Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 20 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Os fenômenos macrossociais

Quando um processo ponerogênico circunda a classe dominante inteira de uma sociedade, ou

de uma nação, ou quando a oposição das pessoas normais é reprimida – como resultado de

uma característica massiva do fenômeno ou pelo uso de meios de propaganda e coação física,

incluindo a censura – nós estamos lidando com um fenômeno ponerológico macrossocial. Em

tal caso, no entanto, uma tragédia da sociedade, muitas vezes associada com a do próprio

sofrimento do pesquisador, abre-se diante dele um volume inteiro de conhecimento

ponerológico, onde tudo sobre as leis que regem tal processo pode ser encontrado, desde que

ele seja simplesmente capaz de se familiarizar em tempo com sua linguagem natural e sua

gramática diferente.

Os estudos da gênese do mal que estão baseados na observação de pequenos grupos de

pessoas podem indicar os detalhes dessas leis para nós. Contudo, deve-se levar em conta que

eles apresentam uma imagem distorcida, dependente de várias condições ambientais, que por

sua vez são dependentes do período histórico em questão. Esse é o pano de fundo dos

fenômenos observados. Apesar disso, tais observações podem nos capacitar a arriscar uma

hipótese no sentido de que as leis gerais da ponerogênese podem ser no mínimo análogas,

independentemente da quantidade e da abrangência do fenômeno no tempo e no espaço. Elas

não permitem, no entanto, a verificação de tal hipótese.

Ao estudar um fenômeno macrossocial, podemos obter tanto dados quantitativos como

qualitativos, índices de correlação estatística e outras observações com tanta precisão quanto

seja permitido pelo estado da arte na ciência, pelas metodologias de pesquisa e pela situação

obviamente muito difícil do observador. Nós podemos, então, utilizar o método clássico,

arriscar uma hipótese e procurar ativamente por fatos que possam falseá-la. A regularidade

causal generalizada dos processos ponerogênicos seria então confirmada dentro dos limites

das possibilidades acima mencionadas. Isto é, de fato, o que o autor e seus colegas resolveram

fazer. É impressionante como, de uma forma ordenada, a regularidade causal dos processos

ponerogênicos observada em pequenos grupos governa esse fenômeno macrossocial. A

compreensão do fenômeno assim adquirida pode servir como base para predizer seu

desenvolvimento futuro, a ser verificado com o tempo. É pela observação de perto e de forma

cuidadosa, e só depois de algum tempo, que nos tornamos cientes de que o Colosso tem,

afinal, um calcanhar de Aquiles.

O estudo dos fenômenos ponerogênicos macrossociais encontra problemas óbvios: seu

período de gênese, duração e decaimento é várias vezes maior do que o tempo de atividade

científica do pesquisador. Simultaneamente, existem outras transformações na história, nos

costumes, na economia e na tecnologia. Contudo, as dificuldades enfrentadas na abstração dos

sintomas apropriados não precisa ser insuperável, uma vez que os nossos critérios são

baseados em fenômenos eternos sujeitos a transformações relativamente limitadas no tempo.

A interpretação tradicional dessas grandes doenças históricas já ensinou aos historiadores a

distinguir duas fases. A primeira é representada por um período de crise espiritual na

sociedade,[ 65 ] que a historiografia associa ao esgotamento dos valores morais, religiosos e

ideativos, que até então alimentavam a sociedade em questão. O egoísmo aumenta entre os

indivíduos e os grupos sociais, e as ligações entre a obrigação moral e as conexões sociais parecem se afrouxar. Assuntos sem importância, em seguida, dominam as mentes humanas em

tal extensão que não há espaço sobrando para pensar sobre assuntos públicos ou para um

sentimento de comprometimento com o futuro. Uma atrofia da hierarquia de valores no

pensamento dos indivíduos e das sociedades é também uma indicação disso; algo que tem sido

descrito tanto em monografias historiográficas como em artigos de psiquiatria. O governo do

país é finalmente paralisado, impotente frente aos problemas que poderiam ser resolvidos sem

grande dificuldade sob outras circunstâncias. Vamos associar tais períodos de crise com a

fase familiar da histerização social.

A próxima fase é marcada por tragédias sangrentas, revoluções, guerras e quedas de

impérios. As deliberações dos historiadores ou dos moralistas sobre essas ocorrências

sempre deixam atrás de si um certo sentimento de deficiência em relação à possibilidade de

perceber certos fatores psicológicos discerníveis dentro da natureza dos fenômenos; a

essência desses fatores permanece fora do escopo de suas experiências científicas.

Um historiador que observe essas grandes doenças históricas é impressionado, antes de

tudo, pelas suas similaridades, esquecendo-se facilmente de que todas as doenças têm muitos

sintomas em comum, porque elas são estados de ausência de saúde. Um ponerologista que

pense em termos naturalistas tende a duvidar que estejamos lidando com um tipo somente de

doença social, levando, através disso, a certas diferenciações nas formas relacionadas às

condições etnológicas e históricas. Diferenciar a essência de tais estados é mais apropriado

aos modelos racionais das ciências naturais, com os quais estamos familiarizados. As

condições complexas da vida social, contudo, impossibilitam o uso do método de distinção,

que é similar ao critério etiológico na medicina: qualitativamente falando, os fenômenos se

tornam sobrepostos no tempo, condicionando um ao outro e se transformando constantemente.

Nós devemos, então, dar preferência ao uso de certos modelos abstratos, parecidos com

aqueles utilizados para analisar os estados neuróticos dos seres humanos.

Governados por esse tipo de raciocínio, vamos tentar diferenciar dois estados patológicos

das sociedades: suas essências e conteúdos parecem suficientemente diferentes, mas eles

podem operar em sequência, de tal modo que o primeiro abre a porta para o segundo. O

primeiro estado já foi resumido no capítulo do ciclo de histeria. Nós devemos provar um certo

número de outros detalhes psicológicos aqui. O próximo capítulo será dedicado ao segundo

estado patológico, para o qual eu adotei a denominação de “patocracia”.