Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 37 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Ideologias

Assim como um psiquiatra está principalmente interessado na doença, prestando menor

atenção ao sistema ilusório do paciente, que deforma qualquer realidade individual que ele

tenha, o objeto da terapia global devem ser as doenças do mundo. Os sistemas ideológicos

deformados que crescem a partir das condições históricas e das fraquezas de uma dada

civilização devem ser entendidos na medida em que eles são o disfarce, o instrumento

operacional, ou o Cavalo de Tróia para a infecção patocrática.

A consciência social deve separar primeiro essas duas camadas heterogêneas do fenômeno

por meio da análise e da avaliação científica efetuada sobre elas. Essa compreensão correta e

seletiva deve se tornar parte integrante de todas as consciências nacionais de alguma forma

adequadamente acessível. Correspondentemente, isso reforçaria sua capacidade de se

orientação independente dentro da realidade complicada de hoje, através da distinção de tais

fenômenos de acordo com sua natureza. Isso produziria uma correção nas atitudes morais e nas

de visão de mundo. A concentração dos nossos esforços sobre o fenômeno patológico deve

assim produzir uma compreensão adequada e resultados suficientemente completos.

A ausência dessa distinção básica na operação política é um erro que leva à perda de

esforços. Nós podemos não concordar com as ideologias, uma vez que todas as ideologias

políticas do século XIX simplificaram excessivamente a realidade social, a ponto de debilitá-

la, mesmo na sua forma original, sem mencionar suas versões deformadas patologicamente. O

primeiro plano deve, portanto, ser ocupado pela identificação do seu papel dentro do

fenômeno macrossocial. A análise, a crítica e até mesmo, mais particularmente, o seu

combate, podem ser colocados em segundo plano. Quaisquer discussões em relação à direção

necessária para alterar as estruturas sociais podem ser contidas até que levem essa separação

básica do fenômeno em conta. Uma vez corrigida, a consciência social pode executar a

solução para esses problemas mais facilmente e os grupos sociais que são hoje intransigentes

serão mais dóceis em se comprometerem.

Uma vez que uma pessoa mentalmente doente tenham sido curada com sucesso de sua

doença, nós sempre tentamos restaurar o ex-paciente ao mundo de suas convicções mais reais.

O psicoterapeuta então busca, no mundo ilusoriamente caricato, pelos conteúdos primordiais e

sempre mais sensíveis, e assim constrói uma ponte sobre o período de loucura para uma nova

realidade saudável. Tal operação, é claro, requer habilidades necessárias no domínio da

psicopatologia, uma vez que cada doença tem seu próprio estilo para deformar o mundo de

experiências originais e as convicções do paciente. O sistema ideológico deformado criado

pela patocracia deve ser sujeito a uma análise análoga, pela busca dos valores primordiais e

certamente mais sensíveis. Para isso deve-se utilizar o conhecimento do estilo específico

segundo o qual a patocracia caricaturou a ideologia do movimento de que ela se alimentou

parasiticamente.

Essa grande doença da patocracia acomoda várias ideologias sociais às suas próprias

propriedades e às intenções dos patocratas, retirando delas, através disso, qualquer

possibilidade de desenvolvimento natural e amadurecimento à luz do senso comum saudável

do homem e da reflexão científica. Esse processo também transforma essas ideologias em

fatores destrutivos, impedindo-as de participar na evolução construtiva das estruturas sociais e condenando seus adeptos à frustração. Junto com seu crescimento degenerado, essa

ideologia é rejeitada por todos os grupos sociais governados pelo senso comum saudável. As

atividades de tal ideologia induzem nações a aderirem à antiga base de tentativa-e-erro, em

termos de formas estruturais, fornecendo as melhores armas possíveis aos conservadores linha

dura. Isso causa a estagnação dos processos evolutivos, algo que é contrário às leis gerais da

vida social, e produz a polarização das atitudes entre vários grupos sociais, gerando um clima

revolucionário. As operações da ideologia alterada patologicamente facilitam assim a

penetração e a expansão da patocracia.

Somente por meio da análise psicológica retrospectiva sobre a ideologia, revertendo-se ao

período que precedeu a infecção ponerogênica e levando-se em consideração a qualidade

patológica e as causas para a sua deformação, os valores criativos originais podem ser

descobertos e pontes podem ser construídas sobre o período de tempo dos fenômenos

mórbidos.

Essa cobertura habilidosa da ideologia original, incluindo alguns elementos razoáveis que

surgiram depois do aparecimento da infecção ponerogênica, pode ser enriquecida por valores

elaborados no decorrer do tempo e se tornar capaz de uma evolução posterior criativa. Ela

estará em posição de ativar transformações de acordo com a natureza evolutiva das estruturas

sociais, que em retorno farão essas sociedades mais resistentes à penetração por influências

patocráticas.

Essa análise nos apresenta problemas que devem ser superados de forma habilidosa, a

saber, encontrar as designações semânticas apropriadas. Graças à criatividade característica

nessa área, a patocracia produz uma massa de nomes sugestivos, preparados de modo a

distrair a atenção das qualidades essenciais do fenômeno. Qualquer pessoa que tenha sido

enlaçada por essa armadilha semântica, mesmo que somente uma vez, perde não somente a

capacidade para a análise objetiva desse tipo de fenômeno, mas também perde parcialmente

sua habilidade de utilizar o seu senso comum. A produção de tais efeitos dentro das mentes

humanas é a proposta específica dessa pato-semântica. Deve-se primeiro proteger sua própria

pessoa contra eles e então proceder para proteger a consciência social.

Os únicos nomes que podemos aceitar são aqueles com uma tradição histórica

contemporânea aos fatos e que remontam aos tempos pré-infecção. Por exemplo, se chamamos

o socialismo pré-marxismo de “socialismo utópico”, será difícil para nós entender que ele foi

muito mais realista e socialmente criativo do que os movimentos posteriores, já adornados

com material patológico.

Contudo, esse cuidado não basta quando estamos lidando com fenômenos que não podem ser

medidos dentro da estrutura natural de conceitos porque eles foram produzidos por um

processo macrossocial patológico. Nós devemos assim novamente ressaltar que a inspiração

do senso comum saudável natural é insuficiente para efetuar esse refinamento retrospectivo

dos valores ideológicos que foram posteriormente deformados pelo processo patológico. A

objetividade psicológica, o conhecimento adequado na área de psicopatologia e os dados

contidos nos capítulos anteriores desse livro são indispensáveis para esse propósito.

Uma vez equipados nós também nos tornamos qualificados para criar novos nomes

indispensáveis, que elucidariam as propriedades reais dos fenômenos, com a condição de que prestemos atenção suficiente aos preceitos da semântica, com toda a probidade e economia,

como exigiria Guilherme de Ockham. Afinal de contas, esses nomes se espalharão através do

planeta e ajudarão muitas pessoas a corrigir sua visão de mundo e sua atitude social. Essa

atividade, embora legalista, ajuda realmente a remover o monopólio do controle dos nomes

dos círculos patocráticos. Os protestos que se verificarão por parte deles somente provarão

que estamos no caminho certo.

A ideologia assim regenerada recupera a vida natural e a capacidade evolutiva que a

patologização reprimiu. Ao mesmo tempo, contudo, ela perde sua habilidade de cumprir as

funções impostas, tais como alimentar a patocracia e encobri-la da crítica do senso comum

saudável, bem como de outra coisa muito mais perigosa, a percepção da realidade psicológica

e seus aspectos cômicos.

Condenar uma ideologia por causa dos seus erros, sejam eles contidos desde o início ou

absorvidos mais tarde, nunca a destituirá dessa função imposta, especialmente não nas mentes

das pessoas que falharam em condená-la por razões similares. Se nós tentarmos

posteriormente analisar essa ideologia condenada, nós nunca atingiremos o efeito que tem uma

influência curativa sobre a personalidade humana. Nós simplesmente perderemos os fatores

verdadeiramente importantes e seremos incapazes de preencher um certo espaço com

conteúdo. Nossos pensamentos serão forçados a evitar qualquer coisa que bloqueie sua

liberdade, enganando-se por entre verdades ostensivas. Uma vez que alguma coisa sucumbe

aos fatores patológicos, ela não pode ser compreendida sem a utilização de categorias

apropriadas.