Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo V - Patocracia
PATOCRACIA
A GÊNESE DO FENÔMENO
O CICLO DE TEMPO DELINEADO NO CAPÍTULO III foi designado como histérico porque a
intensificação ou diminuição de uma condição histérica da sociedade pode ser considerada
como sua medida principal. Ela não constitui, é lógico, a única qualidade sujeita à mudança
dentro do quadro de periodicidade determinada. O presente capítulo deve lidar com o
fenômeno que pode emergir da fase de intensificação máxima da histeria. Tal consequência
não parece resultar de quaisquer leis relativamente constantes da história; muito pelo
contrário, algumas circunstâncias e fatores adicionais devem participar em tal período de
crise espiritual generalizada da sociedade e fazer com que sua razão e sua estrutura social
degenerem de tal modo que acabem provocando a geração espontânea desta terrível doença da
sociedade. Vamos chamar o fenômeno dessa doença social de “patocracia”; essa não foi a
primeira vez que ela surgiu durante a história do nosso planeta.
Parece que este fenômeno, cujas causas também parecem estar potencialmente presentes em
todas as sociedades, tem o seu próprio processo de gênese característico, somente
parcialmente condicionado pela intensidade máxima de histeria no ciclo descrito acima, e
escondido dentro deste. Como resultado, tempos infelizes se tornam excepcionalmente cruéis e
duradouros, e suas causas se tornam impossíveis de se compreender dentro das categorias de
conceitos humanos naturais. Vamos, então, nos aproximar deste processo de origem da
patocracia, isolando-o metodologicamente dos outros fenômenos que podemos reconhecer
como condicionais ou mesmo anexos a ele.
Uma pessoa altamente inteligente, psicologicamente normal, cotada para altas funções,
normalmente experimenta dúvidas quanto a sua capacidade para atender às demandas que
esperam que ela atenda, e busca o auxílio de outras pessoas cujas opiniões ela valoriza. Ao
mesmo tempo, ela sente uma nostalgia por sua vida antiga, mais livre e menos onerosa, para a
qual gostaria de voltar depois de cumprir suas obrigações sociais.
Toda sociedade no mundo contém indivíduos cujos sonhos de poder surgem muito cedo,
conforme nós já discutimos. Eles são geralmente discriminados de alguma forma pela
sociedade, que usa a interpretação moralista em relação às suas insuficiências e dificuldades,
embora esse indivíduos sejam raramente culpados delas nos termos precisos da moralidade.
Eles gostariam de mudar esse mundo hostil, transformá-lo em uma outra coisa. Sonhos de
poder também representam uma compensação excessiva para o sentimento de humilhação, um
dos tipos de personalidade segundo Adler. [ 69 ] Uma parte significativa e ativa desse grupo é
composta por indivíduos com várias anomalias, que imaginam esse mundo melhor de um jeito
próprio, com o qual já somos familiares.
No capítulo anterior os leitores foram introduzidos a essas anomalias, com exemplos selecionados de forma a nos permitir apresentar agora a ponerogênese da patocracia e
introduzir os fatores essenciais desse fenômeno histórico, que é tão difícil de entender. O
fenômeno certamente apareceu em vários momentos na história, em vários países e em várias
escalas sociais. Contudo, ninguém jamais se pôs a identificá-lo objetivamente porque ele se
esconde em uma das ideologias características da cultura e era respectivas, desenvolvendo-
se no coração mesmo dos diferentes movimentos sociais. A identificação foi tão difícil porque
o conhecimento naturalista indispensável para a classificação adequada dos fenômenos nessa
área não se desenvolveram até os tempos contemporâneos. Assim, os historiadores e os
sociólogos discerniam várias similaridades, mas não possuíam os critérios de identificação,
porque estes pertencem a outra disciplina científica.
Quem representa o primeiro papel crucial nesse processo de origem da patocracia, os
esquizóides ou os caracteropatas? Parece que são os primeiros; por isso iremos descrever seu
papel em primeiro lugar.
Durante os tempos estáveis, que são ostensivamente felizes, embora dependentes da injustiça
para com outros indivíduos e nações, as pessoas doutrinárias acreditam ter encontrado uma
solução simples para consertar o mundo. Tal período histórico é sempre caracterizado por
uma visão de mundo psicologicamente empobrecida, de forma que a visão de mundo
psicológica esquizoidamente empobrecida não se sobressai como estranha, durante esses
tempos, sendo aceita como uma tendência legítima. Esses indivíduos doutrinários manifestam
caracteristicamente um certo desprezo em relação aos moralistas e, então, pregam a
necessidade de se redescobrir os valores humanos perdidos e de se desenvolver uma visão de
mundo psicologicamente mais adequada.
Os caráteres esquizóides ajudam a impor o seu próprio mundo conceitual sobre as outras
pessoas ou grupos sociais, usando um egotismo patológico relativamente controlado e uma
tenacidade excepcional, derivada de sua natureza persistente. Por isso, eventualmente, eles
são capazes de dominar a personalidade de outro indivíduo, o que faz com que o
comportamento dessa pessoa dominada se torne desesperadamente ilógico. Eles podem
também manifestar uma influência similar sobre um grupo de pessoas, ao qual se juntaram.
Eles são pessoas psicologicamente solitárias, que começam a se sentir melhor em alguma
organização humana, nas quais se tornam zelotes de alguma ideologia, religiosos intolerantes,
materialistas ou partidários de uma ideologia com características satânicas. Se suas atividades
consistem no contato direto em uma escala social pequena, seus conhecidos geralmente os
consideram como excêntricos, o que limita seus papéis ponerogênicos. Contudo, se eles
conseguem encobrir sua própria personalidade atrás da palavra escrita, sua influência pode
envenenar as mentes da sociedade em grande escala e por um longo período.
A convicção de que Karl Marx é o melhor exemplo disso é correta, já que ele foi a figura
conhecida que melhor se adapta a este tipo. Frostig,[ 70 ] um psiquiatra da velha escola,
incluiu Engels e outros em uma categoria que ele chamou de “fanáticos esquizoidais
barbudos”. Os escritos famosos da virada do século XIX, atribuídos aos “Sábios Sionistas”,[
71 ] iniciam-se com uma declaração tipicamente esquizoidal. O século XIX, especialmente a
sua segunda metade, parece ter sido um tempo de atividade excepcional por parte dos
indivíduos esquizóides, que com frequência, embora nem sempre, possuíam descendência judaica. Afinal, nós devemos nos lembrar que 97% de todos os judeus não manifestam essa
anomalia, e que ela também aparece entre todas as nações européias, embora em uma
extensão acentuadamente menor. Nossa herança desse período inclui imagens do mundo,
tradições científicas e conceitos legais temperados com os ingredientes adulterados pela
apreensão esquizoidal da realidade.
Os humanistas estão preparados para entender essa era e seu legado, dentro das categorias
caracterizadas pelas suas próprias tradições. Eles procuram por causas sociais, morais e
ideológicas para os fenômenos conhecidos. Contudo, essa explicação não pode constituir a
verdade toda, uma vez que ela ignora os fatores biológicos que participaram na gênese dos
fenômenos. A esquizoidia é o fator mais freqüente, embora não seja o único.
Apesar do fato de que os escritos de autores esquizóides contêm as deficiências descritas
acima, ou sempre uma declaração esquizoidal abertamente formulada, o que constitui
advertência suficiente para os especialistas, o leitor mediano as aceita, não como uma visão
da realidade embrulhada por essa anomalia mas, ao contrário, como uma idéia que ele deveria
considerar seriamente, baseado nas suas convicções e na sua razão. Esse é o primeiro erro.
O padrão simplificado de idéias, desprovido de tom psicológico e baseado em dados que
podem ser encontrados facilmente, tende a exercer uma influência atrativa intensa nos
indivíduos que não são suficientemente críticos, freqüentemente frustrados por causa de seus
ajustamentos sociais decrescidos, culturalmente negligenciados, ou caracterizados por
algumas deficiências psicológicas próprias de si mesmos. Tais escritos são particularmente
atrativos para uma sociedade histerizada. Outras pessoas que lêem os mesmos escritos serão
imediatamente incitadas à crítica, baseadas em seu senso comum saudável, embora elas
também não consigam captar a causa essencial do erro: que ele emerge a partir de uma mente
biologicamente anômala.
A interpretação social de tais escritos e declarações doutrinárias se divide em três vertentes
principais, gerando divisão e conflito. A primeira vertente é o caminho da aversão, baseado
na rejeição dos conteúdos do trabalho por motivações pessoais, convicções diferentes, ou
repulsa moral. Essas reações contêm o componente de uma interpretação moralista dos
fenômenos patológicos.
A segunda e a terceira vertentes estão relacionadas a dois tipos de percepção
distintivamente diferentes, por parte daquelas pessoas que aceitam os conteúdos de tais
trabalhos: a correção crítica e a aceitação patológica.
A abordagem da correção critica é utilizada por pessoas cujo sentido para a realidade
psicológica é normal, as quais tendem a incorporar os elementos mais valiosos do trabalho.
Elas banalizam assim os erros óbvios e tendem a preencher, por meio de sua própria visão
mais rica de mundo, os elementos faltantes decorrentes das deficiências esquizoidais. Isso dá
origem a uma interpretação mais sensível, calculada e criativa, mas que não pode ser
completamente livre da influência do erro freqüentemente citado acima.
A aceitação patológica é manifestada por indivíduos com deficiências patológicas
próprias: deficiências diversiformes, sejam elas herdadas ou adquiridas; bem como por
muitas pessoas que sofrem de deformações de personalidade ou que têm sido prejudicadas por
injustiças sociais. Isso explica porque este escopo é mais amplo do que o círculo formado pela ação direta dos fatores patológicos. A aceitação patológica de escritos ou de declarações
esquizoidais por outras pessoas com desvios sempre brutaliza os conceitos do autor e
promove idéias de força e de pretensões revolucionárias.
O passar do tempo e a experiência amarga não impediram, infelizmente, que essa
característica equivocada nascida da criatividade esquizóide do século XIX, com os trabalhos
de Marx na linha de frente, afetasse as pessoas e as privasse do senso comum.
Ainda que fosse apenas com o propósito do experimento psicológico que já mencionamos
anteriormente, seria uma boa prática desenvolver uma consciência sobre este fator patológico
através de buscas, nos trabalhos de Karl Marx, por várias declarações com essas anomalias
características. Quando tal estudo for conduzido por diversas pessoas com visões de mundo
variadas, o experimento mostrará como um quadro claro da realidade pode ser restaurado, e
tornará mais fácil encontrar uma linguagem comum.
A esquizoidia tem, assim, um papel essencial como um dos fatores de gênese do mal que
ameaça o nosso mundo contemporâneo. Praticar a psicoterapia sobre o mundo, portanto, exige
que os resultados de tal mal sejam eliminados tão habilmente quanto for possível.
Os primeiros pesquisadores – o autor e seus colegas – atraídos pela idéia de entender o
fenômeno objetivamente, não foram inicialmente bem sucedidos em perceber o papel das
personalidades caracteropatas na gênese da patocracia. Contudo, quando tentamos
reconstruir a fase inicial da tal gênese, tivemos de reconhecer que os caracteropatas tiveram
um papel significativo no processo.
Nós já sabemos, do capítulo anterior, como a sua experiência e os seus padrões de
pensamento tomam posse das mentes humanas, destruindo insidiosamente seu modo de
raciocinar e sua habilidade para utilizar o senso comum saudável. Esse papel também tem se
comprovado como essencial em virtude de suas atividades como líderes fanáticos ou
propagandistas, em várias ideologias, abrirem as portas para os indivíduos psicopatas e para
a visão de mundo própria que eles querem impor.
No processo ponerogênico do fenômeno da patocracia, os indivíduos caracteropatas adotam
ideologias criadas por pessoas doutrinárias e freqüentemente esquizóides, remodelam estas
ideologias na forma de propaganda ativa e as disseminam com seus egotismos patológicos
característicos e sua intolerância paranóica por qualquer filosofia que seja diferente da sua
própria. Eles também inspiram a transformação posterior dessa ideologia em seu equivalente
patológico. Algo que tinha um caráter doutrinário e que circulava em grupos numericamente
limitados é, agora, ativado no nível da sociedade, graças às suas habilidades propagandistas.
Parece também que esse processo tende a se intensificar com o tempo. As atividades iniciais
são tomadas por pessoas com características caracteropáticas mais leves, que possuem
facilidade para esconder suas aberrações das demais pessoas. Os indivíduos paranóicos,
então, se tornam principalmente ativos. Ao final do processo, um indivíduo portador de
caracteropatia frontal e do mais alto grau de egotismo patológico pode facilmente tomar a
liderança.
Enquanto os indivíduos caracteropatas possuírem um papel dominante dentro do movimento
social afetado pelo processo ponerogênico, a ideologia, seja ela a doutrinária proveniente de
fora ou a que foi vulgarizada e posteriormente pervertida por esses mesmo indivíduos, continua a manter e a conservar seu conteúdo conectado com o protótipo original. A ideologia
afeta continuamente as atividades do movimento e permanece como uma motivação
justificadora essencial para muitos. Nessa fase, por conseguinte, tal união não se move em
direção a atos criminosos em grande escala. Em uma certa extensão, nesse estágio, uma pessoa
poderia ainda definir este movimento ou união pelo nome de sua ideologia original.
Enquanto isso, contudo, os portadores de outros fatores patológicos (principalmente
hereditários) tornam-se engajados nesse movimento social já doente e continuam com o
trabalho de transformação final dos conteúdos – ambos, ideológico e humano – da união em
questão, de modo tal que se ela acaba se tornando uma caricatura patológica de sua ideologia
original. Isso acontece sob a influência sempre crescente das personalidades psicopáticas de
vários tipos, com ênfase particular no papel inspirador da psicopatia essencial.
Eventualmente, essa situação gera um confronto generalizado: os adeptos da ideologia
original são colocados de lado ou eliminados (esse grupo inclui muitos caracteropatas,
especialmente das variedades mais brandas ou paranóicas). As motivações ideológicas e a
linguagem dupla que eles criaram são utilizadas para esconder os novos conteúdos reais do
fenômeno. A partir desse momento, o uso do nome ideológico do movimento para entender sua
essência se torna uma pedra fundamental de erros.
Os indivíduos psicopatas geralmente ficam longe das organizações sociais caracterizadas
pela razão e pela disciplina ética. Afinal, estas organizações são criadas por aquele outro
mundo de pessoas normais tão estranhas a eles. Eles sentem desprezo por várias ideologias
sociais, enquanto, ao mesmo tempo, discernem facilmente seus defeitos reais. Contudo, uma
vez que o processo de transformação ponérica de uma união humana para uma caricatura
equivalente ainda não definida se inicia e avança o suficiente, eles percebem esse fato com
sensibilidade praticamente infalível: um círculo foi criado, no qual eles podem esconder suas
falhas e suas desigualdades psicológicas, encontrar seus próprios modus vivendi, e talvez até
realizar seu sonho utópico de juventude, de um mundo onde eles estão no poder e todas
aquelas outras “pessoas normais” são forçadas à servidão. Eles começam então a se infiltrar
nos postos e fileiras de tal movimento. Fingir serem adeptos sinceros não é uma dificuldade
para os psicopatas, uma vez que representar um papel e se esconder atrás de uma máscara de
pessoas normais é uma segunda natureza para eles.
O interesse dos psicopatas em tais movimentos não é um resultado exclusivo de seu
egotismo e sua perda de escrúpulos morais. Essas pessoas foram, de fato, feridas pela
natureza e pela sociedade. Uma ideologia que libera uma classe social ou uma nação da
injustiça pode, assim, parecer amigável para eles. Infelizmente, ela também dá origem a
esperanças irreais de que eles também serão libertados. As motivações patológicas que
aparecem em uma união, no momento em que ela começa a ser afetada pelo processo
ponerogênico, os atingem como familiares e inspiradoras de esperança. Eles,
consequentemente, se inserem dentro de tais movimentos, pregando a revolução e a guerra
contra aquele mundo injusto tão estranho para eles.
Inicialmente, eles executam funções subordinadas no tal movimento e executam as ordens
dos líderes, sempre que alguma coisa necessita ser feita, o que inspira a repulsa nos demais.
Seus fanatismos e cinismos evidentes dão origem a críticas da parte dos membros mais razoáveis da união, mas eles também ganham o respeito de alguns de seus revolucionários
mais extremistas. Assim encontram a proteção entre aquelas pessoas que anteriormente
representavam um papel na ponerização do movimento e retribuem o favor com cumprimentos
ou tornando as coisas mais fáceis para estas. Deste modo, eles vão subindo na escada
organizacional, ganham influência e quase que involuntariamente direcionam os conteúdos de
todo o grupo para o seu próprio modo de experimentar a realidade e para os objetivos
derivados da sua natureza anômala. Uma doença misteriosa já se encontra furiosa dentro da
união. Os adeptos da ideologia original sentem-se sempre mais constrangidos pelos poderes
que eles não entendem. Eles começam a lutar contra demônios e a cometer erros.
Se tal movimento triunfa pelos meios revolucionários e em nome da liberdade, o bem do
povo e a justiça social, isso só traz nova transformação de um sistema governamental, então
criado dentro de um fenômeno macrossocial patológico. Dentro desse sistema, o homem
comum é culpado por não ter nascido um psicopata e não é considerado bom para nada,
exceto para o trabalho pesado, para a luta e para morrer protegendo um sistema de governo
que ele nem compreende suficientemente, e nem sempre considera como sendo dele.
Uma rede cada vez mais forte, formada por psicopatas e indivíduos relacionados, começa
gradualmente a ter domínio, ofuscando os demais. Os indivíduos caracteropatas que
representavam um papel essencial na ponerização do movimento e na preparação para a
revolução, também são eliminados. Adeptos da ideologia revolucionária são
inescrupulosamente “empurrados para uma posição contrarrevolucionária”. Eles são agora
condenados por razões “morais”, em nome dos novos critérios cuja essência paramoralística
não estão em posição de compreender. Uma seleção negativa violenta do grupo original então
se sucede. O papel inspirador da psicopatia essencial é agora também consolidado. Ele
permanece característico por todo o futuro desse fenômeno macrossocial patológico.
Apesar dessas transformações, o bloco patológico do movimento revolucionário continua
sendo uma minoria, um fato que não pode ser mudado por pronunciamentos propagandísticos
sobre a adesão da maioria moral à nova versão, mais gloriosa, da ideologia. A maioria
rejeitada, e as mesmas forças que criaram ingenuamente o poder para iniciar o processo,
começa a se mobilizar contra o bloco de psicopatas que tomaram o poder. A confrontação
brutal com essas forças é vista pelo bloco psicopata como o único jeito de proteger a
sobrevivência a longo prazo da autoridade patológica. Nós devemos então considerar o
triunfo sangrento de uma minoria patológica sobre a maioria do movimento como uma fase de
transição, durante a qual os novos conteúdos do fenômeno são coagulados.
A vida inteira de uma sociedade que foi afetada torna-se assim subordinada a critérios de
pensamento anômalos e permeados por seus modos de experiência específicos, principalmente
o que foi descrito na seção sobre psicopatia essencial. Nesse ponto, usar o nome da ideologia
original para designar esse fenômeno é algo sem sentido e torna-se um erro, tornando sua
compreensão mais difícil.
Eu devo concordar com a denominação de patocracia para o sistema de governo assim
criado, onde uma minoria patológica assume o controle sobre uma sociedade de pessoas
normais. O nome selecionado, acima de tudo, enfatiza a qualidade básica do fenômeno
psicopatológico macrossocial, e o diferencia dos muitos sistemas sociais possíveis dominados pelas estruturas, leis e costumes das pessoas normais.
Eu tentei encontrar um nome que designasse mais claramente a qualidade psicopatológica,
ou até mesmo psicopática, de tal governo, mas desisti por causa de certos fenômenos
percebidos (que serão referenciados abaixo) e por considerações práticas (para evitar uma
denominação prolongada). Tal nome indica suficientemente a qualidade básica do fenômeno e
também enfatiza que a capa ideológica (ou alguma outra ideologia que cobriu fenômenos
similares no passado) não constitui sua essência. Quando eu ouvi que um cientista Húngaro
desconhecido para mim já havia utilizado esse termo, minha decisão foi tomada. Eu penso que
esse nome é consistente com as demandas semânticas, uma vez que nenhum termo conciso
pode caracterizar adequadamente um fenômeno tão complexo. Eu também devo, de agora em
diante, designar os sistemas sociais em que as redes de pessoas normais são dominantes de
qualquer modo como “os sistemas do homem normal”.
O feito de dominação absoluta do governo de um país pelos patocratas não pode ser
permanente, já que grandes setores da sociedade se tornam insatisfeitos por tal governo e
eventualmente encontram algum meio de fazê-lo ruir. Isso faz parte do ciclo histórico,
facilmente discernido, quando a história é lida do ponto de vista ponerológico. A patocracia
no pico da organização governamental não constitui também o quadro inteiro do “fenômeno
maduro”. Tal sistema de governo não tem para onde ir senão para baixo.
Em uma patocracia, todas as posições de liderança (desde o líder de bairro e os gerentes de
comunidades cooperativas, sem mencionar os diretores das unidades de polícia, os serviços
especiais de pessoal da polícia e os ativistas do partido patocrático) devem ser preenchidas
por indivíduos com anomalias psicológicas correspondentes, que são herdadas, como regra.
Contudo, tais pessoas constituem uma pequena porcentagem da população, o que faz com que
elas sejam mais valiosas para os patocratas. Seu nível intelectual ou habilidades profissionais
não podem ser levadas em consideração, uma vez que as pessoas que representam as
habilidades superiores são ainda mais difíceis de serem encontradas. Depois que um sistema
como esse tenha permanecido por vários anos, cem por cento de todos os casos de psicopatia
essencial estarão envolvidos em uma atividade patocrática. Eles são considerados os mais
leais, mesmo que alguns deles tenham estado anteriormente envolvidos com o outro lado, de
alguma forma.
Sob tais condições, nenhuma área da vida social pode se desenvolver normalmente, seja na
economia, cultura, ciência, tecnologia, ou administração. A patocracia progressivamente
paralisa tudo. As pessoas normais tendem a desenvolver um nível de paciência além do
alcance de qualquer pessoa que vive em um sistema do homem normal, somente a fim de
explicar o que fazer e como fazer para alguma mediocridade obtusa de um deficiente
psicológico, que foi colocado em uma posição como responsável por algum projeto que ele
não pode nem entender, muito menos gerenciar. Esse tipo especial de pedagogia – instruir
pessoas com deficiências enquanto se evita sua ira – requer uma grande quantidade de tempo e
esforço, mas de outra forma não seria possível manter condições de vida toleráveis e
realizações necessárias na área econômica e na vida intelectual de uma sociedade. Mesmo
com tais esforços, a patocracia progressivamente penetra em todo lugar e embota tudo.
Essas pessoas, que inicialmente acharam a ideologia original atrativa, eventualmente chegam à conclusão de que estão lidando, de fato, com alguma coisa a mais que tomou seu lugar sob o
velho nome. A desilusão experimentada por tais ex-membros ideológicos é extremamente
amarga. Desta forma, as tentativas da minoria patológica de reter o poder serão ameaçadas
pela sociedade das pessoas normais, cujo criticismo continua crescendo.
Portanto, para reduzir a ameaça ao seu poder, os patocratas devem empregar todos e
quaisquer métodos de terror e políticas exterminatórias contra os indivíduos conhecidos por
seus sentimentos patrióticos e por seu treinamento militar. Outras atividades especificas de
doutrinação, tais como aquelas que nós presenciamos, também são utilizadas. Indivíduos que
não possuem um sentimento natural de conexão à sociedade normal tornam-se insubstituíveis
em cada uma dessas atividades. Novamente, o primeiro plano desse tipo de atividade é
ocupado por casos de psicopatia essencial, seguido por aqueles com anomalias similares e
finalmente pelas pessoas alienadas da sociedade em questão, por problemas de raça ou de
diferenças nacionais.
O fenômeno da patocracia amadurece durante esse período: um sistema de doutrinação
extensiva e ativa é construído, com uma ideologia remodelada adequadamente que constitui o
veículo para o cavalo de Tróia, com o objetivo de patologizar os processos de pensamento
dos indivíduos e da sociedade. O objetivo – forçar as mentes humanas a incorporar os
métodos experimentais patológicos e os padrões de pensamento, e aceitar tal papel – nunca é
admitido abertamente. Esse objetivo é condicionado pelo egotismo patológico, e a
possibilidade de obtê-lo é vista pelos patocratas não somente como indispensável, mas como
factível. Milhares de ativistas devem, a seguir, participar desse trabalho. Contudo, o tempo e a
experiência confirmam o que um psicólogo poderia ter visto logo: o esforço todo produz
resultados tão limitados, que é o reminiscente dos trabalhos de Sísifo. Ele resulta somente na
produção de uma opressão generalizada do desenvolvimento intelectual e de protestos bem
arraigados contra a “hipocrisia” instigadora de afrontas. Os autores e executores desses
programas são incapazes de entender que o fator decisivo para tornar o seu trabalho difícil
é a natureza fundamental dos seres humanos normais – a maioria.
O sistema inteiro de força, terror e doutrinação forçada, ou melhor, de patologização, se
revela assim inviável, o que faz com que os patocratas não tenham nenhum sinal de surpresa.
A realidade coloca um ponto de interrogação na convicção que eles têm de que tais métodos
podem mudar as pessoas de maneiras tão fundamentais a ponto de que elas possam
eventualmente reconhecer esse tipo de governo patocrático como um “estado normal”.
Durante o choque inicial, o sentimento de ligação social entre as pessoas normais
desvanece. Depois de sobreviver a isso, contudo, a impressionante maioria das pessoas
começa a manifestar seu próprio fenômeno de imunização psicológica. A sociedade começa
simultaneamente a coletar conhecimento prático sobre o assunto dessa nova realidade e suas
propriedades psicológicas.
As pessoas normais lentamente aprendem a perceber os pontos fracos de tal sistema e a
utilizar as possibilidades de um arranjo mais conveniente para suas vidas. Elas começam a
dar conselhos, umas às outras, em relação a esse assunto, e assim regeneram lentamente os
sentimentos de ligação social e de confiança recíproca. Um novo fenômeno ocorre: a
separação entre os patocratas e a sociedade das pessoas normais. Essas últimas têm uma vantagem em relação ao talento, às habilidades profissionais e ao senso comum saudável.
Elas, consequentemente, possuem certas cartas muito vantajosas. A patocracia finalmente
percebe que precisa encontrar algum modus vivendi ou relações com a maioria da sociedade:
“Afinal de contas, alguém tem que fazer o trabalho para nós”.
Existem outras necessidades e pressões sentidas pelos patocratas, especialmente vindas de
fora. A face patológica deve ser escondida do mundo de alguma forma, uma vez que o
reconhecimento do governo anômalo pela opinião mundial seria uma catástrofe. A propaganda
ideológica, por si só, seria um disfarce inadequado. Antes de mais nada, no interesse da nova
elite e de seus planos expansionistas, um estado patocrático precisa manter as relações
comerciais com os países dos homens normais. O estado patocrático busca atingir o
reconhecimento internacional como um certo tipo de estrutura política e teme o
reconhecimento nos termos de um diagnóstico clínico verdadeiro.
Isso tudo faz com que os patocratas tendam a limitar as medidas de terror, sujeitando seus
métodos de propaganda e doutrinação a uma certa cosmetologia, consentindo à sociedade
alguma margem de controle sobre atividades autônomas, especialmente em relação à vida
cultural. Os patocratas mais liberais não possuem aversão a conceder à sociedade uma certa
prosperidade econômica mínima, de forma a reduzir o nível de irritação, mas sua própria
corrupção e incapacidade de administrar a economia os impede de fazer isso.
E então, com as considerações acima sendo trazidas para a linha de frente da atenção
patocrática, essa grande doença social continua a seguir o seu curso através de uma nova fase:
os métodos de atividade se tornam moderados e coexistem com os países cuja estrutura é a de
homens normais.
Qualquer psicopatologista estudando esse fenômeno se lembrará do estado ou fase
dissimulativa de um paciente tentando representar o papel de uma pessoa normal, escondendo
sua realidade patológica, embora continue doente e anormal. Vamos, então, utilizar o termo
“fase dissimulativa da patocracia” para o estado de coisas onde o sistema patocrático
representa cada vez mais habilidosamente o papel de um sistema sociopolítico normal com
instituições doutrinárias “diferentes”.
Nessa fase, as pessoas normais, dentro do país dirigido pelos patocratas, tornam-se
resistentes e se adaptam à situação. Do outro lado, contudo, essa fase é marcada por uma
atividade ponerogênica marcante. O material patológico desse sistema pode se infiltrar de
forma muito fácil em outras sociedades, particularmente se elas forem mais primitivas, e todas
as alamedas da expansão patocrática são facilitadas pela diminuição da crítica do senso
comum da parte das nações que constituem o território do expansionismo.
Nesse ínterim, no país patocrático, a estrutura ativa de governo descansa nas mãos de
indivíduos psicopatas, e a psicopatia essencial possui um papel principal, especialmente
durante a fase dissimulativa. Contudo, os indivíduos com características patológicas óbvias
devem ser removidos de algumas áreas de atividade, a saber, postos políticos com exposição
internacional, onde tais personalidades podem denunciar os conteúdos patológicos do
fenômeno. Os indivíduos com características patológicas óbvias são também limitados na sua
habilidade de exercer funções diplomáticas ou de estarem totalmente cientes das situações
políticas dos países dos homens normais. Consequentemente, as pessoas selecionadas para tais posições são escolhidas por possuírem um processo de pensamento mais similar ao do
mundo das pessoas normais. Em geral, elas são suficientemente conectadas ao sistema
patológico a ponto de fornecer uma garantia de lealdade. Um especialista em várias anomalias
psicológicas, no entanto, pode discernir os desvios discretos sobre os quais tais ligações são
baseadas. Outro fator a ser notado são as grandes vantagens pessoais concedidas pela
patocracia a esses indivíduos seminormais. Não é de se admirar, então, que tal lealdade seja
algumas vezes enganosa. Isso se aplica, em particular, aos filhos de patocratas típicos, que
certamente desfrutam de confiança, porque foram educados para a lealdade desde a infância;
se por alguma coincidência genética feliz eles não possuírem as propriedades patológicas
herdadas, sua natureza terá precedência sobre sua criação.
Necessidades similares se aplicam a outras áreas também. O diretor da planta de uma nova
fábrica é sempre alguém muito pouco conectado com o sistema patocrático, mas cujas
habilidades são essenciais. Uma vez que a planta se torna operacional, a administração é
tomada pelos patocratas, que a levam freqüentemente para a ruína técnica e financeira.
O exército, da mesma forma, necessita de pessoas dotadas de perspicácia e de qualificações
essenciais, especialmente sobre armas e guerras modernas. Em momentos cruciais, o senso
comum saudável pode exceder os resultados da prática patocrática. Em tal estado de
preocupação, muitas pessoas são forçadas a se adaptar, aceitando o sistema de governo como
um “status quo”, mas também o criticando. Elas cumprem suas obrigações no meio de suas
dúvidas e conflitos de consciência, sempre buscando por uma saída mais sensível, que
discutem em círculos fechados confiáveis. Com efeito, elas estão sempre penduradas em um
limbo, entre a patocracia e o mundo das pessoas normais. As deficiências na fidelidade das
pessoas são um fator de fraqueza interna dos sistemas patocráticos.
As seguintes questões, então, aparecem por si mesmas: o que acontece se a rede de
entendimento entre os psicopatas atingir o poder nas posições de liderança, com exposição
internacional? Isso pode acontecer, especialmente durante as últimas fases do fenômeno.
Incitadas pelo seu caráter, tais pessoas com anomalias anseiam exatamente por isso, mesmo
que, por fim, entre em conflito com seu próprio interesse na vida; e então, eles são removidos
pela ala mais lógica e menos patológica do aparato governamental. Tais pessoas com
anomalias não entendem que, se fosse de outra forma, uma catástrofe sucederia. Os germes não
estão a par de que serão queimados vivos ou enterrados em solo profundo, junto com o corpo
humano cuja morte eles estão causando.
Se as posições mais gerenciais são assumidas por indivíduos privados de habilidades
suficientes para sentir e entender a maioria das outras pessoas, e que também exibem
deficiências de imaginação técnica e de habilidades práticas – faculdades indispensáveis para
governar a economia e os assuntos políticos – o resultado é uma crise excepcionalmente séria,
em todas as áreas, tanto dentro do país em questão como nas relações internacionais.
Internamente, a situação continua insuportável mesmo para aqueles cidadãos que são capazes
de fazer o seu ninho dentro de um modus vivendi relativamente confortável. Externamente,
outras sociedades começam a sentir a qualidade patológica do fenômeno de forma
perfeitamente nítida. Tal estado de coisas não pode permanecer por muito tempo. É preciso
estar preparado para mudanças cada vez mais rápidas e também para se comportar com grande cuidado.
A patocracia é a doença dos grandes movimentos sociais, seguidos por sociedades, nações e
impérios inteiros. No curso da história humana ela tem afetado os movimentos sociais,
políticos e religiosos, assim como suas ideologias anexas, características para uma
determinada condição temporal e etnológica, tornando-os caricaturas deles mesmos. Isso
ocorre como resultado das atividades de fatores etiológicos similares desse fenômeno, a
saber, a participação de agentes patológicos em um processo patodinamicamente similar. Isso
explica porque todas as patocracias do mundo são e têm sido tão parecidas em suas
propriedades essenciais. As contemporâneas encontram facilmente uma linguagem comum,
mesmo que as ideologias que as alimentam e que protegem seus conteúdos patológicos da
exposição pública sejam amplamente diferentes.
Identificar esses fenômenos através da história e qualificá-los apropriadamente de acordo
com sua verdadeira natureza e com seus conteúdos, e não de acordo com a ideologia em
questão, que sucumbiu ao processo característico de transformação caricatural, é um trabalho
para historiadores. Contudo, deve ser entendido que a ideologia principal foi, sem dúvida
alguma, socialmente dinâmica, e continha elementos criativos; caso contrário ela não teria
sido capaz de alimentar e proteger o fenômeno patocrático do reconhecimento e das críticas
por tanto tempo. Ela teria também sido incapaz de equipar a caricatura patológica com
ferramentas para implementar seus objetivos expansionistas externos.
Definir o momento em que um movimento se transformou em algo que podemos chamar de
patocracia, como resultado do processo ponerogênico, é uma questão de convenção. O
processo é temporalmente cumulativo e alcança o ponto sem volta em algum momento
particular. Eventualmente, contudo, a confrontação interna com os adeptos da ideologia
original ocorre, estampando finalmente o selo de caráter patocrático no fenômeno. O nazismo
certamente passou desse ponto sem volta, mas o confronto com os seguidores da ideologia
original foi impedido por conta da ação do exército Aliado, que quebrou todo o seu poderio
militar.