O Trílio Negro

Marion Zimmer Bradley, Julian May e Andre Norton · Capítulo 40 de 46

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O Trílio Negro

Capítulo 39

 

Horogastus e Haramis dirigiram-se para a Caverna do Gelo Negro. A princesa estava ansiosa para verificar se o tão decantado espelho era mesmo mágico ou apenas outro instrumento dos Desaparecidos, como suspeitava.

Na frente da porta coberta de gelo, antes de entoar o encantamento chamando os Poderes das Trevas, Orogastus olhou para Haramis e viu os olhos azuis muito grandes e muito brilhantes sob a máscara prateada e os lábios entreabertos num sorriso de expectativa.

O feiticeiro pensou que nunca Haramis lhe parecera tão bela e tão desejável, com a coroa de estrela e vestida de negro e prata, as cores do seu acordo com os Poderes das Trevas. Orogastus não se conteve e, segurando o rosto de Haramis com as duas mãos, beijou-a na boca.

Seus lábios separaram-se relutantemente e o feiticeiro suspirou.

— Espero que os Poderes não se ofendam. Mas vendo-a assim tão bela, tão misteriosa e tão perto de mim... Oh, Haramis, fique comigo! — implorou, envolvendo-a nos braços. — Sei que a Dama Branca a chamou. Mas ela vai tirála de mim, com suas velhas meias-verdades e meias-mentiras, e dominar sua vontade.

— Se não fosse por ela, eu não teria nascido — lembrou Haramis. — Devo ouvir suas últimas palavras. Ela me deu o Trílio Negro, ela me enviou nesta busca. Tenho certeza que me guardou e me guiou quando eu estava prestes a morrer nas montanhas. Não posso ignorar o seu pedido. Se você disse a verdade, nada tem a temer dessa visita.

— Ela vai tirar a coroa de Ruwenda de você!

— Não. Ela guarda a coroa para mim. E com a coroa ou sem ela, eu sou a rainha de Ruwenda, não importa quais os soldados que ocupem a Cidadela! — Seus olhos encontraram os dele com desafio.

Orogastus suspirou.

— Por que discutir aqui neste frio? O espelho de gelo nos espera.

Ele começou uma evocação solene dos Poderes das Trevas, pedindo para os dois a complacência de entidades que, para Haramis, provavelmente nem existiam. Pobre homem iludido! Mas ela não sorriu. Deixaria que os outros acreditassem nos poderes mágicos de Orogastus, enquanto ela continuava a avaliar sua sinceridade. Começava a se convencer de que a maior parte dos poderes extraordinários de Orogastus nada tinha a ver com magia. Mesmo assim, ele os usava. Poderão ser anulados pela minha mágica? pensou ela, lembrando-se do pequeno bloco ”mágico”. É provável que sim, mas acho melhor não experimentar neste precioso espelho de gelo — ele me mataria, sem dúvida, se eu o estragasse. Não, devo observar e aprender.

Quando entraram na sala do grande espelho de gelo, e Orogastus chamou o demónio que morava nele, Haramis não precisou fingir seu espanto. O feiticeiro havia sugerido que procurassem ver suas duas irmãs e ela concordou imediatamente, sentindo-se culpada por não procurar se comunicar com elas há tanto tempo, com seu talismã. Porém, depois daquela primeira vez, quando verificou que as duas estavam seguras, esquecera-se delas, voltando-se para as próprias preocupações que pareciam muito mais importantes...

Agora, obedecendo à ordem de ficar em silêncio, esperou que Orogastus terminasse seu pedido e que o espelho (que Haramis verificou tratar-se de uma espécie de máquina, e por sinal muito malconservada) respondesse com um palavreado eco, mostrando primeiro um mapa, depois uma imagem espantosamente clara e colorida de Kadiya, depois de Anigel.

As duas viajavam por água, sob chuva pesada, é ambas estavam caladas. O espelho transmitiu os ruídos naturais que acompanhavam cada imagem.

Kadiya viajava com um verdadeiro exército de oddlings uisgus, num barco nativo feito de junco trançado. O mapa do espelho indicava que a frota uisgu estava no Alto Mutar, logo acima de Trevista. O grande rio corria turbulento, repleto de árvores arrancadas e outros objetos arrastados das margens. Mas nem a chuva, nem os obstáculos pareciam incomodar Kadiya ou seus pequenos companheiros. Alguns uisgus usavam armaduras de escamas douradas, como a princesa, e todos empunhavam armas primitivas. Mas Kadiya não tinha sequer sua pequena adaga, apenas o talismã, aquela coisa estranha que parecia uma espada de Misericórdia sem ponta.

A visão de Anigel era mais alarmante. O espelho mostrou uma jangada enorme feita de grandes toras de madeira amarradas com cordas fortes. Estava equipada com um mastro e uma grande vela quadrada, que apanhava o vento e conduzia a jangada velozmente, vencendo as ondas enormes do lago. Anigel estava agachada calmamente numa cabine minúscula, molhada até os ossos, com a tiara talismã na cabeça. Uma grade protetora rústica fora erguida em toda a volta da jangada e os cabos com uma das pontas presas a ela e a outra no mastro serviam de apoio para os numerosos passageiros. Alguns deles eram humanos, deitados de bruços, sujos e molhados, outros eram oddlings de aspecto estranho, altos, que pareciam estar se divertindo muito com a viagem perigosa.

Haramis teve o cuidado de só falar quando o espelho se apagou, embora as perguntas fervilhassem em sua mente. Era evidente, pelas indicações do mapa, que suas irmãs dirigiam-se para a Cidadela e que ambas tinham encontrado seus talismãs e os estavam usando. A Dama Branca teria dado a elas instruções especiais ou estavam fazendo aquilo por conta própria? Estariam pensando em atacar o exército armado do Rei Voltrik com aqueles bandos de nativos? Por acaso seus talismãs as faziam acreditar que essa loucura teria sucesso?

Como se lesse seus pensamentos, Orogastus disse, quando o espelho se apagou:

— Suas irmãs usaram seus talismãs para matar.

Paralisada de espanto, Haramis olhou para ele sem dizer palavra. Orogastus a conduziu para fora da câmara e para o túnel que levava à sua torre.

— Kadiya e Anigel pensam que podem libertar" Ruwenda usando seus talismãs como armas mágicas — com a ajuda dos seus amigos oddlings e do Príncipe Antar, que traiu o rei seu pai e colocou-se a serviço da causa da Princesa Anigel. Ela salvou sua vida na Floresta Tassaleyo e agora ele está completamente apaixonado. É claro que nenhuma das duas tem a menor chance contra Voltrik. Não compreendem ainda como funcionam seus talismãs, nem quais as suas limitações. Sem dúvida pensam que basta brandir o objeto mágico para que os inimigos caiam mortos... Mas isso não vai acontecer. Voltrik está protegido por minha mágica poderosa, sob o comando da minha Voz Verde.

— Oh, as duas tolinhas! — gemeu Haramis. — Não posso acreditar que a Arquimaga as tenha mandado atacar a Cidadela. Estão fazendo isso por conta própria!

— Os talismãs de Anigel e de Kadiya não foram feitos para serem usados separadamente. Minhas pesquisas deixam isso muito claro. Os Desaparecidos usavam essas três partes como um único talismã, o grande Cetro do Poder, para estabelecer um misterioso equilíbrio no mundo. É seu dever, Haramis, reunir outra vez o Três em Um. Com ele em suas mãos, poderá governar um mundo renascido para a paz e a prosperidade.

— Eu? Governar o mundo?

Ela riu. Foi como se sua mente se tivesse congelado ao ouvir essas palavras e Haramis as rejeitou imediatamente. Perguntava a si mesma qual seria o grande plano que a Dama Branca havia ocultado delas e que talvez fosse revelar agora. Irei ver a Arquimaga, logo que for possível, resolveu.

Enquanto atravessavam apressadamente o túnel, Haramis olhou para Orogastus através da máscara e viu que os lábios dele estavam apertados numa linha dura. Ele não estava falando levianamente. Acreditava no que dizia e era melhor levá-lo a sério. Haramis precisava procurar a Arquimaga imediatamente e exigir uma explicação sobre o tal Cetro do Poder. Mas, e suas irmãs? Se Voltrik ainda não sabia, logo seria informado pelo feiticeiro sobre sua intenção de atacar a Cidadela. O rei enviaria seu exército — e sem dúvida Voz Verde também — ao encontro delas.

— Orogastus — perguntou Haramis —, pode evitar que Voltrik envie seu exército para combater minhas irmãs? Deixe-me convencer as duas da tolice desse plano!

— Se elas se retirarem imediatamente para o interior do pântano não correrão perigo imediato. Os soldados de Voltrik dificilmente estarão dispostos a uma guerra ofensiva, ou mesmo a organizar uma perseguição durante a estação das chuvas. Mas acredita que suas irmãs vão ouvir seu conselho?

— Sempre me ouviram antes. Mas agora, com seus talismãs... — Haramis não terminou a frase, preocupada e ansiosa.

— Posso dar ordem à Voz Verde para não atacar suas irmãs com meus relâmpagos ou outras armas semelhantes. Mas é impossível evitar que o Rei Voltrik trate as princesas ou seu bando de oddlings como bem entender. Os talismãs não as protegerão. Se eu estivesse na Cidadela, podia convencer Voltrik. Mas daqui, trabalhando só através da Voz Verde, não posso.

Chegaram ao fim do túnel, entraram na torre e logo foram envolvidos por um calor agradável. Haramis segurou as duas mãos de Orogastus.

— Ainda há tempo. Para nós dois e para minhas irmãs. Não sei quais são seus planos e não quero saber enquanto não chegar a uma conclusão sobre nós dois. Mas, se eu voar até a Arquimaga e resolver, você me esperará na Cidadela para saber a resposta? E, enquanto me espera, vai tentar convencer o Rei Voltrik a não enviar seu exército contra Anigel e Kadiya? Eu posso fazer com que elas voltem! Sei que posso! Mas primeiro tenho de saber quais são as intenções da Arquimaga...

— Deixe-me orientá-la. Já tenho um plano..

— Não! — Haramis, pálida, trêmula, retirou o capuz com a estrela e não cedeu quando ele a abraçou e beijou no alto da cabeça.

— Minha querida, você fará o que deve fazer — disse Orogastus. — Porém, há uma falha muito grave na sua estratégia.

— Não posso chegar tão depressa à Cidadela. Não conto, como você, com a ajuda dos lammergeiers.

— Pedirei a Hiluro para chamar um dos seus companheiros e ele o levará rapidamente.

Ele apertou o abraço.

— Faria isso? Confiaria em mim a esse ponto? Haramis ergueu para ele o rosto banhado em lágrimas.

— Você é um homem que há muito guarda em segredo o próprio coração. Talvez tenha erguido muralhas tão fortes para isolá-lo que nem sabe mais o que ele contém. Acho que não sabe ao certo qual o caminho que deve tomar. Assim como eu, terá de fazer sua escolha.

— Sim — admitiu Orogastus. Deixou cair os braços ao lado do corpo e evitou os olhos dela.

— O lammergeier virá buscá-lo — disse ela — e nos encontraremos na Cidadela um pouco antes da festa das três luas. Espere por mim.

Haramis afastou-se, deixando-o sozinho e imóvel, com a máscara prateada a seus pés, fixando nele os olhos vazios.