Ponerologia: Psicopatas no Poder
Imunização
Muitas doenças infecciosas dão ao organismo uma imunidade natural por um período entre
alguns poucos e muitos anos. A medicina imita esse mecanismo biológico, introduzindo
vacinas que capacitam o organismo a se tornar imune se passar pela doença. Mais e mais
freqüentemente a psicoterapia tenta imunizar a psique de um paciente para vários fatores
traumáticos que são muito difíceis de eliminar de sua vida. Na prática, nós utilizamos isso
com mais frequência em pessoas sujeitas à influência destrutiva de indivíduos caracteropatas.
Imunizar alguém contra a influência destrutiva das personalidades psicopáticas é algo mais
difícil. Contudo, isso representa uma analogia próxima à tarefa que deve ser executada em
relação às nações que sucumbiram à influência do diversionismo psicológico patocrático.
As sociedades governadas por muitos anos por um sistema patocrático desenvolvem uma
imunização natural como descrito, junto com a indiferença característica do fenômeno e o
humor cínico. Em combinação com o crescimento do conhecimento prático, esse estado deve
ser levado em consideração toda vez que desejamos avaliar a situação política de um
determinado país. Nós devemos também destacar que essa imunidade se refere ao fenômeno
patológico por si mesmo, não sua ideologia, o que explica porque ela é efetiva contra
qualquer outra patocracia, não importando a máscara ideológica. A experiência psicológica
ganha permite que o mesmo fenômeno seja reconhecido de acordo com suas propriedades
reais. A ideologia é tratada de acordo com seu papel verdadeiro.
A psicoterapia aplicada apropriadamente sobre um indivíduo que sucumbiu à influência
destrutiva das condições de vida sob o domínio patocrático sempre produz uma melhora
significativa na imunização psicológica. Ao tornar um paciente consciente das qualidades
patológicas de tais influências, nós facilitamos o desenvolvimento dessa indiferença crítica e
da serenidade espiritual que a imunização natural não poderia ter produzido. Assim, nós não
imitamos simplesmente a natureza, mas realmente alcançamos uma qualidade melhor que a
natural na imunidade, que é muito mais efetiva na proteção do paciente das tensões neuróticas
e no reforço de sua desenvoltura prática do dia-a-dia. A consciência da essência biológica do
fenômeno proporciona uma preponderância tanto sobre o fenômeno como sobre as pessoas
que não possuem tal consciência.
Esse tipo de imunidade psicológica também se mostra mais permanente. Se a imunidade
natural dura a vida da geração na qual ela foi produzida, a imunidade com base científica pode
ser transmitida posteriormente. Da mesma forma, a imunidade natural, juntamente com o
conhecimento prático sobre o qual ela está baseada, pode ser muito difícil de ser transmitida a
nações que não tiveram essa experiência imediata, mas o conhecimento que está baseado em
dados científicos geralmente acessíveis pode ser transmitido a outras nações sem esforços
super-humanos.
Nós estamos diante de dois objetivos relacionados. Em países afetados pelo fenômeno
acima discutido nós devemos tentar transformar a imunidade natural existente naquela
imunidade de melhor qualidade, tornando assim possível aumentar a facilidade de operação,
ao mesmo tempo em que se diminuem as tensões psicológicas. Em relação àqueles indivíduos
e sociedades que indicam uma imunodeficiência óbvia e estão ameaçados pela expansão
patocrática, nós devemos facilitar o desenvolvimento da imunidade artificial.
Essa imunidade é gerada principalmente como um resultado natural da compreensão dos
conteúdos reais do fenômeno macrossocial.
Essa consciência causa um período de experiência tempestuoso, não destituído de protestos,
mas esse processo de substituição da doença é de curta duração. Desnudar a realidade
naturalista até agora protegida por uma máscara ideológica é uma assistência efetiva e
necessária para indivíduos e sociedades. Dentro de um curto período de tempo, isso começa a
protegê-los das atividades ponerogênicas dos fatores patológicos mobilizados no interior da
frente monolítica da patocracia. As indicações adequadas dos meios práticos para proteção da
própria higiene mental facilitarão e acelerarão a criação dessa imunidade psicológica valiosa,
de forma similar aos resultados da atividade de uma vacina.
Essa imunidade psicológica individual e coletiva, baseada no entendimento
naturalisticamente objetivado dessa outra realidade, é colorida com um sentimento de
conhecimento próprio que cria assim uma nova rede humana. Alcançar essa imunidade parece
uma precondição necessária para o sucesso em relação a quaisquer esforços e ações de
natureza política que auxiliariam a tomada de governos pela sociedade das pessoas normais.
Sem tal consciência e imunização será sempre difícil conseguir a cooperação entre os países
livres e as nações que sofrem sob um governo patocrático. Nenhuma linguagem comum de
comunicação pode ser garantida por quaisquer doutrinas políticas baseadas na imaginação
natural das pessoas que não possuem nem a experiência prática, nem o entendimento
naturalista do fenômeno.
***
As armas mais modernas e caras que atualmente ameaçam a humanidade com catástrofes
globais se tornam obsoletas no mesmo dia em que elas são produzidas.
Por quê?
Elas são armas de uma guerra que pode nunca acontecer, e as nações do mundo rezam para
que isso nunca aconteça.
A história da humanidade tem sido a história das guerras, o que faz com que ela perca o
sentido eterno aos nossos olhos. Uma nova grande guerra representaria o triunfo da loucura
sobre o desejo de viver das nações.
Portanto, a razão internacional deve prevalecer, reforçada pelos valores morais e pela
ciência naturalista recentemente descobertos, no que diz respeito às causas e à gênese do mal.
A “nova arma” sugerida aqui não mata ninguém. Todavia ela é capaz de reprimir o processo
de gênese do mal dentro de uma pessoa e de ativar os seus próprios poderes curativos. Se as
sociedades forem supridas com uma compreensão da natureza patológica do mal, elas estarão
habilitadas para executar uma ação acertada baseada em critérios morais e naturalistas.
Esse novo método de solucionar os problemas eternos será a arma mais humanitária já usada
na história humana, assim como a única que pode ser utilizada de forma segura e efetiva. Nós
podemos também esperar que o uso dessa arma ajudará a terminar séculos de guerra entre as
nações.
Thomas Stephen Szasz (1920-2012), psiquiatra húngaro ferrenho crítico dos métodos psiquiátricos tradicionais. Propunha um método alternativo onde o paciente decidia, junto com o seu médico, o tratamento que iria seguir. Chegou a afirmar – e defender em seus livros – que a doença mental é um mito – NT.
CAPÍTULO X