Ponerologia: Psicopatas no Poder
A Patocracia e sua ideologia
Deve-se notar que uma grande ideologia, com valores impressionantes, também pode
facilmente privar uma pessoa da capacidade de autocontrole crítico sobre seu comportamento.
Os adeptos de tais idéias tendem a perder de vista o fato de que os meios utilizados, e não
somente os fins, serão decisivos para o resultado de suas atividades. Sempre que buscam por
métodos de ação excessivamente radicais, ainda convencidos de que estão servindo à sua
idéia, eles não percebem que seu objetivo já foi alterado. O princípio “os fins justificam os
meios” abre a porta para um tipo de pessoa diferente, para a qual a grande idéia é útil para o
propósito de libertá-la da pressão desconfortável proveniente dos costumes do homem
normal. Toda grande ideologia, assim, é um perigo, principalmente para mentes pequenas.
Contudo, todo grande movimento social, e sua respectiva ideologia, pode se tornar um
hospedeiro sobre o qual alguma patocracia inicia sua vida parasitária.
A ideologia em questão pode ter sido marcada por falta de verdade e deficiência nos
critérios morais desde o início, ou pelo efeito de atividades de fatores patológicos. A
ideologia original, de idéias elevadas, pode também ter sucumbido por uma contaminação
precoce característica de uma época e de circunstâncias sociais particulares. Se tal ideologia
é infiltrada de fora, o material cultural local, que é heterogêneo, destrói a estrutura coerente
original da idéia e o valor real pode se tornar tão enfraquecido que perde um pouco de sua
atratividade para as pessoas razoáveis. Uma vez enfraquecida, contudo, a estrutura
sociológica pode sucumbir para uma degeneração posterior, incluindo a ativação de fatores
patológicos, até que seja transformada em sua caricatura: o nome é o mesmo, mas os
conteúdos são diferentes.
Diferenciar a essência do fenômeno patológico do seu hospedeiro ideológico
contemporâneo é, então, uma tarefa básica e necessária, tanto para propósitos teórico-
científicos como para encontrar soluções práticas para os problemas derivados da existência
dos fenômenos macrossociais mencionados acima.
Se, para designar um fenômeno patológico, nós aceitamos o nome fornecido pela ideologia
do movimento social que sucumbiu aos processos degenerativos, nós perdemos qualquer
habilidade de entender ou avaliar essa ideologia e o seu conteúdo original ou de efetivar a
classificação apropriada do fenômeno mesmo. Esse erro não é semântico; é a pedra
fundamental de todos os demais erros de compreensão em relação a tais fenômenos, tornando-
nos intelectualmente impotentes e privando-nos da capacidade de ação prática intencional.
Esse erro é baseado em elementos compatíveis de propaganda de sistemas sociais
incompatíveis. Isso tem, infelizmente, se tornado muito comum, e é reminiscente das primeiras
tentativas desajeitadas de classificação das doenças mentais, de acordo com os sistemas
ilusórios manifestados pelos pacientes. Mesmo hoje, as pessoas que não receberam
treinamento nesse campo considerarão uma pessoa doente, que manifesta delírios sexuais,
como louco nessa área, ou alguém com delírios religiosos como um “maníaco religioso”. O
autor até encontrou um paciente que insistia ter se tornado objeto de raios frios e quentes
(parestesia) com base em um acordo especial fechado entre os EUA e a USSR.
Por volta do final do século dezenove, pioneiros famosos da psiquiatria contemporânea
distinguiram corretamente entre a doença e o sistema de delírios do paciente. Uma doença tem suas próprias causas etiológicas, sejam elas determinadas ou não, além de patodinâmica e
sintomática próprias que distinguem sua natureza. Vários sistemas delirantes podem se
manifestar dentro da mesma doença, e sistemas similares podem aparecer em várias doenças.
Os delírios, que algumas vezes tornam-se tão sistêmicos a ponto de dar a impressão de uma
história real, originam-se na natureza e na inteligência do paciente, especialmente nas
imaginações dos ambientes dentro dos quais ele cresceu. Esses delírios podem ser um
processo caricato de suas antigas convicções políticas e sociais, induzido pela doença. Afinal
de contas, toda doença mental tem seu estilo particular de deformação da mente humana,
produzindo diferenças leves porém características, conhecidas há algum tempo pelos
psiquiatras, e que podem ajudar a apresentar um diagnóstico.
Assim deformado, o mundo de fantasias antigas é colocado para trabalhar para uma proposta
diferente: esconder o estado dramático da doença da própria consciência do indivíduo e da
opinião pública, pelo máximo tempo possível. Um psiquiatra experiente não tenta eliminar
essa ilusão de forma prematura para tal sistema delirante, pois isso poderia provocar
tendências suicidas no paciente. O principal objeto de interesse para o médico permanece
sendo a doença que ele está tentando curar. Geralmente, não há muito tempo para discutir os
delírios do paciente com ele, exceto quando isso se torna necessário por razões de segurança
do referido paciente ou de outras pessoas. Uma vez que a doença foi curada, contudo, a
assistência do psicoterapeuta para reintegrar o paciente ao mundo do pensamento normal é
definitivamente indicada.
Se efetuarmos uma análise suficientemente profunda do fenômeno da patocracia e da relação
com sua ideologia, nós encontraremos uma analogia clara com a relação descrita acima, hoje
familiar para todos os psiquiatras. Algumas diferenças aparecerão mais tarde, na forma de
detalhes e dados estatísticos, que podem ser interpretados tanto como uma função do estilo
característico, já mencionado, de “caricaturização” de uma ideologia – os efeitos da
patocracia – como um resultado do caráter macrossocial do fenômeno.
Sendo uma contrapartida da doença, a patocracia tem seus fatores etiológicos próprios, que
a torna potencialmente presente em quaisquer sociedades, não importando quão saudáveis
sejam. Ela também tem seus próprios processos patodinâmicos que são diferenciados em
função de alguns fatos: se a patocracia em questão nasceu naquele país em particular
(patocracia primária), se foi artificialmente inoculada no país por algum outro sistema do tipo,
ou se foi imposta pela força.
Nós já esquematizamos acima a ponerogênese e o curso de tais fenômenos macrossociais da
sua forma primária, refreando intencionalmente qualquer menção de uma ideologia em
particular. Em breve, nós iremos falar dos dois outros cursos mencionados aqui.
A ideologia da patocracia é criada pela “caricaturização” da ideologia original presente em
um movimento social, de uma maneira característica daquele fenômeno patológico particular.
Os estados histéricos das sociedades, já mencionados, também deformam as ideologias
contemporâneas das épocas em questão, utilizando um estilo característico para elas. Assim
como os médicos estão interessados na doença, o autor se tornou principalmente interessado
no fenômeno patocrático e em sua análise. De forma parecida, a primeira preocupação das
pessoas que assumem a responsabilidade pelo destino das nações deveria ser a de curar o mundo dessa doença misteriosa até o momento. Haverá um tempo apropriado para as atitudes
de crítica e de análise em relação às ideologias que se tornaram os “sistemas ilusórios” de
tais fenômenos, durante os tempos históricos. Nosso foco, no presente momento, é na essência
mesma dos fenômenos patológicos macrossociais.
Entender a natureza da doença é algo básico para qualquer busca de métodos apropriados de
tratamento. O mesmo se aplica, por analogia, em relação aos fenômenos patológicos
macrossociais, especialmente se, nesse caso, o mero entendimento da natureza da doença dá
início à cura das mentes e almas humanas. Através de todo o processo, o raciocínio próximo
ao estilo de abordagem da medicina é o método apropriado que nos leva a desatar o nó górdio
contemporâneo.
A ideologia da patocracia muda de função, assim como ocorre com o sistema ilusório da
pessoa mentalmente doente. Ela deixa de ser uma convicção humana que delineia os métodos
de ação e assume outras obrigações que não estão abertamente definidas. Ela se torna uma
história fantasiosa que esconde a nova realidade da consciência crítica das pessoas de dentro
da nação, como também das pessoas de fora. A primeira função – uma convicção que delineia
os métodos de ação – logo se torna ineficaz por duas razões: de um lado, a realidade expõe os
métodos de ação como não factíveis; por outro lado, a massa das pessoas comuns nota a
atitude desdenhosa em relação à ideologia representada pelos próprios patocratas. Por essa
razão, o principal palco de operação para as ideologias consiste nas nações que permanecem
de fora do âmbito imediato da patocracia, uma vez que o mundo tende a continuar acreditando
nas ideologias. A ideologia se torna assim um instrumento de ação externa em um grau cada
vez maior que a simples relação entre a doença e seu sistema ilusório.
Os psicopatas são conscientes de serem diferentes das pessoas normais. É por isso que o
“sistema político” inspirado por sua natureza é capaz de esconder sua noção de ser diferente.
Eles utilizam uma máscara pessoal de sanidade e sabem como criar uma máscara
macrossocial da mesma natureza dissimuladora. Quando observamos o papel da ideologia
nesse fenômeno macrossocial, estando conscientes da existência dessa noção específica do
psicopata, nós podemos então entender porque a ideologia é colocada como uma ferramenta:
algo útil para lidar com aquelas outras pessoas e nações ingênuas. Os patocratas devem, por
outro lado, apreciar a função da ideologia como sendo algo essencial no grupo ponerogênico,
especialmente no fenômeno macrossocial que é sua “pátria”. Esse fator de ciência,
simultaneamente, constitui uma certa diferença qualitativa entre as duas relações mencionadas.
Os patocratas sabem que sua verdadeira ideologia é derivada de suas naturezas anômalas e
tratam os “outros” – a ideologia mascarada – com um desprezo mal disfarçado. E as pessoas
comuns começam eventualmente a perceber isso, conforme já dissemos.
Assim, um sistema patocrático bem desenvolvido não tem uma relação direta e clara com
sua ideologia original por muito tempo, mantendo-a somente como sua ferramenta tradicional,
principal, para ação e mascaramento. Para objetivos práticos de expansão da patocracia,
outras ideologias podem ser úteis, até mesmo se elas contradizem a principal e acumulam
denúncias morais sobre ela. Contudo, essas outras ideologias devem ser utilizadas com
cuidado, evitando o reconhecimento oficial nos ambientes em que isso possa fazer com que a
ideologia original pareça muito estranha, desacreditada e inútil.
A ideologia principal sucumbe à deformação sintomática, em sintonia com o estilo
característico dessa doença e com o que já foi estabelecido sobre o assunto. Os nomes e
conteúdos oficiais são mantidos, mas outro conteúdo, completamente diferente, é inoculado
por debaixo, dando origem ao fenômeno bem conhecido da linguagem dupla, dentro do qual os
mesmo nomes possuem dois significados: um para os iniciados e outro para o resto das
pessoas. Esse último significado é derivado da ideologia original. O primeiro tem um
significado especificamente patocrático, algo que é conhecido não somente pelos patocratas
mesmos, mas também aprendido por todas aquelas pessoas que viveram por muito tempo
sujeitas ao seu governo.
A língua dupla é somente um dos muitos sintomas. Outro sintoma é a facilidade específica
para produzir novos nomes que tenham efeitos sugestivos e sejam aceitos praticamente sem
críticas, particularmente fora da abrangência imediata de tal sistema de governo. Nós devemos
ressaltar que o caráter paramoralista e as qualidades paranóicas estão freqüentemente
contidos nesses nomes. A ação de paralogismos e paramoralismos na ideologia deformada se
torna compreensível para nós, baseada na informação apresentada no Capítulo IV. Qualquer
coisa que ameace o governo patocrático se torna profundamente imoral. Isso também se
aplica ao conceito de perdão aos próprios patocratas: é extremamente perigoso e portanto
“imoral”.
Nós, assim, temos o direito de inventar nomes apropriados que indiquem a natureza dos
fenômenos tão precisamente quanto possível, de acordo com o nosso reconhecimento e
respeito às leis da metodologia científica e da semântica. Tal precisão nos termos também
servirá para proteger nossas mentes dos efeitos sugestivos daqueles outros nomes e dos
paralogismos, inclusive do material patológico que esses últimos contêm.