O Trílio Negro
Capítulo 25
O lammergeier voou incansável sobre os picos e os campos de neve dos enormes Ohogan, tão alto que Haramis sentia dificuldade em respirar o ar muito fino. Logo depois que o pássaro deixou Movis, vencida pelo sono, enrolando-se no grosso manto de peles, aninhou-se nas penas brancas e adormeceu.
Não viu quando passaram sobre o Monte Rotolo, nem a aproximação lenta do enorme Monte Gidris, envolto em densas nuvens. O lammergeier voou durante horas e horas contra o vento forte, mas quando a noite caiu não tinham chegado ainda ao seu destino.
Haramis acordou quando ele começou a descer atravessando a neve espessa que caía. Como os vispis haviam ensinado, primeiro ela mentalizou uma imagem clara da cabeça do pássaro, branca e preta, coroada pela crista e com dentes aguçados. Então, mentalmente disse seu nome. Hiluro!
— Eu escuto, Haramis!
A princesa ouviu a resposta numa parte da sua mente que Magira a ensinara a usar. Para Haramis, aprender a linguagem sem palavras foi uma experiência estranha. As primeiras tentativas foram um completo fracasso. Então, quase por acaso, conseguiu se comunicar com Magira. Depois de vários outros sucessos semi-acidentais, Haramis compreendeu o que estava fazendo e depois disso tudo se tornou simples, quase automático. Bastava ”abrir” aquela parte da mente depois de chamar a pessoa com quem queria se comunicar. Quando Haramis começou a dominar a linguagem sem palavras, Magira a apresentou ao lammergeier que seria sua montaria e companheiro na fase seguinte da sua missão.
O pássaro enorme desceu suavemente num telhado plano, atendendo ao chamado de Magira. Suas asas abertas eram quase da largura da casa e os pés gigantescos, com garras negras, podiam apanhar um homem vestido de armadura, com a facilidade com que um pássaro canoro da noite apanhava um vart das árvores. Porém, com toda aquela aparência feroz, a enorme criatura alada cumprimentou Magira com afeição.
Vou lhe contar agora um dos grandes segredos do povo das montanhas, disse Magira para a princesa, afagando a cabeça do lammergeier. Sabe que fomos feitos para viver numa terra rodeada de gelo e de neve — assim como estas criaturas. Quando os Desaparecidos refizeram a carne abominável da Raça Fundadora, criando o Primeiro Povo, criaram ao mesmo tempo o voor, que os humanos chamam de lammergeier, originário de uma espécie de pássaros mais fracos. Desse modo, o povo e o voor nasceram juntos, uma vez que os Desaparecidos sabiam que precisaríamos de ajuda para nos movimentar num mundo encerrado no gelo. Nossas cidades são poucas e muito distantes umas das outras, mas, com a ajuda dos nossos grandes amigos alados, fazemos longas viagens em segurança. Como você fará a sua, para cumprir sua missão..
O lammergeier, depois de aterrissar com segurança, apesar da neve, abriu com o bico uma fenda na rocha coberta de gelo, revelando uma passagem escura.
— É este o lugar em que está escondido meu Círculo de Três Asas? — perguntou Haramis.
Não, este é um abrigo para a noite. Nós dois precisamos comer e descansar, e você estará segura aqui enquanto eu estiver caçando. Voltarei logo. Hiluro levantou voo outra vez.
Haramis tirou de baixo do corpete o amuleto com o trílio. O âmbar brilhava como uma lanterna, iluminando seus passos sobre pedaços de gelo quebrado, para o interior da caverna.
Era um lugar enorme, quase todo seco, embora o vento atirasse flocos de neve para dentro. Alguns blocos de pedra com veios largos de quartzo branco e outro material refletiam o brilho quente do amuleto. Haramis compreendeu que estava vendo um filão de ouro.
A princesa pôs a mochila no chão e caminhou pela caverna à luz do amuleto, encontrando afloramentos de ouro por toda parte e, às vezes, pepitas grandes no chão.
Mas foi no fundo da caverna que ela fez a descoberta mais interessante.
No interior de uma alcova talhada na pedra, a luz dourada do amuleto iluminou algo escuro e brilhante. Haramis aproximou-se e viu uma parede de gelo negro completamente lisa que refletia sua imagem, segurando o amuleto.
Um espelho de gelo...
Não era uma coisa assim que o feiticeiro usava para sua visão a distância?
Fez a pergunta para o espelho de gelo negro e sua imagem pareceu oscilar, transformando-se no reflexo de outra pessoa, um homem, com trajes estranhos e um chapéu que parecia uma estrela enorme. Ele sorriu e estendeu a mão, oferecendo para mostrar seus segredos, compartilhar seus conhecimentos, sua mágica.
— Haramis!
— Orogastus — murmurou ela, paralisada de espanto por tê-lo reconhecido.
Ele parecia procurar alcançá-la através do espelho de gelo negro..
Haramis!
O chamado mental não era humano, mas familiar, urgente
— Hiluro?
— Haramis, volte! Agora!
Ela viu outra vez o próprio rosto na parede de gelo. Gelada até os ossos, voltou-se e correu para a entrada da caverna, para tranqüilizar Hiluro, cujo chamado sem palavras ecoava ainda em sua mente, afastando todos os outros pensamentos.