Ponerologia: Psicopatas no Poder
Os fenômenos macrossociais
Quando um processo ponerogênico circunda a classe dominante inteira de uma sociedade, ou
de uma nação, ou quando a oposição das pessoas normais é reprimida – como resultado de
uma característica massiva do fenômeno ou pelo uso de meios de propaganda e coação física,
incluindo a censura – nós estamos lidando com um fenômeno ponerológico macrossocial. Em
tal caso, no entanto, uma tragédia da sociedade, muitas vezes associada com a do próprio
sofrimento do pesquisador, abre-se diante dele um volume inteiro de conhecimento
ponerológico, onde tudo sobre as leis que regem tal processo pode ser encontrado, desde que
ele seja simplesmente capaz de se familiarizar em tempo com sua linguagem natural e sua
gramática diferente.
Os estudos da gênese do mal que estão baseados na observação de pequenos grupos de
pessoas podem indicar os detalhes dessas leis para nós. Contudo, deve-se levar em conta que
eles apresentam uma imagem distorcida, dependente de várias condições ambientais, que por
sua vez são dependentes do período histórico em questão. Esse é o pano de fundo dos
fenômenos observados. Apesar disso, tais observações podem nos capacitar a arriscar uma
hipótese no sentido de que as leis gerais da ponerogênese podem ser no mínimo análogas,
independentemente da quantidade e da abrangência do fenômeno no tempo e no espaço. Elas
não permitem, no entanto, a verificação de tal hipótese.
Ao estudar um fenômeno macrossocial, podemos obter tanto dados quantitativos como
qualitativos, índices de correlação estatística e outras observações com tanta precisão quanto
seja permitido pelo estado da arte na ciência, pelas metodologias de pesquisa e pela situação
obviamente muito difícil do observador. Nós podemos, então, utilizar o método clássico,
arriscar uma hipótese e procurar ativamente por fatos que possam falseá-la. A regularidade
causal generalizada dos processos ponerogênicos seria então confirmada dentro dos limites
das possibilidades acima mencionadas. Isto é, de fato, o que o autor e seus colegas resolveram
fazer. É impressionante como, de uma forma ordenada, a regularidade causal dos processos
ponerogênicos observada em pequenos grupos governa esse fenômeno macrossocial. A
compreensão do fenômeno assim adquirida pode servir como base para predizer seu
desenvolvimento futuro, a ser verificado com o tempo. É pela observação de perto e de forma
cuidadosa, e só depois de algum tempo, que nos tornamos cientes de que o Colosso tem,
afinal, um calcanhar de Aquiles.
O estudo dos fenômenos ponerogênicos macrossociais encontra problemas óbvios: seu
período de gênese, duração e decaimento é várias vezes maior do que o tempo de atividade
científica do pesquisador. Simultaneamente, existem outras transformações na história, nos
costumes, na economia e na tecnologia. Contudo, as dificuldades enfrentadas na abstração dos
sintomas apropriados não precisa ser insuperável, uma vez que os nossos critérios são
baseados em fenômenos eternos sujeitos a transformações relativamente limitadas no tempo.
A interpretação tradicional dessas grandes doenças históricas já ensinou aos historiadores a
distinguir duas fases. A primeira é representada por um período de crise espiritual na
sociedade,[ 65 ] que a historiografia associa ao esgotamento dos valores morais, religiosos e
ideativos, que até então alimentavam a sociedade em questão. O egoísmo aumenta entre os
indivíduos e os grupos sociais, e as ligações entre a obrigação moral e as conexões sociais parecem se afrouxar. Assuntos sem importância, em seguida, dominam as mentes humanas em
tal extensão que não há espaço sobrando para pensar sobre assuntos públicos ou para um
sentimento de comprometimento com o futuro. Uma atrofia da hierarquia de valores no
pensamento dos indivíduos e das sociedades é também uma indicação disso; algo que tem sido
descrito tanto em monografias historiográficas como em artigos de psiquiatria. O governo do
país é finalmente paralisado, impotente frente aos problemas que poderiam ser resolvidos sem
grande dificuldade sob outras circunstâncias. Vamos associar tais períodos de crise com a
fase familiar da histerização social.
A próxima fase é marcada por tragédias sangrentas, revoluções, guerras e quedas de
impérios. As deliberações dos historiadores ou dos moralistas sobre essas ocorrências
sempre deixam atrás de si um certo sentimento de deficiência em relação à possibilidade de
perceber certos fatores psicológicos discerníveis dentro da natureza dos fenômenos; a
essência desses fatores permanece fora do escopo de suas experiências científicas.
Um historiador que observe essas grandes doenças históricas é impressionado, antes de
tudo, pelas suas similaridades, esquecendo-se facilmente de que todas as doenças têm muitos
sintomas em comum, porque elas são estados de ausência de saúde. Um ponerologista que
pense em termos naturalistas tende a duvidar que estejamos lidando com um tipo somente de
doença social, levando, através disso, a certas diferenciações nas formas relacionadas às
condições etnológicas e históricas. Diferenciar a essência de tais estados é mais apropriado
aos modelos racionais das ciências naturais, com os quais estamos familiarizados. As
condições complexas da vida social, contudo, impossibilitam o uso do método de distinção,
que é similar ao critério etiológico na medicina: qualitativamente falando, os fenômenos se
tornam sobrepostos no tempo, condicionando um ao outro e se transformando constantemente.
Nós devemos, então, dar preferência ao uso de certos modelos abstratos, parecidos com
aqueles utilizados para analisar os estados neuróticos dos seres humanos.
Governados por esse tipo de raciocínio, vamos tentar diferenciar dois estados patológicos
das sociedades: suas essências e conteúdos parecem suficientemente diferentes, mas eles
podem operar em sequência, de tal modo que o primeiro abre a porta para o segundo. O
primeiro estado já foi resumido no capítulo do ciclo de histeria. Nós devemos provar um certo
número de outros detalhes psicológicos aqui. O próximo capítulo será dedicado ao segundo
estado patológico, para o qual eu adotei a denominação de “patocracia”.