Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo IX - Terapia para o mundo
TERAPIA PARA O MUNDO
DURANTE SÉCULOS FORAM FEITAS TENTATIVAS PARA TRATAR várias doenças com base na
compreensão ingênua e na experiência transmitida de geração para geração. Essa atividade
não foi ineficiente; em muitos casos ela produziu resultados vantajosos. A substituição dessa
medicina tradicional pela ciência moderna recém criada na Europa fez com que a saúde
pública se deteriorasse inicialmente. Contudo, foi somente com a ajuda da ciência moderna
que muitas doenças foram vencidas, doenças contra as quais a medicina tradicional havia sido
impotente. Isso ocorreu porque uma compreensão naturalista da doença e de suas causas criou
uma base para sua neutralização.
Em relação ao fenômeno discutido nesse trabalho, nossa situação é similar àquela produzida
pela crise acima mencionada em relação à saúde das nações européias. Nós deixamos para
trás a organização sócio-moral tradicional, mas ainda não elaboramos uma ciência mais
valiosa, uma que poderia preencher a lacuna. Nós, portanto, necessitamos de critérios
recentemente estabelecidos que possam se tornar a base para uma disciplina análoga, com uma
estrutura resistente. Simultaneamente, isso atenderia a uma necessidade premente no mundo de
hoje.
De acordo com a compreensão contemporânea, o tratamento efetivo de uma doença se torna
possível uma vez que tenhamos apreendido sua essência, seus fatores etiológicos, suas
propriedades e seu curso patodinâmico dentro dos organismos que apresentam propriedades
biológicas desiguais. Uma vez que tal conhecimento está disponível, encontrar as medidas de
tratamento apropriadas geralmente se mostra menos difícil e uma obrigação menos perigosa.
Para médicos, a doença representa um fenômeno biológico interessante, até mesmo fascinante.
Eles freqüentemente aceitam o risco de contato com os fatores patogênicos contagiosos e
sofrem perdas com o objetivo de compreender a doença, a fim de se tornarem capazes de
curar as pessoas. Graças a isso, eles alcançaram a possibilidade do tratamento etiotrópico e
da imunização artificial dos organismos humanos a determinadas doenças. A saúde do próprio
médico é, assim, também mais protegida nos dias de hoje; mas ele não deve jamais
menosprezar o paciente ou sua doença.
Quando somos confrontados com o fenômeno macrossocial patológico que requer que
procedamos de modo análogo, em princípio, àquele que governa a medicina contemporânea,
especialmente com relação à superação de doenças que se propagam facilmente entre as
populações, a lei exige medidas rigorosas e necessárias que se tornam obrigatórias também
para as pessoas saudáveis. É também importante apontar que pessoas e organizações políticas
com uma visão de mundo esquerdista geralmente representam uma atitude mais consistente
nesse assunto, exigindo tais sacrifícios em nome do bem comum.
Nós também devemos estar cientes de que o fenômeno diante de nós é análogo àquelas doenças contra as quais a medicina tradicional se mostrou inadequada. Para superar esse
estado de coisas, nós devemos consequentemente utilizar novos meios, baseados na
compreensão da essência e das causas do fenômeno patocrático, ou seja, de acordo com
princípios análogos aos que governam a medicina moderna. A rota para a compreensão do
fenômeno foi também muito mais difícil e perigosa do que aquela que deveria levar de tal
compreensão até a descoberta de atividades terapêuticas apropriadamente organizadas e
justificadas naturalística e moralmente. Esses métodos são potencialmente possíveis e
factíveis, uma vez que derivam de uma compreensão do fenômeno por si e se tornam uma
extensão disso. Nessa “doença”, assim como em muitos casos tratados pelos psicoterapeutas,
a própria compreensão já inicia a cura das personalidades humanas. O autor confirmou isso na
prática em casos individuais. Também parece que muitos dos resultados experimentais
conhecidos se tornarão também similarmente aplicáveis.
A insuficiência de esforços baseados nos melhores valores morais tornou-se cultura comum
depois de anos de repercussão. As armas militares poderosas que colocam toda a humanidade
em risco podem, por outro lado, ser consideradas tão indispensáveis como uma camisa-de-
força, algo cujo uso diminui na proporção em que são aperfeiçoadas as habilidades de
governar o comportamento das pessoas encarregadas da cura de outras. Nós necessitamos de
medidas que possam alcançar todas as pessoas e todas as nações, e que possam operar sobre
as causas reconhecidas das grandes doenças.
Tais medidas terapêuticas não podem estar limitadas ao fenômeno da patocracia. A
patocracia sempre encontrará uma resposta positiva se algum país independente for infectado
com o avanço do estado de histeria, ou se uma pequena casta privilegiada oprimir e explorar
os outros cidadãos, deixando-os atrasados e na escuridão. Qualquer um que queira tratar o
mundo pode assim ser perseguido, e o seu direito moral para agir pode ser questionado. O mal
no mundo, de fato, constitui um contínuo: um tipo abre a porta para outro, independentemente
de sua essência qualitativa ou do slogan ideológico que o oculta.
Também é impossível encontrar meios efetivos de ação terapêutica se as mentes das pessoas
responsáveis por essas tarefas forem afetadas pela tendência ao pensamento conversivo, como
a seleção subconsciente e a substituição de informações, ou se alguma doutrina que impeça
uma percepção objetiva da realidade se tornar obrigatória. Em particular, uma doutrina
política para a qual o fenômeno patológico macrossocial, de acordo com sua famosa
ideologia, se tornou um dogma, bloqueando um entendimento de sua verdadeira natureza tão
bem a ponto de se tornar impossível uma ação intencional. Qualquer um que administre essa
ação deveria se submeter a um exame preliminar, ou até mesmo a um tipo de psicoterapia,
para eliminar quaisquer tendências em direção até mesmo a um pensamento levemente
desleixado.
Assim como qualquer tratamento bem gerenciado, a terapia para o mundo deve conter duas
exigências básicas: o fortalecimento dos poderes de defesa da comunidade humana como um
todo e o ataque da sua doença mais perigosa, se possível de forma etiotrópica. Levando em
consideração todos os aspectos referenciados no capítulo teórico sobre a ponerologia, os
esforços terapêuticos devem ser conduzidos, sujeitando as operações dos fatores conhecidos
da gênese do mal e os processos mesmos da ponerogênese aos controles de uma consciência social e científica.
Tentativas presentes de confiar somente nas informações morais, não importando quão
sinceramente forem percebidas, também se mostram inadequadas, da mesma forma que seria
tentar agir unicamente com base nos dados contidos nesse livro, ignorando o suporte essencial
dos valores morais. A atitude do ponerologista enfatiza primordialmente os aspectos
naturalistas dos fenômenos; todavia, isso não significa que os aspectos tradicionais tenham
diminuído em valor. Os esforços que visam dotar a vida das nações com a ordem moral
necessária devem, assim, constituir uma segunda ala, trabalhando em paralelo e racionalmente
apoiada pelos princípios naturalistas.
As sociedades contemporâneas foram pressionadas para um estado de recessão moral
durante o final do século XIX e o início do século XX. Tirá-las desse estado é uma obrigação
geral desta geração e deve permanecer como um pano de fundo para a atividade como um
todo. A posição básica deveria ser a intenção de cumprir o mandamento de amar o próximo,
incluindo até mesmo aqueles que cometeram um mal substancial, e mesmo se esse amor
indicar a tomada de ações profiláticas para proteger os outros desse mal. Um grande esforço
terapêutico somente pode ser efetivo uma vez que o façamos com o controle honesto da
consciência moral, a moderação das palavras e a consideração na ação. Nesse ponto, a
ponerologia mostrará a sua utilidade prática no cumprimento dessa tarefa. As pessoas e os
valores desenvolvem-se na ação. Então, uma síntese dos ensinamentos morais tradicionais e
essa nova abordagem naturalista somente podem ocorrer com o comportamento racional.