Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 5 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Capítulo II - Alguns conceitos indispensáveis

ALGUNS CONCEITOS INDISPENSÁVEIS

 

TRÊS PRINCIPAIS ITENS HETEROGÊNEOS COINCIDIRAM para formar a civilização européia: a

Filosofia Grega, o direito do Império Romano e o Cristianismo, que foram consolidados pelo

tempo e pelos esforços das gerações posteriores. A cultura desta herança cognitiva/espiritual

que assim nasceu era internamente pouco clara, com uma linguagem de conceitos

excessivamente apegada à matéria e à lei, e que revelou-se demasiadamente rígida para

compreender os aspectos psicológicos e espirituais da vida.

 

Tal estado de coisas teve repercussões negativas sobre nossa habilidade de compreender a

realidade, especialmente aquela realidade relacionada à humanidade e à sociedade. Os

europeus tornaram-se relutantes em estudar a realidade (subordinando a inteligência aos fatos)

mas, em seu lugar, tiveram a tendência de impor à natureza seus esquemas ideológicos

subjetivos, os quais são extrínsecos e não completamente coerentes. Somente nos tempos

modernos, graças ao desenvolvimento das ciências naturais, que estudam os fatos pela sua

própria natureza, bem como a captação da herança filosófica de outras culturas, nos foi

possível ajudar a esclarecer o nosso mundo de conceitos e permitir sua própria

homogeneização.

É surpreendente observar a tribo autônoma que a cultura dos antigos gregos representava.

Mesmo naqueles dias, dificilmente uma civilização conseguia se desenvolver no isolamento,

sem ser afetada, em particular, pelas culturas antigas. Contudo, mesmo com essa consideração,

parece que a Grécia estava relativamente isolada, culturalmente falando. Isso aconteceu

provavelmente devido à era decadente à qual os arqueólogos referem-se como a “Idade das

Trevas”, que ocorreu naquela área mediterrânea entre 1200 e 1800 a.C., e também à

agressividade da tribo dos Achaeans.[ 10 ]

Entre os gregos, uma imaginação mitológica muito rica, desenvolvida no contato direto com

a natureza e com as experiências da vida e da guerra, forneceu uma imagem desta ligação entre

a natureza do país e as pessoas. Essas condições testemunharam o nascimento de uma tradição

literária e, mais tarde, de reflexões filosóficas pela busca dos conceitos gerais, dos conteúdos

essenciais e dos critérios de valores. A herança grega é fascinante devido à sua riqueza e

individualidade, mas acima de tudo devido à sua natureza primária. Nossa civilização,

contudo, poderia ter sido melhor servida se os gregos tivessem feito um uso mais amplo das

conquistas de outras civilizações.

Roma era muito vital e prática para refletir profundamente sobre os pensamentos gregos, dos

quais tinha se apropriado. Nesta civilização imperial, as necessidades administrativas e os

desenvolvimentos jurídicos impuseram prioridades concretas. Para os romanos, o papel da

filosofia era mais didático, útil para auxiliar o desenvolvimento do processo de pensamento

que posteriormente seria utilizado para o despacho nas funções administrativas e no exercício das opções políticas. Essa influência grega de reflexão suavizou os hábitos romanos, que

tiveram um efeito saudável no desenvolvimento do império.

Contudo, em qualquer civilização imperial, os problemas complexos envolvendo a natureza

humana são fatores preocupantes e complicadores das leis que regulam os assuntos públicos e

as funções administrativas. Isso causou uma tendência ao desprezo por tais assuntos e ao

desenvolvimento de um conceito de personalidade humana simplificado o suficiente para

servir aos propósitos da lei. Os cidadãos romanos podiam atingir os seus objetivos e

desenvolver suas atitudes pessoais dentro de um sistema determinado pelo destino e pelos

princípios legais, o que caracterizava a situação de um indivíduo com base em premissas que

tinham pouco a ver com características psicológicas reais. A vida espiritual das pessoas que

não tinham o direito à cidadania não era um assunto apropriado para estudos mais sérios. Por

isso, a psicologia cognitiva permaneceu estéril, uma condição que sempre produziu recessão

moral em ambos os níveis, público e individual.

O Cristianismo teve ligações mais fortes com as culturas antigas do continente asiático,

incluindo as reflexões filosóficas e psicológicas. Isso foi, é claro, um fator dinâmico que o

tornou mais atrativo, mas não foi o mais importante. A observação e o entendimento sobre as

transformações aparentes que a fé causava nas personalidades humanas criou uma escola

psicológica de pensamento e arte da parte dos primeiros fiéis. Esta nova relação com outra

pessoa, isto é, com o próximo, caracterizada pelo entendimento, perdão e amor abriu a porta

para uma experiência psicológica que, muitas vezes apoiada por um fenômeno carismático,

produziu frutos abundantes durante os primeiros três séculos depois de Cristo.

Um observador daquele tempo deve ter esperado que o Cristianismo ajudasse a desenvolver

a arte do entendimento humano em um nível mais alto que o de outras culturas ou religiões e

também que tal conhecimento protegesse as gerações futuras dos perigos do pensamento

especulativo divorciado da realidade psicológica profunda, a qual somente pode ser

compreendida através do respeito sincero por outro ser humano.

A História, contudo, não confirmou tais expectativas. Os sintomas de decadência na

sensibilidade e na compreensão psicológica, assim como a tendência do Império Romano de

impor padrões extrínsecos sobre os seres humanos, podem ser observados desde 350 d.C.

Durante as eras posteriores, o Cristianismo passou por todas as dificuldades que resultaram

da falta de conhecimento psicológico da realidade. Estudos exaustivos das razões históricas

para a supressão do desenvolvimento da cognição humana na nossa civilização seriam um

esforço extremamente útil.

Antes de mais nada, o Cristianismo adaptou a herança da linguagem e do pensamento

filosófico gregos para os seus propósitos. Isso tornou possível o desenvolvimento da sua

própria filosofia, mas os traços primitivos e materialistas daquela linguagem impuseram

certos limites que atrasaram, por muitos séculos, a comunicação entre o Cristianismo e outras

culturas religiosas.

A mensagem de Cristo cresceu pela costa e pelos caminhos batidos das linhas de transporte

do Império Romano, para dentro da civilização do império, mas somente através de

perseguições sangrentas e compromissos derradeiros com o poder de Roma e o seu direito.

Roma finalmente passou a lidar com a ameaça através da apropriação do Cristianismo para seus objetivos e, como resultado, a Igreja Cristã apropriou-se das formas organizacionais de

Roma e as adaptou às instituições sociais existentes. Como efeito deste processo inevitável de

adaptação, o Cristianismo herdou os hábitos romanos de pensamento legal, incluindo a sua

indiferença à natureza humana e à sua variedade.

Dois sistemas heterogêneos foram então ligados de modo tão permanente, que séculos mais

tarde esqueceu-se quão estranhos eles realmente eram um para o outro. Contudo, o tempo e o

compromisso não eliminaram as inconsistências internas e a influência romana retirou do

Cristianismo alguns dos seus conhecimentos psicológicos primordiais mais profundos. Tribos

cristãs, desenvolvendo-se sob condições culturais diferentes, criaram formas tão variadas que

a manutenção da unidade tornou-se uma impossibilidade histórica.

A “Civilização Ocidental” surgiu, portanto, dificultada por uma grave deficiência em uma

área que não só pode exercer um papel criativo, como efetivamente o faz, e cujo objetivo é

proteger as sociedades de vários tipos de males. Esta civilização desenvolveu fórmulas na

área do direito, seja ele nacional, civil, ou mesmo canônico, as quais foram concebidas para

seres inventados ou simplificados. Estas fórmulas deram pouca atenção ao conteúdo total da

personalidade humana e às grandes diferenças entre os membros individuais da espécie Homo

Sapiens. Por muitos séculos, qualquer entendimento de certas anomalias psicológicas

encontradas entre alguns indivíduos estava fora de questão, até mesmo quando essas

anomalias causavam catástrofes, repetidamente.

Esta civilização foi insuficientemente resistente ao mal, o qual se origina além das áreas da

consciência humana facilmente acessíveis e que tira vantagem da enorme lacuna entre o

pensamento formal ou legal e a realidade psicológica. Em uma civilização deficiente no

conhecimento psicológico, indivíduos hiperativos direcionados pelas suas dúvidas internas,

que são causadas por uma sensação de ser diferente, encontram facilmente um eco pronto nas

consciências pouco desenvolvidas de outras pessoas. Tais indivíduos sonham em impor seu

poder e seus diferentes modos de experimentar sobre seus ambientes e sua sociedade.

Infelizmente, em uma sociedade ignorante psicologicamente, seus sonhos têm uma boa chance

de se tornar realidade para eles e um pesadelo para os outros.