Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 34 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Capítulo IX - Terapia para o mundo

TERAPIA PARA O MUNDO

 

DURANTE SÉCULOS FORAM FEITAS TENTATIVAS PARA TRATAR várias doenças com base na

compreensão ingênua e na experiência transmitida de geração para geração. Essa atividade

não foi ineficiente; em muitos casos ela produziu resultados vantajosos. A substituição dessa

medicina tradicional pela ciência moderna recém criada na Europa fez com que a saúde

pública se deteriorasse inicialmente. Contudo, foi somente com a ajuda da ciência moderna

que muitas doenças foram vencidas, doenças contra as quais a medicina tradicional havia sido

impotente. Isso ocorreu porque uma compreensão naturalista da doença e de suas causas criou

uma base para sua neutralização.

 

Em relação ao fenômeno discutido nesse trabalho, nossa situação é similar àquela produzida

pela crise acima mencionada em relação à saúde das nações européias. Nós deixamos para

trás a organização sócio-moral tradicional, mas ainda não elaboramos uma ciência mais

valiosa, uma que poderia preencher a lacuna. Nós, portanto, necessitamos de critérios

recentemente estabelecidos que possam se tornar a base para uma disciplina análoga, com uma

estrutura resistente. Simultaneamente, isso atenderia a uma necessidade premente no mundo de

hoje.

De acordo com a compreensão contemporânea, o tratamento efetivo de uma doença se torna

possível uma vez que tenhamos apreendido sua essência, seus fatores etiológicos, suas

propriedades e seu curso patodinâmico dentro dos organismos que apresentam propriedades

biológicas desiguais. Uma vez que tal conhecimento está disponível, encontrar as medidas de

tratamento apropriadas geralmente se mostra menos difícil e uma obrigação menos perigosa.

Para médicos, a doença representa um fenômeno biológico interessante, até mesmo fascinante.

Eles freqüentemente aceitam o risco de contato com os fatores patogênicos contagiosos e

sofrem perdas com o objetivo de compreender a doença, a fim de se tornarem capazes de

curar as pessoas. Graças a isso, eles alcançaram a possibilidade do tratamento etiotrópico e

da imunização artificial dos organismos humanos a determinadas doenças. A saúde do próprio

médico é, assim, também mais protegida nos dias de hoje; mas ele não deve jamais

menosprezar o paciente ou sua doença.

Quando somos confrontados com o fenômeno macrossocial patológico que requer que

procedamos de modo análogo, em princípio, àquele que governa a medicina contemporânea,

especialmente com relação à superação de doenças que se propagam facilmente entre as

populações, a lei exige medidas rigorosas e necessárias que se tornam obrigatórias também

para as pessoas saudáveis. É também importante apontar que pessoas e organizações políticas

com uma visão de mundo esquerdista geralmente representam uma atitude mais consistente

nesse assunto, exigindo tais sacrifícios em nome do bem comum.

Nós também devemos estar cientes de que o fenômeno diante de nós é análogo àquelas doenças contra as quais a medicina tradicional se mostrou inadequada. Para superar esse

estado de coisas, nós devemos consequentemente utilizar novos meios, baseados na

compreensão da essência e das causas do fenômeno patocrático, ou seja, de acordo com

princípios análogos aos que governam a medicina moderna. A rota para a compreensão do

fenômeno foi também muito mais difícil e perigosa do que aquela que deveria levar de tal

compreensão até a descoberta de atividades terapêuticas apropriadamente organizadas e

justificadas naturalística e moralmente. Esses métodos são potencialmente possíveis e

factíveis, uma vez que derivam de uma compreensão do fenômeno por si e se tornam uma

extensão disso. Nessa “doença”, assim como em muitos casos tratados pelos psicoterapeutas,

a própria compreensão já inicia a cura das personalidades humanas. O autor confirmou isso na

prática em casos individuais. Também parece que muitos dos resultados experimentais

conhecidos se tornarão também similarmente aplicáveis.

A insuficiência de esforços baseados nos melhores valores morais tornou-se cultura comum

depois de anos de repercussão. As armas militares poderosas que colocam toda a humanidade

em risco podem, por outro lado, ser consideradas tão indispensáveis como uma camisa-de-

força, algo cujo uso diminui na proporção em que são aperfeiçoadas as habilidades de

governar o comportamento das pessoas encarregadas da cura de outras. Nós necessitamos de

medidas que possam alcançar todas as pessoas e todas as nações, e que possam operar sobre

as causas reconhecidas das grandes doenças.

Tais medidas terapêuticas não podem estar limitadas ao fenômeno da patocracia. A

patocracia sempre encontrará uma resposta positiva se algum país independente for infectado

com o avanço do estado de histeria, ou se uma pequena casta privilegiada oprimir e explorar

os outros cidadãos, deixando-os atrasados e na escuridão. Qualquer um que queira tratar o

mundo pode assim ser perseguido, e o seu direito moral para agir pode ser questionado. O mal

no mundo, de fato, constitui um contínuo: um tipo abre a porta para outro, independentemente

de sua essência qualitativa ou do slogan ideológico que o oculta.

Também é impossível encontrar meios efetivos de ação terapêutica se as mentes das pessoas

responsáveis por essas tarefas forem afetadas pela tendência ao pensamento conversivo, como

a seleção subconsciente e a substituição de informações, ou se alguma doutrina que impeça

uma percepção objetiva da realidade se tornar obrigatória. Em particular, uma doutrina

política para a qual o fenômeno patológico macrossocial, de acordo com sua famosa

ideologia, se tornou um dogma, bloqueando um entendimento de sua verdadeira natureza tão

bem a ponto de se tornar impossível uma ação intencional. Qualquer um que administre essa

ação deveria se submeter a um exame preliminar, ou até mesmo a um tipo de psicoterapia,

para eliminar quaisquer tendências em direção até mesmo a um pensamento levemente

desleixado.

Assim como qualquer tratamento bem gerenciado, a terapia para o mundo deve conter duas

exigências básicas: o fortalecimento dos poderes de defesa da comunidade humana como um

todo e o ataque da sua doença mais perigosa, se possível de forma etiotrópica. Levando em

consideração todos os aspectos referenciados no capítulo teórico sobre a ponerologia, os

esforços terapêuticos devem ser conduzidos, sujeitando as operações dos fatores conhecidos

da gênese do mal e os processos mesmos da ponerogênese aos controles de uma consciência social e científica.

Tentativas presentes de confiar somente nas informações morais, não importando quão

sinceramente forem percebidas, também se mostram inadequadas, da mesma forma que seria

tentar agir unicamente com base nos dados contidos nesse livro, ignorando o suporte essencial

dos valores morais. A atitude do ponerologista enfatiza primordialmente os aspectos

naturalistas dos fenômenos; todavia, isso não significa que os aspectos tradicionais tenham

diminuído em valor. Os esforços que visam dotar a vida das nações com a ordem moral

necessária devem, assim, constituir uma segunda ala, trabalhando em paralelo e racionalmente

apoiada pelos princípios naturalistas.

As sociedades contemporâneas foram pressionadas para um estado de recessão moral

durante o final do século XIX e o início do século XX. Tirá-las desse estado é uma obrigação

geral desta geração e deve permanecer como um pano de fundo para a atividade como um

todo. A posição básica deveria ser a intenção de cumprir o mandamento de amar o próximo,

incluindo até mesmo aqueles que cometeram um mal substancial, e mesmo se esse amor

indicar a tomada de ações profiláticas para proteger os outros desse mal. Um grande esforço

terapêutico somente pode ser efetivo uma vez que o façamos com o controle honesto da

consciência moral, a moderação das palavras e a consideração na ação. Nesse ponto, a

ponerologia mostrará a sua utilidade prática no cumprimento dessa tarefa. As pessoas e os

valores desenvolvem-se na ação. Então, uma síntese dos ensinamentos morais tradicionais e

essa nova abordagem naturalista somente podem ocorrer com o comportamento racional.