Ponerologia: Psicopatas no Poder
Estados de Histerização Social
Quando lemos com atenção descrições científicas ou literárias dos fenômenos de histeria,
como aqueles ocorridos na Europa no último quarto de século que precedeu a Primeira Guerra
Mundial, uma pessoa não especialista pode ter a impressão que esse foi uma caso individual
ou endêmico, particularmente entre as mulheres. A natureza contagiosa dos estados de histeria,
contudo, já foi descoberta e descrita por Jean Martin Charcot.[ 66 ]
É praticamente impossível para a histeria se manifestar como um fenômeno individual, uma
vez que é contagiosa por meio de ressonância, identificação e imitação psicológicas. Cada ser
humano tem uma predisposição para essa malformação da personalidade, embora em graus
variados. Todavia, ela é normalmente superada pela educação e pela autoeducação, que são
responsáveis pelo pensamento correto e pela autodisciplina emocional.
Durante os “tempos felizes” de paz, dependendo das injustiças sociais, as crianças das
classes privilegiadas aprendem a reprimir do seu campo de consciência as idéias
desconfortáveis que sugerem que elas e seus pais estão se beneficiando da injustiça cometida
contra os outros. Tais pessoas jovens aprendem a desqualificar e menosprezar os valores
morais e mentais de qualquer pessoa cujo trabalho elas estejam usando para obter vantagens.
As mentes jovens, então, ingerem hábitos de seleção e substituição de informações no
subconsciente, que levam a uma economia histérico-conversiva de raciocínio. Eles crescem
para serem adultos um tanto quanto histéricos que, pelos meios descritos acima, transmitem
sua histeria para a próxima geração, que então desenvolve essas características em um grau
ainda maior. Os modelos histéricos por experiência e comportamento crescem e se espalham
para baixo a partir das classes privilegiadas, até cruzar as fronteiras do primeiro critério da
ponerologia: a atrofia das faculdades críticas naturais com respeito aos indivíduos
patológicos.
Quando os hábitos de seleção e substituição subconsciente de dados se espalham no nível
macrossocial, uma sociedade tende a desenvolver o desprezo pela crítica factual e a humilhar
qualquer um que soe o alarme. O desprezo também é mostrado por outras nações que têm
mantido modelos de pensamento normal e por suas opiniões. O pensamento egotista
amedrontador é consumado pela sociedade mesma e por seus processos de pensamento
conversivo. Isso torna óbvia a necessidade de censura da imprensa, teatro ou televisão, uma
vez que o censor patologicamente hipersensível vive dentro dos cidadãos mesmos.
Quando três “egos” governam – egoísmo, egotismo e egocentrismo – o sentimento de
conexão social e de responsabilidade em relação aos outros desaparece, e a sociedade em
questão divide-se em grupos ainda mais hostis uns aos outros. Quando o ambiente histérico
não consegue mais diferenciar as opiniões das pessoas limitadas - quase-não-normais - das
opiniões de pessoas normais, pessoas racionais, abre-se uma porta para que a ativação dos
fatores patológicos de várias naturezas entre em cena.
Os indivíduos que nós já encontramos, que são governados por uma visão patológica da
realidade e por objetivos anormais causados por sua natureza diferente, são capazes de
desenvolver suas atividades em tais condições. Se uma dada sociedade não consegue superar
o estado de histerização sob circunstâncias políticas e etnológicas, o resultado pode então ser
uma grande tragédia sangrenta.
Uma variação de tal tragédia pode ser a patocracia. Desta forma, contratempos menores em
termos de fracassos políticos ou derrotas militares podem ser um aviso da ocorrência de tal
situação, que pode se tornar uma benção disfarçada se apropriadamente compreendido, e se
for permitido que se torne um fator na regeneração dos costumes e das estruturas de
pensamento normais da sociedade. O conselho mais valioso que um ponerologista pode
oferecer sob tais circunstâncias é que a sociedade se aproveite da assistência da ciência
moderna, tirando vantagem particular dos dados obtidos do último grande aumento de histeria
na Europa.
Uma resistência maior à histerização caracteriza aqueles grupos sociais que ganham o pão
de cada dia pelo esforço diário, e nos quais os aspectos práticos da vida cotidiana forçam a
mente a pensar com bom senso e a refletir sobre generalidades. Por exemplo: os camponeses
continuam a ver os costumes histéricos das classes mais prósperas através da sua própria
percepção simples da realidade psicológica e do seu senso de humor. Costumes parecidos da
parte da burguesia predispõem os trabalhadores para a crítica amarga e para o ódio
revolucionário. Ancoradas em termos econômicos, ideológicos, ou políticos, a crítica e as
demandas desses grupos sociais sempre contêm um componente de motivação psicológica,
moral e anti-histérica. Por essa razão, é mais apropriado considerar essas demandas com
deliberação e levar em conta os sentimentos dessas classes. Por outro lado, resultados
trágicos podem derivar de uma ação impensada, que pavimenta o caminho para os
propagandistas se fazerem ouvidos.