Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 24 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

A Patocracia e sua ideologia

Deve-se notar que uma grande ideologia, com valores impressionantes, também pode

facilmente privar uma pessoa da capacidade de autocontrole crítico sobre seu comportamento.

Os adeptos de tais idéias tendem a perder de vista o fato de que os meios utilizados, e não

somente os fins, serão decisivos para o resultado de suas atividades. Sempre que buscam por

métodos de ação excessivamente radicais, ainda convencidos de que estão servindo à sua

idéia, eles não percebem que seu objetivo já foi alterado. O princípio “os fins justificam os

meios” abre a porta para um tipo de pessoa diferente, para a qual a grande idéia é útil para o

propósito de libertá-la da pressão desconfortável proveniente dos costumes do homem

normal. Toda grande ideologia, assim, é um perigo, principalmente para mentes pequenas.

Contudo, todo grande movimento social, e sua respectiva ideologia, pode se tornar um

hospedeiro sobre o qual alguma patocracia inicia sua vida parasitária.

A ideologia em questão pode ter sido marcada por falta de verdade e deficiência nos

critérios morais desde o início, ou pelo efeito de atividades de fatores patológicos. A

ideologia original, de idéias elevadas, pode também ter sucumbido por uma contaminação

precoce característica de uma época e de circunstâncias sociais particulares. Se tal ideologia

é infiltrada de fora, o material cultural local, que é heterogêneo, destrói a estrutura coerente

original da idéia e o valor real pode se tornar tão enfraquecido que perde um pouco de sua

atratividade para as pessoas razoáveis. Uma vez enfraquecida, contudo, a estrutura

sociológica pode sucumbir para uma degeneração posterior, incluindo a ativação de fatores

patológicos, até que seja transformada em sua caricatura: o nome é o mesmo, mas os

conteúdos são diferentes.

Diferenciar a essência do fenômeno patológico do seu hospedeiro ideológico

contemporâneo é, então, uma tarefa básica e necessária, tanto para propósitos teórico-

científicos como para encontrar soluções práticas para os problemas derivados da existência

dos fenômenos macrossociais mencionados acima.

Se, para designar um fenômeno patológico, nós aceitamos o nome fornecido pela ideologia

do movimento social que sucumbiu aos processos degenerativos, nós perdemos qualquer

habilidade de entender ou avaliar essa ideologia e o seu conteúdo original ou de efetivar a

classificação apropriada do fenômeno mesmo. Esse erro não é semântico; é a pedra

fundamental de todos os demais erros de compreensão em relação a tais fenômenos, tornando-

nos intelectualmente impotentes e privando-nos da capacidade de ação prática intencional.

Esse erro é baseado em elementos compatíveis de propaganda de sistemas sociais

incompatíveis. Isso tem, infelizmente, se tornado muito comum, e é reminiscente das primeiras

tentativas desajeitadas de classificação das doenças mentais, de acordo com os sistemas

ilusórios manifestados pelos pacientes. Mesmo hoje, as pessoas que não receberam

treinamento nesse campo considerarão uma pessoa doente, que manifesta delírios sexuais,

como louco nessa área, ou alguém com delírios religiosos como um “maníaco religioso”. O

autor até encontrou um paciente que insistia ter se tornado objeto de raios frios e quentes

(parestesia) com base em um acordo especial fechado entre os EUA e a USSR.

Por volta do final do século dezenove, pioneiros famosos da psiquiatria contemporânea

distinguiram corretamente entre a doença e o sistema de delírios do paciente. Uma doença tem suas próprias causas etiológicas, sejam elas determinadas ou não, além de patodinâmica e

sintomática próprias que distinguem sua natureza. Vários sistemas delirantes podem se

manifestar dentro da mesma doença, e sistemas similares podem aparecer em várias doenças.

Os delírios, que algumas vezes tornam-se tão sistêmicos a ponto de dar a impressão de uma

história real, originam-se na natureza e na inteligência do paciente, especialmente nas

imaginações dos ambientes dentro dos quais ele cresceu. Esses delírios podem ser um

processo caricato de suas antigas convicções políticas e sociais, induzido pela doença. Afinal

de contas, toda doença mental tem seu estilo particular de deformação da mente humana,

produzindo diferenças leves porém características, conhecidas há algum tempo pelos

psiquiatras, e que podem ajudar a apresentar um diagnóstico.

Assim deformado, o mundo de fantasias antigas é colocado para trabalhar para uma proposta

diferente: esconder o estado dramático da doença da própria consciência do indivíduo e da

opinião pública, pelo máximo tempo possível. Um psiquiatra experiente não tenta eliminar

essa ilusão de forma prematura para tal sistema delirante, pois isso poderia provocar

tendências suicidas no paciente. O principal objeto de interesse para o médico permanece

sendo a doença que ele está tentando curar. Geralmente, não há muito tempo para discutir os

delírios do paciente com ele, exceto quando isso se torna necessário por razões de segurança

do referido paciente ou de outras pessoas. Uma vez que a doença foi curada, contudo, a

assistência do psicoterapeuta para reintegrar o paciente ao mundo do pensamento normal é

definitivamente indicada.

Se efetuarmos uma análise suficientemente profunda do fenômeno da patocracia e da relação

com sua ideologia, nós encontraremos uma analogia clara com a relação descrita acima, hoje

familiar para todos os psiquiatras. Algumas diferenças aparecerão mais tarde, na forma de

detalhes e dados estatísticos, que podem ser interpretados tanto como uma função do estilo

característico, já mencionado, de “caricaturização” de uma ideologia – os efeitos da

patocracia – como um resultado do caráter macrossocial do fenômeno.

Sendo uma contrapartida da doença, a patocracia tem seus fatores etiológicos próprios, que

a torna potencialmente presente em quaisquer sociedades, não importando quão saudáveis

sejam. Ela também tem seus próprios processos patodinâmicos que são diferenciados em

função de alguns fatos: se a patocracia em questão nasceu naquele país em particular

(patocracia primária), se foi artificialmente inoculada no país por algum outro sistema do tipo,

ou se foi imposta pela força.

Nós já esquematizamos acima a ponerogênese e o curso de tais fenômenos macrossociais da

sua forma primária, refreando intencionalmente qualquer menção de uma ideologia em

particular. Em breve, nós iremos falar dos dois outros cursos mencionados aqui.

A ideologia da patocracia é criada pela “caricaturização” da ideologia original presente em

um movimento social, de uma maneira característica daquele fenômeno patológico particular.

Os estados histéricos das sociedades, já mencionados, também deformam as ideologias

contemporâneas das épocas em questão, utilizando um estilo característico para elas. Assim

como os médicos estão interessados na doença, o autor se tornou principalmente interessado

no fenômeno patocrático e em sua análise. De forma parecida, a primeira preocupação das

pessoas que assumem a responsabilidade pelo destino das nações deveria ser a de curar o mundo dessa doença misteriosa até o momento. Haverá um tempo apropriado para as atitudes

de crítica e de análise em relação às ideologias que se tornaram os “sistemas ilusórios” de

tais fenômenos, durante os tempos históricos. Nosso foco, no presente momento, é na essência

mesma dos fenômenos patológicos macrossociais.

Entender a natureza da doença é algo básico para qualquer busca de métodos apropriados de

tratamento. O mesmo se aplica, por analogia, em relação aos fenômenos patológicos

macrossociais, especialmente se, nesse caso, o mero entendimento da natureza da doença dá

início à cura das mentes e almas humanas. Através de todo o processo, o raciocínio próximo

ao estilo de abordagem da medicina é o método apropriado que nos leva a desatar o nó górdio

contemporâneo.

A ideologia da patocracia muda de função, assim como ocorre com o sistema ilusório da

pessoa mentalmente doente. Ela deixa de ser uma convicção humana que delineia os métodos

de ação e assume outras obrigações que não estão abertamente definidas. Ela se torna uma

história fantasiosa que esconde a nova realidade da consciência crítica das pessoas de dentro

da nação, como também das pessoas de fora. A primeira função – uma convicção que delineia

os métodos de ação – logo se torna ineficaz por duas razões: de um lado, a realidade expõe os

métodos de ação como não factíveis; por outro lado, a massa das pessoas comuns nota a

atitude desdenhosa em relação à ideologia representada pelos próprios patocratas. Por essa

razão, o principal palco de operação para as ideologias consiste nas nações que permanecem

de fora do âmbito imediato da patocracia, uma vez que o mundo tende a continuar acreditando

nas ideologias. A ideologia se torna assim um instrumento de ação externa em um grau cada

vez maior que a simples relação entre a doença e seu sistema ilusório.

Os psicopatas são conscientes de serem diferentes das pessoas normais. É por isso que o

“sistema político” inspirado por sua natureza é capaz de esconder sua noção de ser diferente.

Eles utilizam uma máscara pessoal de sanidade e sabem como criar uma máscara

macrossocial da mesma natureza dissimuladora. Quando observamos o papel da ideologia

nesse fenômeno macrossocial, estando conscientes da existência dessa noção específica do

psicopata, nós podemos então entender porque a ideologia é colocada como uma ferramenta:

algo útil para lidar com aquelas outras pessoas e nações ingênuas. Os patocratas devem, por

outro lado, apreciar a função da ideologia como sendo algo essencial no grupo ponerogênico,

especialmente no fenômeno macrossocial que é sua “pátria”. Esse fator de ciência,

simultaneamente, constitui uma certa diferença qualitativa entre as duas relações mencionadas.

Os patocratas sabem que sua verdadeira ideologia é derivada de suas naturezas anômalas e

tratam os “outros” – a ideologia mascarada – com um desprezo mal disfarçado. E as pessoas

comuns começam eventualmente a perceber isso, conforme já dissemos.

Assim, um sistema patocrático bem desenvolvido não tem uma relação direta e clara com

sua ideologia original por muito tempo, mantendo-a somente como sua ferramenta tradicional,

principal, para ação e mascaramento. Para objetivos práticos de expansão da patocracia,

outras ideologias podem ser úteis, até mesmo se elas contradizem a principal e acumulam

denúncias morais sobre ela. Contudo, essas outras ideologias devem ser utilizadas com

cuidado, evitando o reconhecimento oficial nos ambientes em que isso possa fazer com que a

ideologia original pareça muito estranha, desacreditada e inútil.

A ideologia principal sucumbe à deformação sintomática, em sintonia com o estilo

característico dessa doença e com o que já foi estabelecido sobre o assunto. Os nomes e

conteúdos oficiais são mantidos, mas outro conteúdo, completamente diferente, é inoculado

por debaixo, dando origem ao fenômeno bem conhecido da linguagem dupla, dentro do qual os

mesmo nomes possuem dois significados: um para os iniciados e outro para o resto das

pessoas. Esse último significado é derivado da ideologia original. O primeiro tem um

significado especificamente patocrático, algo que é conhecido não somente pelos patocratas

mesmos, mas também aprendido por todas aquelas pessoas que viveram por muito tempo

sujeitas ao seu governo.

A língua dupla é somente um dos muitos sintomas. Outro sintoma é a facilidade específica

para produzir novos nomes que tenham efeitos sugestivos e sejam aceitos praticamente sem

críticas, particularmente fora da abrangência imediata de tal sistema de governo. Nós devemos

ressaltar que o caráter paramoralista e as qualidades paranóicas estão freqüentemente

contidos nesses nomes. A ação de paralogismos e paramoralismos na ideologia deformada se

torna compreensível para nós, baseada na informação apresentada no Capítulo IV. Qualquer

coisa que ameace o governo patocrático se torna profundamente imoral. Isso também se

aplica ao conceito de perdão aos próprios patocratas: é extremamente perigoso e portanto

“imoral”.

Nós, assim, temos o direito de inventar nomes apropriados que indiquem a natureza dos

fenômenos tão precisamente quanto possível, de acordo com o nosso reconhecimento e

respeito às leis da metodologia científica e da semântica. Tal precisão nos termos também

servirá para proteger nossas mentes dos efeitos sugestivos daqueles outros nomes e dos

paralogismos, inclusive do material patológico que esses últimos contêm.