Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 18 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Ideologias

É um fenômeno comum, para uma associação ou grupo ponerogênico, conter uma ideologia

particular que sempre justifique suas atividades e forneça propaganda motivacional. Mesmo

uma gangue de arruaceiros de curta duração tem sua própria ideologia melodramática e seu

romantismo patológico. A natureza humana demanda que assuntos odiosos sejam envolvidos

por uma mística super-compensatória, de forma a silenciar as consciências e ludibriar as

faculdades críticas e conscientes, sejam elas as suas próprias ou as de outros.

Se tais uniões ponerogênicas pudessem ser despidas de sua ideologia, nada permaneceria

além da patologia psicológica e moral, nua e não atrativa. Tal despojamento provocaria, é

claro, “indignação moral”, e não somente entre os membros da união. O fato é que mesmo as

pessoas normais, que condenam esse tipo de união juntamente com suas ideologias, sentem-se

ofendidas e privadas de alguma parte constitutiva do seu próprio romantismo, do seu modo de

perceber a realidade, quando um grupo amplamente idealizado é exposto como pouco mais do

que uma gangue de criminosos. Talvez até mesmo alguns dos leitores desse livro se

ressentirão pelo autor despir o mal, de forma tão sem cerimônia, de todos os seus motivos

literários. O trabalho de efetuar tal strip-tease pode assim se tornar bem mais difícil e

perigoso do que se espera.

Uma união ponerogênica primária é formada ao mesmo tempo que sua ideologia, talvez até

um pouco antes. Uma pessoa normal percebe tal ideologia como sendo diferente do mundo dos

conceitos humanos, obviamente sugestivo, e mesmo primitivamente cômico em um certo grau.

Uma ideologia de uma associação ponerogênica secundária é formada por uma adaptação

gradual da ideologia primária para outras funções e objetivos que são diferentes dos

originalmente desenvolvidos. Um certo tipo de sobreposição ou esquizofrenia da ideologia

acontece durante o processo de ponerização. A camada de fora, mais próxima do conteúdo

original, é utilizada para propósitos de propaganda, especialmente em relação ao mundo

exterior, embora possa também ser usada, em parte, internamente para desacreditar os

membros do baixo escalão. A segunda camada é direcionada à elite sem problemas de

compreensão: é mais hermética, geralmente composta pela introdução delicada de

significados diferentes para os mesmos nomes. Uma vez que nomes idênticos significam

conteúdos diferentes, dependendo da camada em questão, entender este jogo duplo de

linguagem requer uma fluência simultânea nas duas linguagens.

As pessoas medianas sucumbem às insinuações sugestivas da primeira camada por um longo

período até que aprendam a entender a segunda da mesma forma. Qualquer pessoa com certos

desvios psicológicos, especialmente se estiver utilizando a máscara da normalidade com a

qual já estamos familiarizados, percebe imediatamente que a segunda camada é atrativa e

significativa; afinal de contas, ela foi construída por pessoas como ela. Compreender essa

linguagem dupla é, portanto, uma tarefa incômoda, que provoca uma resistência psicológica

perfeitamente compreensível. Essa mesma dualidade da linguagem, contudo, é um sintoma

patognomônico[ 62 ], indicando que a união humana em questão está contaminada pelo

processo ponerogênico em um grau avançado.

A ideologia de uniões afetadas por tais degenerações tem certos fatores constantes em

relação à sua qualidade, quantidade ou abrangência de ação: a saber, as motivações de um grupo injustiçado, um conserto radical do que está errado e os valores elevados dos

indivíduos que se juntaram à organização. Essas motivações facilitam a sublimação dos

sentimentos de ser diferente e injustiçado, causados pelas próprias falhas psicológicas do

indivíduo em questão, e parecem liberar o sujeito da necessidade de obedecer a princípios

morais desconfortáveis.

Um mundo cheio de injustiças reais e humilhações humanas torna-se favorável para a

formação de uma ideologia contendo os elementos acima e uma união de seus conversos pode

facilmente sucumbir para a degradação. Quando isso acontece, aquelas pessoas com a

tendência a aceitar uma versão melhor da ideologia buscarão justificar tal dualidade

ideológica.

A ideologia do proletariado, que visava a restruturação revolucionária do mundo, já estava

contaminada pela anomalia esquizóide no entendimento e na confiança sobre a natureza

humana; não surpreende que ela tenha facilmente sucumbido a um processo típico de

degeneração, a fim de nutrir e disfarçar um fenômeno macrossocial cuja essência básica é

completamente diferente.

Para referência futura, vamos nos lembrar: ideologias não necessitam de propagandistas.

Propagandistas necessitam de ideologias a fim de sujeitá-las aos seus próprios objetivos

dissidentes.

Por outro lado, o fato de que algumas ideologias degeneram juntamente com o seu

movimento social decorrente, sucumbindo mais tarde a essa esquizofrenia e servindo a

objetivos que seus criadores teriam detestado, não as prova sem valor, falsas e falaciosas

desde o início. Muito pelo contrário: parece mais que, sob certas condições históricas, a

ideologia de qualquer movimento social, mesmo se for uma verdade sagrada, pode render

frutos ao processo de ponerização.

Uma dada ideologia pode conter pontos fracos, criados por erros de pensamento humano e

pelas emoções envolvidas; ou pode ser, durante o curso de sua história, infiltrada por um

material externo mais primitivo e que pode conter fatores ponerogênicos. Tal material destrói

a homogeneidade interna de uma ideologia. A origem de tal infecção por material ideológico

externo pode ser o sistema de regras sociais com suas leis e costumes baseadas em uma

tradição mais primitiva ou um sistema de regras imperialista. É lógico que pode ser

simplesmente outro movimento filosófico, freqüentemente contaminado pelas excentricidades

de seu fundador, que considera os fatos culpados por não se conformarem à sua construção

dialética.

O Império Romano, incluindo seu sistema legal e a parcimônia nos conceitos psicológicos,

contaminou similarmente a idéia homogênea primária do Cristianismo. O Cristianismo teve

que se adaptar à coexistência com um sistema social onde o dura lex sed lex,[ 63 ] no lugar de

um entendimento dos seres humanos, decidia o destino de uma pessoa; isso levou então à

corrupção da tentativa de atender aos objetivos do “Reino de Deus” por meio dos métodos

imperialistas romanos.[ 64 ]

Quanto maior e mais verdadeira for a ideologia original, por mais tempo ela é capaz de

nutrir e esconder da crítica humana esse fenômeno, que é o produto do processo degenerativo

específico. Em uma ideologia grande e valiosa, o perigo para as pequenas mentes está oculto; elas podem se tornar os fatores de tal degeneração primária, a qual abre a porta para a

invasão dos fatores patológicos.

Então, se temos a intenção de entender o processo de ponerização secundária e os tipos de

associações humanas que sucumbem a ele, nós devemos ter um grande cuidado para separar a

ideologia original de sua contrapartida, ou até mesmo de sua caricatura, criadas pelo processo

ponerogênico. Abstraindo-nos de qualquer ideologia, devemos entender, por analogia, a

essência do processo mesmo, que tem suas próprias causas etiológicas potencialmente

presentes em todas as sociedades, assim como a pato-dinâmica comportamental característica.