Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo II - Alguns conceitos indispensáveis
ALGUNS CONCEITOS INDISPENSÁVEIS
TRÊS PRINCIPAIS ITENS HETEROGÊNEOS COINCIDIRAM para formar a civilização européia: a
Filosofia Grega, o direito do Império Romano e o Cristianismo, que foram consolidados pelo
tempo e pelos esforços das gerações posteriores. A cultura desta herança cognitiva/espiritual
que assim nasceu era internamente pouco clara, com uma linguagem de conceitos
excessivamente apegada à matéria e à lei, e que revelou-se demasiadamente rígida para
compreender os aspectos psicológicos e espirituais da vida.
Tal estado de coisas teve repercussões negativas sobre nossa habilidade de compreender a
realidade, especialmente aquela realidade relacionada à humanidade e à sociedade. Os
europeus tornaram-se relutantes em estudar a realidade (subordinando a inteligência aos fatos)
mas, em seu lugar, tiveram a tendência de impor à natureza seus esquemas ideológicos
subjetivos, os quais são extrínsecos e não completamente coerentes. Somente nos tempos
modernos, graças ao desenvolvimento das ciências naturais, que estudam os fatos pela sua
própria natureza, bem como a captação da herança filosófica de outras culturas, nos foi
possível ajudar a esclarecer o nosso mundo de conceitos e permitir sua própria
homogeneização.
É surpreendente observar a tribo autônoma que a cultura dos antigos gregos representava.
Mesmo naqueles dias, dificilmente uma civilização conseguia se desenvolver no isolamento,
sem ser afetada, em particular, pelas culturas antigas. Contudo, mesmo com essa consideração,
parece que a Grécia estava relativamente isolada, culturalmente falando. Isso aconteceu
provavelmente devido à era decadente à qual os arqueólogos referem-se como a “Idade das
Trevas”, que ocorreu naquela área mediterrânea entre 1200 e 1800 a.C., e também à
agressividade da tribo dos Achaeans.[ 10 ]
Entre os gregos, uma imaginação mitológica muito rica, desenvolvida no contato direto com
a natureza e com as experiências da vida e da guerra, forneceu uma imagem desta ligação entre
a natureza do país e as pessoas. Essas condições testemunharam o nascimento de uma tradição
literária e, mais tarde, de reflexões filosóficas pela busca dos conceitos gerais, dos conteúdos
essenciais e dos critérios de valores. A herança grega é fascinante devido à sua riqueza e
individualidade, mas acima de tudo devido à sua natureza primária. Nossa civilização,
contudo, poderia ter sido melhor servida se os gregos tivessem feito um uso mais amplo das
conquistas de outras civilizações.
Roma era muito vital e prática para refletir profundamente sobre os pensamentos gregos, dos
quais tinha se apropriado. Nesta civilização imperial, as necessidades administrativas e os
desenvolvimentos jurídicos impuseram prioridades concretas. Para os romanos, o papel da
filosofia era mais didático, útil para auxiliar o desenvolvimento do processo de pensamento
que posteriormente seria utilizado para o despacho nas funções administrativas e no exercício das opções políticas. Essa influência grega de reflexão suavizou os hábitos romanos, que
tiveram um efeito saudável no desenvolvimento do império.
Contudo, em qualquer civilização imperial, os problemas complexos envolvendo a natureza
humana são fatores preocupantes e complicadores das leis que regulam os assuntos públicos e
as funções administrativas. Isso causou uma tendência ao desprezo por tais assuntos e ao
desenvolvimento de um conceito de personalidade humana simplificado o suficiente para
servir aos propósitos da lei. Os cidadãos romanos podiam atingir os seus objetivos e
desenvolver suas atitudes pessoais dentro de um sistema determinado pelo destino e pelos
princípios legais, o que caracterizava a situação de um indivíduo com base em premissas que
tinham pouco a ver com características psicológicas reais. A vida espiritual das pessoas que
não tinham o direito à cidadania não era um assunto apropriado para estudos mais sérios. Por
isso, a psicologia cognitiva permaneceu estéril, uma condição que sempre produziu recessão
moral em ambos os níveis, público e individual.
O Cristianismo teve ligações mais fortes com as culturas antigas do continente asiático,
incluindo as reflexões filosóficas e psicológicas. Isso foi, é claro, um fator dinâmico que o
tornou mais atrativo, mas não foi o mais importante. A observação e o entendimento sobre as
transformações aparentes que a fé causava nas personalidades humanas criou uma escola
psicológica de pensamento e arte da parte dos primeiros fiéis. Esta nova relação com outra
pessoa, isto é, com o próximo, caracterizada pelo entendimento, perdão e amor abriu a porta
para uma experiência psicológica que, muitas vezes apoiada por um fenômeno carismático,
produziu frutos abundantes durante os primeiros três séculos depois de Cristo.
Um observador daquele tempo deve ter esperado que o Cristianismo ajudasse a desenvolver
a arte do entendimento humano em um nível mais alto que o de outras culturas ou religiões e
também que tal conhecimento protegesse as gerações futuras dos perigos do pensamento
especulativo divorciado da realidade psicológica profunda, a qual somente pode ser
compreendida através do respeito sincero por outro ser humano.
A História, contudo, não confirmou tais expectativas. Os sintomas de decadência na
sensibilidade e na compreensão psicológica, assim como a tendência do Império Romano de
impor padrões extrínsecos sobre os seres humanos, podem ser observados desde 350 d.C.
Durante as eras posteriores, o Cristianismo passou por todas as dificuldades que resultaram
da falta de conhecimento psicológico da realidade. Estudos exaustivos das razões históricas
para a supressão do desenvolvimento da cognição humana na nossa civilização seriam um
esforço extremamente útil.
Antes de mais nada, o Cristianismo adaptou a herança da linguagem e do pensamento
filosófico gregos para os seus propósitos. Isso tornou possível o desenvolvimento da sua
própria filosofia, mas os traços primitivos e materialistas daquela linguagem impuseram
certos limites que atrasaram, por muitos séculos, a comunicação entre o Cristianismo e outras
culturas religiosas.
A mensagem de Cristo cresceu pela costa e pelos caminhos batidos das linhas de transporte
do Império Romano, para dentro da civilização do império, mas somente através de
perseguições sangrentas e compromissos derradeiros com o poder de Roma e o seu direito.
Roma finalmente passou a lidar com a ameaça através da apropriação do Cristianismo para seus objetivos e, como resultado, a Igreja Cristã apropriou-se das formas organizacionais de
Roma e as adaptou às instituições sociais existentes. Como efeito deste processo inevitável de
adaptação, o Cristianismo herdou os hábitos romanos de pensamento legal, incluindo a sua
indiferença à natureza humana e à sua variedade.
Dois sistemas heterogêneos foram então ligados de modo tão permanente, que séculos mais
tarde esqueceu-se quão estranhos eles realmente eram um para o outro. Contudo, o tempo e o
compromisso não eliminaram as inconsistências internas e a influência romana retirou do
Cristianismo alguns dos seus conhecimentos psicológicos primordiais mais profundos. Tribos
cristãs, desenvolvendo-se sob condições culturais diferentes, criaram formas tão variadas que
a manutenção da unidade tornou-se uma impossibilidade histórica.
A “Civilização Ocidental” surgiu, portanto, dificultada por uma grave deficiência em uma
área que não só pode exercer um papel criativo, como efetivamente o faz, e cujo objetivo é
proteger as sociedades de vários tipos de males. Esta civilização desenvolveu fórmulas na
área do direito, seja ele nacional, civil, ou mesmo canônico, as quais foram concebidas para
seres inventados ou simplificados. Estas fórmulas deram pouca atenção ao conteúdo total da
personalidade humana e às grandes diferenças entre os membros individuais da espécie Homo
Sapiens. Por muitos séculos, qualquer entendimento de certas anomalias psicológicas
encontradas entre alguns indivíduos estava fora de questão, até mesmo quando essas
anomalias causavam catástrofes, repetidamente.
Esta civilização foi insuficientemente resistente ao mal, o qual se origina além das áreas da
consciência humana facilmente acessíveis e que tira vantagem da enorme lacuna entre o
pensamento formal ou legal e a realidade psicológica. Em uma civilização deficiente no
conhecimento psicológico, indivíduos hiperativos direcionados pelas suas dúvidas internas,
que são causadas por uma sensação de ser diferente, encontram facilmente um eco pronto nas
consciências pouco desenvolvidas de outras pessoas. Tais indivíduos sonham em impor seu
poder e seus diferentes modos de experimentar sobre seus ambientes e sua sociedade.
Infelizmente, em uma sociedade ignorante psicologicamente, seus sonhos têm uma boa chance
de se tornar realidade para eles e um pesadelo para os outros.