Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 29 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Capítulo VI - Pessoas normais sob o domínio patocrático

PESSOAS NORMAIS SOB

O DOMÍNIO PATOCRÁTICO

 

COMO EXEMPLIFICADO ACIMA, A ANOMALIA distinguida como psicopatia essencial inspira o

fenômeno todo em uma patocracia bem desenvolvida e traz analogias biológicas com o

fenômeno conhecido como Daltonismo, ou incapacidade de ver cores em relação ao verde e

ao vermelho. Com o objetivo de um exercício intelectual, vamos imaginar que os daltônicos

tivessem conseguido tomar o poder em algum país e tivessem proibido os cidadãos de

distinguirem essas cores, eliminando a distinção entre os tomates verdes e os tomates

maduros. Inspetores especiais de vegetais, armados com pistolas e piquetes, iriam patrulhar as

áreas para ter certeza que os cidadãos não estão selecionando somente tomates maduros para

pegar, o que indicaria que eles estariam distinguindo entre o verde e o vermelho. Tais

inspetores não poderiam, é claro, ser eles mesmos totalmente daltônicos (caso contrário eles

não poderiam exercer esta função extremamente importante). Eles não poderiam sofrer mais

do que uma miopia em relação a essas cores. Contudo, eles teriam que pertencer ao grupo de

pessoas que ficam nervosas em qualquer discussão sobre cores.

 

Com tais autoridades próximas, os cidadãos podem até mesmo concordar em comer um

tomate verde e afirmar de maneira totalmente convincente que está maduro. Mas uma vez que

os rígidos inspetores partam para algum outro jardim distante, existirá uma chuva de

comentários que não convém a mim reproduzir em um trabalho científico. Os cidadãos

pegariam os tomates vermelhinhos, fariam uma salada com molho e adicionariam algumas

gotas de rum para dar sabor.

Eu posso prenunciar que todas as pessoas normais, cujo destino as obrigou viver sob um

governo patocrático, serviriam uma salada de acordo com a receita acima como um costume

simbólico. Qualquer convidado que reconhecesse o símbolo por sua cor e aroma se absteria

de fazer quaisquer comentários. Tal costume poderia apressar a reinstalação de um sistema do

homem normal.

As autoridades patológicas estão convencidas de que os meios pedagógicos apropriados, as

doutrinações, a propaganda e o terrorismo podem ensinar uma pessoa que possui um substrato

instintivo normal, uma cadeia de sentimentos e uma inteligência básica, a pensar e sentir de

acordo com o seu próprio costume diferente. Esta convicção é somente um pouco menos

irreal, psicologicamente falando, do que a crença de que as pessoas capazes de ver as cores

podem normalmente ter esse hábito quebrado.

Na verdade as pessoas normais não podem se desfazer das características com as quais a

espécie homo sapiens foi provida pelo seu passado filogenético. Tais pessoas nunca irão

parar de sentir e de perceber os fenômenos psicológicos e sócio-morais do mesmo modo que

seus ancestrais têm feito por centenas de gerações. Qualquer tentativa de fazer com que a sociedade subjugada pelo fenômeno acima “aprenda” esse modo diferente experimental

imposto pelo egotismo patológico está, em princípio, fadada ao fracasso, independentemente

de quantas gerações isso dure. Ela traz, no entanto, uma série de resultados psicológicos

inapropriados, que podem dar aos patocratas a aparência de sucesso. Contudo, também

provoca a elaboração de medidas de autodefesa detalhadas e bem pensadas pela sociedade,

baseadas nos seus esforços cognitivos e criativos.

A liderança patocrática acredita que pode atingir um estado onde as mentes daquelas

“outras” pessoas se tornem dependentes através dos efeitos da sua personalidade, dos meios

pedagógicos pérfidos, dos meios de desinformação da massa e do terror psicológico; tal

destino tem um significado básico para eles. No seu mundo conceitual, os patocratas

consideram praticamente auto-evidente que os “outros” devem aceitar seu modo óbvio,

realista e simples de apreender a realidade. Por alguma razão misteriosa, no entanto, os

“outros” se esquivam, caem fora e contam piadas entre si sobre os patocratas. Alguém deve

ser responsabilizado por isso: os velhos pré-revolucionários ou alguma estação de rádio no

exterior. Torna-se assim necessário melhorar a metodologia de ação, encontrando

“engenheiros de almas” melhores, com um certo talento literário, e isolando a sociedade da

literatura imprópria e de qualquer influência estrangeira. Essas experiências e intuições

sussurrando que isso é um trabalho de Sísifo[ 74 ] devem ser reprimidas do campo de

consciência do patocrata.

O conflito é dramático para ambos os lados. O primeiro sente-se insultado na sua

humanidade, tornado obtuso e forçado a pensar de forma contrária ao senso comum saudável.

O outro reprime a premonição de que sua meta não pode ser atingida e que, cedo ou tarde, as

coisas se reverterão para o governo do homem normal, incluindo sua falta de compreensão

vingativa das personalidades patocráticas. Assim, se isso não funciona, é melhor não pensar

sobre o futuro e somente prolongar o status quo por meio dos esforços mencionados. Ao final

desse livro será conveniente para nós considerar as possibilidades para desatar esse nó

górdio.

Contudo, tal sistema pedagógico, repleto de limitações e egotizações patológicas, produz

resultados seriamente negativos, especialmente para aquelas gerações que desconhecem outra

condição de vida. O desenvolvimento da personalidade é empobrecido, particularmente em

relação aos valores mais sutis, amplamente aceitos nas sociedades. Nós observamos a falta de

respeito característica para com o próprio organismo e a voz instintiva e natural,

acompanhada pela brutalização de sentimentos e hábitos, que é explicada pela desculpa da

injustiça. A tendência de ser moralmente julgador na interpretação do comportamento

daqueles que causam o sofrimento de alguém algumas vezes leva a uma visão de mundo

demonológica. Ao mesmo tempo, a adaptação e a desenvoltura dentro dessas condições

diferentes se tornam um objeto de cognição.

Uma pessoa, que tenha sido objeto do comportamento egotista de indivíduos patológicos por

um longo período, fica saturada com seu material psicológico característico em tal extensão

que podemos freqüentemente discernir os tipos de anomalias que a afetaram. As

personalidades de ex-internos de campos de concentração são saturadas geralmente com o

material psicológico ingerido dos comandantes do campo e dos torturadores, criando um fenômeno tão comum que, posteriormente, torna-se o motivo principal da busca por

psicoterapia. O fato de estarem cientes disso faz com que seja mais fácil para eles livrar-se

desse fardo e reestabelecer o contato com o mundo humano normal. Em particular, ter à

disposição dados estatísticos apropriados relacionados ao aparecimento da psicopatia em

uma dada população facilita a busca destas pessoas pelo entendimento de seus anos de

pesadelo e a reconstrução da confiança em seus semelhantes.

Esse tipo de psicoterapia poderia ser extremamente útil para aquelas pessoas que mais

necessitam, mas infelizmente ele se mostrou muito arriscado para o psicoterapeuta. Os

pacientes facilmente fazem transferências conectivas, lamentavelmente corretas na maioria das

vezes, entre a informação aprendida durante tal terapia (particularmente na área da psicopatia)

e a realidade que os cerca sob um governo então chamado de “democracia popular”. Os ex-

internos dos campos são infelizmente incapazes de manter o segredo, o que causa a

intervenção por parte das autoridades políticas.

Quando os soldados americanos retornaram dos campos de prisioneiros norte-vietnamitas,

muitos deles mostraram ter sido sujeitos à doutrinação e a outros métodos de influência por

material patológico. Um certo grau de transpersonificação apareceu em muitos deles. Nos

Estados Unidos isso foi chamado de “programação”, e psicoterapeutas excelentes passaram a

fazer terapia com o objetivo de desprogramá-los. O que aconteceu foi que eles se depararam

com oposição e com comentários críticos em relação às suas habilidades, dentre outras

coisas. Quando eu ouvi sobre isso, respirei fundo e pensei: meu Deus, que interessante seria

esse trabalho para um psicoterapeuta que entende bem de tais assuntos.

O mundo patocrático, o mundo do egotismo e do terror patológicos, é tão difícil de ser

entendido pelas pessoas educadas longe da abrangência desse fenômeno que elas

freqüentemente se manifestam como crianças ingênuas, mesmo que tenham estudado

psicopatologia e que sejam psicólogos por profissão. Não há nenhum dado real em seu

comportamento, conselho, repreensão e psicoterapia. Isso explica porque os seus esforços são

entediantes e dolorosos e, com frequência, não dão em nada. Seu egotismo transforma sua boa

vontade em resultados ruins.

Se alguém tiver experimentado pessoalmente tal realidade atemorizante, considerará as

pessoas que não progrediram no entendimento desta, dentro do mesmo período de tempo,

como simplesmente presunçosos e algumas vezes até maliciosos. No curso de sua experiência

e contato com esse fenômeno macrossocial ele coletou uma certa quantidade de conhecimento

prático sobre o fenômeno e sua psicologia, e aprendeu a proteger sua própria personalidade.

Essa experiência, rejeitada sem a menor cerimônia pelas “pessoas que não entendem nada”,

torna-se um fardo psicológico para ele, forçando-o a viver dentro de um círculo estreito de

pessoas cujas experiências foram similares. Tal pessoa deveria, ao contrário, ser tratada

como portadora de um dado científico valioso; entender constituiria ao menos uma

psicoterapia parcial para ele, e simultaneamente abriria a porta para a compreensão da

realidade.

Eu gostaria aqui de lembrar aos psicólogos que esses tipos de experiência e seus efeitos

destruidores sobre a personalidade humana não são desconhecidos da prática e experiência

científica. Nos encontramos freqüentemente com pacientes que necessitam da assistência adequada: indivíduos que cresceram sob a influência de personalidades patológicas,

especialmente psicopatas, que foram forçados pelo egotismo patológico a aceitar um modo de

pensamento anormal. Mesmo uma determinação aproximada do tipo de fatores patológicos que

operaram nestas pessoas nos permite apontar medidas psicoterapêuticas. Na prática, nós

encontramos freqüentemente mais casos onde tal situação patológica operou na personalidade

do paciente durante a primeira infância, e por causa disso devemos utilizar medidas de longo

prazo e trabalhar muito cuidadosamente, utilizando várias técnicas, de forma a ajudá-lo a

desenvolver sua verdadeira personalidade.

As crianças que vivem sob o domínio patocrático dos pais são “protegidas” até a idade

escolar. Então elas se encontram com pessoas normais, decentes, que tentam limitar a

influência destrutiva tanto quanto possível. Os efeitos mais intensos ocorrem durante a

adolescência e no período de tempo posterior, de maturação intelectual, a qual pode ocorrer

com informações fornecidas por pessoas decentes. Isso resgata a sociedade das pessoas

normais de deformações mais profundas no desenvolvimento da personalidade e de uma

neurose generalizada. Esse período permanece dentro da memória persistente e, portanto,

passível de introspecção, reflexão e desilusão. A psicoterapia para essas pessoas consistiria

quase exclusivamente da utilização do conhecimento correto da essência do fenômeno.

Independentemente da escala social dentro da qual os indivíduos humanos foram educados

forçosamente por pessoas patológicas, seja ela individual, grupal, social ou macrossocial, os

princípios da ação psicoterapêutica serão similares e devem se basear em dados conhecidos

por nós e num entendimento da situação psicológica. Fazer com que o paciente fique ciente

dos tipos de fatores patológicos que o afetaram e compreender juntamente os resultados de

tais efeitos é básico para tal terapia. Nós não utilizamos esse método se, em um caso

individual, tivermos indicações de que o paciente herdou esse fator. Contudo, tais limitações

não deveriam ser consistentes em relação a fenômenos macrossociais que afetaram o bem

estar de nações inteiras.