Ponerologia: Psicopatas no Poder
O Indivíduo Humano
Quando Augusto Comte[ 16 ] tentou encontrar uma nova ciência sociológica no início do
século XIX, ou seja, bem antes do nascimento da psicologia moderna, ele se deparou
imediatamente com o problema do homem, um mistério que ele não pôde resolver. Ao rejeitar
as simplificações da Igreja Católica sobre a natureza humana, não sobrou nada, exceto os
esquemas tradicionais de compreensão da personalidade, derivados das tão conhecidas
condições sociais. Assim, ele teria que evitar esse problema, entre outros, se quisesse criar
seu novo ramo científico sob tais condições.
Assim, ele aceitou que a célula básica da sociedade é a família, algo muito mais fácil de
caracterizar e tratar como um modelo elementar das relações sociais. Isto também poderia ser
feito por meio da linguagem de conceitos compreensíveis, sem o confronto com os problemas
que não poderiam realmente ser superados naquele momento. Logo depois, J. Stuart Mill[ 17 ]
apontou as deficiências de conhecimento psicológico resultantes e o papel dos indivíduos.
O êxito em lidar com as dificuldades que resultaram foi atingido somente agora, ao reforçar
laboriosamente as bases existentes da ciência pelos avanços da psicologia, uma ciência que
pela sua própria natureza trata o indivíduo como o objeto básico de observação. Essa
reestruturação e aceitação de uma linguagem psicológica objetiva permitirá, com o tempo, que
a sociologia se torne uma disciplina objetiva que possa espelhar suficientemente a realidade
social com objetividade e atenção ao detalhe, fazendo dela uma base para a ação prática.
Afinal de contas, é o homem que é a unidade básica da sociedade, incluindo toda a
complexidade de sua personalidade humana.
Para entender o funcionamento de um organismo, a medicina começa com a citologia, que
estuda as diversas estruturas e funções das células. Se queremos entender as leis que
governam a vida social, nós devemos, de forma similar, primeiro entender o ser humano
individual, sua natureza fisiológica e psicológica, e aceitar totalmente a qualidade e a
perspectiva das diferenças (particularmente as psicológicas) entre os indivíduos que
constituem os dois sexos, as diferentes famílias, associações e grupos sociais, bem como a
estrutura complexa da sociedade mesma.
O sistema Soviético, doutrinário e baseado em propaganda, contém uma contradição
característica embutida cujas causas serão prontamente compreensíveis até o final deste livro.
A origem do homem a partir dos animais, destituído de qualquer ocorrência extraordinária, é
aceita como base óbvia para a visão de mundo materialista. Ao mesmo tempo, contudo, eles
suprimem o fato de que o homem tem um dom instintivo, ou seja, alguma coisa em comum
com o resto do mundo animal. Se confrontados com questões especialmente perturbadoras,
muitas vezes eles admitem que o homem contém uma porção insignificante desta tal herança
filogenética de sobrevivência e, no entanto, impedem a publicação de qualquer trabalho que
estude este fenômeno básico da psicologia.[ 18 ]
Para entender a humanidade, contudo, nós devemos ganhar um entendimento primário do
substrato instintivo da espécie humana e reconhecer seu papel considerável na vida dos
indivíduos e nas sociedades. Este papel escapa facilmente de nossa observação, uma vez que
nossas respostas instintivas da espécie humana parecem tão auto-evidentes, e são tantas vezes
tomadas como corriqueiras, que não despertam interesse suficiente. Um psicólogo, formado na observação de seres humanos, somente após anos de experiência profissional é capaz de
avaliar por inteiro o papel deste fenômeno eterno da natureza.
O substrato instintivo do homem tem uma estrutura biológica levemente diferente da dos
demais animais. Energeticamente falando, ele se tornou menos dinâmico e mais plástico,
renunciando assim seu trabalho como o principal ditador do comportamento. Tornou-se mais
receptivo aos controles da razão sem, contudo, perder muito dos ricos conteúdos específicos
da humanidade.
É precisamente esta base filogeneticamente desenvolvida da nossa experiência, e seu
dinamismo emocional, que permite aos indivíduos desenvolverem seus sentimentos e limites
sociais, nos habilitando a intuir os estados psicológicos dos outros indivíduos e as realidades
psicológicas individuais ou sociais. Então, é possível perceber e entender os costumes
humanos e os valores morais. Desde a infância, este substrato estimula várias atividades,
objetivando o desenvolvimento das funções mais elevadas da mente. Em outras palavras,
nosso instinto é nosso primeiro tutor, que carregamos dentro de nossas vidas. A educação
apropriada das crianças não está, portanto, limitada a ensinar uma pessoa jovem a controlar as
reações excessivamente violentas de seu emocionalismo instintivo; deve também ensiná-las a
apreciar a sabedoria natural que está contida em seus dons instintivos, e que fala através
deles.
Este substrato contém o valor de milhões de anos de desenvolvimento bio-psicológico, que
foi o produto das condições de vida das espécies, e assim não é e nem pode ser uma criação
perfeita. As fraquezas tão bem conhecidas da nossa natureza humana e os erros na percepção e
compreensão natural da realidade têm sido condicionados neste nível filogenético por
milênios.
O substrato comum da psicologia tornou possível para as pessoas, através dos séculos e das
civilizações, criar conceitos relacionados aos assuntos humanos, sociais e morais que
compartilham similaridades significativas. Variações no decorrer das épocas e entre raças
nesta área são menos surpreendentes que aquelas variações que diferenciam pessoas com
um substrato instintivo humano normal de pessoas portadoras de um defeito bio-
psicológico instintivo, ainda que sejam membros da mesma raça e civilização. É conveniente
retornar a essa questão constantemente, uma vez que ela é de grande importância para os
problemas que são discutidos neste livro.
O homem viveu em grupos ao longo da sua pré-história, de forma que o substrato instintivo
da nossa espécie foi moldado nesta relação, condicionando assim nossas emoções no tocante à
busca da existência. A necessidade de uma estrutura interna apropriada de associação e a
tentativa de conseguir um papel à sua altura dentro dessa estrutura são codificados nesse
mesmo nível. Em última análise, nosso instinto de autopreservação é liderado por outro
sentimento: o bem-estar da sociedade exige que façamos sacrifícios e, em alguns casos, até o
sacrifício supremo. Ao mesmo tempo, no entanto, vale a pena apontar que, se nós amamos um
homem, amamos o seu instinto humano, acima de tudo.
Nosso zelo para controlar qualquer pessoa prejudicial a nós mesmos ou ao nosso grupo é
uma necessidade tão primária que é quase um reflexo, não deixando dúvidas que está também
codificada no nível instintivo. Nosso instinto, no entanto, não diferencia um comportamento motivado por uma simples falha humana de um comportamento executado por um indivíduo
com aberrações patológicas. É justamente o contrário: nós instintivamente tendemos a julgar
o último de forma mais severa, dando ouvidos ao esforço natural de eliminar os indivíduos
biológica ou psicologicamente defeituosos. Nossa tendência para um erro que gera maldade
como esse é, assim, condicionada no nível instintivo.
É também nesse nível que as diferenças entre indivíduos normais começam a ocorrer,
influenciando a formação de seus caráteres, suas visões de mundo e suas atitudes. As
diferenças principais estão no dinamismo bio-psicológico desse substrato; diferenças de
conteúdo são secundárias. Para algumas pessoas, o instinto ativo substitui a psicologia; para
outras, ele cede facilmente ao controle da razão. Parece também que algumas pessoas têm um
dom instintivo de alguma forma mais profundo e sutil que o de outras. Deficiências
significativas nessa herança, todavia, ocorrem somente em um percentual bem pequeno da
população humana; e nós observamos que isso é qualitativamente patológico. Nós devemos
observar estas anomalias mais de perto, uma vez que elas participam desta patogênese do mal
que gostaríamos de entender mais plenamente.
Uma estrutura de efeito mais sutil é construída sobre nosso substrato instintivo, graças à
constante cooperação deste, bem como às práticas de educação infantil na família e na
sociedade. Com o tempo, essa estrutura se torna o componente mais facilmente observável de
nossa personalidade, dentro da qual ele representa um papel integrativo. Este efeito mais alto
é fundamental para a nossa ligação à sociedade e é por isso que o seu desenvolvimento
correto é um dever próprio dos pedagogos e constitui um dos objetos de esforços dos
psicoterapeutas, quando se percebe que está sendo formado de modo irregular. Ambos,
pedagogos e psicoterapeutas, em alguns casos se sentem perdidos se este processo de
formação foi influenciado por um substrato instintivo defeituoso.
***
Graças à memória, esse fenômeno cada vez melhor descrito pela psicologia, mas cuja
natureza ainda permanece parcialmente misteriosa, o homem guarda as experiências de vida e
os conhecimentos propositadamente adquiridos. Há uma ampla variação individual em relação
a essa capacidade, sua qualidade e seus conteúdos. Uma pessoa jovem também olha o mundo
diferentemente de um ancião dotado de uma boa memória. As pessoas com boa memória e
com um bom conhecimento tem uma tendência maior a acessar os dados escritos da memória
coletiva, com o objetivo de complementar a sua própria.
Este material coletado constitui a matéria subjetiva do segundo processo psicológico,
chamado de associação; nosso entendimento de suas características é constantemente
aprimorado, embora ainda não tenhamos a habilidade de projetar luz suficiente sobre sua
criação. Apesar de, ou talvez graças aos julgamentos de valor emitidos por psicólogos e
psicanalistas sobre essa questão, parece que atingir um entendimento sintético satisfatório dos
processos associativos não será possível a menos e até que nós, humildemente, decidamos
cruzar os limites da compreensão puramente científica.
Nossas faculdades racionais continuam a se desenvolver ao longo de toda a nossa vida
ativa; assim, as habilidades de julgamento apurado não surgem até que nossos cabelos comecem a ficar grisalhos e o impulso do instinto, emoção e hábito comece a se acalmar.
Trata-se de um produto coletivo derivado de uma interação entre o homem e o seu ambiente,
do valor da criação e da transmissão de muitas gerações. O ambiente também pode ter uma
influência destrutiva sobre o desenvolvimento de nossas faculdades racionais. Neste ambiente
em particular, a mente humana é contaminada pelo pensamento conversivo,[ 19 ] que é a
anomalia mais comum nesse processo. É por essa razão que o desenvolvimento apropriado da
mente requer períodos de reflexão solitária de vez em quando.
O homem também desenvolveu uma função psicológica não encontrada entre os animais.
Somente o homem pode apreender uma certa quantidade de material ou de imaginações
abstratas dentro de seu campo de atenção, inspecionando-os internamente com o objetivo de
realizar operações posteriores da mente sobre este material. Isso nos habilita a confrontar
fatos, efetuar operações técnicas e construtivas, e predizer resultados futuros. Se os fatos
sujeitos a uma inspeção e projeção internas dizem respeito à própria personalidade do
homem, este realiza um ato de introspecção essencial para monitorar o estado da
personalidade humana e o significado de seu próprio comportamento. Este ato de projeção e
exame internos complementa nossa consciência; é uma característica exclusiva do homem e de
nenhuma outra espécie. Contudo, há uma divergência excepcionalmente ampla entre os
indivíduos, sobre a capacidade para tais atos mentais. A eficiência desta função mental
mostra, de certa forma, uma baixa correlação estatística com a inteligência geral.
Então, se falamos da inteligência geral do homem, devemos levar em consideração tanto sua
estrutura interna como as diferenças individuais que ocorrem em cada nível dessa estrutura. O
substrato da nossa inteligência, afinal de contas, contém uma herança instintiva natural de
sabedoria e erro, dando origem à inteligência básica da experiência de vida. Sobreposta a esta
construção, graças à memória e à capacidade associativa, temos a habilidade de efetuar
operações complexas de pensamento, coroadas pelo ato de projeção interna, e de melhorar
constantemente sua exatidão. Nós somos, por diversas maneiras, dotados com estas
capacidades que compõem um mosaico de talentos individualmente diversificados.
A inteligência básica desenvolve-se a partir deste substrato instintivo sob a influência de um
ambiente amigável e de um compêndio da experiência humana prontamente acessível; ela se
entrelaça com um maior efeito, nos habilitando a compreender os outros e a intuir os seus
estados psicológicos por meio de algum realismo ingênuo. Isso condiciona o desenvolvimento
da razão moral.
Esta camada da nossa inteligência é amplamente distribuída dentro da sociedade; a maioria
acachapante das pessoas a possui, e é por isso que podemos, tão freqüentemente, admirar a
educação e a intuição nas relações sociais, e a moralidade sensível de pessoas que são
dotadas de uma inteligência simplesmente mediana. Nós vemos também pessoas com uma
inteligência surpreendente e que são desprovidas desses valores tão naturais. Assim como no
caso das deficiências no substrato instintivo, os déficits nessa estrutura básica da nossa
inteligência freqüentemente impõem funcionalidades que nós percebemos como patológicas.
A distribuição da capacidade intelectual humana dentro das sociedades é completamente
diferente, e sua amplitude tem o maior alcance de todos. As pessoas altamente talentosas
constituem uma pequena porcentagem de cada população, e aquelas com o mais alto quociente de inteligência correspondem a algumas poucas por mil. Apesar disso, contudo, essas últimas
desempenham um papel tão significativo na vida coletiva que qualquer sociedade que tente
impedi-los de cumprir sua responsabilidade o faz por sua própria conta e risco. Ao mesmo
tempo, os indivíduos que mal conseguem dominar a aritmética simples e a arte de escrever
são, em sua maioria, pessoas normais cujas inteligências básicas são, com freqüência,
inteiramente adequadas.
É uma lei universal da natureza: quanto mais alta a organização psicológica de uma dada
espécie, maiores são as diferenças psicológicas entre as unidades individuais. O homem é a
espécie que possui a mais alta organização; conseqüentemente, essas variações são as
maiores. Tanto qualitativamente como quantitativamente, as diferenças psicológicas ocorrem
em todas as estruturas da personalidade humana tratadas aqui, embora com a simplificação
necessária. Diversificações psicológicas profundas podem atingir algumas pessoas como uma
injustiça da natureza, mas na verdade são um direito desta e possuem significado.
A aparente injustiça da natureza aludida acima é, de fato, o grande dom da humanidade, que
possibilita que as sociedades humanas desenvolvam suas estruturas complexas e que sejam
altamente criativas tanto no nível individual como no coletivo. Graças à variedade
psicológica, o potencial criativo de qualquer sociedade é muitas vezes maior do que aquele
que seria possível se nossa espécie fosse psicologicamente mais homogênea. Devido a essas
variações, a estrutura social implícita também pode se desenvolver. O destino das sociedades
humanas depende de uma acomodação apropriada dos indivíduos dentro dessa estrutura e do
modo como as variações inatas dos talentos são utilizadas.
Nossa experiência nos ensina que as diferenças psicológicas entre as pessoas são a causa
dos mal-entendidos e problemas. Nós podemos superar estes problemas somente se
aceitarmos as diferenças psicológicas como uma lei da natureza e valorizar seu valor
criativo. Isso também nos possibilitaria alcançar uma compreensão objetiva do homem e das
sociedades humanas; infelizmente, isso também nos ensinaria que a igualdade sob a lei é uma
desigualdade sob a lei da natureza.
***
Se nós observarmos nossa personalidade humana, através de um acompanhamento
consistente das causas psicológicas internas, e se for possível exaurir a questão a um grau
suficiente, nós devemos chegar cada vez mais perto dos fenômenos cuja energia bio-
psicológica é muito baixa, os quais começam a se manifestar para nós com uma certa sutileza
característica. Ao descobrir este fenômeno, nós tentamos então rastrear nossas associações,
particularmente porque havíamos esgotado a plataforma analítica disponível. Finalmente,
devemos admitir que notamos alguma coisa dentro de nós que é um resultado de uma causa
supra-sensorial. Este caminho pode ser o mais trabalhoso de todos, mas ele nos levará, porém,
à maior das certezas materiais a respeito da existência daquilo sobre o que todos os principais
sistemas religiosos falam. Qualquer fragmento da verdade conseguido através deste caminho
nos provoca o respeito a alguns dos ensinamentos dos antigos sobre a existência de alguma
coisa para além do universo material.
Se nós, então, desejamos entender a humanidade, o homem como um todo, sem abandonar as leis do pensamento requeridas pela linguagem objetiva, somos, por fim, forçados a aceitar
esta realidade a qual está dentro de cada um de nós, normais ou não, seja porque a aceitamos
por termos sido levados a isso ou porque tenhamos atingido tal conhecimento a partir de nós
mesmos, ou ainda que a tenhamos rejeitado por razões materialistas ou por causa da ciência.
Afinal de contas, invariavelmente, quando analisamos as atitudes psicológicas negativas, nós
sempre discernimos uma afirmação que foi reprimida a partir do campo da consciência. Como
conseqüência, o esforço subconsciente constante de negação de conceitos sobre coisas
existentes produz um zelo para eliminá-los nas outras pessoas.
Abrir nossa mente, verdadeiramente, para a percepção desta realidade é, assim,
indispensável àqueles cuja tarefa é entender as outras pessoas, e é também aconselhável para
qualquer pessoa. Graças a isso, nossa mente se torna livre de tensões internas e de estresses, e
pode ser liberada de sua tendência a selecionar e substituir informações, incluindo aquelas
áreas que são mais facilmente acessíveis à compreensão naturalista.
***
A personalidade humana é instável pela sua própria natureza, e um processo evolutivo ao
longo da vida é o estado normal das coisas. Alguns sistemas políticos e religiosos defendem
que este processo seja mais lento ou que atinjamos uma estabilidade excessiva na nossa
personalidade, mas estes são estados não saudáveis do ponto de vista da psicologia. Se a
evolução de uma personalidade humana ou de uma visão de mundo se congela de forma
suficientemente profunda e por muito tempo, esta condição acaba por nos conduzir ao domínio
da psicopatologia. O processo de transformação da personalidade revela seu significado
graças à sua própria natureza criativa, a qual é baseada na aceitação consciente destas
mudanças criativas como sendo o curso natural dos eventos.
Nossas personalidades também passam por períodos destrutivos temporários, como
resultado de vários eventos da vida, especialmente se experimentarmos sofrimento ou nos
encontrarmos em situações ou circunstâncias que estão em desacordo com nossas experiências
e imaginações anteriores. Estes chamados transtornos desintegrativos são freqüentemente, mas
não necessariamente, desagradáveis. Um bom trabalho dramático, por exemplo, nos habilita a
experimentar um transtorno desintegrativo e ao mesmo tempo acalmar os componentes
desagradáveis, fornecendo idéias criativas para uma reintegração renovada das nossas
próprias personalidades. O verdadeiro teatro, portanto, causa a condição conhecida como
catarse.
Um transtorno desintegrativo faz com que nos esforcemos mentalmente na tentativa de
superá-lo, a fim de recuperarmos a homeostase ativa. Superar tais estados, corrigindo nossos
erros e enriquecendo nossas personalidades, é, na realidade, um processo apropriado e
criativo de reintegração, que leva a um estado mais alto de entendimento e aceitação das leis
da vida, a uma melhor compreensão de si mesmo e dos outros e a uma sensibilidade altamente
desenvolvida nas relações interpessoais. Nossos sentimentos também validam o êxito de um
estado reintegrativo: as condições desagradáveis às quais sobrevivemos são dotadas de
sentido. Assim, a experiência nos torna melhor preparados para o confronto com a próxima
situação de transtorno desintegrativo.
Se, contudo, nós nos revelamos incapazes de gerenciar os problemas que ocorreram porque
os nossos reflexos foram muito rápidos para reprimir e substituir o material desagradável da
nossa consciência, ou por alguma razão similar, nossa personalidade experimenta uma
egotização retroativa, mas não se livra da sensação de fracasso. Os resultados são
devolucionários; a pessoa se torna de convivência mais difícil. Se não podemos vencer tal
estágio desintegrativo porque as circunstâncias que o causaram eram dominantes ou porque
nos faltou a informação essencial para o uso construtivo do mesmo, nosso organismo reage
com uma condição neurótica.
***
O diagrama da personalidade humana aqui apresentado, sumarizado e simplificado por
razões de necessidade, nos deixa cientes do quão complexos são os seres humanos em sua
estrutura, suas mudanças e suas vidas mentais e espirituais. Se desejamos criar uma ciência
social cujas descrições da nossa realidade sejam capazes de nos habilitar a confiar nelas na
prática, nós temos que aceitar esta complexidade e termos a certeza de que ela foi
suficientemente respeitada. Qualquer tentativa de substituir este conhecimento básico com a
ajuda de esquemas excessivamente simplificados leva à perda desta convergência
indispensável entre o nosso raciocínio e a realidade que observamos. É nossa obrigação
enfatizar novamente que o uso da linguagem natural para descrever a imaginação psicológica,
com este propósito, não pode ser um substituto para as premissas objetivas.
De forma similar, é extremamente difícil para um psicólogo acreditar no valor de qualquer
ideologia social baseada em premissas psicológicas simplificadas ou até mesmo ingênuas.
Isso se aplica a qualquer ideologia que tente simplificar demais a realidade psicológica, seja
ela utilizada por um sistema totalitário ou por, infelizmente, um sistema democrático. As
pessoas são diferentes. Quaisquer coisas que sejam qualitativamente diferentes e que
permaneçam em estado de permanente evolução não podem ser iguais.
***
Os enunciados acima mencionados sobre a natureza humana se aplicam às pessoas normais,
com pequenas exceções. Contudo, cada sociedade no mundo contém um certo percentual de
indivíduos, um número relativamente baixo, mas que são uma minoria ativa, que não pode ser
considerada normal.
Nós enfatizamos que, neste livro, estamos lidando com anormalidades de uma forma
qualitativa e não estatística. Pessoas excepcionalmente inteligentes são estatisticamente
anormais, mas elas podem ser membros perfeitamente normais de uma sociedade, do ponto de
vista qualitativo. Nós estamos procurando por indivíduos que compõem um número
estatisticamente pequeno, mas cuja qualidade desta diferença é tal que pode afetar, de forma
negativa, centenas, milhares e até mesmo milhões de outros seres humanos.
Os indivíduos que desejamos considerar são pessoas que revelam um fenômeno mórbido, e
nas quais podem ser observados desvios mentais e anomalias de vários tipos e intensidades.
Muitas destas pessoas são direcionadas pelas ansiedades internas: elas buscam caminhos não
convencionais de ação e de acomodação à vida, com uma certa hiperatividade característica.
Em alguns casos, tal atividade pode ser pioneira e criativa, o que garante a tolerância da sociedade para alguns desses indivíduos. Alguns psiquiatras, especialmente os alemães,
enalteceram tais pessoas como sendo portadoras da inspiração principal para o
desenvolvimento da civilização; esta é uma visão unilateral desastrosa da realidade. Os leigos
no campo da psicopatologia freqüentemente têm a impressão que tais pessoas representam
alguns talentos extraordinários. Esta mesma ciência, contudo, explica que a hiperatividade
destes indivíduos, e a sensação de serem excepcionais, são derivados do seu impulso para
compensar a sensação de alguma deficiência. Essa atitude anormal resulta no obscurecimento
da verdade: de que as pessoas normais são as mais ricas de todas.
O quarto capítulo deste livro contém uma descrição concisa de algumas destas anomalias,
suas causas e a realidade biológica, selecionadas de modo a facilitar a compreensão deste
trabalho como um todo. Outros dados estão distribuídos ao longo de vários trabalhos
especializados que não estão incluídos aqui. Contudo, nós devemos considerar que a forma
geral do nosso conhecimento nessa área, que é tão básico para o entendimento de muitos
problemas difíceis da vida social, e também para suas soluções práticas, é insatisfatória.
Muitos cientistas tratam esta área da ciência como sendo periférica; outros a consideram
ingrata porque ela leva facilmente a mal entendidos com outros especialistas. Como
conseqüência, vários conceitos e várias convenções semânticas emergem, e a totalidade do
conhecimento desta ciência ainda é caracterizada por uma natureza excessivamente descritiva.
Este livro, contudo, reúne esforços cujo objetivo é trazer à luz os aspectos causais do
fenômeno descritivamente conhecido.
O fenômeno patológico em questão, em geral de intensidade suficientemente baixa para ser
mais facilmente ocultado da opinião circundante, une-se sem muita dificuldade ao processo
eterno da gênese do mal, que posteriormente afeta pessoas, famílias e sociedades inteiras.
Mais à frente, neste livro, nós iremos aprender que estes fatores patológicos tornam-se
componentes indispensáveis em uma síntese que resulta no sofrimento humano em grande
escala, e que rastrear suas atividades por meio do controle científico e da conscientização
social pode se tornar uma arma efetiva contra o mal.
Pelas razões acima, esta dimensão da ciência psicopatológica representa uma parte
indispensável da linguagem objetiva por nós tratada anteriormente. O aumento contínuo na
precisão da análise dos fatos psicológicos e biológicos nesta área é uma precondição
essencial para a compreensão objetiva de muitos fenômenos que se tornam extremamente
onerosos à sociedade, bem como para uma solução moderna para problemas antigos.
Biólogos, médicos e psicólogos que têm se esforçado nestes problemas elusivos e intrincados
merecem assistência e encorajamento da sociedade, uma vez que seus trabalhos permitirão
uma proteção futura, para as pessoas e para as nações, contra um mal cujas causas nós ainda
não temos entendimento suficiente.