Ponerologia: Psicopatas no Poder
A Patocracia imposta pela força
A gênese da patocracia em qualquer país é um processo tão demorado que é difícil
identificar o momento de seu início. Se levarmos em consideração aqueles exemplos
históricos que devem ser qualificados como tais, nós freqüentemente observaremos a figura de
um governante autocrático cuja mediocridade mental e personalidade infantil abrem as portas
para a ponerogênese do fenômeno. Em todo lugar onde o senso comum da sociedade é
suficientemente influente, seu instinto de auto-preservação é capaz de superar esse processo
ponerogênico um tanto cedo. As coisas são diferentes quando um núcleo ativo dessa doença
já existe e pode dominar através da infecção ou pela imposição por força.
Sempre que uma nação experimenta uma “crise no sistema” ou uma hiperatividade de
processos ponerogênicos dentro de si, ela se torna o objeto de uma penetração patocrática
cujo objetivo é servir-se do país como recompensa. A partir de então, tornar-se-á fácil tirar
vantagem de suas fraquezas internas e dos movimentos revolucionários para impor um
governo na base do uso limitado da força. Condições tais como uma grande guerra ou uma
fraqueza temporária de um país podem, algumas vezes, fazer com que este se submeta à
violência de um país patocrático vizinho (contra sua vontade), cujo sistema não exibe tais
enfermidades de ampla escala tão cedo. Após a imposição forçada do sistema, o curso da
patologização da vida torna-se diferente e tal patocracia será menos estável, e sua própria
existência dependente do fator de uma força externa permanente.
Vamos tratar primeiro da última situação: a força bruta deve primeiramente sufocar a
resistência de uma nação exausta. As pessoas com habilidades militares ou de liderança
devem ser descartadas, e qualquer um que apele para valores morais e princípios legais deve
ser silenciado. Os novos princípios nunca são enunciados explicitamente. As pessoas devem
aprender a nova lei não escrita pela experiência dolorosa. A influência embrutecida desse
mundo anômalo de conceitos finaliza o trabalho, e o senso comum demanda cuidado e
resistência.
Isso é seguido por um choque que parece tão trágico quanto assustador. Algumas pessoas de
cada grupo social, sejam miseráveis abusados ou um desconhecido de todo mundo, começam
repentinamente a alterar sua personalidade e sua visão de mundo. Os cristãos e patriotas
decentes de ontem mesmo agora sustentam a nova ideologia e se comportam de forma
desdenhosa com qualquer um que ainda esteja ligado aos valores antigos. Somente mais tarde
se torna evidente que esse processo, que se parece ostensivamente com uma avalanche, tem
seus limites naturais. Com o tempo a sociedade se torna estratificada com base em fatores
totalmente diferentes das convicções políticas e ligações sociais antigas. Nós já sabemos as
causas para isso.
Através do contato direto com a patocracia, a sociedade começa simultaneamente a sentir
que seu verdadeiro conteúdo é diferente daquele das ideologias disseminadas anteriormente,
quando o país ainda era independente. Essa divergência é um fator traumatizante, porque
questiona o valor das convicções aceitas. Passam-se anos até que a mente se adapte aos novos
conceitos. Quando nós, que tivemos essa experiência, viajamos para a Europa Ocidental, ou
especialmente para os Estados Unidos, as pessoas que ainda acreditam nas ideologias
originais, naquela máscara que foi apresentada pela patocracia, nos parecem tolas.
A patocracia imposta pela força chega de uma forma pronta, que podemos até mesmo chamar
de madura. As pessoas que a observam se fechar são incapazes de distinguir as fases
anteriores de seu desenvolvimento, quando os esquizóides e os caracteropatas estavam no
comando. A necessidade da existência dessas fases e suas características tiveram que ser
reconstruídas no presente trabalho com base nos dados históricos.
Em um sistema imposto, o material psicopata já é dominante, percebido somente como algo
contrário à natureza humana, praticamente despojado da máscara de ideologia que é cada vez
menos necessária em um país conquistado, mas não obstante disfarçado pela sua
incompreensibilidade para as pessoas que ainda tentam pensar nas categorias da visão de
mundo natural.
Nós, de início, percebemos o sistema antigo de categorias e entendimento como sendo
dolorosamente inadequado para o propósito de compreender a realidade que nos tinha
inundado. As categorias objetivas essenciais que necessitávamos para classificar o que nós
observávamos não puderam ser criadas até que muitos anos de esforço tivessem passado. Os
indivíduos com as características deficientes estavam dispersos através da sociedade;
contudo, percebiam infalivelmente que o tempo para que seus sonhos se tornassem realidade
havia chegado, o tempo da vingança exata sobre aqueles “outros” que os haviam abusado e
humilhado anteriormente. Esse processo formativo violento da patocracia durou
aproximadamente oito anos ou mais e, em seguida, ocorreu uma transformação similarmente
escalonada para a fase dissimulativa.
As funções do sistema, os mecanismos psicológicos e as ligações causais misteriosas em um
país sobre o qual foi imposta uma estrutura quase-política são basicamente análogas àquelas
do país que deu origem ao fenômeno. O sistema se espalha para baixo até alcançar cada vila e
cada indivíduo humano. Os conteúdos reais e as causas internas desse fenômeno também não
manifestam uma diferença essencial, independentemente da observação ser feita em uma
capital ou em uma pequena cidade afastada. Se o organismo todo está doente, o tecido da
biópsia utilizado para diagnóstico pode ser coletado em qualquer ponto em que isso possa ser
feito de forma mais eficaz. Aqueles que vivem em países com sistemas humanos normais
tentam entender esse outro sistema por meio da imaginação, ou penetrando as paredes do
Kremlin, onde presumem que as intenções das autoridades do alto escalão estão escondidas,
mas não percebem que esse é um método muito oneroso e que existe um modo mais eficiente
de se fazê-lo. Assim, para perceber a essência do fenômeno, nós podemos nos inserir mais
facilmente em uma pequena cidade, onde é muito mais fácil observar os bastidores e analisar
a natureza de um sistema desses.
Todavia, algumas das diferenças na natureza do fenômeno patocrático que existem entre o
país que a originou e o país sobre o qual ela foi imposta por força acabam se tornando
permanentes. O sistema sempre é visto pela sociedade que foi tomada como algo de fora,
associado com outro país. A tradição histórica da sociedade e sua cultura constituem uma
conexão àquelas aspirações desejadas na direção das estruturas do homem normal. As
formações culturais mais maduras revelam-se, em particular, como as mais resistentes às
atividades destrutivas do sistema. A nação subjugada encontra suporte e inspiração para a
resistência moral e psicológica em sua própria cultura, religião e tradições morais. Esses valores, elaborados através dos séculos, não podem ser facilmente destruídos ou cooptados
pela patocracia; muito pelo contrário, eles empreendem uma vida mais intensiva na nova
sociedade. Esses valores vão progressivamente se purgando da bufonaria patriótica e seus
conteúdos principais se tornam mais verdadeiros em seu sentido eterno. Por força da
necessidade a cultura do país em questão é mantida nas casas, em secreto, e disseminada via
conspiração; no entanto, ela continua a sobreviver e a se desenvolver, criando valores que não
poderiam ter surgido durante os tempos felizes.
Como um resultado, tal oposição da sociedade se torna ainda mais resistente, inclusive mais
habilmente eficiente. O que ocorre é que aqueles que acreditavam poder impor tal sistema,
confiando no fato de que ele iria funcionar pelos mecanismos independentes da patocracia,
foram excessivamente otimistas. A patocracia imposta sempre permanece um sistema
estrangeiro ao ponto de, se cair no país de sua origem, seu colapso dentro da nação subjugada
seria somente uma questão de semanas.