Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo VIII - Patocracia e religião
PATOCRACIA E RELIGIÃO
A FÉ MONOTEÍSTA ATINGE O PENSADOR CONTEMPORÂNEO principalmente como uma indução
incompleta derivada do conhecimento ontológico sobre as leis que governam a vida material,
orgânica e psicológica, tanto do micro como do macrocosmo; bem como um resultado de
certos encontros acessíveis por meio de introspecção. O resto complementa essa indução por
meio de itens que o homem recebe por outros meios e aceita de forma individual ou de acordo
com as doutrinas de sua religião e credo. Uma voz sem som e sem palavras desperta
inconscientemente nossas associações, alcança nossa consciência na quietude da mente e
complementa ou repreende nossa cognição; esse fenômeno é tão plenamente verdadeiro quanto
tudo que tem se tornado acessível à ciência graças aos métodos de investigação modernos.
Ao aperfeiçoarmos nossa cognição no campo psicológico e alcançarmos verdades
antigamente disponíveis somente aos místicos, nós passamos a estreitar cada vez mais o
espaço de ignorância que até recentemente separava os reinos da percepção espiritual e da
ciência material. Algum dia, em um futuro não muito distante, essas duas cognições se
encontrarão e certas divergências se tornarão autoevidentes. Seria melhor então se
estivéssemos preparados para isso. Quase desde o início de minhas deliberações sobre a
gênese do mal eu estive consciente do fato de que os resultados da investigação, apresentados
de modo sucinto nesse trabalho, podem ser utilizados para posteriormente completar esse
espaço que é de entrada tão difícil para a mente humana.
A abordagem ponerológica lança uma nova luz sobre as questões antigas até agora reguladas
pelas doutrinas de sistemas morais, e deve necessariamente levar a uma revisão nos métodos
de pensamento. Como um cristão, o autor estava inicialmente apreensivo que isso causasse
conflitos perigosos com a tradição antiga. Estudar a questão à luz das Escrituras fez com que
essas apreensões fossem gradualmente desaparecendo. Pelo contrário, este parece ser o
caminho para trazer nossos processos de pensamento mais próximos daquele método original
e primário de perceber o conhecimento moral. De forma muito característica, a leitura dos
Evangelhos pode proporcionar ensinamentos claramente convergentes com o método de
compreensão do mal, derivado de investigações naturais em sua origem. Ao mesmo tempo nós
devemos prever que o processo de correção e conformação será trabalhoso e levará tempo, o
que no final das contas evitará provavelmente qualquer tumulto maior.
A religião é um fenômeno eterno. Uma imaginação algumas vezes excessivamente ativa
complementaria, de início, qualquer coisa com que a percepção esotérica não pudesse lidar.
Uma vez que a civilização e sua disciplina concomitante de pensamento atingem um certo
nível de desenvolvimento, uma idéia monoteísta tende a surgir, geralmente como uma
convicção de uma certa elite mental. Tal desenvolvimento no pensamento religioso pode ser
considerado mais uma lei histórica do que uma descoberta individual de pessoas como
Zaratustra ou Sócrates. A marcha do pensamento religioso através da história constitui um fator indispensável à formação da consciência humana.
A aceitação das verdades básicas da religião abre para o homem um campo inteiro de
cognição possível, onde sua mente pode procurar pela verdade. Nesse ponto, nós também nos
libertamos de certos impedimentos psicológicos e ganhamos certa liberdade de conhecimento
em áreas acessíveis à percepção naturalista. Redescobrir os valores verdadeiros, antigos, e
religiosos nos fortalece, mostrando-nos o sentido da vida e da história. Isso também facilita a
nossa aceitação introspectiva dos fenômenos dentro de nós, para os quais a percepção
naturalista se mostra insuficiente. Paralelo ao nosso autoconhecimento, nós também
desenvolvemos a habilidade de compreender as outras pessoas, graças à aceitação da
existência de uma realidade análoga, dentro no nosso próximo.
Esses valores se tornam inestimáveis sempre que um homem é obrigado a um esforço mental
máximo e a deliberações profundas na ação, de forma a evitar a queda para o mal, o perigo ou
dificuldades excepcionais. Se não há possibilidade de apreender uma situação completamente,
mas apesar disso deve ser encontrada uma saída para si mesmo, para a família ou para a
nação, nós seremos realmente afortunados se pudermos ouvir aquela voz silenciosa dentro de
nós dizendo “Não faça isso” ou “acredite em mim, faça isso”.
Nós poderíamos assim dizer que esse conhecimento e essa fé, que apóiam simultaneamente
nossa mente e multiplicam nossa força espiritual, constituem a única base para a
sobrevivência e resistência em situações nas quais uma pessoa ou nação está ameaçada pelos
produtos da ponerogênese, os quais não podem ser medidos nas categorias da visão de mundo
natural. Essa é a opinião de muitos justos. Nós não podemos contradizer o valor básico de tal
convicção, mas se ela leva a um tratamento orgulhoso da ciência objetiva nessa área e
reforça o egotismo da visão de mundo natural, as pessoas que a mantêm não estão a par do
fato de que não estão mais agindo de boa fé.
Nenhuma grande religião indica a natureza do fenômeno patológico macrossocial; portanto
não podemos considerar as doutrinas religiosas como uma base específica para a superação
dessa grande doença histórica. A religião não é nem um soro específico, nem um antibiótico
etiotropicamente ativo em relação ao fenômeno da patocracia. Embora ela constitua um fator
regenerativo da força espiritual dos indivíduos e das sociedades, as verdades religiosas não
contêm o conhecimento naturalista específico que é essencial para entender a patologia do
fenômeno, e que é simultaneamente um fator curativo e de geração de resistência para as
personalidades humanas. Ao contrário, a fé religiosa e o fenômeno da patocracia estão, de
fato, em diferentes níveis de realidade, sendo o último mais terreno. Isso também explica
porque não pode haver um conflito verdadeiro sobre o fenômeno macrossocial patológico
entre a religião e o conhecimento ponerológico.
Se basearmos a defesa de nossa sociedade e o seu tratamento, no que diz respeito às
influências destrutivas da patocracia, apenas sobre os valores religiosos mais verdadeiros,
teremos uma reminiscência da atitude de curar uma doença insuficientemente compreendida,
exclusivamente por medidas que fortalecem o corpo e a alma. Tal terapia geral pode fornecer
resultados satisfatórios em muitos casos, mas se mostrará insuficiente em outros. Essa
doença macrossocial pertence à última categoria.
O fato de que esse fenômeno patocrático, que se espalhou e alcançou a mais ampla escala na história humana, demonstre hostilidade a qualquer e toda religião não implica na conclusão de
que ele seja contrário à religião. Essa dependência seria estruturada diferentemente sob outras
condições históricas contemporâneas. À luz dos dados históricos, parece óbvio que os
sistemas religiosos também sucumbiram aos processos ponerogênicos e manifestaram
sintomas de uma doença similar.
A base específica para curar nosso mundo doente, que é também um fator curativo para
restaurar as capacidades de raciocínio completo às personalidades humanas, deve
consequentemente ser o tipo de ciência que torna evidente a essência do fenômeno e o
descreve em uma linguagem suficientemente objetiva. A resistência à aceitação de tal
conhecimento é sempre justificada pela motivação religiosa. Ela é amplamente causada pelo
egotismo da visão de mundo natural em sua tradicional sobrevalorização de valores próprios
e medo de desintegração, e deve ser construtivamente superada.
***
O fenômeno patocrático apareceu muitas vezes na história, alimentando de forma parasitária
vários movimentos sociais, deformando suas estruturas e ideologias de um jeito característico.
Consequentemente, ele deve ter se deparado com vários sistemas religiosos e com uma
variedade de antecedentes históricos e culturais. Duas possibilidades básicas para uma
relação entre esse fenômeno e um sistema religioso podem ser exemplificadas. A primeira
ocorre quando a associação religiosa mesma sucumbe à infecção e ao processo ponerogênico,
que leva ao desenvolvimento dos fenômenos mencionados dentro de si. A segunda
possibilidade ocorre se uma patocracia se desenvolve como um parasita dentro de algum
movimento social cuja característica é secular e política, o que deve inevitavelmente levar a
um conflito com as organizações religiosas.
No primeiro caso a associação religiosa sucumbe para a destruição por uma força interna,
seu organismo se torna subordinado a objetivos completamente diferentes da idéia original, e
a sua teosofia e os seus valores morais cedem a uma deformação característica, servindo
assim como um disfarce para a dominação por indivíduos patológicos. A idéia religiosa então
se torna tanto uma justificativa para o uso da força e do sadismo contra os não crentes,
hereges e feiticeiros como um narcótico para a consciência das pessoas que colocam tais
inspirações em execução.
Qualquer um que critique tal estado de coisas é condenado com indignação paramoral,
supostamente em nome da idéia original e da fé em Deus, mas não porque ele realmente sinta e
pense dentro das categorias das pessoas normais. Tal sistema retém o nome da religião
original e muitos outros nomes específicos, jurando pelas barbas do profeta, enquanto usa isso
para sua língua dupla. Algo que deveria originalmente ser uma ajuda para a compreensão da
verdade de Deus agora castiga as nações com a espada do imperialismo.
Quando tais fenômenos forem de longa permanência, essas pessoas que retiveram sua fé nos
valores religiosos condenarão tal estado de coisas, apontando suas amplas divergências da
verdade. Elas o farão, infelizmente, sem entender a natureza e as causas do fenômeno
patológico, isto é, nas categorias morais, cometendo assim o erro perverso com o qual já
estamos familiarizados. Elas devem tirar vantagem de alguma situação geopolítica condescendente para protestar sobre esse estado de coisas, desligando-se do sistema original
e criando várias seitas e denominações.
Esse tipo de desligamento pode ser considerado uma consequência característica de
qualquer infecção do movimento por essa doença, seja ele religioso ou secular. O conflito
religioso, por causa disto, assume o caráter de separações políticas, dando origem a uma
guerra entre os vários crentes do mesmo Deus.
Como nós sabemos, esse estado se desenvolve lentamente para uma fase dissimulativa, logo
que o rancor humano começa a se exaurir; contudo, essa forma permanecerá por muito mais
tempo do que a alimentação da patocracia em um movimento secular. Os indivíduos humanos
não podem facilmente conter o processo inteiro dentro do seu quadro de referências, uma vez
que tal estado atravessa muitas gerações. A sua crítica, portanto, estará limitada às questões
com as quais eles estão diretamente familiares. No entanto, isso dá origem a uma frente de
pressão gradual, mas não coordenada, de pessoas razoáveis, instigando desse modo algum
tipo de evolução dentro de qualquer grupo assim produzido. Tal evolução ajudará na
reativação dos valores religiosos originais ou na superação das deformações.
Se esse processo alcança seus objetivos finais depende de duas condições: Se a idéia
original foi contaminada por algum fator patológico desde o início, o objetivo não é
alcançável. Se ele é atingível, nossa aproximação assintomática nos colocará em uma posição
onde a eliminação definitiva dos efeitos da doença superada requer uma visão objetiva de sua
essência e história. Caso contrário, é impossível eliminar as deformações patológicas
remanescentes que sobreviveriam como uma porta aberta para uma contaminação renovada.
Alguns grupos religiosos podem ter sido iniciados por pessoas que eram portadores de
certas anomalias psicológicas. Uma atenção particular deve ser concentrada sobre as
caracteropatias amplamente paranóicas e sobre o seu papel de instigar novas fases de
ponerogênese, já discutido anteriormente. Para tais pessoas, o mundo da experiência humana
normal (incluindo a experiência religiosa) sucumbe à deformação. A propaganda de si mesmo
e de outros facilmente se segue, imposta sobre as outras pessoas por meio do egotismo
patológico. Nós podemos observar seitas cristãs marginais nos dias de hoje, cujo início foi,
sem sombra de dúvida, dessa natureza.
Se uma religião que posteriormente se divide em numerosas variações doutrinais tem esse
começo, os processos regenerativos acima mencionados, executados pelo senso comum
saudável, ocasionarão um ponto de avanço que os ministros dessa religião perceberão como
uma ameaça à sua existência. A proteção de sua própria fé e de sua posição social causará,
assim, o emprego de meios violentos contra qualquer um que ouse criticar ou provocar a
liberalização. O processo patológico começa outra vez. Esse é o estado de coisas que nós
talvez estejamos testemunhando hoje.
Contudo, o mero fato de que algumas associações religiosas sucumbiram ao processo de
ponerização não constitui prova de que a gnose ou a visão original estivessem contaminadas
desde o início por erros que abriram a porta para a invasão de fatores patológicos, ou que ela
tenha um efeito na influência deles. De fato, para as portas serem abertas à infecção por
fatores patológicos e progressiva degeneração posterior, basta que esse movimento religioso
sucumba à contaminação algum tempo depois na sua história, ou seja, como um resultado de influência excessiva da parte dos arquétipos estrangeiros, inicialmente da civilização secular,
ou de compromissos com os objetivos dos governantes do país.
Este sumário sucinto repete os meus exemplos de causas e leis do curso do processo
ponerogênico, dessa vez em relação aos grupos religiosos. Diferenças importantes devem ser
ressaltadas, no entanto. As associações religiosas estão entre as estruturas sociais mais
resistentes e de longa duração do ponto de vista histórico. O processo ponerogênico em tal
grupo executa seu curso em uma janela de tempo muito maior. Com efeito, o homem
necessita tanto da religião que cada grupo religioso, desde que seja numeroso o suficiente,
conterá uma grande quantidade de pessoas normais (geralmente a maioria) que não se tornam
desencorajadas e formam um braço inibidor do processo de ponerização. O equilíbrio da fase
dissimulativa é também vantajoso para aquelas pessoas cujos sentimentos humanos e
religiosos são normais. Apesar de tudo, gerações isoladas podem ter a impressão de que o
estado observado representa sua característica permanente e essencial, incluindo os erros que
elas não podem aceitar.
Nós devemos então propor a seguinte questão: pode a ação mais constante e mais sensível,
baseada na visão de mundo natural e nas reflexões moral e teológica, em algum momento
eliminar completamente os efeitos do processo ponerogênico que foi há muito tempo
superado?
Com base na experiência obtida junto a pacientes individuais, um psicoterapeuta duvidaria
dessa possibilidade. As consequências da influência dos fatores patológicos podem somente
ser definitivamente liquidadas se uma pessoa se tornar ciente de que foi o objeto de sua
atividade. Tal método de correção cuidadosa dos detalhes pode parecer similar ao trabalho
feito por um restaurador de arte que decide não remover todas as camadas de tinta e revelar o
trabalho original do mestre no todo mas, ao contrário, retém e conserva umas pequenas falhas
de correção para a posteridade.
Mesmo contra o pano de fundo condicional de que o tempo favorece o processo de
cicatrização, tais esforços para desatar os nós, um a um, baseados na visão de mundo natural,
somente levam à interpretação moralizante dos efeitos dos fatores patológicos
incompreendidos, com a consequência do pânico e a tendência à fuga para um lado
aparentemente seguro. O organismo do grupo religioso, desta forma, irá reter algum focos
dormentes da doença, que pode se tornar ativa sob certas condições que a permitam.
Nós devemos entender que seguir o caminho da percepção naturalista do processo de gênese
do mal, atribuindo a “falha” proporcional à influência de vários fatores patológicos, pode
aliviar a nossa mente do fardo representado pelos resultados perturbadores de uma
interpretação moralizante do seu papel na ponerogênese. Isso também permite uma
identificação mais detalhada dos resultados de sua operação, bem como sua eliminação
definitiva. A linguagem objetiva mostra-se não somente como a mais precisa e econômica
para se trabalhar, mas também mais segura como uma ferramenta de ação quando lidamos com
situações difíceis e assuntos delicados.
Tal solução, mais precisa e consistente, para um problema herdado de séculos de ignorância
ponerológica é possível sempre que uma dada religião representa uma corrente de gnose e
fé que foi originalmente autêntica o suficiente. Uma abordagem corajosa para consertar as condições causadas por processos ponéricos perceptíveis no presente, ou pela perseverança
contínua dos sobreviventes de tais estados que estão longe no passado, demanda tanto a
aceitação dessa nova ciência como a convicção clara da verdade e ciência básica originais.
Caso contrário, as dúvidas irão bloquear qualquer intenção desse tipo por meio de um medo
insuficientemente objetivado, mesmo que tenham sido reprimidas profundamente no
subconsciente. Nós devemos estar convencidos de que a Verdade pode suportar tal limpeza
nesse detergente moderno; não somente não haverá perda dos valores eternos para a
religião, mas haverá uma recuperação verdadeira de seu vigor e de suas cores nobres
originais.
Com relação à segunda situação mencionada, quando o processo ponerogênico que levou à
patocracia tiver afetado algum movimento político e secular, a situação da religião em tal país
pode ser completamente diferente. A polarização das atitudes em relação à religião torna-se
então inevitável. A organização social religiosa não pode ajudar, exceto ao assumir uma
atitude crítica, tornando-se um suporte para a oposição por parte da sociedade das pessoas
normais. Isso, por sua vez, leva o movimento afetado por esse fenômeno a uma atitude ainda
mais intolerante em relação à religião. Tal situação coloca a religião de uma dada sociedade
frente ao fantasma da destruição física.
Sempre que a patocracia emerge em um processo autônomo, significa que os sistemas
religiosos que dominam o país não foram hábeis para evitá-la a tempo.
Como regra, as organizações religiosas de um dado país têm influência suficiente sobre a
sociedade para serem capazes de se opor ao mal nascente, se agirem com coragem e com a
razão. Se elas não o podem fazer, é por resultado ou da fragmentação e rixa entre várias
denominações ou da corrupção interna dentro do sistema religioso. Como resultado, as
organizações religiosas toleraram longamente e até mesmo inspiraram de forma acrítica o
desenvolvimento da patocracia. Essa fraqueza se torna mais tarde a causa dos desastres da
religião.
No caso de uma patocracia infectada artificialmente, a responsabilidade solidária do
sistema religioso pode ser menor, embora ainda, no geral, seja concreta. Justifica-se
inocentar o sistema religioso de um país da culpa pelo estado de coisas se a patocracia foi
imposta pela força. Condições específicas surgem nessa situação: as organizações religiosas
têm a posição defensiva moralmente mais forte, são capazes de aceitar perdas materiais e
podem também experimentar o seu próprio processo de recuperação.
Os patocratas podem ser capazes de utilizar os meios brutais e primitivos para combater a
religião, mas é muito difícil para eles atacar a essência das convicções religiosas. Sua
propaganda mostra-se excessivamente primitiva e ocasiona os fenômenos familiares de
imunização ou resistência por parte das pessoas normais, com o resultado final sendo o
oposto da reação moral pretendida. Os patocratas somente podem utilizar a força bruta para
destruir a religião se sentirem a sua fraqueza. O princípio de “dividir e conquistar” pode ser
utilizado se existirem várias denominações com uma longa história de inimizade, mas os
efeitos de tais medidas são geralmente efêmeros e podem levar à união entre as denominações.
O conhecimento prático específico coletado pela sociedade das pessoas normais sob um
domínio patocrático, juntamente com o fenômeno de imunização psicológica, começam a exercer seu próprio efeito característico sobre a estrutura das denominações religiosas. Se
algum sistema religioso sucumbe à infecção ponerogênica durante sua história, os efeitos e a
sobrevivência contínua dessa infecção permanecem nele por séculos. Como já foi
demonstrado, remediar esta situação por meio de reflexões morais e filosóficas implica em
dificuldades psicológicas específicas. Mas sob um domínio patocrático, apesar do abuso
sofrido por tal organização religiosa, os anticorpos específicos desta organização são
transferidos, curando as sobrevivências ponerogênicas.
Tal processo específico auxilia na libertação das estruturas religiosas daquelas deformações
causadas pela operação dos fatores patológicos que nos são familiares. Uma vez que o
aparecimento da patocracia em várias formas, durante a história humana, sempre foi resultado
de erros humanos que abriram a porta para o fenômeno patológico, é preciso também
olharmos o outro lado da moeda. Nós devemos entender isso à luz daquela lei subestimada,
quando o efeito de uma estrutura causal particular tem um significado teleológico próprio.
Seria, contudo, altamente vantajoso para esse processo de recuperação se ele fosse
acompanhado por uma ciência maior da natureza dos fenômenos, a qual também age de forma
similar em termos do desenvolvimento da imunidade psicológica e da cura das personalidades
humanas. Tal ciência poderia também auxiliar na elaboração de planos de ação mais seguros e
mais eficazes.
Se os indivíduos e os grupos que acreditam em Deus forem capazes de aceitar uma
compreensão objetiva dos fenômenos patológicos macrossociais, especialmente esse mais
perigoso, a consequência natural revelará que existe uma certa separação das problemáticas
religiosa e ponerológica, que qualitativamente ocupam planos diferentes da realidade. A
atenção da Igreja pode então se voltar para questões ligadas à relação do homem com Deus,
uma área que é a vocação das igrejas. Por outro lado, a resistência aos fenômenos
ponerológicos e sua cobertura mundial deve ser largamente assumida por instituições políticas
e científicas cujas ações são baseadas em uma compreensão naturalista da gênese e da
natureza do mal. Tal separação de obrigações nunca pode ser muito consistente, uma vez que a
gênese do mal inclui a participação das falhas humanas morais, e superá-las com base em
premissas religiosas tem sido a responsabilidade das associações religiosas, desde sempre.
Algumas religiões e denominações sujeitas ao domínio patocrático são forçadas, pelas
circunstâncias, a se tornarem excessivamente envolvidas nas questões convencionalmente
relacionadas à política ou até mesmo em esforços econômicos. Isso é necessário tanto para
proteger a existência mesma da organização religiosa como para auxiliar os fiéis amigos ou
outros cidadãos que estejam sofrendo abuso. É importante, contudo, evitar que esse estado de
coisas se torne permanente na figura do hábito e da tradição, uma vez que isso tornaria mais
difícil a reversão posterior para o governo dos homens normais.
Apesar das diferenças existentes de convicção e tradição, a base para o esforço cooperativo
por parte das pessoas de boa vontade deverá conter essa convergência característica entre os
preceitos dos Evangelhos Cristãos (e outras religiões monoteístas) e a visão ponerológica da
gênese do mal, conforme as conclusões que deduzimos. Os fiéis de várias religiões e
denominações, de fato, acreditam no mesmo Deus e no momento estão ameaçados pelo mesmo
fenômeno patológico macrossocial. Isso cria dados suficientes para permitir uma busca por cooperação em realizações cujo valor é tão óbvio.
CAPÍTULO IX