Ponerologia: Psicopatas no Poder
Ideologias
Assim como um psiquiatra está principalmente interessado na doença, prestando menor
atenção ao sistema ilusório do paciente, que deforma qualquer realidade individual que ele
tenha, o objeto da terapia global devem ser as doenças do mundo. Os sistemas ideológicos
deformados que crescem a partir das condições históricas e das fraquezas de uma dada
civilização devem ser entendidos na medida em que eles são o disfarce, o instrumento
operacional, ou o Cavalo de Tróia para a infecção patocrática.
A consciência social deve separar primeiro essas duas camadas heterogêneas do fenômeno
por meio da análise e da avaliação científica efetuada sobre elas. Essa compreensão correta e
seletiva deve se tornar parte integrante de todas as consciências nacionais de alguma forma
adequadamente acessível. Correspondentemente, isso reforçaria sua capacidade de se
orientação independente dentro da realidade complicada de hoje, através da distinção de tais
fenômenos de acordo com sua natureza. Isso produziria uma correção nas atitudes morais e nas
de visão de mundo. A concentração dos nossos esforços sobre o fenômeno patológico deve
assim produzir uma compreensão adequada e resultados suficientemente completos.
A ausência dessa distinção básica na operação política é um erro que leva à perda de
esforços. Nós podemos não concordar com as ideologias, uma vez que todas as ideologias
políticas do século XIX simplificaram excessivamente a realidade social, a ponto de debilitá-
la, mesmo na sua forma original, sem mencionar suas versões deformadas patologicamente. O
primeiro plano deve, portanto, ser ocupado pela identificação do seu papel dentro do
fenômeno macrossocial. A análise, a crítica e até mesmo, mais particularmente, o seu
combate, podem ser colocados em segundo plano. Quaisquer discussões em relação à direção
necessária para alterar as estruturas sociais podem ser contidas até que levem essa separação
básica do fenômeno em conta. Uma vez corrigida, a consciência social pode executar a
solução para esses problemas mais facilmente e os grupos sociais que são hoje intransigentes
serão mais dóceis em se comprometerem.
Uma vez que uma pessoa mentalmente doente tenham sido curada com sucesso de sua
doença, nós sempre tentamos restaurar o ex-paciente ao mundo de suas convicções mais reais.
O psicoterapeuta então busca, no mundo ilusoriamente caricato, pelos conteúdos primordiais e
sempre mais sensíveis, e assim constrói uma ponte sobre o período de loucura para uma nova
realidade saudável. Tal operação, é claro, requer habilidades necessárias no domínio da
psicopatologia, uma vez que cada doença tem seu próprio estilo para deformar o mundo de
experiências originais e as convicções do paciente. O sistema ideológico deformado criado
pela patocracia deve ser sujeito a uma análise análoga, pela busca dos valores primordiais e
certamente mais sensíveis. Para isso deve-se utilizar o conhecimento do estilo específico
segundo o qual a patocracia caricaturou a ideologia do movimento de que ela se alimentou
parasiticamente.
Essa grande doença da patocracia acomoda várias ideologias sociais às suas próprias
propriedades e às intenções dos patocratas, retirando delas, através disso, qualquer
possibilidade de desenvolvimento natural e amadurecimento à luz do senso comum saudável
do homem e da reflexão científica. Esse processo também transforma essas ideologias em
fatores destrutivos, impedindo-as de participar na evolução construtiva das estruturas sociais e condenando seus adeptos à frustração. Junto com seu crescimento degenerado, essa
ideologia é rejeitada por todos os grupos sociais governados pelo senso comum saudável. As
atividades de tal ideologia induzem nações a aderirem à antiga base de tentativa-e-erro, em
termos de formas estruturais, fornecendo as melhores armas possíveis aos conservadores linha
dura. Isso causa a estagnação dos processos evolutivos, algo que é contrário às leis gerais da
vida social, e produz a polarização das atitudes entre vários grupos sociais, gerando um clima
revolucionário. As operações da ideologia alterada patologicamente facilitam assim a
penetração e a expansão da patocracia.
Somente por meio da análise psicológica retrospectiva sobre a ideologia, revertendo-se ao
período que precedeu a infecção ponerogênica e levando-se em consideração a qualidade
patológica e as causas para a sua deformação, os valores criativos originais podem ser
descobertos e pontes podem ser construídas sobre o período de tempo dos fenômenos
mórbidos.
Essa cobertura habilidosa da ideologia original, incluindo alguns elementos razoáveis que
surgiram depois do aparecimento da infecção ponerogênica, pode ser enriquecida por valores
elaborados no decorrer do tempo e se tornar capaz de uma evolução posterior criativa. Ela
estará em posição de ativar transformações de acordo com a natureza evolutiva das estruturas
sociais, que em retorno farão essas sociedades mais resistentes à penetração por influências
patocráticas.
Essa análise nos apresenta problemas que devem ser superados de forma habilidosa, a
saber, encontrar as designações semânticas apropriadas. Graças à criatividade característica
nessa área, a patocracia produz uma massa de nomes sugestivos, preparados de modo a
distrair a atenção das qualidades essenciais do fenômeno. Qualquer pessoa que tenha sido
enlaçada por essa armadilha semântica, mesmo que somente uma vez, perde não somente a
capacidade para a análise objetiva desse tipo de fenômeno, mas também perde parcialmente
sua habilidade de utilizar o seu senso comum. A produção de tais efeitos dentro das mentes
humanas é a proposta específica dessa pato-semântica. Deve-se primeiro proteger sua própria
pessoa contra eles e então proceder para proteger a consciência social.
Os únicos nomes que podemos aceitar são aqueles com uma tradição histórica
contemporânea aos fatos e que remontam aos tempos pré-infecção. Por exemplo, se chamamos
o socialismo pré-marxismo de “socialismo utópico”, será difícil para nós entender que ele foi
muito mais realista e socialmente criativo do que os movimentos posteriores, já adornados
com material patológico.
Contudo, esse cuidado não basta quando estamos lidando com fenômenos que não podem ser
medidos dentro da estrutura natural de conceitos porque eles foram produzidos por um
processo macrossocial patológico. Nós devemos assim novamente ressaltar que a inspiração
do senso comum saudável natural é insuficiente para efetuar esse refinamento retrospectivo
dos valores ideológicos que foram posteriormente deformados pelo processo patológico. A
objetividade psicológica, o conhecimento adequado na área de psicopatologia e os dados
contidos nos capítulos anteriores desse livro são indispensáveis para esse propósito.
Uma vez equipados nós também nos tornamos qualificados para criar novos nomes
indispensáveis, que elucidariam as propriedades reais dos fenômenos, com a condição de que prestemos atenção suficiente aos preceitos da semântica, com toda a probidade e economia,
como exigiria Guilherme de Ockham. Afinal de contas, esses nomes se espalharão através do
planeta e ajudarão muitas pessoas a corrigir sua visão de mundo e sua atitude social. Essa
atividade, embora legalista, ajuda realmente a remover o monopólio do controle dos nomes
dos círculos patocráticos. Os protestos que se verificarão por parte deles somente provarão
que estamos no caminho certo.
A ideologia assim regenerada recupera a vida natural e a capacidade evolutiva que a
patologização reprimiu. Ao mesmo tempo, contudo, ela perde sua habilidade de cumprir as
funções impostas, tais como alimentar a patocracia e encobri-la da crítica do senso comum
saudável, bem como de outra coisa muito mais perigosa, a percepção da realidade psicológica
e seus aspectos cômicos.
Condenar uma ideologia por causa dos seus erros, sejam eles contidos desde o início ou
absorvidos mais tarde, nunca a destituirá dessa função imposta, especialmente não nas mentes
das pessoas que falharam em condená-la por razões similares. Se nós tentarmos
posteriormente analisar essa ideologia condenada, nós nunca atingiremos o efeito que tem uma
influência curativa sobre a personalidade humana. Nós simplesmente perderemos os fatores
verdadeiramente importantes e seremos incapazes de preencher um certo espaço com
conteúdo. Nossos pensamentos serão forçados a evitar qualquer coisa que bloqueie sua
liberdade, enganando-se por entre verdades ostensivas. Uma vez que alguma coisa sucumbe
aos fatores patológicos, ela não pode ser compreendida sem a utilização de categorias
apropriadas.