Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 19 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

O Processo de Ponerização

A observação dos processos de ponerização de várias uniões humanas através da história

leva facilmente à conclusão de que o passo inicial é uma distorção moral do conteúdo de

idéias do grupo. Analisando a contaminação da ideologia de um grupo, nós notamos antes de

tudo uma infiltração de conteúdos externos, simplistas e doutrinários, privando-o com isso de

qualquer apoio saudável e da confiança na necessidade de entendimento da natureza humana.

Isso abre o caminho para a invasão por fatores patológicos e para o papel ponerogênico de

seus portadores.

O exemplo do sistema legal Romano face a face com o Cristianismo nascente mencionado

acima é um desses casos. A civilização imperial e legal romana foi excessivamente ligada à

matéria e à lei, e criou um sistema legal que era muito rígido para acomodar qualquer aspecto

real da vida psicológica e espiritual. Esse elemento “terreno” estranho infiltrou o Cristianismo

e resultou na adoção de estratégias imperiais, pela Igreja Católica, para forçar seu sistema

sobre os outros por meio da violência.

Esse fato poderia justificar a convicção dos moralistas de que manter a disciplina ética e a

pureza das idéias da união é uma proteção suficiente contra o descarrilamento ou o choque

com um mundo de erros insuficientemente compreendido. Tal convicção atinge um

ponerologista como uma simplificação unilateral de uma realidade eterna que é mais

complexa. Afinal de contas, o relaxamento dos controles éticos e intelectuais é, algumas

vezes, consequência de uma influência direta ou indireta dos fatores onipresentes decorrentes

da existência de pessoas desviadas em qualquer grupo social, juntamente com algumas outras

fraquezas humanas não patológicas.

Em algum momento, durante a vida, todo organismo humano passa por períodos durante os

quais a resistência psicológica e fisiológica decai, facilitando o desenvolvimento de infecções

bacteriológicas internas. Da mesma forma, uma associação humana ou um movimento social

passam por períodos de crise que enfraquecem sua coesão moral e ideativa. Isso pode ser

causado por pressão da parte de outros grupos, por uma crise espiritual geral no ambiente ou

pela intensificação de sua condição histérica. Assim como medidas sanitárias mais rigorosas

são uma indicação médica óbvia para um organismo debilitado, o desenvolvimento do

controle consciente sobre a atividade dos fatores patológicos é uma indicação ponerológica.

Esse é um fator crucial para a prevenção de tragédias durante os períodos de crise moral da

sociedade.

Por séculos, indivíduos exibindo várias anomalias psicológicas tiveram a tendência de

participar nas atividades das uniões humanas. Isso se tornou possível de um lado pelas

fraquezas de tais grupos, isto é, por falha no conhecimento psicológico adequado; de outro

porque as anomalias aprofundam as falhas morais e reprimem as possibilidades de utilizar um

senso comum saudável e entender objetivamente os assuntos. Apesar das tragédias e

infelicidades resultantes, a humanidade tem mostrado um certo progresso, especialmente na

área cognitiva. Todavia, um ponerologista deve ser cuidadosamente otimista. Afinal de contas,

ao detectar e descrever esses aspectos do processo de ponerização dos grupos humanos, que

não puderam ser entendidos até recentemente, nós devemos estar habilitados para neutralizar

tais processos mais cedo e de forma mais efetiva. Novamente, o conhecimento das variações psicológicas humanas em profundidade e amplitude é crucial.

Qualquer grupo humano afetado pelo processo descrito aqui é caracterizado pela regressão

crescente do senso comum natural e da habilidade de perceber a realidade psicológica.

Qualquer pessoa que pense nos termos das categorias tradicionais deve considerar isso um

exemplo de “transformação de meias-verdades” ou o desenvolvimento de deficiências

intelectuais e falhas morais. Uma análise ponerogênica desse processo, todavia, indica que há

uma pressão sendo aplicada sobre a parte mais normal da associação por fatores patológicos

presentes em certos indivíduos que foram autorizados a participar do grupo, porque a falta de

bom conhecimento psicológico não determinou a sua exclusão.

Então, sempre que observamos algum membro de um grupo sendo tratado sem

distanciamento crítico, embora ele demonstre uma das anomalias psicológicas familiares para

nós, e suas opiniões sendo tratadas no mínimo como iguais às das pessoas normais, embora

elas sejam baseadas em uma visão das questões humanas caracteristicamente diferente, nós

devemos concluir que esse grupo humano está afetado por um processo ponerogênico e, se

medidas não forem tomadas, o processo continuará até a sua conclusão lógica. Devemos tratá-

lo de acordo com o primeiro critério de ponerologia descrito anteriormente, que mantém sua

validade independentemente das características qualitativas e quantitativas de tal união: a

atrofia das faculdades críticas naturais com respeito a indivíduos patológicos se torna uma

abertura para as suas atividades e, ao mesmo tempo, um critério de reconhecimento da

associação em questão como ponerogênica.

Tal estado de coisas consiste simultaneamente em uma situação que está no limiar do

consciente, em que se torna ainda mais fácil o dano adicional ao senso comum saudável e às

faculdades morais críticas das pessoas. Uma vez que um grupo tenha inalado uma dose

suficiente de material patológico para dar origem à convicção de que essas pessoas não-tão-

normais são gênios inigualáveis, inicia-se a sujeição dos membros mais normais a uma

pressão caracterizada pelos elementos paramorais e paralógicos correspondentes.

Para muitas pessoas tal pressão da opinião coletiva impõe um atributo de critério moral;

para outros representa um tipo de terror psicológico muito mais difícil de suportar. O

fenômeno de contra-seleção ocorre assim nesta fase da ponerização: os indivíduos com um

senso de realidade psicológica mais normal saem, depois de entrarem em conflito com o

grupo recém modificado. Simultaneamente, os indivíduos com várias anomalias psicológicas

juntam-se ao grupo e encontram facilmente um meio de vida ali. Aqueles sentem-se

“empurrados para posições contrarrevolucionárias”, e estes podem então retirar suas

máscaras de sanidade, cada vez mais freqüentemente.

As pessoas que foram expulsas de uma associação ponerogênica por serem muito normais

sofrem amargamente; elas são incapazes de entender seu estado específico. Seu ideal, a razão

pela qual se juntaram ao grupo, que constituiu uma parte do sentido da vida para elas, foi

agora degradado, embora elas não possam encontrar uma base racional para esse fato. Elas se

sentem enganadas; elas “lutam contra demônios” que não estão em posição de identificar. O

fato é que suas personalidades já foram modificadas em uma certa extensão devido à

saturação por material psicológico anormal, especialmente material psicopático. Elas caem

facilmente no extremo oposto em tais casos, porque emoções não saudáveis dirigem suas decisões. O que elas precisam é de boa informação psicológica, a fim de encontrar o caminho

da razão e da medida. Baseada em um entendimento ponerológico de sua condição, a

psicoterapia pode fornecer resultados positivos rápidos. Contudo, se a união que elas

deixaram está sucumbindo por uma ponerização profunda, uma ameaça paira sobre elas: elas

podem se tornar objetos de vingança, já que “traíram” a ideologia magnificente.

Esse é o período tempestuoso da ponerização de um grupo, seguido por uma certa

estabilização em termos de conteúdo, estrutura e costumes. Medidas seletivas rigorosas, do

tipo claramente psicológico, são aplicadas sobre novos membros. Da mesma forma, para

excluir a possibilidade de ter as pessoas desviadas por seus desertores, os membros são

observados e testados, com o objetivo de eliminar aqueles caracterizados por uma

independência mental excessiva ou por uma normalidade psicológica. A nova função interna

criada é algo como um “psicólogo” e, sem dúvida nenhuma, obtém vantagens através do

conhecimento psicológico coletado por psicopatas, já descrito anteriormente.

Deve-se notar que algumas destas ações excludentes conduzidas por um grupo, em um

processo de ponerização, deveriam ter sido tomadas contra os anormais pelo grupo

ideológico em seu início. Medidas seletivas tão rigorosas, de tipo psicológico, tomadas por

um grupo não são necessariamente um indicador de que o grupo é ponerogênico. Antes, deve-

se examinar cuidadosamente no que a seleção psicológica está baseada. Se algum grupo busca

evitar a ponerização, ele desejará excluir indivíduos com qualquer dependência psicológica

em crenças subjetivas, ritos, rituais e drogas, e certamente aqueles indivíduos incapazes de

analisar objetivamente seu próprio conteúdo psicológico interior, ou que rejeitam o processo

de desintegração positiva.

Em um grupo que está no processo de ponerização, propagandistas tomam conta da “pureza

ideológica”. A posição do líder é relativamente segura. Indivíduos que manifestem dúvida ou

crítica são sujeitos à condenação paramoral. Mantendo um estilo e uma dignidades superiores,

o líder discute opiniões e intenções que são psicológica e moralmente patológicas. São

eliminadas quaisquer conexões intelectuais que possam revelá-los tais como eles são, graças à

substituição das premissas que operam no próprio processo subconsciente, na base de reflexos

condicionados anteriores. Um observador objetivo pode comparar esse estado a um outro em

que os internos de um manicômio assumem a operação da instituição. A associação entra em

um estado no qual todos vestiram a máscara da normalidade ostensiva. No próximo capítulo,

nós chamaremos esse estado de “fase dissimulativa”, em relação aos fenômenos

ponerogênicos macrossociais.

Observar o estado apropriado correspondente ao primeiro critério ponerogênico – a atrofia

das faculdades críticas naturais com respeito a indivíduos patológicos – requer habilidade

psicológica e conhecimento factual específico. O segundo, uma fase mais estável, pode ser

percebido tanto por uma pessoa de raciocínio mediano, como pela opinião pública, em muitas

sociedades. A interpretação imposta, contudo, é unilateralmente moralista ou sociológica, ao

mesmo tempo que passa um sentimento característico de deficiência em relação à

possibilidade de ambos entenderem o fenômeno e neutralizarem a disseminação desse mal.

Contudo, nessa fase, uma minoria dos grupos sociais tende a considerar tal associação

ponerogênica compreensível dentro das categorias da sua própria visão de mundo, e a camada externa de difusão da ideologia como uma doutrina aceitável para eles. Quanto mais primitiva

for a sociedade em questão, e quanto mais distante for o contato direto com a união afetada

por esse estado patológico, mais numerosas serão essas minorias. Esse mesmo período,

durante o qual os costumes da união se tornam um pouco mais amenos, representa

simultaneamente o período de atividade expansionista mais intensiva.

Esse período pode durar bastante, mas não para sempre. Internamente, o grupo vai se

tornando progressivamente mais patológico, mostrando finalmente suas verdadeiras bandeiras

qualitativas, já que suas atividades se tornam ainda mais grosseiras. Nesse ponto, uma

sociedade de pessoas normais pode facilmente ameaçar as associações ponerológicas, mesmo

no nível macrossocial.