Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 35 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

A Verdade é um remédio

Seria difícil resumir aqui as afirmações de muitos autores famosos sobre o papel da

psicoterapia em tornar uma pessoa consciente do que tem lotado o seu subconsciente,

reprimido por um esforço constante e doloroso, por causa do medo que ela tem de encarar

uma verdade desagradável de frente, por não possuir as informações objetivas para derivar as

conclusões corretas ou por ser muito orgulhosa para permitir que se saiba que ela se

comportou de forma ridícula. Além de ser muito bem compreendido por especialistas, esse

assunto também se tornou de conhecimento geral, em um certo grau.

Em qualquer método ou técnica de psicoterapia analítica, ou psicoterapia autônoma, como T.

Szasz [ 80 ] a chamou, a motivação orientadora da ação é a exposição à luz da consciência de

qualquer material que tenha sido reprimido por meio da seleção subconsciente da informação

ou pela desistência diante de problemas intelectuais. Isso é acompanhado por um

desilusionamento das substituições e racionalizações, cuja criação está geralmente na mesma

proporção da quantidade de material reprimido.

Em muitos casos, acontece que o material eliminado do campo da consciência por medo, e

freqüentemente substituído por associações ostensivamente mais confortáveis, nunca teria tido

esses resultados perigosos se, no início, tivéssemos reunido coragem para percebê-lo

conscientemente. Nós então estaríamos na posição de encontrar uma saída independente, e em

geral criativa, para a situação.

Em alguns casos, no entanto, especialmente quando lidamos com fenômenos que são difíceis

de entender dentro das categorias da nossa visão de mundo natural, conduzir o paciente para

fora de seus problemas exige que o supramos com informações objetivas cruciais, geralmente

das áreas da biologia, psicologia e psicopatologia, e que indiquemos dependências

específicas que ele não foi capaz de compreender antes. A atividade instrutiva começa a

dominar o trabalho psicoterapêutico nesse momento. Afinal de contas, o paciente necessita

desses dados adicionais para reconstruir sua personalidade desintegrada e formar uma nova

visão de mundo mais adequada à realidade. Somente então nós podemos partir para os

métodos mais tradicionais. Se nossas atividades são para o benefício de pessoas que

permaneceram sob a influência de um sistema patocrático, esse último padrão de

comportamento é o mais apropriado. As informações objetivas fornecidas aos pacientes

devem derivar de um entendimento da natureza do fenômeno.

Conforme já esclarecido, o autor foi capaz de observar o funcionamento do processo de

tornar alguém conscientemente ciente da essência e das propriedades do fenômeno

macrossocial, com base nos pacientes individuais que se tornaram neuróticos pela influência

de condições sociais patocráticas. Em países dominados por tais governos, quase toda pessoa

normal carrega dentro de si alguma reação neurótica de intensidade variada. Afinal de contas,

a neurose é a reação normal da natureza humana à condição de ser subjugado por um

sistema patológico.

Apesar da ansiedade que essas operações psicoterapêuticas corajosas necessariamente

produzem nos dois lados, meus pacientes assimilavam rapidamente as informações objetivas

que estavam sendo fornecidas, complementando-as com as suas próprias experiências, com

informações adicionais necessárias e com a verificação de como se aplicavam essas informações. A reintegração criativa e espontânea de suas personalidades acontecia logo

depois, acompanhada por uma reconstrução similar de sua visão de mundo. A psicoterapia

subsequente era meramente uma assistência continuada nesse processo cada vez mais

autônomo e na solução de problemas individuais, ou seja, uma abordagem mais tradicional.

Essas pessoas perderam suas tensões crônicas; suas visões perceptivas dessa realidade

anômala se tornaram incrivelmente realistas e adornadas com humor. O reforço de sua

capacidade para manter a própria higiene psicológica, para a auto-terapia e para a auto-

pedagogia foi muito melhor que o esperado. Elas se tornaram mais talentosas nos assuntos da

vida prática e eram capazes de dar bons conselhos aos outros. Infelizmente, o número de

pessoas em quem um psicoterapeuta podia confiar adequadamente era muito limitado.

Um efeito similar deve ser obtido em uma escala macrossocial, algo tecnicamente factível

sob as presentes condições. Nessa escala operacional, liberará a interação espontânea desses

indivíduos esclarecidos e a multiplicação social dos fenômenos terapêuticos. Estes últimos

então criarão uma reação social qualitativamente nova e muito provavelmente tempestuosa;

nós devemos estar preparados para agir com o intuito de acalmá-la. Finalmente, isso trará um

sentimento geral de relaxamento e de triunfo da própria ciência contra o mal; isso não pode

ser negado por quaisquer meios verbais e a força física também se torna sem sentido. O uso de

medidas tão diferentes de qualquer coisa já utilizada antes produzirá um sentimento de “fim de

uma era” durante a qual esse fenômeno macrossocial foi capaz de emergir e de se

desenvolver, mas que agora está morrendo. Isso seria acompanhado por uma sensação de bem

estar das pessoas normais.

Dentro dessa sugestão de psicoterapia global, o material adicional objetivado na forma de

uma compreensão naturalista do fenômeno constitui o fundamental; este livro possui a coleção

de informações mais essenciais que o autor foi capaz de obter e de apresentar aqui, em uma

abordagem parcialmente simplificada. Sem dúvida, isso não representa a totalidade do

conhecimento necessário; acréscimos posteriores devem ser necessários. Por outro lado, eu

dediquei menos atenção aos métodos, uma vez que isso constituiria em redundâncias múltiplas

dos tipos de terapias que muitos especialistas já conhecem e usam em sua prática.

A proposta desta atividade será deixar que o mundo retome sua capacidade de fazer uso do

senso comum saudável e reintegrar as visões de mundo com base em dados cientificamente

objetivados e adequadamente popularizados. A consciência assim criada seria muito mais

apropriada à realidade que foi mal interpretada até recentemente. Como resultado, o homem se

tornaria mais sensível na atividade prática, mais independente e engenhoso na solução dos

problemas da vida e se sentiria mais seguro. Essa tarefa não é nova. Ela é o ganha-pão diário

de um bom psicoterapeuta. O problema é mais técnico que teórico, a saber, como disseminar

urgentemente tais influências através do globo.

***

Todo psicoterapeuta deve estar preparado para as dificuldades causadas pela resistência

psicológica derivada de atitudes e convicções cuja perda de fundamento se revela no curso do

trabalho. Particularmente no caso de um grupo numeroso de pessoas, essas resistências

acabam sendo manifestadas mais explicitamente. Todavia, entre os membros desse grupo, nós também encontramos aliados que nos ajudam a quebrar essas resistências. Para visualizar isso

vamos voltar mais uma vez para o exemplo da família N., na qual uma dúzia ou mais de

pessoas colaboraram no abuso de um bode expiatório de treze anos de idade, inteligente e

agradável.

Quando eu expliquei aos tios e tias que eles haviam estado sob a influência de uma pessoa

psicologicamente anormal por anos, aceitando seu mundo ilusório como sendo real e

participando (com honra percebida) em sua vingança contra o garoto que era supostamente o

culpado pelos seus fracassos, inclusive aqueles que ocorreram anos antes do seu nascimento,

o choque reprimiu temporariamente sua indignação. Não houve um ataque subsequente,

provavelmente porque tudo aconteceu no meu consultório do serviço de saúde pública e eu

estava protegido com meu jaleco branco, que costumo vestir sempre que não me sinto

completamente seguro. Eu sofri somente ameaças verbais. Uma semana depois, contudo, eles

começaram a retornar, um por um, pálidos e em um estado lastimável. Embora com

dificuldades, eles realmente ofereceram ajuda e cooperação para restaurar a situação familiar

e o futuro desse garoto desafortunado.

Muitas pessoas sofrem um choque inevitável e reagem com oposição, protesto e

desintegração da sua personalidade humana, quando informados de tal estado de coisas, ou

seja, de que eles haviam estado sob a propaganda e a influência traumatizante de um fenômeno

patológico macrossocial, não importando se eram os seguidores desse sistema ou seus

opositores. Muitas pessoas se levantam em um protesto ansioso pelo fato de que a ideologia

que condenavam ou aceitavam de alguma forma, mas que consideravam uma diretriz, está

agora sendo tratada como algo secundário em importância.

Os protestos mais barulhentos vinham daqueles que se consideravam justos, pois

condenavam esse fenômeno macrossocial com talento literário e vozes elevadas, utilizando o

nome derivado de sua ideologia mais recente, bem como fazendo uso excessivo de

interpretações moralizantes em relação aos fenômenos patológicos. Forçá-los a uma

percepção de uma compreensão correta da patocracia seria quase um Trabalho de Sísifo, uma

vez que eles teriam que se tornar conscientes do fato de que seus esforços serviram

amplamente a objetivos opostos às suas intenções. Especialmente se eles se engajaram em tais

atividades profissionalmente, é mais prático evitar a liberação de suas agressões; pode-se até

considerar que tais pessoas idosas são muito velhas para terapia.

Transformar a visão de mundo de pessoas vivendo em países com o sistema do homem

normal se torna uma tarefa ainda mais trabalhosa, uma vez que elas são muito mais

egotisticamente ligadas às imaginações sugeridas a elas desde a infância, tornando mais difícil

de se reconciliarem com o fato de que existem assuntos que o seu sistema conceitual natural

não podem assimilar. A elas também falta a experiência específica disponível para as pessoas

que viveram sob o domínio patocrático por anos. Nós devemos, portanto, esperar a resistência

e o ataque da parte das pessoas que estão protegendo seu sustento e suas posições, assim

como defendendo suas personalidades de uma desintegração vexatória. Para abster-se de tal

alienação, nós temos que contar com as reações adequadas da maioria.

A aceitação dessa psicoterapia será diferente em países onde as sociedades das pessoas

normais já foram criadas, oferecendo resistência sólida ao domínio patocrático. Muitos anos de experiência, uma familiaridade prática com o fenômeno e a imunização psicológica nesse

lugar muito tempo atrás produziram um terreno fértil para lançar as sementes da verdade

objetiva e da compreensão naturalista. Uma explicação da essência do fenômeno macrossocial

será tratada como uma psicoterapia atrasada que, lamentavelmente, deveria ter sido ofertada

muito mais cedo (isso teria permitido ao paciente evitar muitos erros), mas ainda é útil porque

fornece a ordem e o relaxamento, permitindo uma ação racional subsequente. Tais dados, lá

aceitos através de um processo bastante doloroso, serão associados com a experiência já

possuída. Não existirão protestos egoística ou egotisticamente inspirados nesse mundo. O

valor de uma visão objetiva será apreciado muito mais rapidamente, uma vez que garante uma

base para a atividade racional. Logo em seguida, o sentimento de realismo em apreender o

mundo ao redor, seguido por um senso de humor, começarão a compensar essas pessoas pela

experiência que elas viveram, ou seja, a desintegração de suas personalidades humanas

causadas por tais terapias.

A desintegração da estrutura da visão de mundo anterior criará um sentimento temporário de

vazio desagradável. Os terapeutas conhecem bem a responsabilidade consequente de

preencher esse vazio, tão rápido quanto possível, com material mais crível e confiável do que

os conteúdos que foram corrigidos, ajudando a evitar os métodos primitivos de reintegração

da personalidade. Na prática, é melhor minimizar a ansiedade do paciente, fazendo promessas

adiantadas de que um material apropriadamente objetivado será fornecido na forma de dados

confiáveis. Essa promessa deve então ser mantida, antecipando parcialmente a aparição dos

estados desintegrativos. Eu testei essa técnica com sucesso em pacientes individuais e

aconselharia sua implementação em grande escala, como sendo segura e efetiva.

Para as pessoas que já tiverem desenvolvido uma imunidade psicológica natural, sua

resistência aumentada à influência destrutiva da patocracia sobre suas personalidades,

adquirida devido à consciência da essência da patocracia, pode ser de menor significância,

mas não sem valor, uma vez que leva ao aperfeiçoamento da qualidade da imunização a um

custo mais baixo, em termos de tensão nervosa. Contudo, para aquelas pessoas hesitantes que

constituem a parte dos membros bem ajustados à nova classe média, as atividades imunizantes

fornecidas por uma ciência da natureza patológica do fenômeno podem inclinar sua escala de

atitudes na direção da decência.

O segundo aspecto chave de tais operações que deve ser considerado é a influência desses

comportamentos instruídos sobre as personalidades dos patocratas mesmos.

No decorrer da psicoterapia individual nós tentamos evitar fazer com que os pacientes

ficassem cientes das aberrações permanentes, especialmente quando tínhamos razões para

acreditar que eles eram condicionados por fatores hereditários. Os psicoterapeutas, contudo,

são orientados pela consciência da existência dessa condição na sua tomada de decisão.

Somente no caso dos resultados de lesões pequenas no tecido cerebral nós decidimos deixar o

paciente ciente, a fim de ajudá-lo a elaborar uma maior tolerância com as suas dificuldades e

de abolir os medos desnecessários. Em relação aos indivíduos psicopáticos, nós tratamos os

seus desvios por meio de uma linguagem alusiva cuidadosa, tendo em mente que eles têm um

tipo de autoconhecimento, e nós prosseguimos com as técnicas de modificação do

comportamento para corrigir suas personalidades, levando em consideração os interesses da sociedade também.

Quanto a operações em escala macrossocial, não é viável, obviamente, manter essas últimas

táticas cautelosas de atividade. Traumatizar os patocratas será inevitável em uma certa

extensão, e até mesmo moralmente e intencionalmente justificável pelo interesse da paz na

Terra. Da mesma forma, todavia, nossa atitude deve ser definida pela aceitação dos fatos

biológicos e psicológicos, renunciando a qualquer interpretação dos seus desvios

psicológicos carregada moral e emocionalmente. Ao nos responsabilizarmos por esse

trabalho, nós devemos considerar o bem da sociedade com sendo supremo. Apesar disso, nós

não devemos abandonar nossa atitude psicoterapêutica e nos privarmos de punir aqueles cuja

culpa não estamos aptos a avaliar. Se esquecêssemos disso, aumentaríamos o risco de ações

incontroladas por parte deles, o que poderia causar uma catástrofe mundial.

Ao mesmo tempo, nós não devemos alimentar medos exagerados; por exemplo, que tais

atividades públicas esclarecedoras irão provocar reações excessivamente dramáticas entre os

patocratas, ou seja, uma onda de crueldade ou suicídio. Não! Esses indivíduos descritos como

psicopatas essenciais, em conjunto com muitos outros portadores de anomalias hereditárias

correlatas, têm elaborado desde a infância um sentimento de serem psicologicamente diferente

dos outros. Revelar essa consciência para eles é menos traumático do que, por exemplo,

sugerir uma anormalidade psicológica para uma pessoa normal. A facilidade com que eles

reprimem o material desagradável do seu campo de consciência os protegerá de reações

violentas.

O que eles podem fazer, se nenhuma ideologia puder mais ser utilizada como uma máscara?

Uma vez que a essência do fenômeno tiver sido cientificamente desmascarada, o resultado

psicológico é sentimento de que o seu papel histórico terminou. Seu trabalho, além disso,

assume um significado criativo historicamente, se o mundo das pessoas normais oferecê-los

uma conciliação sob condições vantajosas sem precedentes. Isso causaria uma desmobilização

geral da patocracia, especialmente nos países onde, praticamente falando, o apoio de uma

ideologia já foi perdido. Essa desmobilização interna que eles tanto temem constitui o segundo

objetivo mais importante.

Uma condição crucial e complemento do trabalho terapêutico deve ser o perdão para os

patocratas, como um produto da compreensão tanto deles quanto dos sinais dos tempos. Isso

deve ser executado por meio de alterações nas leis correspondentes, com base em nossa

compreensão do homem e do processo de gênese do mal que opera dentro das sociedades, o

que irá neutralizar tais processos de forma causal e substituirá as antigas leis “penais”. A

previsão de criação dessa lei não deve ser tratada meramente como uma promessa

psicoterapêutica; ela deve ser preparada cientificamente e então efetivada.