Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 25 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

A expansão da Patocracia

A tendência mundial de olhar para os governantes com uma atitude de adoração tem uma

longa tradição, desde os tempos antigos, quando os soberanos podiam verdadeiramente

ignorar as opiniões de seus súditos. Contudo, os governantes sempre foram dependentes da

situação econômica e social de seu país, mesmo no passado, e mesmo nos sistemas

patocráticos, e a influência de vários grupos sociais atingiu seus tronos de diversas formas.

Um padrão de erro muito comum é a argumentação de que líderes supostamente autocráticos

de países afetados por essa patocracia possuem poder real de decisão sobre áreas que, de

fato, não possuem. Milhões de pessoas, incluindo ministros e membros do parlamento,

refletem sobre o dilema de saber se tal governante não poderia, sob certas circunstâncias,

modificar suas convicções um pouco e renunciar aos seus sonhos de conquistar o mundo.

Essas pessoas continuam a esperar que esse seja um eventual desfecho. Aqueles com

experiência pessoal em tais sistemas podem tentar persuadi-los de que tais sonhos, embora

decentes, não possuem fundamento na realidade, mas ao mesmo tempo eles sentem uma falta

de argumentos concretos de sua parte. Tal explicação é um fato impossível dentro da esfera

dos conceitos da linguagem psicológica natural; somente uma compreensão objetiva do

fenômeno histórico e de sua natureza anômala permite lançar uma luz sobre as causas da

falsidade permanente desse fenômeno patológico macrossocial.

As ações desse fenômeno afetam uma sociedade inteira, começando com os líderes e se

infiltrando em cada cidade pequena, vila, fábrica, negócio ou fazenda. A estrutura patológica

social cobre gradualmente o país inteiro, criando uma “nova classe” dentro da nação. Essa

classe privilegiada de anômalos se sente permanentemente ameaçada pelos “outros”, isto é,

pela maioria das pessoas normais. Nem mesmo os patocratas nutrem qualquer ilusão sobre a

existência, em seu destino pessoal, de um retorno para o sistema das pessoas normais.

Uma pessoa normal privada do privilégio de uma posição elevada buscará encontrar e

executar algum trabalho que a permitirá ganhar a vida. Mas os patocratas nunca possuem

quaisquer possibilidades residuais para se adaptarem às demandas do trabalho normal. Se as

leis do homem normal forem reinstituídas, eles e os seus pares poderão estar sujeitos a

julgamento, incluindo uma interpretação moralizante de seus desvios psicológicos. Eles

seriam ameaçados com a perda da liberdade e da vida, e não somente uma perda de posição e

privilégios. Uma vez que são incapazes de tal tipo de sacrifício, a sobrevivência de um

sistema que é o melhor para eles torna-se um imperativo moral. Tal ameaça deve ser

combatida por meio de toda e qualquer esperteza política e psicológica, implementadas sem

escrúpulos em relação àquelas outras pessoas “de qualidade inferior”, que chegam a

surpreender pela sua depravação.

Em geral, essa nova classe está na posição de purgar os seus líderes se seus comportamentos

colocarem em risco a existência desse sistema. Isso pode ocorrer, particularmente, se a

liderança desejar ir muito além no compromisso com a sociedade das pessoas normais, uma

vez que suas qualificações os tornam essenciais para a produção. Essa situação é uma ameaça

mais direta aos escalões inferiores da elite patocrática do que propriamente aos líderes.

A patocracia sobrevive graças ao sentimento de estar ameaçado pela sociedade das

pessoas normais, assim como também por outros países nos quais várias formas de sistema do homem normal persistem. Para os governantes, permanecer no topo é, então, o problema

clássico de “ser ou não ser”.

Nós podemos então formular uma questão mais cuidadosa: algum dia pode esse sistema

renunciar à expansão política e territorial exterior e se contentar com as suas posses

presentes? O que aconteceria se tal estado de coisas garantisse a paz interna, a ordem

correspondente, e uma prosperidade relativa dentro da nação? A maioria impressionante da

população do país faria o uso aprimorado de todas as possibilidades emergentes, tirando

vantagem de suas qualificações superiores para lutar por um escopo cada vez maior de

atividades; graças à maior taxa de natalidade, seu poder aumentaria . Essa maioria se ligaria a

alguns filhos das classes privilegiadas que não herdaram os genes patológicos. O domínio da

patocracia seria enfraquecido imperceptivelmente, mas de forma contínua, finalmente levando

a uma situação onde a sociedade das pessoas normais chega ao poder. Essa é uma visão de

pesadelo para os psicopatas.

Assim, a destruição biológica, psicológica, moral e econômica da maioria das pessoas

normais torna-se, para os psicopatas, uma necessidade “biológica”. Muitos meios servem

para esse fim, começando com campos de concentração e incluindo a guerra com um inimigo

bem armado, obstinado, que destruirá e debilitará o poder humano jogado sobre ele,

especialmente aquele poder que amedronta os governos patocratas: os filhos das pessoas

normais, enviados para lutar por uma “causa nobre” ilusória. Uma vez que estejam mortos, os

soldados serão então decretados heróis a serem reverenciados em hinos de triunfo, que são

úteis na criação de uma nova geração fiel à patocracia e sempre disposta a encarar a morte

para protegê-la.

Qualquer guerra travada por uma nação patocrática tem duas frentes, a interna e a externa. A

frente interna é mais importante para os líderes e para a elite governante, e a ameaça interna é

o fator decisivo relacionado ao desencadeamento da guerra. Ao ponderar se devem ou não

iniciar uma guerra contra um país patocrático, as outras nações precisam levar em

consideração o fato de que tal guerra pode ser utilizada como um algoz contra as pessoas

normais cujo poder crescente representa um risco incipiente à patocracia. Afinal de contas, os

patocratas dão pouca atenção ao sangue e ao sofrimento das pessoas que eles consideram não

ser da mesma espécie. Os reis podem ter sofrido devido à morte de seus cavaleiros, mas os

patocratas nunca: “Nós temos um monte de gente aqui”. Caso esta situação seja consumada em

tal nação, contudo, qualquer um que ofereça assistência será abençoado por ela; qualquer um

que a negue será amaldiçoado.

A patocracia tem outras razões internas para aspirar ao expansionismo, através de todos os

meios possíveis. Enquanto aquele “outro” mundo governado pelos sistemas dos homens

normais existir, ele induzirá um certo senso de direção para a maioria não-patológica. A

maioria não-patológica da população do país nunca irá parar de sonhar com a restauração do

sistema do homem normal, em qualquer forma possível. Essa maioria nunca cessará de

observar outros países, esperando pelo momento oportuno. Sua atenção e poder devem

portanto ser desviados dessa proposta, e as massas devem ser “educadas” e canalizadas na

direção das aspirações imperialistas. Esse objetivo deve ser perseguido obstinadamente, de

forma que todos saibam pelo que estão lutando e em nome de quem a disciplina implacável e a pobreza devem ser suportadas. O último fator – criar condições de pobreza e provação –

limita efetivamente a possibilidade de atividades “subversivas” por parte da sociedade das

pessoas normais.

A ideologia deve, é claro, fornecer a justificativa correspondente para esse direito

pressuposto de conquistar o mundo e deve, portanto, ser elaborada adequadamente. O

expansionismo deriva da natureza mesma da patocracia, não da ideologia, mas esse fato deve

ser mascarado pela ideologia. Todas as vezes que esse fenômeno foi testemunhado na história,

o imperialismo sempre foi sua qualidade mais demonstrativa.

Do outro lado, existem países com governos de homens normais, nos quais a impressionante

maioria das sociedades estremece só de pensar que um sistema similar poderia ser imposto

sobre elas. Por isso os governos de tais nações fazem tudo o que podem, dentro da estrutura de

suas possibilidades e de seu entendimento do fenômeno, para conter sua expansão. Os

cidadãos daqueles países soltariam suspiros de alívio se algum movimento substituísse esse

sistema malévolo e incompreensível por um método de governo mais humano e mais

facilmente entendido, com o qual a coexistência pacífica seria possível.

Tais países empreendem assim vários meios de ação com esse propósito, e a qualidade

destes meios depende da possibilidade de entendimento daquela outra realidade. Tais

esforços ressoam dentro do país, e o poder militar dos países de homens normais limita as

possibilidades de manobras armadas das patocracias. Enfraquecer aqueles países que

poderiam possivelmente se colocar contrários à patocracia, especialmente pelo uso de uma

reação despertada pela mesma em alguns de seus cidadãos com deficiências, torna-se

novamente uma questão de sobrevivência da patocracia.

Os fatores econômicos constituem uma parte não negligenciada da motivação para essa

tendência expansionista. Uma vez que as funções gerenciais foram tomadas pelos indivíduos

com inteligência medíocre e traços de caráter patológico, a patocracia se torna incapaz de

administrar qualquer coisa de forma apropriada. A área que sofre com maior gravidade é

sempre aquela que requer uma pessoa que aja independentemente, que não perca tempo

buscando o modo apropriado de se comportar. A agricultura é dependente das mudanças das

condições climáticas e do surgimento de pragas e de doenças. As qualidades pessoais de um

fazendeiro têm sido um fator essencial de sucesso nessa área, por muitos séculos. A

patocracia, desta forma, traz invariavelmente o racionamento de comida.

Contudo, muitos países com sistemas do homem normal são abundantemente suficientes em

produtos industriais, e experimentam problemas com o excedente de alimentos durante

recessões econômicas temporárias, mesmo que seus cidadãos de forma alguma trabalhem em

excesso. A tentação de dominar tais países e sua prosperidade, esse motivo imperialista

perene, torna-se cada vez mais forte na patocracia. A prosperidade recolhida da nação

conquistada pode ser explorada por um tempo, com os cidadãos sendo forçados a trabalhar

duro por uma remuneração baixíssima. Nesse momento, não passa pela cabeça o fato de que a

introdução de um sistema patocrático dentro de tal país eventualmente causará as mesmas

condições de falta de produtividade; afinal de contas, o desvio psicológico, por definição,

indica uma perda de autoconhecimento nessa área. Infelizmente, a idéia de conquistar países

ricos também motiva as mentes de muitos companheiros pobres não-patológicos que sofrem sob a patocracia, mas sem entender porque, e que gostariam de usar essa oportunidade para

pegar alguma coisa para eles e comer sua parte de boa comida.

Como tem sido o caso por séculos, o poder militar é logicamente o principal meio para

alcançar esses fins. Através dos séculos, no entanto, sempre que a história registrou o

aparecimento do fenômeno da patocracia (sem levar em consideração o disfarce ideológico

que a encobriu), medidas específicas de influência também se tornaram aparentes: alguma

coisa como uma inteligência específica a serviço da intriga internacional, facilitando a

conquista. Essa qualidade é derivada das características de personalidade que inspiram o

fenômeno como um todo. Isso deve servir como dado para os historiadores identificarem esse

tipo de fenômeno através da história.

As pessoas com personalidades especificamente suscetíveis, por conta de desvios, existem

em qualquer lugar no mundo. Mesmo uma patocracia distante evoca nelas uma resposta

ressonante, trabalhando no sentimento latente de que “lá existe um lugar para as pessoas como

nós”. Pessoas não críticas, frustradas e abusadas também existem em qualquer lugar, e pode

ser alcançadas por uma propaganda apropriadamente elaborada. O futuro de uma nação é

fortemente dependente de quantas dessas pessoas ela contém. Graças ao seu conhecimento

psicológico específico e à sua convicção de que as pessoas normais são ingênuas, uma

patocracia é capaz de aprimorar as suas técnicas “anti-psicoterapêuticas” e, patologicamente

egotística como de costume, insinuar seu mundo de conceitos deficientes para os outros em

outros países, tornando-os suscetíveis à conquista e à dominação.

Os métodos mais freqüentemente utilizados incluem os métodos paralógicos e conversivos,

tais como a projeção das qualidades e intenção de uma pessoa sobre as outras, sobre grupos

sociais ou nações, a indignação paramoral e o bloqueio reverso. Esse último método é o

favorito dos patocratas, utilizado em larga escala, direcionando as mentes das pessoas

medianas para um beco sem saída porque, como resultado, faz com que elas busquem pela

verdade no meio termo entre a realidade e o seu oposto.

Nós devemos apontar que embora vários trabalhos na área da psicopatologia contenham as

descrições de muitas desses métodos quase-hipocríticos, falta um resumo geral, urgentemente

necessário, que preencha as lacunas observadas. Seria tão melhor se as pessoas e os governos

dos países do homem normal pudessem tirar vantagem de tal trabalho e agissem como um

psicólogo experiente, observando as reprovações amontoadas sobre eles no curso da

projeção, girando em torno de declarações cujo caráter indica o bloqueio reverso. Um pouco

de cosmética analítica produziria assim uma lista de baixo custo das intenções do império

patocrático.

A lei tem se tornado a medida do que é certo dentro de países com sistemas humanos

normais. Nós nos esquecemos freqüentemente de quão imperfeita uma criação da mente

humana realmente é, e de como é dependente de formulações baseadas em dados que os

legisladores podem entender. Na teoria do direito nós aceitamos sua natureza regulatória

como um dado e consequentemente aceitamos que, em certos casos, suas atividades podem

não ser tão coexistentes à realidade humana. Entendido isso, a lei fornece suporte

insuficiente para reagir a um fenômeno cujo caráter reside fora das possibilidades de

imaginação do legislador. Pelo contrário: a patocracia sabe como tirar vantagem das fraquezas desse modo legalista de pensamento.

Apesar disso, essas ações internas do fenômeno macrossocial e sua expansão externa são

baseadas em dados psicológicos. Desta forma, independentemente do modo como estes dados

são deformados dentro das personalidades dos patocratas, a sua astúcia é muito superior aos

sistemas legais das pessoas normais. Isso torna a patocracia o sistema social do futuro,

embora na forma de uma caricatura.

Consequentemente, o futuro dos homens normais pertence a sistemas sociais que são

baseados em uma compreensão aprimorada do homem em todas as suas variações

psicológicas. A evolução nessa direção pode, dentre outras coisas, garantir uma grande

resistência aos métodos expansionistas que esse fenômeno macrossocial utiliza em seu

objetivo de dominar o mundo.