Ponerologia: Psicopatas no Poder
Psicologia
Nos anos de 1870, um evento muito impetuoso ocorreu: uma busca pela verdade escondida
sobre a natureza humana foi iniciada, como um movimento secular, baseado no progresso da
medicina e da biologia, de forma que este conhecimento teve seu início na esfera material.
Desde o início, muitos pesquisadores tinham uma visão do grande papel futuro desta ciência
para o bem da paz e da ordem. Contudo, ao relegar o conhecimento anterior à esfera
espiritual, tal abordagem da personalidade humana foi necessariamente unilateral. Pessoas
como Ivan Pavlov,[ 11 ] C. G. Jung[ 12 ] e outros, logo notaram esta parcialidade e tentaram
chegar a uma síntese. A Pavlov, contudo, não foi permitido declarar publicamente suas
convicções.
A psicologia é a única ciência na qual o observador e o observado pertencem à mesma
espécie, e às vezes são até a mesma pessoa em um ato de introspecção. É fácil, então, que
erros subjetivos sejam introduzidos no processo racional de pensamento da pessoa que utiliza
imagens comuns e hábitos individuais. Este erro cria um círculo vicioso, como um cachorro
que corre atrás do próprio rabo, originando problemas decorrentes da falta de distância entre
o observador e o observado, uma dificuldade inexistente em outras disciplinas.
Algumas pessoas, tais como os behavioristas,[ 13 ] tentaram, a todo custo, evitar o mesmo
erro. No processo, eles empobreceram os conteúdos do conhecimento em tal extensão que
restou muito pouco material. Contudo, eles produziram uma disciplina de pensamento muito
produtiva. Com muita freqüência, o progresso foi elaborado por pessoas simultaneamente
direcionadas por ansiedades internas e pela busca de um método para ordenar suas próprias
personalidades pelo caminho do conhecimento e do autoconhecimento. Se estas ansiedades
fossem causadas por um defeito na criação, então a superação destas dificuldades daria
origem a excelentes descobertas. Contudo, se a causa de tais ansiedades residisse na natureza
humana, então o resultado seria uma tendência permanente de deformar o entendimento do
fenômeno psicológico. Dentro desta ciência, o progresso é, infelizmente, muito dependente
dos valores individuais e da natureza dos seus profissionais. É também dependente do clima
social. Sempre que uma sociedade torna-se escravizada por outras ou pelas regras de uma
classe nativa excessivamente privilegiada, a psicologia é a primeira disciplina que sofre
censuras e incursões da parte de um corpo administrativo, que acaba dando a última palavra
sobre o que representa a verdade científica.
Graças ao trabalho de excelentes precursores, contudo, a disciplina científica existe e
continua a se desenvolver, apesar de todas as dificuldades; é útil para a vida em sociedade.
Muitos pesquisadores preenchem as lacunas desta ciência com dados detalhados que
funcionam como fatores de correção à subjetividade e imprecisão dos famosos pioneiros. Os
males da infância de qualquer nova disciplina persistem, incluindo uma falta de ordem geral e
de síntese, assim como persiste a tendência de fragmentação em escolas individuais, que
esclarecem sobre certas conquistas teóricas e práticas, ao custo de se limitarem em outras
áreas.
Ao mesmo tempo, no entanto, descobertas de natureza prática são colhidas para o bem das
pessoas que necessitam de ajuda. As observações diretas, fornecidas pelo trabalho diário dos
terapeutas no campo, são mais úteis na formação da compreensão científica e no desenvolvimento da linguagem da psicologia contemporânea do que qualquer experimento
acadêmico ou deliberações empreendidas em laboratório. Afinal de contas, a vida mesma
providencia condições variadas, sejam confortáveis ou trágicas, que sujeitam os indivíduos
humanos a experimentos tais, que nenhum cientista em laboratório algum poderia jamais
proporcionar. Este livro mesmo existe por causa de estudos de campo, de experimentos
desumanos aplicados a nações inteiras.
A experiência ensina a mente de um psicólogo a como rastrear, rápida e efetivamente, a vida
de outra pessoa, descobrindo as causas que condicionaram o desenvolvimento de sua
personalidade e comportamento. Nossas mentes podem, então, reconstruir tais fatores que
tiveram influência sobre esta pessoa, embora ela mesma esteja alheia a eles. Ao fazê-lo, nós
não utilizamos, como regra, a estrutura natural de conceitos comumente referida como “senso
comum”, que se baseia na opinião pública e de muitos indivíduos. Ao contrário, usamos
categorias que são tão objetivas quanto nos seja possível conseguir. Os psicólogos utilizam a
linguagem conceitual com descrições de fenômenos que são independentes de qualquer
imaginação comum, e isso é uma ferramenta indispensável para a atividade prática. Na
prática, contudo, ela geralmente se torna mais uma gíria clínica do que a linguagem científica
diferenciada que deveríamos adotar. Uma analogia pode ser traçada entre esta linguagem
conceitual da psicologia e os símbolos matemáticos. Muito freqüentemente, uma simples letra
grega permanece por várias páginas de operações matemáticas, a qual é instantaneamente
reconhecida pelos matemáticos.