Ponerologia: Psicopatas no Poder
A expansão da Patocracia
A tendência mundial de olhar para os governantes com uma atitude de adoração tem uma
longa tradição, desde os tempos antigos, quando os soberanos podiam verdadeiramente
ignorar as opiniões de seus súditos. Contudo, os governantes sempre foram dependentes da
situação econômica e social de seu país, mesmo no passado, e mesmo nos sistemas
patocráticos, e a influência de vários grupos sociais atingiu seus tronos de diversas formas.
Um padrão de erro muito comum é a argumentação de que líderes supostamente autocráticos
de países afetados por essa patocracia possuem poder real de decisão sobre áreas que, de
fato, não possuem. Milhões de pessoas, incluindo ministros e membros do parlamento,
refletem sobre o dilema de saber se tal governante não poderia, sob certas circunstâncias,
modificar suas convicções um pouco e renunciar aos seus sonhos de conquistar o mundo.
Essas pessoas continuam a esperar que esse seja um eventual desfecho. Aqueles com
experiência pessoal em tais sistemas podem tentar persuadi-los de que tais sonhos, embora
decentes, não possuem fundamento na realidade, mas ao mesmo tempo eles sentem uma falta
de argumentos concretos de sua parte. Tal explicação é um fato impossível dentro da esfera
dos conceitos da linguagem psicológica natural; somente uma compreensão objetiva do
fenômeno histórico e de sua natureza anômala permite lançar uma luz sobre as causas da
falsidade permanente desse fenômeno patológico macrossocial.
As ações desse fenômeno afetam uma sociedade inteira, começando com os líderes e se
infiltrando em cada cidade pequena, vila, fábrica, negócio ou fazenda. A estrutura patológica
social cobre gradualmente o país inteiro, criando uma “nova classe” dentro da nação. Essa
classe privilegiada de anômalos se sente permanentemente ameaçada pelos “outros”, isto é,
pela maioria das pessoas normais. Nem mesmo os patocratas nutrem qualquer ilusão sobre a
existência, em seu destino pessoal, de um retorno para o sistema das pessoas normais.
Uma pessoa normal privada do privilégio de uma posição elevada buscará encontrar e
executar algum trabalho que a permitirá ganhar a vida. Mas os patocratas nunca possuem
quaisquer possibilidades residuais para se adaptarem às demandas do trabalho normal. Se as
leis do homem normal forem reinstituídas, eles e os seus pares poderão estar sujeitos a
julgamento, incluindo uma interpretação moralizante de seus desvios psicológicos. Eles
seriam ameaçados com a perda da liberdade e da vida, e não somente uma perda de posição e
privilégios. Uma vez que são incapazes de tal tipo de sacrifício, a sobrevivência de um
sistema que é o melhor para eles torna-se um imperativo moral. Tal ameaça deve ser
combatida por meio de toda e qualquer esperteza política e psicológica, implementadas sem
escrúpulos em relação àquelas outras pessoas “de qualidade inferior”, que chegam a
surpreender pela sua depravação.
Em geral, essa nova classe está na posição de purgar os seus líderes se seus comportamentos
colocarem em risco a existência desse sistema. Isso pode ocorrer, particularmente, se a
liderança desejar ir muito além no compromisso com a sociedade das pessoas normais, uma
vez que suas qualificações os tornam essenciais para a produção. Essa situação é uma ameaça
mais direta aos escalões inferiores da elite patocrática do que propriamente aos líderes.
A patocracia sobrevive graças ao sentimento de estar ameaçado pela sociedade das
pessoas normais, assim como também por outros países nos quais várias formas de sistema do homem normal persistem. Para os governantes, permanecer no topo é, então, o problema
clássico de “ser ou não ser”.
Nós podemos então formular uma questão mais cuidadosa: algum dia pode esse sistema
renunciar à expansão política e territorial exterior e se contentar com as suas posses
presentes? O que aconteceria se tal estado de coisas garantisse a paz interna, a ordem
correspondente, e uma prosperidade relativa dentro da nação? A maioria impressionante da
população do país faria o uso aprimorado de todas as possibilidades emergentes, tirando
vantagem de suas qualificações superiores para lutar por um escopo cada vez maior de
atividades; graças à maior taxa de natalidade, seu poder aumentaria . Essa maioria se ligaria a
alguns filhos das classes privilegiadas que não herdaram os genes patológicos. O domínio da
patocracia seria enfraquecido imperceptivelmente, mas de forma contínua, finalmente levando
a uma situação onde a sociedade das pessoas normais chega ao poder. Essa é uma visão de
pesadelo para os psicopatas.
Assim, a destruição biológica, psicológica, moral e econômica da maioria das pessoas
normais torna-se, para os psicopatas, uma necessidade “biológica”. Muitos meios servem
para esse fim, começando com campos de concentração e incluindo a guerra com um inimigo
bem armado, obstinado, que destruirá e debilitará o poder humano jogado sobre ele,
especialmente aquele poder que amedronta os governos patocratas: os filhos das pessoas
normais, enviados para lutar por uma “causa nobre” ilusória. Uma vez que estejam mortos, os
soldados serão então decretados heróis a serem reverenciados em hinos de triunfo, que são
úteis na criação de uma nova geração fiel à patocracia e sempre disposta a encarar a morte
para protegê-la.
Qualquer guerra travada por uma nação patocrática tem duas frentes, a interna e a externa. A
frente interna é mais importante para os líderes e para a elite governante, e a ameaça interna é
o fator decisivo relacionado ao desencadeamento da guerra. Ao ponderar se devem ou não
iniciar uma guerra contra um país patocrático, as outras nações precisam levar em
consideração o fato de que tal guerra pode ser utilizada como um algoz contra as pessoas
normais cujo poder crescente representa um risco incipiente à patocracia. Afinal de contas, os
patocratas dão pouca atenção ao sangue e ao sofrimento das pessoas que eles consideram não
ser da mesma espécie. Os reis podem ter sofrido devido à morte de seus cavaleiros, mas os
patocratas nunca: “Nós temos um monte de gente aqui”. Caso esta situação seja consumada em
tal nação, contudo, qualquer um que ofereça assistência será abençoado por ela; qualquer um
que a negue será amaldiçoado.
A patocracia tem outras razões internas para aspirar ao expansionismo, através de todos os
meios possíveis. Enquanto aquele “outro” mundo governado pelos sistemas dos homens
normais existir, ele induzirá um certo senso de direção para a maioria não-patológica. A
maioria não-patológica da população do país nunca irá parar de sonhar com a restauração do
sistema do homem normal, em qualquer forma possível. Essa maioria nunca cessará de
observar outros países, esperando pelo momento oportuno. Sua atenção e poder devem
portanto ser desviados dessa proposta, e as massas devem ser “educadas” e canalizadas na
direção das aspirações imperialistas. Esse objetivo deve ser perseguido obstinadamente, de
forma que todos saibam pelo que estão lutando e em nome de quem a disciplina implacável e a pobreza devem ser suportadas. O último fator – criar condições de pobreza e provação –
limita efetivamente a possibilidade de atividades “subversivas” por parte da sociedade das
pessoas normais.
A ideologia deve, é claro, fornecer a justificativa correspondente para esse direito
pressuposto de conquistar o mundo e deve, portanto, ser elaborada adequadamente. O
expansionismo deriva da natureza mesma da patocracia, não da ideologia, mas esse fato deve
ser mascarado pela ideologia. Todas as vezes que esse fenômeno foi testemunhado na história,
o imperialismo sempre foi sua qualidade mais demonstrativa.
Do outro lado, existem países com governos de homens normais, nos quais a impressionante
maioria das sociedades estremece só de pensar que um sistema similar poderia ser imposto
sobre elas. Por isso os governos de tais nações fazem tudo o que podem, dentro da estrutura de
suas possibilidades e de seu entendimento do fenômeno, para conter sua expansão. Os
cidadãos daqueles países soltariam suspiros de alívio se algum movimento substituísse esse
sistema malévolo e incompreensível por um método de governo mais humano e mais
facilmente entendido, com o qual a coexistência pacífica seria possível.
Tais países empreendem assim vários meios de ação com esse propósito, e a qualidade
destes meios depende da possibilidade de entendimento daquela outra realidade. Tais
esforços ressoam dentro do país, e o poder militar dos países de homens normais limita as
possibilidades de manobras armadas das patocracias. Enfraquecer aqueles países que
poderiam possivelmente se colocar contrários à patocracia, especialmente pelo uso de uma
reação despertada pela mesma em alguns de seus cidadãos com deficiências, torna-se
novamente uma questão de sobrevivência da patocracia.
Os fatores econômicos constituem uma parte não negligenciada da motivação para essa
tendência expansionista. Uma vez que as funções gerenciais foram tomadas pelos indivíduos
com inteligência medíocre e traços de caráter patológico, a patocracia se torna incapaz de
administrar qualquer coisa de forma apropriada. A área que sofre com maior gravidade é
sempre aquela que requer uma pessoa que aja independentemente, que não perca tempo
buscando o modo apropriado de se comportar. A agricultura é dependente das mudanças das
condições climáticas e do surgimento de pragas e de doenças. As qualidades pessoais de um
fazendeiro têm sido um fator essencial de sucesso nessa área, por muitos séculos. A
patocracia, desta forma, traz invariavelmente o racionamento de comida.
Contudo, muitos países com sistemas do homem normal são abundantemente suficientes em
produtos industriais, e experimentam problemas com o excedente de alimentos durante
recessões econômicas temporárias, mesmo que seus cidadãos de forma alguma trabalhem em
excesso. A tentação de dominar tais países e sua prosperidade, esse motivo imperialista
perene, torna-se cada vez mais forte na patocracia. A prosperidade recolhida da nação
conquistada pode ser explorada por um tempo, com os cidadãos sendo forçados a trabalhar
duro por uma remuneração baixíssima. Nesse momento, não passa pela cabeça o fato de que a
introdução de um sistema patocrático dentro de tal país eventualmente causará as mesmas
condições de falta de produtividade; afinal de contas, o desvio psicológico, por definição,
indica uma perda de autoconhecimento nessa área. Infelizmente, a idéia de conquistar países
ricos também motiva as mentes de muitos companheiros pobres não-patológicos que sofrem sob a patocracia, mas sem entender porque, e que gostariam de usar essa oportunidade para
pegar alguma coisa para eles e comer sua parte de boa comida.
Como tem sido o caso por séculos, o poder militar é logicamente o principal meio para
alcançar esses fins. Através dos séculos, no entanto, sempre que a história registrou o
aparecimento do fenômeno da patocracia (sem levar em consideração o disfarce ideológico
que a encobriu), medidas específicas de influência também se tornaram aparentes: alguma
coisa como uma inteligência específica a serviço da intriga internacional, facilitando a
conquista. Essa qualidade é derivada das características de personalidade que inspiram o
fenômeno como um todo. Isso deve servir como dado para os historiadores identificarem esse
tipo de fenômeno através da história.
As pessoas com personalidades especificamente suscetíveis, por conta de desvios, existem
em qualquer lugar no mundo. Mesmo uma patocracia distante evoca nelas uma resposta
ressonante, trabalhando no sentimento latente de que “lá existe um lugar para as pessoas como
nós”. Pessoas não críticas, frustradas e abusadas também existem em qualquer lugar, e pode
ser alcançadas por uma propaganda apropriadamente elaborada. O futuro de uma nação é
fortemente dependente de quantas dessas pessoas ela contém. Graças ao seu conhecimento
psicológico específico e à sua convicção de que as pessoas normais são ingênuas, uma
patocracia é capaz de aprimorar as suas técnicas “anti-psicoterapêuticas” e, patologicamente
egotística como de costume, insinuar seu mundo de conceitos deficientes para os outros em
outros países, tornando-os suscetíveis à conquista e à dominação.
Os métodos mais freqüentemente utilizados incluem os métodos paralógicos e conversivos,
tais como a projeção das qualidades e intenção de uma pessoa sobre as outras, sobre grupos
sociais ou nações, a indignação paramoral e o bloqueio reverso. Esse último método é o
favorito dos patocratas, utilizado em larga escala, direcionando as mentes das pessoas
medianas para um beco sem saída porque, como resultado, faz com que elas busquem pela
verdade no meio termo entre a realidade e o seu oposto.
Nós devemos apontar que embora vários trabalhos na área da psicopatologia contenham as
descrições de muitas desses métodos quase-hipocríticos, falta um resumo geral, urgentemente
necessário, que preencha as lacunas observadas. Seria tão melhor se as pessoas e os governos
dos países do homem normal pudessem tirar vantagem de tal trabalho e agissem como um
psicólogo experiente, observando as reprovações amontoadas sobre eles no curso da
projeção, girando em torno de declarações cujo caráter indica o bloqueio reverso. Um pouco
de cosmética analítica produziria assim uma lista de baixo custo das intenções do império
patocrático.
A lei tem se tornado a medida do que é certo dentro de países com sistemas humanos
normais. Nós nos esquecemos freqüentemente de quão imperfeita uma criação da mente
humana realmente é, e de como é dependente de formulações baseadas em dados que os
legisladores podem entender. Na teoria do direito nós aceitamos sua natureza regulatória
como um dado e consequentemente aceitamos que, em certos casos, suas atividades podem
não ser tão coexistentes à realidade humana. Entendido isso, a lei fornece suporte
insuficiente para reagir a um fenômeno cujo caráter reside fora das possibilidades de
imaginação do legislador. Pelo contrário: a patocracia sabe como tirar vantagem das fraquezas desse modo legalista de pensamento.
Apesar disso, essas ações internas do fenômeno macrossocial e sua expansão externa são
baseadas em dados psicológicos. Desta forma, independentemente do modo como estes dados
são deformados dentro das personalidades dos patocratas, a sua astúcia é muito superior aos
sistemas legais das pessoas normais. Isso torna a patocracia o sistema social do futuro,
embora na forma de uma caricatura.
Consequentemente, o futuro dos homens normais pertence a sistemas sociais que são
baseados em uma compreensão aprimorada do homem em todas as suas variações
psicológicas. A evolução nessa direção pode, dentre outras coisas, garantir uma grande
resistência aos métodos expansionistas que esse fenômeno macrossocial utiliza em seu
objetivo de dominar o mundo.