respiração. O que ela havia sugerido a Jagun, o que lhe haviam dito que jamais podia acontecer ia se tornar realidade. Se os oddlings se revoltassem, transformariam o próprio Pântano Labirinto numa arma contra os invasores. Sentiu reforçada sua vontade. Seria a guerra total e, se conseguisse dominar o segredo do seu talismã, venceriam a luta...

Fechou as mãos com força, enterrando as unhas nas palmas. Tempo. — Precisava não só de tempo, mas também de conhecimento. Esperava que seus novos aliados pudessem lhe ensinar o que devia saber.