Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 26 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

A Patocracia imposta pela força

A gênese da patocracia em qualquer país é um processo tão demorado que é difícil

identificar o momento de seu início. Se levarmos em consideração aqueles exemplos

históricos que devem ser qualificados como tais, nós freqüentemente observaremos a figura de

um governante autocrático cuja mediocridade mental e personalidade infantil abrem as portas

para a ponerogênese do fenômeno. Em todo lugar onde o senso comum da sociedade é

suficientemente influente, seu instinto de auto-preservação é capaz de superar esse processo

ponerogênico um tanto cedo. As coisas são diferentes quando um núcleo ativo dessa doença

já existe e pode dominar através da infecção ou pela imposição por força.

Sempre que uma nação experimenta uma “crise no sistema” ou uma hiperatividade de

processos ponerogênicos dentro de si, ela se torna o objeto de uma penetração patocrática

cujo objetivo é servir-se do país como recompensa. A partir de então, tornar-se-á fácil tirar

vantagem de suas fraquezas internas e dos movimentos revolucionários para impor um

governo na base do uso limitado da força. Condições tais como uma grande guerra ou uma

fraqueza temporária de um país podem, algumas vezes, fazer com que este se submeta à

violência de um país patocrático vizinho (contra sua vontade), cujo sistema não exibe tais

enfermidades de ampla escala tão cedo. Após a imposição forçada do sistema, o curso da

patologização da vida torna-se diferente e tal patocracia será menos estável, e sua própria

existência dependente do fator de uma força externa permanente.

Vamos tratar primeiro da última situação: a força bruta deve primeiramente sufocar a

resistência de uma nação exausta. As pessoas com habilidades militares ou de liderança

devem ser descartadas, e qualquer um que apele para valores morais e princípios legais deve

ser silenciado. Os novos princípios nunca são enunciados explicitamente. As pessoas devem

aprender a nova lei não escrita pela experiência dolorosa. A influência embrutecida desse

mundo anômalo de conceitos finaliza o trabalho, e o senso comum demanda cuidado e

resistência.

Isso é seguido por um choque que parece tão trágico quanto assustador. Algumas pessoas de

cada grupo social, sejam miseráveis abusados ou um desconhecido de todo mundo, começam

repentinamente a alterar sua personalidade e sua visão de mundo. Os cristãos e patriotas

decentes de ontem mesmo agora sustentam a nova ideologia e se comportam de forma

desdenhosa com qualquer um que ainda esteja ligado aos valores antigos. Somente mais tarde

se torna evidente que esse processo, que se parece ostensivamente com uma avalanche, tem

seus limites naturais. Com o tempo a sociedade se torna estratificada com base em fatores

totalmente diferentes das convicções políticas e ligações sociais antigas. Nós já sabemos as

causas para isso.

Através do contato direto com a patocracia, a sociedade começa simultaneamente a sentir

que seu verdadeiro conteúdo é diferente daquele das ideologias disseminadas anteriormente,

quando o país ainda era independente. Essa divergência é um fator traumatizante, porque

questiona o valor das convicções aceitas. Passam-se anos até que a mente se adapte aos novos

conceitos. Quando nós, que tivemos essa experiência, viajamos para a Europa Ocidental, ou

especialmente para os Estados Unidos, as pessoas que ainda acreditam nas ideologias

originais, naquela máscara que foi apresentada pela patocracia, nos parecem tolas.

A patocracia imposta pela força chega de uma forma pronta, que podemos até mesmo chamar

de madura. As pessoas que a observam se fechar são incapazes de distinguir as fases

anteriores de seu desenvolvimento, quando os esquizóides e os caracteropatas estavam no

comando. A necessidade da existência dessas fases e suas características tiveram que ser

reconstruídas no presente trabalho com base nos dados históricos.

Em um sistema imposto, o material psicopata já é dominante, percebido somente como algo

contrário à natureza humana, praticamente despojado da máscara de ideologia que é cada vez

menos necessária em um país conquistado, mas não obstante disfarçado pela sua

incompreensibilidade para as pessoas que ainda tentam pensar nas categorias da visão de

mundo natural.

Nós, de início, percebemos o sistema antigo de categorias e entendimento como sendo

dolorosamente inadequado para o propósito de compreender a realidade que nos tinha

inundado. As categorias objetivas essenciais que necessitávamos para classificar o que nós

observávamos não puderam ser criadas até que muitos anos de esforço tivessem passado. Os

indivíduos com as características deficientes estavam dispersos através da sociedade;

contudo, percebiam infalivelmente que o tempo para que seus sonhos se tornassem realidade

havia chegado, o tempo da vingança exata sobre aqueles “outros” que os haviam abusado e

humilhado anteriormente. Esse processo formativo violento da patocracia durou

aproximadamente oito anos ou mais e, em seguida, ocorreu uma transformação similarmente

escalonada para a fase dissimulativa.

As funções do sistema, os mecanismos psicológicos e as ligações causais misteriosas em um

país sobre o qual foi imposta uma estrutura quase-política são basicamente análogas àquelas

do país que deu origem ao fenômeno. O sistema se espalha para baixo até alcançar cada vila e

cada indivíduo humano. Os conteúdos reais e as causas internas desse fenômeno também não

manifestam uma diferença essencial, independentemente da observação ser feita em uma

capital ou em uma pequena cidade afastada. Se o organismo todo está doente, o tecido da

biópsia utilizado para diagnóstico pode ser coletado em qualquer ponto em que isso possa ser

feito de forma mais eficaz. Aqueles que vivem em países com sistemas humanos normais

tentam entender esse outro sistema por meio da imaginação, ou penetrando as paredes do

Kremlin, onde presumem que as intenções das autoridades do alto escalão estão escondidas,

mas não percebem que esse é um método muito oneroso e que existe um modo mais eficiente

de se fazê-lo. Assim, para perceber a essência do fenômeno, nós podemos nos inserir mais

facilmente em uma pequena cidade, onde é muito mais fácil observar os bastidores e analisar

a natureza de um sistema desses.

Todavia, algumas das diferenças na natureza do fenômeno patocrático que existem entre o

país que a originou e o país sobre o qual ela foi imposta por força acabam se tornando

permanentes. O sistema sempre é visto pela sociedade que foi tomada como algo de fora,

associado com outro país. A tradição histórica da sociedade e sua cultura constituem uma

conexão àquelas aspirações desejadas na direção das estruturas do homem normal. As

formações culturais mais maduras revelam-se, em particular, como as mais resistentes às

atividades destrutivas do sistema. A nação subjugada encontra suporte e inspiração para a

resistência moral e psicológica em sua própria cultura, religião e tradições morais. Esses valores, elaborados através dos séculos, não podem ser facilmente destruídos ou cooptados

pela patocracia; muito pelo contrário, eles empreendem uma vida mais intensiva na nova

sociedade. Esses valores vão progressivamente se purgando da bufonaria patriótica e seus

conteúdos principais se tornam mais verdadeiros em seu sentido eterno. Por força da

necessidade a cultura do país em questão é mantida nas casas, em secreto, e disseminada via

conspiração; no entanto, ela continua a sobreviver e a se desenvolver, criando valores que não

poderiam ter surgido durante os tempos felizes.

Como um resultado, tal oposição da sociedade se torna ainda mais resistente, inclusive mais

habilmente eficiente. O que ocorre é que aqueles que acreditavam poder impor tal sistema,

confiando no fato de que ele iria funcionar pelos mecanismos independentes da patocracia,

foram excessivamente otimistas. A patocracia imposta sempre permanece um sistema

estrangeiro ao ponto de, se cair no país de sua origem, seu colapso dentro da nação subjugada

seria somente uma questão de semanas.