Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo VI - Pessoas normais sob o domínio patocrático
PESSOAS NORMAIS SOB
O DOMÍNIO PATOCRÁTICO
COMO EXEMPLIFICADO ACIMA, A ANOMALIA distinguida como psicopatia essencial inspira o
fenômeno todo em uma patocracia bem desenvolvida e traz analogias biológicas com o
fenômeno conhecido como Daltonismo, ou incapacidade de ver cores em relação ao verde e
ao vermelho. Com o objetivo de um exercício intelectual, vamos imaginar que os daltônicos
tivessem conseguido tomar o poder em algum país e tivessem proibido os cidadãos de
distinguirem essas cores, eliminando a distinção entre os tomates verdes e os tomates
maduros. Inspetores especiais de vegetais, armados com pistolas e piquetes, iriam patrulhar as
áreas para ter certeza que os cidadãos não estão selecionando somente tomates maduros para
pegar, o que indicaria que eles estariam distinguindo entre o verde e o vermelho. Tais
inspetores não poderiam, é claro, ser eles mesmos totalmente daltônicos (caso contrário eles
não poderiam exercer esta função extremamente importante). Eles não poderiam sofrer mais
do que uma miopia em relação a essas cores. Contudo, eles teriam que pertencer ao grupo de
pessoas que ficam nervosas em qualquer discussão sobre cores.
Com tais autoridades próximas, os cidadãos podem até mesmo concordar em comer um
tomate verde e afirmar de maneira totalmente convincente que está maduro. Mas uma vez que
os rígidos inspetores partam para algum outro jardim distante, existirá uma chuva de
comentários que não convém a mim reproduzir em um trabalho científico. Os cidadãos
pegariam os tomates vermelhinhos, fariam uma salada com molho e adicionariam algumas
gotas de rum para dar sabor.
Eu posso prenunciar que todas as pessoas normais, cujo destino as obrigou viver sob um
governo patocrático, serviriam uma salada de acordo com a receita acima como um costume
simbólico. Qualquer convidado que reconhecesse o símbolo por sua cor e aroma se absteria
de fazer quaisquer comentários. Tal costume poderia apressar a reinstalação de um sistema do
homem normal.
As autoridades patológicas estão convencidas de que os meios pedagógicos apropriados, as
doutrinações, a propaganda e o terrorismo podem ensinar uma pessoa que possui um substrato
instintivo normal, uma cadeia de sentimentos e uma inteligência básica, a pensar e sentir de
acordo com o seu próprio costume diferente. Esta convicção é somente um pouco menos
irreal, psicologicamente falando, do que a crença de que as pessoas capazes de ver as cores
podem normalmente ter esse hábito quebrado.
Na verdade as pessoas normais não podem se desfazer das características com as quais a
espécie homo sapiens foi provida pelo seu passado filogenético. Tais pessoas nunca irão
parar de sentir e de perceber os fenômenos psicológicos e sócio-morais do mesmo modo que
seus ancestrais têm feito por centenas de gerações. Qualquer tentativa de fazer com que a sociedade subjugada pelo fenômeno acima “aprenda” esse modo diferente experimental
imposto pelo egotismo patológico está, em princípio, fadada ao fracasso, independentemente
de quantas gerações isso dure. Ela traz, no entanto, uma série de resultados psicológicos
inapropriados, que podem dar aos patocratas a aparência de sucesso. Contudo, também
provoca a elaboração de medidas de autodefesa detalhadas e bem pensadas pela sociedade,
baseadas nos seus esforços cognitivos e criativos.
A liderança patocrática acredita que pode atingir um estado onde as mentes daquelas
“outras” pessoas se tornem dependentes através dos efeitos da sua personalidade, dos meios
pedagógicos pérfidos, dos meios de desinformação da massa e do terror psicológico; tal
destino tem um significado básico para eles. No seu mundo conceitual, os patocratas
consideram praticamente auto-evidente que os “outros” devem aceitar seu modo óbvio,
realista e simples de apreender a realidade. Por alguma razão misteriosa, no entanto, os
“outros” se esquivam, caem fora e contam piadas entre si sobre os patocratas. Alguém deve
ser responsabilizado por isso: os velhos pré-revolucionários ou alguma estação de rádio no
exterior. Torna-se assim necessário melhorar a metodologia de ação, encontrando
“engenheiros de almas” melhores, com um certo talento literário, e isolando a sociedade da
literatura imprópria e de qualquer influência estrangeira. Essas experiências e intuições
sussurrando que isso é um trabalho de Sísifo[ 74 ] devem ser reprimidas do campo de
consciência do patocrata.
O conflito é dramático para ambos os lados. O primeiro sente-se insultado na sua
humanidade, tornado obtuso e forçado a pensar de forma contrária ao senso comum saudável.
O outro reprime a premonição de que sua meta não pode ser atingida e que, cedo ou tarde, as
coisas se reverterão para o governo do homem normal, incluindo sua falta de compreensão
vingativa das personalidades patocráticas. Assim, se isso não funciona, é melhor não pensar
sobre o futuro e somente prolongar o status quo por meio dos esforços mencionados. Ao final
desse livro será conveniente para nós considerar as possibilidades para desatar esse nó
górdio.
Contudo, tal sistema pedagógico, repleto de limitações e egotizações patológicas, produz
resultados seriamente negativos, especialmente para aquelas gerações que desconhecem outra
condição de vida. O desenvolvimento da personalidade é empobrecido, particularmente em
relação aos valores mais sutis, amplamente aceitos nas sociedades. Nós observamos a falta de
respeito característica para com o próprio organismo e a voz instintiva e natural,
acompanhada pela brutalização de sentimentos e hábitos, que é explicada pela desculpa da
injustiça. A tendência de ser moralmente julgador na interpretação do comportamento
daqueles que causam o sofrimento de alguém algumas vezes leva a uma visão de mundo
demonológica. Ao mesmo tempo, a adaptação e a desenvoltura dentro dessas condições
diferentes se tornam um objeto de cognição.
Uma pessoa, que tenha sido objeto do comportamento egotista de indivíduos patológicos por
um longo período, fica saturada com seu material psicológico característico em tal extensão
que podemos freqüentemente discernir os tipos de anomalias que a afetaram. As
personalidades de ex-internos de campos de concentração são saturadas geralmente com o
material psicológico ingerido dos comandantes do campo e dos torturadores, criando um fenômeno tão comum que, posteriormente, torna-se o motivo principal da busca por
psicoterapia. O fato de estarem cientes disso faz com que seja mais fácil para eles livrar-se
desse fardo e reestabelecer o contato com o mundo humano normal. Em particular, ter à
disposição dados estatísticos apropriados relacionados ao aparecimento da psicopatia em
uma dada população facilita a busca destas pessoas pelo entendimento de seus anos de
pesadelo e a reconstrução da confiança em seus semelhantes.
Esse tipo de psicoterapia poderia ser extremamente útil para aquelas pessoas que mais
necessitam, mas infelizmente ele se mostrou muito arriscado para o psicoterapeuta. Os
pacientes facilmente fazem transferências conectivas, lamentavelmente corretas na maioria das
vezes, entre a informação aprendida durante tal terapia (particularmente na área da psicopatia)
e a realidade que os cerca sob um governo então chamado de “democracia popular”. Os ex-
internos dos campos são infelizmente incapazes de manter o segredo, o que causa a
intervenção por parte das autoridades políticas.
Quando os soldados americanos retornaram dos campos de prisioneiros norte-vietnamitas,
muitos deles mostraram ter sido sujeitos à doutrinação e a outros métodos de influência por
material patológico. Um certo grau de transpersonificação apareceu em muitos deles. Nos
Estados Unidos isso foi chamado de “programação”, e psicoterapeutas excelentes passaram a
fazer terapia com o objetivo de desprogramá-los. O que aconteceu foi que eles se depararam
com oposição e com comentários críticos em relação às suas habilidades, dentre outras
coisas. Quando eu ouvi sobre isso, respirei fundo e pensei: meu Deus, que interessante seria
esse trabalho para um psicoterapeuta que entende bem de tais assuntos.
O mundo patocrático, o mundo do egotismo e do terror patológicos, é tão difícil de ser
entendido pelas pessoas educadas longe da abrangência desse fenômeno que elas
freqüentemente se manifestam como crianças ingênuas, mesmo que tenham estudado
psicopatologia e que sejam psicólogos por profissão. Não há nenhum dado real em seu
comportamento, conselho, repreensão e psicoterapia. Isso explica porque os seus esforços são
entediantes e dolorosos e, com frequência, não dão em nada. Seu egotismo transforma sua boa
vontade em resultados ruins.
Se alguém tiver experimentado pessoalmente tal realidade atemorizante, considerará as
pessoas que não progrediram no entendimento desta, dentro do mesmo período de tempo,
como simplesmente presunçosos e algumas vezes até maliciosos. No curso de sua experiência
e contato com esse fenômeno macrossocial ele coletou uma certa quantidade de conhecimento
prático sobre o fenômeno e sua psicologia, e aprendeu a proteger sua própria personalidade.
Essa experiência, rejeitada sem a menor cerimônia pelas “pessoas que não entendem nada”,
torna-se um fardo psicológico para ele, forçando-o a viver dentro de um círculo estreito de
pessoas cujas experiências foram similares. Tal pessoa deveria, ao contrário, ser tratada
como portadora de um dado científico valioso; entender constituiria ao menos uma
psicoterapia parcial para ele, e simultaneamente abriria a porta para a compreensão da
realidade.
Eu gostaria aqui de lembrar aos psicólogos que esses tipos de experiência e seus efeitos
destruidores sobre a personalidade humana não são desconhecidos da prática e experiência
científica. Nos encontramos freqüentemente com pacientes que necessitam da assistência adequada: indivíduos que cresceram sob a influência de personalidades patológicas,
especialmente psicopatas, que foram forçados pelo egotismo patológico a aceitar um modo de
pensamento anormal. Mesmo uma determinação aproximada do tipo de fatores patológicos que
operaram nestas pessoas nos permite apontar medidas psicoterapêuticas. Na prática, nós
encontramos freqüentemente mais casos onde tal situação patológica operou na personalidade
do paciente durante a primeira infância, e por causa disso devemos utilizar medidas de longo
prazo e trabalhar muito cuidadosamente, utilizando várias técnicas, de forma a ajudá-lo a
desenvolver sua verdadeira personalidade.
As crianças que vivem sob o domínio patocrático dos pais são “protegidas” até a idade
escolar. Então elas se encontram com pessoas normais, decentes, que tentam limitar a
influência destrutiva tanto quanto possível. Os efeitos mais intensos ocorrem durante a
adolescência e no período de tempo posterior, de maturação intelectual, a qual pode ocorrer
com informações fornecidas por pessoas decentes. Isso resgata a sociedade das pessoas
normais de deformações mais profundas no desenvolvimento da personalidade e de uma
neurose generalizada. Esse período permanece dentro da memória persistente e, portanto,
passível de introspecção, reflexão e desilusão. A psicoterapia para essas pessoas consistiria
quase exclusivamente da utilização do conhecimento correto da essência do fenômeno.
Independentemente da escala social dentro da qual os indivíduos humanos foram educados
forçosamente por pessoas patológicas, seja ela individual, grupal, social ou macrossocial, os
princípios da ação psicoterapêutica serão similares e devem se basear em dados conhecidos
por nós e num entendimento da situação psicológica. Fazer com que o paciente fique ciente
dos tipos de fatores patológicos que o afetaram e compreender juntamente os resultados de
tais efeitos é básico para tal terapia. Nós não utilizamos esse método se, em um caso
individual, tivermos indicações de que o paciente herdou esse fator. Contudo, tais limitações
não deveriam ser consistentes em relação a fenômenos macrossociais que afetaram o bem
estar de nações inteiras.