Ponerologia: Psicopatas no Poder
Linguagem Objetiva
Nas categorias de objetividade psicológica, conhecimento e pensamento são baseados nos
mesmos princípios lógicos e metodológicos já considerados como sendo as melhores
ferramentas em muitas outras áreas das ciências naturais. As exceções a essas regras têm se
tornado uma tradição para nós e para as criaturas similares a nós, mas que acabam por
produzir mais erros do que utilidade. Ao mesmo tempo, contudo, a aderência consistente a
esses princípios, e a rejeição de limitações científicas adicionais nos leva em direção a um
horizonte maior, a partir do qual é possível vislumbrar uma causalidade sobrenatural .
Aceitar a existência de tais fenômenos dentro da personalidade humana torna-se uma
necessidade, se nossa linguagem de conceitos psicológicos for permanecer dentro de uma
estrutura objetiva.
Ao afirmar sua própria personalidade, o homem tem a tendência a reprimir do campo de sua
consciência quaisquer associações que indiquem um condicionante causal externo da sua
visão de mundo e comportamento. As pessoas mais jovens, em particular, querem acreditar
que escolhem livremente suas intenções e decisões; contudo, ao mesmo tempo, um psicólogo
analista experiente pode rastrear as condições causais dessas escolhas sem muita dificuldade.
Muito desse condicionamento está encoberto dentro de nossa infância; as memórias podem se
afastar na distância, mas nós carregamos os resultados das nossas primeiras experiências
conosco, por toda a nossa vida.
Quanto maior o nosso entendimento da causalidade da personalidade humana, mais forte
será a impressão que a humanidade é uma parte da natureza e da sociedade, sujeita a
dependências que estamos sempre mais hábeis para entender. Superando a nostalgia humana,
nós podemos então especular se não há realmente espaço para um escopo de liberdade, para
u m Purusha.[ 14 ] Quanto maior o progresso feito por nós na arte de entender as causas
humanas, mais hábeis estaremos para liberar a pessoa que confia em nós dos efeitos tóxicos
do condicionamento, o qual abafa desnecessariamente sua liberdade de compreensão própria
e de tomada de decisão. Nós estamos, então, em uma posição de cerrar fileiras com nosso
paciente, na busca da melhor saída para seus problemas. Se sucumbirmos à tentação de usar a
estrutura natural de conceitos psicológicos para este objetivo, nosso aconselhamento soará
similar aos muitos pronunciamentos não-produtivos que ele já deve ter ouvido e que, de fato,
nunca conseguiram ajudá-lo a se livrar de seu problema.
A visão de mundo – cotidiana, habitual, psicológica, social e moral – é um produto do
processo de desenvolvimento do homem dentro da sociedade, sob a influência constante de
traços inatos. Entre estes traços inatos estão a fundação instintiva e filogeneticamente
determinada da espécie humana, e a educação dada pela família e pelo ambiente. Nenhuma
pessoa pode se desenvolver sem ser influenciada por outras pessoas e por suas
personalidades, ou sem a influência dos valores imbuídos provenientes de sua civilização e de
suas tradições morais e religiosas. É por isso que a visão de mundo natural dos seres humanos
não pode nem ser suficientemente universal, nem completamente verdadeira. As diferenças
entre os indivíduos e nações são o produto tanto das disposições herdadas como da
ontogênese[ 15 ] das personalidades.
Desta forma, é significativo que os valores principais dessa visão de mundo natural do homem indiquem similaridades básicas, apesar das grandes divergências de tempo, raça e
civilização. Essa visão de mundo deriva de modo bastante óbvio da natureza das nossas
espécies e da experiência natural das sociedades humanas que atingiram um certo nível
necessário de civilização. Os refinamentos baseados nos valores da literatura ou das reflexões
filosóficas e morais mostram diferenças, mas, falando de forma geral, tendem a aglutinar as
linguagens conceituais naturais de várias civilizações e eras. As pessoas com uma educação
humanística podem, portanto, ficar com a impressão de que atingiram a sabedoria. Nós
devemos também continuar a respeitar a sabedoria daquele “senso comum” derivado da
experiência de vida e de suas respectivas reflexões.
Contudo, um psicólogo consciencioso deve se fazer as seguintes perguntas: mesmo que a
visão de mundo natural tenha sido refinada, ela espelha a realidade com confiabilidade
suficiente? Ou ela somente espelha as percepções da nossa espécie ? Em que extensão nós
podemos depender dela como uma base para a tomada de decisões nas esferas individual,
social e política?
A experiência nos ensina, antes de tudo, que a visão de mundo natural tem tendências
permanentes e características a uma deformação ditada por nossos traços instintivos e
emocionais. Em segundo lugar, nosso trabalho nos expõe a vários fenômenos que não podem
ser entendidos, nem descritos pela linguagem natural apenas. Uma linguagem científica e
objetiva competente para analisar a essência do fenômeno torna-se então uma ferramenta
indispensável. Ela também se mostra similarmente indispensável para um entendimento das
questões apresentadas neste livro.
Agora, depois de termos estabelecido as bases, tentaremos listar as mais importantes
tendências para a distorção da realidade e outras insuficiências da visão natural de mundo do
homem.
Essas funções emocionais, que são um componente natural da personalidade humana, nunca
são completamente apropriadas à realidade que está sendo experimentada. Isso resulta tanto
do nosso instinto como dos erros comuns da nossa criação. Este é o motivo pelo qual a melhor
tradição de pensamento religioso e filosófico sempre aconselhou que se tenha domínio sobre
as emoções, com o objetivo de se atingir uma visão mais precisa da realidade.
A visão de mundo natural é também caracterizada por uma tendência similar, emocional, de
dotar nossas opiniões de julgamento moral, sempre muito negativo, como se para expressar
nossa indignação. É um apelo às tendências que estão profundamente enraizadas na natureza
humana e nos costumes da sociedade. Nós facilmente extrapolamos este método de
compreensão para os casos de manifestações ou comportamentos humanos impróprios, que
são, na verdade, causados por deficiências psicológicas menores. Quando outras pessoas se
comportam de um modo que consideramos ser “mau”, nós tendemos a fazer um julgamento de
má intenção em vez de procurar entender as condições psicológicas que as podem ter
direcionado para este comportamento e as convencido de que estão, na realidade, se
comportando de forma apropriada. Assim, qualquer interpretação moralizante de um fenômeno
psicopatológico menor é errônea e leva meramente a um número excepcional de
conseqüências infelizes, e é por isso que iremos nos referir repetidamente a ela.
Outro defeito da visão de mundo natural é sua falta de universalidade. Em toda sociedade, um certo percentual de pessoas desenvolveu uma visão de mundo um tanto diferente daquela
usada pela maioria. As causas de aberrações são, em qualquer meio, qualitativamente
monolíticas; nós as discutiremos com mais detalhes no capítulo quarto.
Outra deficiência essencial da visão de mundo natural é sua abrangência limitada de
aplicabilidade. A geometria euclidiana foi suficiente para a reconstrução técnica do nosso
mundo e para uma viagem à lua e aos planetas mais próximos. Nós somente necessitamos de
uma geometria cujos axiomas são menos naturais, se atingirmos o interior de um átomo ou se
formos para fora do sistema solar. As pessoas normais não encontram fenômenos para os
quais a geometria euclidiana seja insuficiente. Algumas vezes, durante sua vida, praticamente
toda pessoa se vê diante de problemas com os quais tem que lidar. Uma vez que a
compreensão dos fatores que estão verdadeiramente operando está além da noção dada pela
visão de mundo natural, essa pessoa geralmente apela para a emoção: a intuição e a busca
pela felicidade. Sempre que encontramos uma pessoa cuja visão de mundo individual se
desenvolveu sob a influência de condições não típicas, nós tendemos a lhe transmitir um
julgamento moral, em nome da nossa visão de mundo “mais típica”. Resumindo, sempre que
algum fator psicopatológico não identificado entra em cena, a visão natural de mundo do
homem deixa de ser aplicável.
Indo mais adiante, nós sempre nos encontramos com pessoas sensíveis dotadas de uma visão
de mundo natural bem desenvolvida em relação aos aspectos psicológicos, morais e sociais,
freqüentemente refinada através da influência literária, de deliberações religiosas e de
reflexões filosóficas. Tais pessoas têm a tendência pronunciada de superestimar os valores da
sua visão de mundo, comportando-se como se tais valores fossem uma base objetiva para
julgar os outros. Elas não levam em consideração o fato de que tal sistema de apreensão de
aspectos humanos também pode ser errôneo, uma vez que é insuficientemente objetivo. Vamos
chamar tal atitude de “egotismo da visão de mundo natural”. Até o momento, tem sido o tipo
de egotismo menos pernicioso, sendo meramente uma avaliação exagerada desse método de
compreensão que contém os valores eternos da experiência humana.
Hoje, contudo, o mundo está sendo prejudicado por um fenômeno que não pode ser
entendido, nem descrito através de tal linguagem conceitual natural; este tipo de egotismo
torna-se então um fator perigoso, sufocando a possibilidade de contramedidas objetivas. O
desenvolvimento e a popularização da visão de mundo psicologicamente objetiva pode então
expandir de forma significativa a possibilidade de se lidar com o mal, por meio de ações
sensatas e de contramedidas.
A linguagem objetiva-psicológica, baseada em critérios filosóficos maduros, deve encontrar
os requisitos derivados de seus fundamentos teóricos e ir ao encontro das necessidades da
prática individual e macrossocial. Ela deve ser avaliada totalmente com base nas realidades
biológicas e constituir uma extensão da linguagem conceitual análoga elaborada pelas
ciências naturais antigas, particularmente a medicina. Sua faixa de aplicabilidade deve cobrir
todos aqueles fatos e fenômenos condicionados por fatores biológicos reconhecíveis, para os
quais essa linguagem natural provou-se inadequada. Ela deve, dentro deste sistema, permitir o
entendimento suficiente dos conteúdos, e das causas variadas, para a gênese das visões de
mundo diferente, mencionadas anteriormente.
A elaboração de tal linguagem conceitual, estando bem além do escopo individual de
qualquer cientista, é um trabalho de passo-a-passo; com a contribuição de muitos cientistas,
amadurecendo até o ponto em que possa ser organizada sob a supervisão filosófica à luz dos
princípios acima mencionados. Tal tarefa contribuiria fortemente para o desenvolvimento de
toda as ciências bio-humanísticas e sociais, liberando-as das limitações e tendências errôneas
impostas pela influência demasiada da linguagem natural da imaginação psicológica,
especialmente quando combinada com um componente excessivo de egotismo.
Muitas das questões com as quais lidamos neste livro estão além do escopo de
aplicabilidade da linguagem natural. O quinto capítulo deve lidar com o fenômeno
macrossocial que tornou a nossa linguagem científica tradicional completamente ilusória.
Entender estes fenômenos, portanto, requer uma separação consistente dos hábitos de tal
método de pensamento, e o uso de um sistema de conceitos o mais objetivo possível. Para este
propósito, é necessário desenvolver os conteúdos, organizá-los e torná-los familiares aos
leitores.
Ao mesmo tempo, um exame dos fenômenos cuja natureza determinou o uso de tal sistema
será de grande contribuição para o enriquecimento e aperfeiçoamento do sistema de conceitos
objetivos.
Enquanto trabalhava neste assunto, o autor foi gradualmente se acostumando a compreender
a realidade por meio deste mesmo método, uma forma de pensamento que acabou se tornando
tanto a mais apropriada como a mais econômica em termos de tempo e esforço. Ela também
protege a mente de seu egotismo natural e de quaisquer excessos emocionais.
No curso das investigações acima mencionadas, cada pesquisador experimentou seu próprio
período de crise e frustração, quando se tornou evidente para ele que os conceitos nos quais
ele havia confiado provaram-se claramente inaplicáveis. Ostensivamente, hipóteses corretas
formuladas na linguagem conceitual e natural, cientificamente desenvolvida, tornaram-se
completamente infundadas à luz dos fatos e dos cálculos estatísticos preliminares. Ao mesmo
tempo, a elaboração de conceitos melhor adaptados para a realidade investigada, tornou-se
extremamente complexa: afinal, a chave para as questões reside em uma área científica ainda
em processo de desenvolvimento.
Para sobreviver a esse período foi necessária a aceitação e o respeito por um sentimento de
ignorância, verdadeiramente valioso para um filósofo. Toda ciência nasce em uma área não
habitada por imaginações populares, que devem ser superadas e deixadas para trás. Neste
caso, no entanto, o procedimento tinha que ser excepcionalmente radical; nós tínhamos que nos
aventurar em qualquer área indicada pela análise sistemática dos fatos, os quais observamos e
experimentamos de dentro de uma condição amadurecida do mal macrossocial, guiados pela
luz dos requisitos da metodologia científica. Isso tinha que ser sustentado, apesar das
dificuldades causadas pelas condições externas extraordinárias e pelas nossas próprias
personalidades humanas.
Bem poucos dos muitos que iniciaram este caminho conseguiram chegar ao final, já que
desistiram por diversas razões conectadas a este período de frustração. Alguns deles se
concentraram em uma única questão, sucumbindo a um tipo de fascinação em relação ao seu
valor científico; aprofundaram-se em questões detalhadas. Suas realizações podem estar presentes nesta obra, uma vez que eles entenderam a busca geral do seu trabalho. Outros
desistiram diante dos problemas científicos, das dificuldades pessoais ou por causa do medo
de serem descobertos pelas autoridades, que eram altamente vigilantes nessas matérias.
A leitura atenta deste livro confrontará o leitor com problemas similares, embora em uma
escala muito menor. Ela pode conduzir a uma certa impressão de injustiça, devido à
necessidade de deixar para trás uma porção significativa de nossas conceituações anteriores,
ao sentimento de que nossa visão de mundo natural é inaplicável, e à dispensabilidade de
alguns envolvimentos emocionais. Assim, eu peço aos meus leitores que aceitem esses
sentimentos que os perturbam no espírito do amor ao conhecimento e seus valores redentores.
As explicações acima foram cruciais para transformar a linguagem deste trabalho mais
facilmente compreensível aos leitores. O autor tentou abordar os assuntos descritos aqui de tal
forma que possibilite evitar a perda de contato com o mundo dos conceitos objetivos e não se
tornar incompreensível para qualquer pessoa fora de um círculo estreito de especialistas. Nós
devemos, portanto, implorar ao leitor o perdão por qualquer deslize sobre esta corda tensa
que une os dois métodos de pensamento. Contudo, o autor não seria um psicólogo experiente
se ele não pudesse predizer que alguns leitores rejeitarão os dados científicos fornecidos
dentro deste trabalho, ao sentir que constituem um ataque à sabedoria natural de sua
experiência de vida.