Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 4 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Capítulo I - Introdução

INTRODUÇÃO

 

PEÇO AO LEITOR QUE IMAGINE UM HALL DE ENTRADA bem grande em um prédio universitário

antigo, no estilo Gótico. Muitos de nós íamos para lá, ainda quando estávamos no início dos

nossos estudos, a fim de ouvir as aulas de notórios filósofos e cientistas. Nós nos reunimos de

volta neste lugar – sob ameaça – no ano anterior à graduação, para ouvir as aulas de

doutrinação que haviam sido introduzidas recentemente.

 

Uma pessoa que nenhum de nós conhecia apareceu por detrás do púlpito e nos informou que

ele seria agora o professor. Seu discurso era fluente, mas não havia nada de científico nele:

ele não conseguia distinguir entre conceitos científicos e senso comum e tratava as idéias na

fronteira entre um e outro, como se fossem uma sabedoria da qual não se poderia duvidar.

Durante noventa minutos por semana, ele nos inundou com uma visão ingênua,

presunçosamente falaciosa e patológica, da realidade humana. Nós éramos tratados com

desprezo e com um ódio mal controlado. Uma vez que tirar sarro poderia resultar em terríveis

conseqüências, nós tínhamos que ouvi-lo atentamente e com extrema gravidade.

Logo apareceram os boatos sobre a origem desta pessoa. Ele tinha vindo do subúrbio de

Cracóvia e freqüentou o colegial, embora ninguém soubesse se ele tinha sido graduado. De

qualquer forma, esta foi a primeira vez que ele cruzou as portas da universidade, e o fez como

um professor, simples assim.

“Você não consegue convencer ninguém desta forma!” nós cochichávamos entre nós. “É

realmente propaganda dirigida contra eles mesmos”. Mesmo depois de tal tortura mental,

levou um longo tempo para alguém quebrar o silêncio.

Nós estudávamos a nós mesmos, já que sentíamos que algo estranho tinha invadido nossas

mentes e algo valioso estava se esvaindo de forma irreparável. O mundo da realidade

psicológica e dos valores morais parecia suspenso em um nevoeiro gelado. Nosso sentimento

humano e nossa solidariedade estudantil perderam seus significados, como também aconteceu

com o patriotismo e nossos velhos critérios estabelecidos. Então, nos perguntamos uns aos

outros, “isso está acontecendo com você também?” Cada um de nós experimentava, do seu

próprio jeito, esta aflição sobre sua própria personalidade e sobre o seu futuro. Alguns de nós

respondíamos às questões com o silêncio. A profundidade destas experiências revelou-se

diferente para cada pessoa.

Nós então imaginamos como nos protegeríamos dos resultados desta “doutrinação”. Teresa

D. fez a primeira sugestão: vamos passar um final de semana nas montanhas. Funcionou.

Companhias agradáveis, um pouco de brincadeira, então o cansaço, seguido por um sono

profundo em um abrigo e nossas personalidades humanas retornaram, embora ainda com um

certo vestígio de antes. O tempo também provou ser adequado para criar uma imunidade

psicológica, ainda que não para todos. Analisar as características psicopáticas da personalidade do “professor” também mostrou ser outro excelente meio para proteger a

própria saúde psicológica.

Você pode imaginar nossa preocupação, desapontamento e surpresa quando alguns colegas

que nos eram próximos, repentinamente, começaram a mudar suas visões de mundo. O padrão

de pensamento deles, além disso, nos lembrava a conversa do “professor”. Seus sentimentos,

que bem recentemente tinham sido amigáveis, tornaram-se claramente frios, embora ainda não

fossem hostis. Argumentos benevolentes ou de estudantes críticos tornaram-se certos para

eles. Eles davam a impressão de possuir algum conhecimento secreto; nós éramos somente os

seus ex-colegas, que ainda acreditavam no que aqueles “professores antigos” nos tinham

ensinado. Nós precisávamos ter cuidado com o que dizíamos para esses colegas. Esses nossos

ex-colegas logo entraram para o Partido.

Quem eram eles? De quais grupos sociais tinham vindo? Que tipo de estudantes e pessoas

eram? Como e por que eles mudaram tanto em menos de um ano? Por que nem eu e nem a

maioria dos meus amigos estudantes sucumbiram sob este fenômeno e processo? Muitas destas

questões pipocavam em nossas cabeças. Foi nesta época, a partir destas questões,

observações e atitudes que nasceu a idéia de que esse fenômeno deveria ser objetivamente

estudado e entendido; uma idéia cujo significado maior cristalizou com o tempo.

Muitos de nós, psicólogos recém-graduados, participamos nas observações e reflexões

iniciais, mas muitos desistiram por conta de problemas materiais ou acadêmicos. Somente

poucos daquele grupo permaneceram; e o autor deste livro talvez seja o último dos

moicanos.[ 1 ]

Foi relativamente fácil determinar os ambientes e as origens das pessoas que sucumbiram a

esse processo, o qual eu então chamei de “transpersonificação”. Eles vieram de todos os

grupos sociais, inclusive de famílias da aristocracia e de famílias muito religiosas, e

representou uma “baixa” na nossa solidariedade estudantil, de aproximadamente 6%. A grande

maioria remanescente sofreu vários graus de desintegração da personalidade, o que deu

origem a uma busca individual pelos valores necessários para se encontrarem novamente; os

resultados foram variados e, em alguns casos, criativos.

Apesar disso, nós não tínhamos dúvidas quanto à natureza patológica desse processo de

“transpersonificação”, que funcionou de forma similar mas não necessariamente idêntica, em

todos os casos. A duração dos resultados desse fenômeno também variou. Algumas dessas

pessoas, mais tarde, tornaram-se fanáticos. Outros se aproveitaram de várias circunstâncias

para reestabelecer o contato perdido com a sociedade das pessoas normais. Eles foram

substituídos. O único valor constante do novo sistema social foi o número mágico de 6%.

Nós tentamos avaliar o nível de talento daqueles colegas que sucumbiram a esse processo de

transformação de personalidade e chegamos à conclusão que, na média, era ligeiramente mais

baixo que a média da população estudantil. Sua resistência menor, é lógico, residia em outras

características bio-psicológicas, as quais eram provavelmente qualitativamente heterogêneas.

Eu percebi que tinha que estudar assuntos que estavam no limite entre a psicologia e a

psicopatologia, a fim de responder às questões que surgiam das nossas observações; a

negligência científica dessas áreas mostrou-se como um obstáculo difícil de ser sobreposto.

Ao mesmo tempo, parecia que uma pessoa guiada por um conhecimento especial havia esvaziado todas as bibliotecas de qualquer publicação que fosse relacionada ao tópico; havia

livros indexados, mas eles não estavam fisicamente presentes.

Analisando estes eventos agora, em retrospectiva, baseando-nos no conhecimento

psicológico específico, nós podemos dizer que o “professor” era uma isca pendurada sobre

nossas cabeças. Ele sabia de antemão que iria pescar indivíduos submissos e sabia até mesmo

como fazê-lo, mas os números limitados o desapontaram. O processo de transpersonificação

geralmente se estabelece somente quando o substrato instintivo do indivíduo foi marcado pela

fraqueza ou por certos déficits. Em uma escala menor, ele também funcionou entre pessoas que

manifestaram outras deficiências, nas quais o estado nelas provocado foi parcialmente

provisório, sendo em grande parte o resultado da indução psicopatológica.

Este conhecimento sobre a existência de indivíduos suscetíveis e de como trabalhar sobre

eles continuará sendo uma ferramenta para a conquista do mundo, enquanto este assunto

permanecer como o segredo de tais “professores”. Quando ele se tornar uma ciência

habilmente popularizada, isso ajudará as nações a desenvolver uma imunidade. Mas nenhum

de nós sabia disso naquele momento.

Todavia, nós devemos admitir que, ao nos demonstrar as propriedades deste processo, de

modo a nos forçar a uma experiência profunda, o professor nos auxiliou a compreender a

natureza do fenômeno com uma abrangência maior do que muitos pesquisadores científicos de

verdade que participaram neste trabalho em outras formas menos diretas.

***

Quando jovem, eu li um livro sobre um naturalista que estava perambulando através da

floresta Amazônica. Em um dado momento, um pequeno animal caiu de uma árvore em sua

nuca, arranhando dolorosamente sua pele e sugando o seu sangue. O biólogo cuidadosamente o

removeu – sem ódio, uma vez que este era seu meio de alimentação – e passou a estudá-lo

com cuidado. Esta história ficou presa em minha cabeça de forma obstinada durante aquele

tempo tão difícil, quando um vampiro caiu em nossos pescoços, sugando o sangue de uma

nação infeliz.

Mantendo a atitude de um naturalista que, enquanto tenta rastrear a natureza do fenômeno

macrossocial apesar de todas as adversidades, garante uma certa distância intelectual e uma

melhor saúde psicológica em face dos horrores que poderiam, de outra forma, ser mais

difíceis de encarar. Tal atitude também aumenta um pouco o sentimento de segurança e fornece

um discernimento que pode auxiliar na obtenção de soluções mais criativas. Isso requer um

rigoroso controle dos reflexos naturais e morais de repulsa, e outras emoções dolorosas que o

fenômeno provoca em qualquer pessoa normal, que acaba ficando desprovida da sua alegria

de viver e da sua segurança pessoal, vendo ruir o seu próprio futuro e o futuro da sua nação. A

curiosidade científica, no entanto, torna-se um aliado leal durante este período.

***

Espero que meus leitores me perdoem por recontar aqui uma recordação de juventude que

nos levará diretamente para dentro do assunto. Meu tio, um homem muito solitário, visitava

nossa casa periodicamente. Ele havia sobrevivido à grande Revolução Soviética no interior

da Rússia, de onde havia sido deportado pela polícia czarista. Por mais de um ano, ele vagueou da Sibéria à Polônia. Toda vez que encontrava um grupo armado, durante sua viagem,

ele rapidamente tentava determinar qual ideologia eles representavam, branca ou vermelha, e

em seguida, de forma habilidosa, fingia professá-la. Se o seu estratagema tivesse sido mal

sucedido, ele teria perdido sua cabeça, estourada pela suspeição de que ele fosse um

simpatizante do inimigo. Era mais seguro ter uma arma e pertencer a um grupo. Então, ele

vagueava e lutava ao lado de cada grupo, geralmente até que encontrasse uma oportunidade de

desertar na direção do oeste, a caminho da sua terra natal, a Polônia, um país que tinha

acabado de retomar a sua liberdade.

Quando finalmente alcançou a sua amada terra natal de novo, ele conseguiu terminar seus

estudos em Direito, tão longamente interrompidos, para tornar-se uma pessoa decente e obter

uma posição de responsabilidade. Contudo, ele nunca foi capaz de se libertar de suas

memórias atemorizantes. As mulheres ficavam assustadas com suas histórias dos velhos dias

ruins e pensavam não fazer sentido trazer uma nova vida a um futuro tão incerto. Por isso, ele

nunca formou uma família. Talvez ele fosse incapaz de se relacionar com as pessoas que ele

amava de forma apropriada.

Este meu tio recapturava seu passado contando às crianças da minha família as histórias

sobre o que ele havia visto, experimentado e tomado parte; nossas imaginações juvenis não

eram capazes de levar a termo nada daquilo. Um terror apavorante estremecia nos nossos

ossos. Nós pensávamos: por que as pessoas perderam sua humanidade, qual foi a razão para

tudo isso? Algum tipo de premonição apreensiva atravancou o nosso caminho, indo parar

dentro das nossas mentes; infelizmente, ela veio a se tornar verdade no futuro.

***

Se fosse feita uma coleção de todos os livros que descrevem os horrores das guerras, as

crueldades das revoluções e os atos sangrentos dos líderes políticos e seus sistemas, muitos

leitores evitariam tal biblioteca. Trabalhos antigos seriam colocados lado a lado com livros

escritos por historiadores e repórteres contemporâneos. Documentários investigativos sobre o

extermínio alemão e os campos de concentração e extermínio da Nação Judia, fornecem dados

estatísticos aproximados e descrevem o “trabalho” bem organizado de destruição de vidas

humanas, usando uma linguagem adequadamente calma, e fornecem uma base concreta para o

conhecimento da natureza do mal.

A autobiografia de Rudolf Hoess,[ 2 ] o comandante dos campos em Auschwitz e Birkenau,

é um exemplo clássico de como um indivíduo psicopata inteligente, com carência de emoções

humanas, pensa e se sente.

À frente destes, estariam os livros escritos pelas testemunhas da insanidade criminosa, como

o livro “O Zero e O Infinito” de Arthur Koestler, [ 3 ] baseado na vida soviética do período

anterior à Segunda Guerra Mundial; Smoke over Birkenau, que descreve as memórias

pessoais de Severina Szmagkewska[ 4 ] sobre o campo de concentração feminino de

Auschwitz, na Alemanha; “A World Apart ”, que contém as memórias soviéticas de Gustav

Herling-Grudzinski;[ 5 ] e os livros de Aleksandr Solzhenitsyn,[ 6 ] turgidos com o sofrimento

humano.

A coleção incluiria ainda trabalhos de filosofia da história que discutem os aspectos morais e sociais da gênese do mal, mas que também usam leis históricas um tanto quanto misteriosas

para justificar parcialmente as soluções manchadas de sangue. Contudo, um leitor atento

estaria apto a detectar um certo grau de evolução nas atitudes dos autores desde a afirmação

antiga sobre a escravidão primitiva e o assassinato de povos conquistados até a condenação

moral dos dias atuais de tais métodos de comportamento.

Nesta tal biblioteca, porém, não haveria um único trabalho que oferecesse uma explicação

suficiente das causas e processos a partir dos quais tais dramas históricos tiveram origem, de

como e por que as fragilidades humanas e ambições degeneraram para esta loucura sedenta

por sangue. Ao ler o presente livro, o leitor perceberá que escrevê-lo seria cientificamente

impossível até recentemente.

As velhas questões permaneceriam não respondidas: o que fez isto acontecer? Todo mundo

carrega a semente do crime dentro de si mesmo ou isso acontece somente com alguns de nós?

Não importa quão fiel e psicologicamente verdadeira seja, nenhuma descrição literária dos

fatos, como as narradas pelos autores mencionados acima, pode responder a estas questões,

nem pode explicar completamente as origens do mal. Elas são, portanto, incapazes de fornecer

princípios suficientemente eficientes para neutralizar o mal. A melhor descrição literária de

uma doença não produz um entendimento da sua etiologia essencial e, portanto, não fornece

nenhum princípio para o tratamento. Da mesma forma, tais descrições de tragédias históricas

são incapazes de elaborar medidas efetivas para neutralizar a gênese, a existência ou a

propagação do mal.

Ao fazer uso da linguagem coloquial para circunscrever conceitos psicológicos, sociais e

morais, que não podem ser descritos apropriadamente dentro da sua esfera de utilidade, nós

fornecemos um tipo de compreensão substituta que nos leva a uma sensação irritante de

desamparo. Nosso sistema natural de conceitos e imaginações não é equipado com o conteúdo

factual necessário para permitir uma compreensão racional da qualidade dos fatores

(particularmente os de conteúdo psicológico), os quais estavam ativos antes, na concepção, e

durante tais períodos de crueldade desumana.

No entanto, devemos salientar que os autores de tais descrições literárias perceberam que

suas linguagens não eram suficientes e então tentaram impregnar suas palavras com a precisão

e com uma perspectiva adequada, quase como se eles antecipassem que alguém – em algum

momento adiante – pudesse utilizar os seus trabalhos com o objetivo de explicar o que não

podia ser explicado, nem mesmo com a melhor linguagem literária. Se esses autores não

tivessem sido tão precisos e descritivos em sua linguagem, este autor teria sido incapaz de

utilizar tais trabalhos para suas próprias propostas científicas.

Em geral, muitas pessoas ficam horrorizadas por tal literatura; particularmente em

sociedades hedonistas, as pessoas possuem uma tendência a buscar refúgio na ignorância ou

em doutrinas ingênuas. Algumas pessoas até sentem um certo desprezo pelas pessoas que

sofrem. A influência de tais livros pode, desta forma, ser particularmente nociva; nós devemos

contrariar essa influência, indicando aquilo que os autores tiveram que deixar de lado por

conta da incapacidade de contenção de nosso mundo de conceitos e imaginações cotidianos.

O leitor não vai encontrar aqui, no entanto, nenhuma descrição horripilante de

comportamento criminal ou de sofrimento humano. Não é trabalho do autor apresentar uma figura retroativa dos materiais apresentados por pessoas que viram e sofreram mais do que ele

próprio, e cujos talentos literários são maiores. A introdução de tais descrições neste trabalho

seria contrária ao objetivo: não só concentraria a atenção em tais ocorrências e tiraria o foco

de muitas outras, mas, principalmente, desviaria a atenção do leitor do verdadeiro cerne da

questão, isto é, “as leis gerais da origem do mal”.

Para rastrear os mecanismos de comportamento da gênese do mal, é necessário manter tanto

a repulsa quanto o medo sob controle, submeter-se à paixão pela ciência epistemológica e

desenvolver uma percepção tranqüila que é necessária à história natural. Não devemos jamais

perder de vista o objetivo: traçar os processos da ponerogênese,[ 7 ] aonde eles podem nos

levar e quais ameaças podem nos trazer no futuro.

Este livro, portanto, pretende pegar o leitor pela mão e conduzi-lo para além do universo de

conceitos e imaginação que ele utiliza como apoio para descrever seu mundo desde a infância,

de uma forma excessivamente egoísta, provavelmente porque seus pais, o ambiente e as

pessoas do seu país usavam conceitos similares aos seus. Portanto, nós devemos mostrar ao

leitor uma seleção apropriada do universo de conceitos factuais que deram origem ao

pensamento científico recente e que permitirão a ele obter um entendimento do que permanece

irracional no seu sistema de conceitos do cotidiano.

Contudo, essa excursão para dentro de outra realidade não será um experimento psicológico

conduzido nas mentes dos leitores com o único propósito de expor os pontos fracos e as

lacunas em sua visão natural do mundo. Ao contrário, é uma necessidade urgente, devido aos

problemas prementes do mundo contemporâneo, e que só podemos ignorar por nossa conta e

risco.

É importante perceber que é possível que não consigamos distingüir o caminho que leva a

uma catástrofe nuclear, do caminho que leva à dedicação criativa, a menos que saiamos para

além deste mundo de egotismo[ 8 ] natural e de conceitos bem familiares. Então, podemos

passar a compreender que o caminho foi escolhido para nós, por forças poderosas, contrárias

à nossa nostalgia caseira, e que não encontra correspondência com os conceitos humanos que

nos são familiares. Nós precisamos ir além deste pensamento ilusório do cotidiano, para

nosso próprio bem e dos nossos entes queridos.

As ciências sociais já elaboraram sua própria linguagem convencional, a qual faz a

mediação entre a visão do homem comum e a visão naturalista totalmente objetiva. Ela é útil

para os cientistas em termos de comunicação e cooperação, mas ainda não é o tipo de

estrutura conceitual que leva totalmente em consideração as premissas biológicas,

psicológicas e patológicas das questões tratadas no segundo e quarto capítulos deste livro.

Nas ciências sociais, a terminologia convencional elimina as normas críticas e coloca a ética

à parte; nas ciências políticas, a terminologia leva a uma avaliação subestimada dos fatores

que descrevem a essência das situações políticas quando o mal está no núcleo.

Esta linguagem das ciências sociais fez com que o autor e outros investigadores se sentissem

impotentes e cientificamente paralisados quando iniciamos nossa pesquisa sobre a natureza

misteriosa que envolveu o nosso país, e ainda destrói as tentativas de se chegar a uma

compreensão objetiva do fenômeno. Em última análise, eu não tive outra escolha a não ser

recorrer às terminologias biológica, psicológica e psicopatológica objetivas, com o objetivo de trazer a atenção à verdadeira natureza do fenômeno, o centro da questão.

A natureza do fenômeno sob investigação, assim como as necessidades dos leitores,

particularmente aqueles não familiarizados com a psicopatologia, determinam a forma

descritiva, que primeiro introduz os dados e conceitos necessários para depois compreender

psicológica e moralmente as ocorrências patológicas. Nós devemos então iniciar com as

questões da personalidade humana, intencionalmente formuladas de tal forma que coincidam

amplamente com a experiência prática do psicólogo, para depois passar para questões

selecionadas de psicologia social. Na capítulo sobre “ponerologia”, iremos nos familiarizar

com a forma na qual se dá a origem do mal, em cada escala social, enfatizando o papel efetivo

de alguns fenômenos psicopatológicos no processo da ponerogênese. Isso facilitará a

transição da linguagem natural para a linguagem objetiva necessária das ciências naturais, da

psicologia e da estatística, no nível requerido e suficiente. Espero que a discussão destes

temas em termos clínicos não seja entediante ao leitor.

Na opinião do autor, a Ponerologia revela-se como um novo ramo da ciência, gerado a partir

de uma necessidade histórica e dos mais recentes estudos da medicina e da psicologia. À luz

da linguagem natural objetiva, a Ponerologia estuda os componentes causais e o processo da

gênese do mal, independentemente do seu âmbito social. Nós podemos tentar analisar estes

processos ponerogênicos que deram origem à injustiça humana, armados com o conhecimento

apropriado, particularmente na área da psicopatologia. Repetidamente, como o leitor irá

descobrir, num estudo como esse, nos encontramos com os efeitos dos fatores patológicos

cujos operadores são pessoas caracterizadas por serem portadoras, em algum grau, de

diversos desvios ou defeitos psicológicos.

O mal moral e o mal psicobiológico são, de fato, inter-relacionados por tantas relações

causais e influências mútuas que somente podem ser separados por meio de abstrações.

Contudo, a habilidade de diferenciá-los qualitativamente pode nos ajudar a evitar uma

interpretação moralizadora dos fatores patológicos, um erro ao qual todos nós estamos

sujeitos e que contamina a mente humana de uma forma insidiosa, sempre que temas sociais e

morais estão em discussão.

A ponerogênese do fenômeno macrossocial – o mal em larga escala – que constitui o objeto

mais importante deste livro, aparece sujeita às mesmas leis naturais que operam sobre as

questões humanas no nível individual ou em pequenos grupos. O papel das pessoas com vários

defeitos psicológicos e anomalias de um nível clinicamente baixo, parecem ser uma

característica constante de tal fenômeno. No fenômeno macrossocial, nós iremos chamar mais

tarde de “patocracia” uma certa anomalia hereditária isolada como “psicopatia essencial”,

que é essencial de forma catalítica e causal para a gênese e para a sobrevivência do mal

social em larga escala.

Nossa visão natural do mundo, na realidade, cria uma barreira para o nosso entendimento de

tais questões e, assim, é necessário estar familiarizado com os fenômenos psicopatológicos,

tais como aqueles encontrados neste campo de estudo, com o objetivo de romper essa

barreira. Os leitores talvez possam desculpar os ocasionais lapsos do autor, no decorrer deste

caminho inovador, e seguir sem medo sua orientação, familiarizando-se quase que

sistematicamente com os dados fornecidos como prova, nos primeiros capítulos. A partir de então nós deveremos estar aptos a aceitar a verdade a respeito da natureza do mal, sem

protestos automáticos provenientes do nosso egotismo natural.

Os especialistas que estão familiarizados com a psicopatologia encontrarão um caminho

menos romântico. Contudo, eles observarão algumas diferenças acerca da interpretação de

vários fenômenos bem conhecidos, resultantes, em parte, das situações anômalas sob as quais

a pesquisa foi feita, mas principalmente por causa da penetração mais intensiva necessária

para atingir a proposta principal. Esta é a razão pela qual este aspecto do nosso trabalho

contém certos valores teóricos úteis para a psicopatologia. A expectativa é que os não-

especialistas dependerão da longa experiência do autor para distinguir anomalias psicológicas

individuais encontradas entre as pessoas e identificadas no processo da gênese do mal.

É necessário salientar que consideráveis vantagens morais, intelectuais e concretas podem

ser obtidas a partir do entendimento do processo da ponerogênese, graças à objetividade

natural requerida. A herança das questões éticas de longo prazo não é, através disso,

destruída, muito pelo contrário, é reforçada, uma vez que os métodos científicos modernos

confirmam os valores básicos do ensino moral. Contudo, a ponerologia força algumas

correções a respeito de muitos detalhes.

Entender a natureza dos fenômenos patológicos macrossociais nos permite encontrar uma

perspectiva e uma atitude saudáveis em relação a estes fenômenos, auxiliando-nos a proteger

as nossas mentes dos venenos decorrentes deste conteúdo doentio e da influência de suas

propagandas. A contrapropaganda incessante à qual recorreram alguns países com uma

linguagem humana normal, poderia ser facilmente substituída por informações objetivas de

natureza científica sobre o assunto. O ponto principal é que nós só podemos vencer este

enorme câncer social contagioso se compreendermos suas causas essenciais e etiológicas.

Isso eliminaria o mistério deste fenômeno e sua principal vantagem competitiva. Ignoti nulla

est curatio morbi![ 9 ]

Tal entendimento da natureza dos fenômenos que este estudo traz, nos leva à conclusão

lógica de que as medidas para sanar e reordenar o mundo de hoje devem ser completamente

diferentes daquelas utilizadas até agora para resolver os conflitos internacionais. Soluções

para tais conflitos devem ser como antibióticos modernos ou, melhor ainda, como uma

psicoterapia aplicada de forma adequada, em vez da abordagem antiga baseada em armas, tais

como porretes, espadas, tanques ou mísseis nucleares. O objetivo deveria ser sanar problemas

sociais, não destruir a sociedade. Uma analogia pode ser feita entre o método arcaico da

sangria de um paciente, em oposição ao método moderno de fortalecimento e recuperação do

mesmo a fim de obter a cura.

Com referência aos fenômenos de natureza ponerogênica, o simples conhecimento somente

pode iniciar a cura de indivíduos e auxiliar suas mentes na recuperação da harmonia. No final

deste livro nós discutiremos como utilizar este conhecimento para chegar a decisões políticas

corretas e como aplicá-lo a uma terapia geral para o mundo.

 

Referência ao livro de James Fenimore Cooper publicado em 1826 e que popularizou-se pelas adaptações feitas para o cinema – NT.

Rudolf Hoess foi comandante do campo de concentração de Auschwitz e deixou uma autobiografia que foi publicada em 1958. Arthur Koestler é escritor e autor do romance “O Zero e o Infinito”, no original, Darkness at Noon, que conta a história de Rubashov, um personagem poderoso do regime que é preso e julgado por traição – NT. Szmaglewska Seweryna escritora, viveu como prisioneira em campos de concentração de 1942 a 1945. Escreveu Smoke over Birkenau (Fumaça sobre Birkenau). Foi testemunha no Julgamento de Nuremberg e escreveu vários romances, relacionados principalmente com a guerra e com a ocupação.

Gustav Herling-Grudzinski foi um jornalista e escritor polonês famoso por ter escrito suas memórias sobre o período em que passou em um Gulag soviético, no livro A World Apart (Um mundo à parte). Alexander Issaiévich Soljenítsin foi um romancista e historiador russo que revelou ao mundo, através de seus livros, os sistemas de campos de trabalhos forçados na antiga União Soviética. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1970 – NT. Ponerologia / Ponerogênese: o estudo da natureza do mal; do grego ‘poneros’ (mal) – NT. Egotismo é a atitude, subconscientemente condicionada como uma regra, pela qual atribuímos valor excessivo aos nossos reflexos instintivos, às nossas imaginações e hábitos adquiridos desde muito cedo, e à nossa visão de mundo individual – NT. Ignoti nulla est curatio morbi! – “não há tratamento para doença desconhecida” – Maximiano, Elegia 3 – NT.

CAPÍTULO II