Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 15 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Processos e fenômenos ponerogênicos

Seguir a rede espaço-temporal real de ligações causais, qualitativamente complexas, que

ocorrem nos processos ponerogênicos, requer abordagem e experiências apropriadas. O fato

de que os psicólogos encarem, diariamente, múltiplos casos de pessoas com tais imperfeições

ou de vítimas destes, significa que eles estão se tornando, progressivamente, mais aptos no

entendimento e na descrição dos muitos componentes das causas psicológicas. Eles têm

observado realimentações em estruturas causais fechadas. Contudo, essa capacitação, em

alguns casos, prova-se insuficiente para superar nossa tendência humana de nos concentrarmos

em alguns fatos, enquanto ignoramos outros, provocando a sensação desagradável de que a

capacidade de nossa mente para entender a realidade ao nosso redor é ineficiente. Isso explica

a tentação de usar a visão natural de mundo com o objetivo de simplificar a complexidade e

suas implicações, um fenômeno tão comum como a “velha sabedoria” conhecida na psicologia

filosófica da Índia. Tal simplificação exagerada do quadro causal no tocante à gênese do mal,

geralmente para uma única causa facilmente entendida ou para um perpetrador, torna-se, ela

mesma, uma causa nesta gênese.

Com grande respeito para com as deficiências da nossa razão humana, vamos tomar

conscientemente o caminho do meio e usar o processo de abstração, primeiro descrevendo os

fenômenos selecionados e então as cadeias causais características dos processos

ponerogênicos. Tais cadeias podem, então, ser ligadas a estruturas mais complexas, ainda

mais suficientes para assegurar o quadro completo rede causal real. No início, os buracos na

rede serão tão grandes que um cardume de peixes poderia nadar através dela, sem ser

detectado, mas os grandes peixes seriam capturados. Contudo, esse mal do mundo representa

um tipo de sequência contínua, na qual pequenas espécies de mal humano somam-se

efetivamente para a gênese de um grande mal. Transformar essa rede em uma rede mais densa

e preencher os detalhes do quadro parece ser mais fácil, uma vez que as leis ponerogênicas

são análogas no que diz respeito à escala das ocorrências. Nosso senso comum, então, comete

menos erros no nível dos assuntos menores.

Na tentativa de uma observação mais próxima desses processos e fenômenos patológicos

que levam um homem ou uma nação a ferir outra, devemos selecionar fenômenos os mais

característicos possíveis. Nós veremos que a participação de vários fatores patológicos

nesses processos é a regra. A situação onde tal participação não é observada tende a ser uma

exceção.

***

O segundo capítulo resumiu o papel do substrato humano instintivo no desenvolvimento da

nossa personalidade, a formação da visão natural de mundo, e as ligações e estruturas sociais.

Nós também indicamos que nossos conceitos sociais, morais e psicológicos, assim como

também nossas formas naturais de reação, não são adequados para todas as situações com as

quais a vida nos confronta. Geralmente, nós terminamos machucando alguém se agimos de

acordo com nossos conceitos naturais e com nossos arquétipos reativos, em situações que

parecem apropriadas à nossa imaginação, mas que, de fato, são essencialmente diferentes.

Como regra, tais situações diferentes permitem que reações para-apropriadas ocorram por conta de algum fator patológico que dificulta o entendimento ter entrado em cena. Então, o

valor prático da nossa visão natural de mundo termina geralmente onde a psicopatologia

começa.

A familiaridade com essas fraquezas comuns da natureza humana e com a ingenuidade de

uma pessoa normal é parte do conhecimento específico que nós encontramos em muitos

indivíduos psicopatas, assim como em alguns caracteropatas. Propagandistas de várias

escolas tentam provocar tais reações para-apropriadas em outras pessoas, em nome de seus

objetivos específicos, ou a serviço de suas ideologias dominantes. Esse fator patológico

difícil de entender está localizado dentro do propagandista mesmo.

***

Egotismo: chamamos de egotismo a atitude, subconscientemente condicionada como uma

regra, pela qual atribuímos valor excessivo aos nossos reflexos instintivos, às nossas

imaginações e hábitos adquiridos desde muito cedo, e à nossa visão de mundo individual. O

egotismo atrasa a evolução normal da personalidade, porque estimula a dominação da vida

subconsciente e torna difícil aceitar os estados desintegrativos que podem ser muito

proveitosos para o crescimento e desenvolvimento. Esse egotismo e a rejeição da

desintegração, por outro lado, favorecem o aparecimento de reações para-apropriadas como

descrito acima. Um egotista mede as demais pessoas pelos seus próprios parâmetros, tratando

seus conceitos e modos de experiência como critério objetivo. Ele gostaria de forçar as outras

pessoas a sentir e pensar exatamente do mesmo jeito que ele. As nações egotistas têm um

objetivo subconsciente de ensinar ou forçar as demais nações a pensar dentro de suas próprias

categorias, o que faz com que sejam incapazes de entender as outras pessoas e nações, ou de

se tornarem familiares com os valores de suas culturas.

A educação apropriada e a autoeducação, desta forma, sempre ajudam a “de-egotizar” uma

pessoa jovem ou adulta e, com isso, abrem a porta para que a mente e o caráter se

desenvolvam. Os psicólogos práticos, apesar disso, acreditam comumente que uma certa

medida de egotismo é útil como um fator de estabilização da personalidade, prevenindo-a de

desintegrações neuróticas demasiadamente simplistas e, com isso, tornando possível superar

as dificuldades da vida. Apesar disso, existem pessoas fora do comum, cujas personalidades

são muito bem integradas, mesmo sendo quase totalmente desprovidas de egotismo; isso as

permite entender os outros muito facilmente.

O tipo de egotismo excessivo que atrasa o desenvolvimento dos valores humanos e leva a

um julgamento equivocado, e a aterrorizar os outros, merece muito bem o título de “rei das

falhas humanas”. Dificuldades, disputas, problemas sérios e reações neuróticas brotam em

todos que estejam ao redor de tal egotista, tais como cogumelos após a chuva. As nações

egotistas começam a gastar dinheiro e esforços para atingir seus objetivos derivados de seu

raciocínio errôneo e de suas reações exageradamente emocionais. Sua inabilidade em

reconhecer os valores e as diferenças de outras nações, derivadas de outras tradições

culturais, levam ao conflito e à guerra.

Nós podemos diferenciar dois tipos de egotismo: o primário e o secundário. O primeiro vem

de um processo mais natural, a saber, o egotismo natural da criança e os erros em sua criação, que tendem a perpetuar esse egotismo infantil. O segundo ocorre quando uma personalidade

que superou seu egotismo infantil regressa a esse estado sob pressão, o que leva a uma atitude

artificial caracterizada por uma grande agressão e nocividade social. O egotismo excessivo é

uma propriedade constante da personalidade histérica, não importando se sua histeria é

primária ou secundária. É por isso que o aumento no egotismo das nações deve ser atribuído,

antes de mais nada, ao ciclo de histeria descrito acima.

Se analisarmos o desenvolvimento das personalidades excessivamente egotistas, nós sempre

encontraremos algumas causas não-patológicas, tais como ter crescido em um ambiente com

uma rotina exagerada e apertada ou ter sido criada por pessoas menos inteligentes que a

criança. Contudo, a principal razão para o desenvolvimento de uma personalidade

exageradamente egotista em uma pessoa normal é a contaminação, através da indução

psicológica, por pessoas excessivamente egotistas ou histéricas que, por si mesmas,

desenvolveram esta característica sob a influência de várias causas patológicas. Muitas das

anomalias genéticas descritas anteriormente causam o desenvolvimento de personalidades

patologicamente egotistas, dentre outras coisas.

Muitas pessoas com várias anomalias hereditárias e defeitos adquiridos desenvolvem um

egotismo patológico. Para tais pessoas, forçar outros ao seu redor, grupos sociais completos

e, se possível, nações inteiras a sentir e pensar como elas mesmas, torna-se uma necessidade

interna, um conceito dominante. Um jogo, que uma pessoa normal não levaria a sério, pode

tornar-se um objetivo de vida para eles, objeto de esforço, sacrifícios, e estratégia

psicológica perspicaz.

O Egotismo patológico deriva da repressão, do campo de consciência de uma pessoa, de

quaisquer associações autocríticas censuráveis que se refiram à normalidade ou à natureza

própria dessa pessoa. Questões dramáticas como “quem é anormal aqui? eu ou esse mundo de

pessoas que sentem e pensam de forma diferente?” são respondidas desfavorecendo o mundo.

Tal egotismo é sempre ligado a uma atitude dissimulada, com uma máscara de Cleckley sobre

alguma qualidade patológica que está sendo escondida da consciência, tanto a sua própria

como a das outras pessoas. A maior intensidade de tal egotismo pode ser encontrada na

caracteropatia pré-frontal descrita acima.

A importância da contribuição desse tipo de egotismo para a gênese do mal, assim,

dificilmente necessita elaboração. Trata-se de uma influência social, principalmente,

egotizando ou traumatizando os outros que, por sua vez, causam dificuldades posteriores. O

egotismo patológico é um componente constante de estados variados nos quais alguém que

parece ser normal (embora, de fato, não seja tanto assim) é direcionado por motivações ou

que batalha por objetivos que uma pessoa normal consideraria irreais ou improváveis. A

pessoa mediana pode perguntar: “o que ele espera ganhar com isso?”. A opinião do ambiente,

contudo, freqüentemente interpreta tal situação em concordância com o “senso comum” e é,

então, propensa a aceitar uma versão “mais provável” da situação e dos eventos. Tal

interpretação sempre resulta em tragédia humana. Portanto, nós devemos sempre lembrar que

o princípio da lei cui prodest [ 59 ] torna-se ilusório todas as vezes que um fator patológico

entra em cena.

***

Interpretação Moralizante : a tendência em dar uma interpretação moralizante sobre os

fenômenos essencialmente patológicos é um aspecto da natureza humana, cujo substrato

discernível é codificado dentro de nosso instinto específico; em outras palavras, os homens

normalmente falham na diferenciação entre o mal moral e o mal biológico. A moralização

sempre surge, embora em vários graus, de dentro da visão de mundo psicológica natural e

moral, e é por isso que devemos considerar essa tendência um erro permanente da opinião

pública. Nós podemos freá-la com um autoconhecimento elevado, mas superá-la requer

conhecimento específico na área da psicopatologia. As pessoas jovens de círculos de baixa

cultura sempre tendem a tais interpretações (embora ela caracterize também algumas pessoas

tradicionais que cultivam a estética), fato que se intensifica toda vez que nossos reflexos

naturais assumem o controle da razão, ou seja, nos estados histéricos, e em proporção direta à

intensidade do egotismo.

Nós fechamos a porta para a compreensão causal dos fenômenos e abrimo-la para emoções

vingativas e erros psicológicos toda vez que impomos uma interpretação moralista sobre as

falhas e erros do comportamento humano, que são, de fato, amplamente derivados de diversas

influências de fatores patológicos, estejam eles mencionados acima ou não, e que são

freqüentemente obscurecidos em mentes não treinadas nessa área. Nós, com isso, também

permitimos que esses fatores continuem suas atividades ponerogênicas, nos dois casos, dentro

de nós e dos outros. Nada envenena mais a alma humana e nos priva da nossa capacidade de

entender a realidade de forma mais objetiva do que essa obediência à tendência humana

comum de adotar uma visão moralista do comportamento humano.

Falando de forma prática, para dizer o mínimo, cada exemplo de comportamento que fere

seriamente alguma outra pessoa contém, dentro de sua gênese psicopatológica, a influência de

algum fator patológico, dentre outras coisas, é claro. Desta forma, qualquer interpretação das

causas do mal que se limite às categorias morais será uma percepção inapropriada da

realidade. Isso pode levar, falando de forma genérica, a comportamentos errôneos, limitando

nossa capacidade para uma contrarreação aos fatores causais do mal e abrindo a porta para o

desejo de vingança. Com frequência, isso faz com que se acenda uma nova chama nos

processos ponerogênicos. Nós devemos, contudo, considerar a interpretação unilateralmente

moral das origens do mal como errada e imoral em qualquer época. A idéia de superar essa

inclinação humana comum e seus resultados pode ser considerada um motivo moral

entrelaçado na ponerologia.

Se analisarmos as razões pelas quais as pessoas, freqüentemente, usam por demais tais

interpretações emocionalmente carregadas, sempre rejeitando indignadamente uma

interpretação mais correta, nós devemos, é claro, descobrir também fatores patológicos

agindo dentro delas. A intensificação dessa tendência em tais casos é causada pela repressão,

do campo de consciência, de quaisquer conceitos autocríticos relacionados ao seu próprio

comportamento e às suas razões internas. A influência de tais pessoas causa essa tendência de

intensificação em outras.

***

Paramoralismos: a convicção de que valores morais existem e de que algumas ações violam as regras morais é um fenômeno tão comum e antigo que parece ter algum substrato no

nível de dotação instintiva (embora certamente não seja totalmente adequado para a verdade

moral) e que não somente representa séculos de experiência, cultura, religião e socialização.

Assim, qualquer insinuação estruturada em slogans morais será sempre sugestiva, mesmo se os

critérios “morais” utilizados forem simplesmente uma invenção ad hoc. Pode-se provar, desta

forma, que qualquer ato é moral ou imoral, por meio de paramoralismos utilizados como

sugestão ativa, e sempre haverá pessoas cujas mentes sucumbirão a tais raciocínios.

Na busca por um exemplo de um ato mau, cujo valor negativo não daria margem a dúvidas

em qualquer situação social, os estudiosos da ética mencionam freqüentemente o abuso de

crianças. Contudo, os psicólogos sempre encontram afirmações paramorais de tais

comportamentos na prática, como no caso da família mencionada anteriormente, com a

anomalia no campo pré-frontal da filha mais velha. Seus irmãos mais novos insistiam

enfaticamente que o tratamento sádico que a irmã dava ao seu filho era devido às suas

qualificações morais excepcionalmente elevadas, e eles acreditavam nisso por auto-sugestão.

O paramoralismo, de alguma forma, esquiva-se com perspicácia do controle do nosso senso

comum, levando algumas vezes à aceitação ou à aprovação de comportamentos que são

abertamente patológicos.

Declarações e sugestões paramoralistas acompanham vários tipos de mal com tanta

frequência, que parecem totalmente insubstituíveis. Infelizmente, inventar critérios morais

sempre novos, de acordo com a conveniência de alguém, tornou-se um fenômeno freqüente

para indivíduos, grupos de opressão, ou sistemas políticos patológicos. Tais sugestões, com

frequência, privam parcialmente as pessoas do seu raciocínio moral e deformam o

desenvolvimento deste nos mais jovens. Fábricas de paramoralismo têm sido encontradas no

mundo todo e um ponerologista considera difícil de acreditar que elas sejam gerenciadas por

pessoas psicologicamente normais.

As características conversivas na gênese dos paramoralismos parecem provar que eles são

derivados, em sua maioria, da rejeição subconsciente (e repressão do campo de consciência)

de alguma coisa completamente diferente, que nós chamamos de voz da consciência.

Um ponerologista pode, apesar disso, indicar muitas observações para apoiar a opinião de

que vários fatores patológicos participam na tendência ao uso de paramoralismos. Esse foi o

caso na família acima mencionada. Quando isso ocorre com uma interpretação moralizante,

essa tendência se intensifica em egotistas e histéricos, e suas causas são parecidas. Assim

como todos os fenômenos conversivos, a tendência de utilizar paramoralismos é

psicologicamente contagiosa. Isso explica porque nós a observamos entre pessoas criadas por

indivíduos nos quais ela foi desenvolvida ao lado de fatores patológicos.

Este pode ser um bom lugar para refletir se a lei moral verdadeira é criada e existe

independentemente de nossos julgamentos a seu respeito, e até mesmo sobre a nossa

habilidade de reconhecê-la. Dessa forma, a atitude necessária para tal entendimento é

científica, não criativa: nós devemos subordinar humildemente nossa mente à realidade

apreendida. É então que descobrimos a verdade sobre o homem, tanto suas fraquezas como

seus valores, que nos mostra o que é decente e apropriado no tocante às outras pessoas e às

outras sociedades.

***

Bloqueio reversivo: insistir enfaticamente em algo que é o oposto da verdade bloqueia a

mente da pessoa mediana para perceber a verdade. De acordo com os ditados do senso

comum saudável, ela inicia a busca de sentido no “meio termo” entre a verdade e o seu

oposto, terminando com alguma falsificação satisfatória. As pessoas que pensam assim não

percebem que esse efeito é precisamente a intenção de quem os sujeita a esse método. Se a

falsificação da verdade é o oposto de uma verdade moral, ao mesmo tempo, ela representa

simultaneamente um paramoralismo extremo, e carrega seu caráter peculiarmente sugestivo.

Nós raramente vemos esse método sendo utilizado por pessoas normais; mesmo que tenham

sido criadas por pessoas que abusaram dele; geralmente, elas só apresentam os resultados do

método em suas dificuldades características para apreender a realidade adequadamente. O uso

desse método pode ser incluído dentro dos conhecimentos psicológicos especiais

mencionados anteriormente, que são desenvolvidos por psicopatas no tocante às fraquezas da

natureza humana e à arte de levar os outros ao erro. Onde eles governam, esse método é

utilizado com virtuosidade e em uma extensão proporcional ao seu poder.

***

Seleção e substituição de informação: a existência dos fenômenos psicológicos sobre o

subconsciente conhecidos dos estudantes de filosofia pré-Freudianos segue se repetindo. Os

processos psicológicos inconscientes superam o raciocínio consciente, tanto no tempo

como na abordagem, o que torna possível muitos fenômenos psicológicos: incluindo aqueles

genericamente descritos como conversivos, tais como o bloqueio subconsciente das

conclusões, a seleção e, também, a substituição de premissas aparentemente desconfortáveis.

Nós falamos de bloqueio de conclusões se o processo inferencial foi apropriado em

princípio e quase chegou a uma conclusão e compreensão finais dentro do ato de projeção

interna, mas tornou-se frustrada por uma diretiva precedente do subconsciente, que considerou

a conclusão inadequada ou perturbadora. Essa é a prevenção primitiva da desintegração da

personalidade, que pode parecer vantajosa. Contudo, ela também previne todas as vantagens

que poderiam derivar da conclusão e da reintegração elaboradas conscientemente. Uma

conclusão, assim rejeitada, permanece em nosso subconsciente e causa, de uma forma mais

inconsciente, os próximos bloqueios e seleções desse tipo. Isso pode ser extremamente

prejudicial, escravizando progressivamente a pessoa em seu próprio subconsciente, e está

freqüentemente acompanhado de um sentimento de tensão e amargura.

Nós falamos de seleção de premissas sempre que o retorno penetra mais profundamente no

raciocínio resultante e, assim, exclui do seu banco de dados somente aquela parte da

informação que foi responsável pela conclusão desconfortável, reprimindo-a para o

subconsciente. Dessa forma, nosso subconsciente permite o raciocínio lógico posterior, exceto

aquele cujo resultado estará em desacordo, na proporção direta ao significado real da

informação reprimida. Um número sempre crescente de tais informações reprimidas é

coletado em nossa memória subconsciente. Finalmente, um tipo de hábito parece assumir o

comando: todo material similar é tratado da mesma forma, mesmo que o raciocínio leve a um

resultado perfeitamente vantajoso para a pessoa.

O processo mais complexo desse tipo é a substituição de premissas assim eliminadas por

outras informações, garantindo uma conclusão ostensivamente mais confortável. Nossa

habilidade associativa elabora rapidamente um novo item para substituir o que foi removido,

que levará a uma conclusão confortável. Essa operação leva muito tempo e é improvável que

seja exclusivamente subconsciente. Tais substituições são, com frequência, efetuadas

coletivamente, em certos grupos de pessoas, através do uso de comunicação verbal. É por

essa razão que elas se qualificam melhor para o epíteto moralista “hipocrisia” do que

qualquer um dos outros processos descritos acima.

Os exemplos acima de fenômenos conversivos não exaurem o problema ilustrado ricamente

nos trabalhos psicanalíticos. Nosso subconsciente pode portar as raízes do gênio humano

dentro de si, mas sua operação não é perfeita; algumas vezes é uma reminiscência de um

computador cego, especialmente quando permitimos que ele seja entulhado com material

ansiosamente rejeitado. Isso explica porque o monitoramento consciente, mesmo ao preço de

aceitar corajosamente estados desintegrativos, é igualmente necessário à nossa natureza, para

não dizer ao nosso bem individual e social.

Não existe tal coisa, de uma pessoa cujo autoconhecimento perfeito a permite eliminar todas

as tendências em direção ao pensamento conversivo, mas somente pessoas relativamente

próximas desse estado, enquanto outras permanecem escravas desses processos. Aquelas

pessoas que utilizam operações conversivas com muita frequência, com o propósito de

encontrar conclusões convenientes, ou de construir algumas declarações paralógicas ou

paramoralistas perspicazes, começam eventualmente a empreender esse comportamento por

razões cada vez mais triviais, perdendo a capacidade para o controle consciente sobre o seu

processo de pensamento como um todo. Isso leva necessariamente a erros de comportamento,

que serão pagos por outras pessoas tanto quanto por elas mesmas.

As pessoas que perderam sua higiene psicológica e sua capacidade para o pensamento

apropriado ao longo dessa estrada, também perdem suas faculdades críticas naturais em

relação às declarações e comportamentos de indivíduos cujos processos de pensamento

anormal foram formados no substrato das anomalias patológicas, sejam elas herdadas ou

adquiridas. Os hipócritas param de diferenciar entre indivíduos normais e patológicos,

abrindo então uma “entrada para a infecção” para o papel ponerogênico dos fatores

patológicos.

Geralmente, cada comunidade contém pessoas sobre as quais métodos similares de

pensamento foram desenvolvidos em grande escala, com seus vários desvios como um pano

de fundo. Nós encontramos isso tanto nas personalidades caracteropatas como também nas

psicopatas. Algumas têm até sido influenciadas por outras para crescerem acostumadas a tais

raciocínios, uma vez que o pensamento conversivo é altamente contagioso e pode se espalhar

através de uma sociedade inteira. Nos “tempos felizes”, especialmente, a tendência para o

pensamento conversivo geralmente se intensifica. Ela aparece acompanhada por uma onda de

aumento de histeria na dita sociedade. Aqueles que tentam manter o senso comum e o

raciocínio apropriado finalmente terminam como minoria, sentindo-se injustiçados por ter seu

direito humano de manter a higiene psicológica violado por pressões vindas de todos os

lados. Isso significa que tempos infelizes não estão distantes.

Nós deveríamos salientar que os processos de pensamento errôneo descritos aqui, como

regra, também violam as leis da lógica com uma perfídia característica. Educar pessoas na

arte do raciocínio apropriado pode, assim, servir como contramedida a tais tendências; tal

arte possui uma tradição antiga e santificada que não parece ter sido suficientemente efetiva

por séculos. Exemplo: de acordo com as leis da lógica, uma questão contendo uma sugestão

errônea ou não confirmada não tem resposta. Apesar disso, as operações com tais questões

não somente se tornam uma epidemia entre as pessoas com a tendência para o pensamento

conversivo, e uma origem do terror quando usadas por indivíduos psicopatas; elas também

ocorrem entre as pessoas que pensam normalmente, ou mesmo entre aquelas que estudaram a

lógica.

Essa tendência decrescente na capacidade de uma sociedade para o pensamento apropriado

deve ser neutralizada, uma vez que ela também diminui a imunidade aos processos

ponerogênicos. Uma medida efetiva ensinaria as duas coisas, o pensamento apropriado e a

habilidade na detecção dos erros de pensamento. A linha de frente de tal educação deveria ser

expandida, incluindo psicologia, psicopatologia e a ciência descrita aqui, com o objetivo de

formar pessoas que possam detectar facilmente qualquer paralogismo.