Ponerologia: Psicopatas no Poder
Processos e fenômenos ponerogênicos
Seguir a rede espaço-temporal real de ligações causais, qualitativamente complexas, que
ocorrem nos processos ponerogênicos, requer abordagem e experiências apropriadas. O fato
de que os psicólogos encarem, diariamente, múltiplos casos de pessoas com tais imperfeições
ou de vítimas destes, significa que eles estão se tornando, progressivamente, mais aptos no
entendimento e na descrição dos muitos componentes das causas psicológicas. Eles têm
observado realimentações em estruturas causais fechadas. Contudo, essa capacitação, em
alguns casos, prova-se insuficiente para superar nossa tendência humana de nos concentrarmos
em alguns fatos, enquanto ignoramos outros, provocando a sensação desagradável de que a
capacidade de nossa mente para entender a realidade ao nosso redor é ineficiente. Isso explica
a tentação de usar a visão natural de mundo com o objetivo de simplificar a complexidade e
suas implicações, um fenômeno tão comum como a “velha sabedoria” conhecida na psicologia
filosófica da Índia. Tal simplificação exagerada do quadro causal no tocante à gênese do mal,
geralmente para uma única causa facilmente entendida ou para um perpetrador, torna-se, ela
mesma, uma causa nesta gênese.
Com grande respeito para com as deficiências da nossa razão humana, vamos tomar
conscientemente o caminho do meio e usar o processo de abstração, primeiro descrevendo os
fenômenos selecionados e então as cadeias causais características dos processos
ponerogênicos. Tais cadeias podem, então, ser ligadas a estruturas mais complexas, ainda
mais suficientes para assegurar o quadro completo rede causal real. No início, os buracos na
rede serão tão grandes que um cardume de peixes poderia nadar através dela, sem ser
detectado, mas os grandes peixes seriam capturados. Contudo, esse mal do mundo representa
um tipo de sequência contínua, na qual pequenas espécies de mal humano somam-se
efetivamente para a gênese de um grande mal. Transformar essa rede em uma rede mais densa
e preencher os detalhes do quadro parece ser mais fácil, uma vez que as leis ponerogênicas
são análogas no que diz respeito à escala das ocorrências. Nosso senso comum, então, comete
menos erros no nível dos assuntos menores.
Na tentativa de uma observação mais próxima desses processos e fenômenos patológicos
que levam um homem ou uma nação a ferir outra, devemos selecionar fenômenos os mais
característicos possíveis. Nós veremos que a participação de vários fatores patológicos
nesses processos é a regra. A situação onde tal participação não é observada tende a ser uma
exceção.
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O segundo capítulo resumiu o papel do substrato humano instintivo no desenvolvimento da
nossa personalidade, a formação da visão natural de mundo, e as ligações e estruturas sociais.
Nós também indicamos que nossos conceitos sociais, morais e psicológicos, assim como
também nossas formas naturais de reação, não são adequados para todas as situações com as
quais a vida nos confronta. Geralmente, nós terminamos machucando alguém se agimos de
acordo com nossos conceitos naturais e com nossos arquétipos reativos, em situações que
parecem apropriadas à nossa imaginação, mas que, de fato, são essencialmente diferentes.
Como regra, tais situações diferentes permitem que reações para-apropriadas ocorram por conta de algum fator patológico que dificulta o entendimento ter entrado em cena. Então, o
valor prático da nossa visão natural de mundo termina geralmente onde a psicopatologia
começa.
A familiaridade com essas fraquezas comuns da natureza humana e com a ingenuidade de
uma pessoa normal é parte do conhecimento específico que nós encontramos em muitos
indivíduos psicopatas, assim como em alguns caracteropatas. Propagandistas de várias
escolas tentam provocar tais reações para-apropriadas em outras pessoas, em nome de seus
objetivos específicos, ou a serviço de suas ideologias dominantes. Esse fator patológico
difícil de entender está localizado dentro do propagandista mesmo.
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Egotismo: chamamos de egotismo a atitude, subconscientemente condicionada como uma
regra, pela qual atribuímos valor excessivo aos nossos reflexos instintivos, às nossas
imaginações e hábitos adquiridos desde muito cedo, e à nossa visão de mundo individual. O
egotismo atrasa a evolução normal da personalidade, porque estimula a dominação da vida
subconsciente e torna difícil aceitar os estados desintegrativos que podem ser muito
proveitosos para o crescimento e desenvolvimento. Esse egotismo e a rejeição da
desintegração, por outro lado, favorecem o aparecimento de reações para-apropriadas como
descrito acima. Um egotista mede as demais pessoas pelos seus próprios parâmetros, tratando
seus conceitos e modos de experiência como critério objetivo. Ele gostaria de forçar as outras
pessoas a sentir e pensar exatamente do mesmo jeito que ele. As nações egotistas têm um
objetivo subconsciente de ensinar ou forçar as demais nações a pensar dentro de suas próprias
categorias, o que faz com que sejam incapazes de entender as outras pessoas e nações, ou de
se tornarem familiares com os valores de suas culturas.
A educação apropriada e a autoeducação, desta forma, sempre ajudam a “de-egotizar” uma
pessoa jovem ou adulta e, com isso, abrem a porta para que a mente e o caráter se
desenvolvam. Os psicólogos práticos, apesar disso, acreditam comumente que uma certa
medida de egotismo é útil como um fator de estabilização da personalidade, prevenindo-a de
desintegrações neuróticas demasiadamente simplistas e, com isso, tornando possível superar
as dificuldades da vida. Apesar disso, existem pessoas fora do comum, cujas personalidades
são muito bem integradas, mesmo sendo quase totalmente desprovidas de egotismo; isso as
permite entender os outros muito facilmente.
O tipo de egotismo excessivo que atrasa o desenvolvimento dos valores humanos e leva a
um julgamento equivocado, e a aterrorizar os outros, merece muito bem o título de “rei das
falhas humanas”. Dificuldades, disputas, problemas sérios e reações neuróticas brotam em
todos que estejam ao redor de tal egotista, tais como cogumelos após a chuva. As nações
egotistas começam a gastar dinheiro e esforços para atingir seus objetivos derivados de seu
raciocínio errôneo e de suas reações exageradamente emocionais. Sua inabilidade em
reconhecer os valores e as diferenças de outras nações, derivadas de outras tradições
culturais, levam ao conflito e à guerra.
Nós podemos diferenciar dois tipos de egotismo: o primário e o secundário. O primeiro vem
de um processo mais natural, a saber, o egotismo natural da criança e os erros em sua criação, que tendem a perpetuar esse egotismo infantil. O segundo ocorre quando uma personalidade
que superou seu egotismo infantil regressa a esse estado sob pressão, o que leva a uma atitude
artificial caracterizada por uma grande agressão e nocividade social. O egotismo excessivo é
uma propriedade constante da personalidade histérica, não importando se sua histeria é
primária ou secundária. É por isso que o aumento no egotismo das nações deve ser atribuído,
antes de mais nada, ao ciclo de histeria descrito acima.
Se analisarmos o desenvolvimento das personalidades excessivamente egotistas, nós sempre
encontraremos algumas causas não-patológicas, tais como ter crescido em um ambiente com
uma rotina exagerada e apertada ou ter sido criada por pessoas menos inteligentes que a
criança. Contudo, a principal razão para o desenvolvimento de uma personalidade
exageradamente egotista em uma pessoa normal é a contaminação, através da indução
psicológica, por pessoas excessivamente egotistas ou histéricas que, por si mesmas,
desenvolveram esta característica sob a influência de várias causas patológicas. Muitas das
anomalias genéticas descritas anteriormente causam o desenvolvimento de personalidades
patologicamente egotistas, dentre outras coisas.
Muitas pessoas com várias anomalias hereditárias e defeitos adquiridos desenvolvem um
egotismo patológico. Para tais pessoas, forçar outros ao seu redor, grupos sociais completos
e, se possível, nações inteiras a sentir e pensar como elas mesmas, torna-se uma necessidade
interna, um conceito dominante. Um jogo, que uma pessoa normal não levaria a sério, pode
tornar-se um objetivo de vida para eles, objeto de esforço, sacrifícios, e estratégia
psicológica perspicaz.
O Egotismo patológico deriva da repressão, do campo de consciência de uma pessoa, de
quaisquer associações autocríticas censuráveis que se refiram à normalidade ou à natureza
própria dessa pessoa. Questões dramáticas como “quem é anormal aqui? eu ou esse mundo de
pessoas que sentem e pensam de forma diferente?” são respondidas desfavorecendo o mundo.
Tal egotismo é sempre ligado a uma atitude dissimulada, com uma máscara de Cleckley sobre
alguma qualidade patológica que está sendo escondida da consciência, tanto a sua própria
como a das outras pessoas. A maior intensidade de tal egotismo pode ser encontrada na
caracteropatia pré-frontal descrita acima.
A importância da contribuição desse tipo de egotismo para a gênese do mal, assim,
dificilmente necessita elaboração. Trata-se de uma influência social, principalmente,
egotizando ou traumatizando os outros que, por sua vez, causam dificuldades posteriores. O
egotismo patológico é um componente constante de estados variados nos quais alguém que
parece ser normal (embora, de fato, não seja tanto assim) é direcionado por motivações ou
que batalha por objetivos que uma pessoa normal consideraria irreais ou improváveis. A
pessoa mediana pode perguntar: “o que ele espera ganhar com isso?”. A opinião do ambiente,
contudo, freqüentemente interpreta tal situação em concordância com o “senso comum” e é,
então, propensa a aceitar uma versão “mais provável” da situação e dos eventos. Tal
interpretação sempre resulta em tragédia humana. Portanto, nós devemos sempre lembrar que
o princípio da lei cui prodest [ 59 ] torna-se ilusório todas as vezes que um fator patológico
entra em cena.
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Interpretação Moralizante : a tendência em dar uma interpretação moralizante sobre os
fenômenos essencialmente patológicos é um aspecto da natureza humana, cujo substrato
discernível é codificado dentro de nosso instinto específico; em outras palavras, os homens
normalmente falham na diferenciação entre o mal moral e o mal biológico. A moralização
sempre surge, embora em vários graus, de dentro da visão de mundo psicológica natural e
moral, e é por isso que devemos considerar essa tendência um erro permanente da opinião
pública. Nós podemos freá-la com um autoconhecimento elevado, mas superá-la requer
conhecimento específico na área da psicopatologia. As pessoas jovens de círculos de baixa
cultura sempre tendem a tais interpretações (embora ela caracterize também algumas pessoas
tradicionais que cultivam a estética), fato que se intensifica toda vez que nossos reflexos
naturais assumem o controle da razão, ou seja, nos estados histéricos, e em proporção direta à
intensidade do egotismo.
Nós fechamos a porta para a compreensão causal dos fenômenos e abrimo-la para emoções
vingativas e erros psicológicos toda vez que impomos uma interpretação moralista sobre as
falhas e erros do comportamento humano, que são, de fato, amplamente derivados de diversas
influências de fatores patológicos, estejam eles mencionados acima ou não, e que são
freqüentemente obscurecidos em mentes não treinadas nessa área. Nós, com isso, também
permitimos que esses fatores continuem suas atividades ponerogênicas, nos dois casos, dentro
de nós e dos outros. Nada envenena mais a alma humana e nos priva da nossa capacidade de
entender a realidade de forma mais objetiva do que essa obediência à tendência humana
comum de adotar uma visão moralista do comportamento humano.
Falando de forma prática, para dizer o mínimo, cada exemplo de comportamento que fere
seriamente alguma outra pessoa contém, dentro de sua gênese psicopatológica, a influência de
algum fator patológico, dentre outras coisas, é claro. Desta forma, qualquer interpretação das
causas do mal que se limite às categorias morais será uma percepção inapropriada da
realidade. Isso pode levar, falando de forma genérica, a comportamentos errôneos, limitando
nossa capacidade para uma contrarreação aos fatores causais do mal e abrindo a porta para o
desejo de vingança. Com frequência, isso faz com que se acenda uma nova chama nos
processos ponerogênicos. Nós devemos, contudo, considerar a interpretação unilateralmente
moral das origens do mal como errada e imoral em qualquer época. A idéia de superar essa
inclinação humana comum e seus resultados pode ser considerada um motivo moral
entrelaçado na ponerologia.
Se analisarmos as razões pelas quais as pessoas, freqüentemente, usam por demais tais
interpretações emocionalmente carregadas, sempre rejeitando indignadamente uma
interpretação mais correta, nós devemos, é claro, descobrir também fatores patológicos
agindo dentro delas. A intensificação dessa tendência em tais casos é causada pela repressão,
do campo de consciência, de quaisquer conceitos autocríticos relacionados ao seu próprio
comportamento e às suas razões internas. A influência de tais pessoas causa essa tendência de
intensificação em outras.
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Paramoralismos: a convicção de que valores morais existem e de que algumas ações violam as regras morais é um fenômeno tão comum e antigo que parece ter algum substrato no
nível de dotação instintiva (embora certamente não seja totalmente adequado para a verdade
moral) e que não somente representa séculos de experiência, cultura, religião e socialização.
Assim, qualquer insinuação estruturada em slogans morais será sempre sugestiva, mesmo se os
critérios “morais” utilizados forem simplesmente uma invenção ad hoc. Pode-se provar, desta
forma, que qualquer ato é moral ou imoral, por meio de paramoralismos utilizados como
sugestão ativa, e sempre haverá pessoas cujas mentes sucumbirão a tais raciocínios.
Na busca por um exemplo de um ato mau, cujo valor negativo não daria margem a dúvidas
em qualquer situação social, os estudiosos da ética mencionam freqüentemente o abuso de
crianças. Contudo, os psicólogos sempre encontram afirmações paramorais de tais
comportamentos na prática, como no caso da família mencionada anteriormente, com a
anomalia no campo pré-frontal da filha mais velha. Seus irmãos mais novos insistiam
enfaticamente que o tratamento sádico que a irmã dava ao seu filho era devido às suas
qualificações morais excepcionalmente elevadas, e eles acreditavam nisso por auto-sugestão.
O paramoralismo, de alguma forma, esquiva-se com perspicácia do controle do nosso senso
comum, levando algumas vezes à aceitação ou à aprovação de comportamentos que são
abertamente patológicos.
Declarações e sugestões paramoralistas acompanham vários tipos de mal com tanta
frequência, que parecem totalmente insubstituíveis. Infelizmente, inventar critérios morais
sempre novos, de acordo com a conveniência de alguém, tornou-se um fenômeno freqüente
para indivíduos, grupos de opressão, ou sistemas políticos patológicos. Tais sugestões, com
frequência, privam parcialmente as pessoas do seu raciocínio moral e deformam o
desenvolvimento deste nos mais jovens. Fábricas de paramoralismo têm sido encontradas no
mundo todo e um ponerologista considera difícil de acreditar que elas sejam gerenciadas por
pessoas psicologicamente normais.
As características conversivas na gênese dos paramoralismos parecem provar que eles são
derivados, em sua maioria, da rejeição subconsciente (e repressão do campo de consciência)
de alguma coisa completamente diferente, que nós chamamos de voz da consciência.
Um ponerologista pode, apesar disso, indicar muitas observações para apoiar a opinião de
que vários fatores patológicos participam na tendência ao uso de paramoralismos. Esse foi o
caso na família acima mencionada. Quando isso ocorre com uma interpretação moralizante,
essa tendência se intensifica em egotistas e histéricos, e suas causas são parecidas. Assim
como todos os fenômenos conversivos, a tendência de utilizar paramoralismos é
psicologicamente contagiosa. Isso explica porque nós a observamos entre pessoas criadas por
indivíduos nos quais ela foi desenvolvida ao lado de fatores patológicos.
Este pode ser um bom lugar para refletir se a lei moral verdadeira é criada e existe
independentemente de nossos julgamentos a seu respeito, e até mesmo sobre a nossa
habilidade de reconhecê-la. Dessa forma, a atitude necessária para tal entendimento é
científica, não criativa: nós devemos subordinar humildemente nossa mente à realidade
apreendida. É então que descobrimos a verdade sobre o homem, tanto suas fraquezas como
seus valores, que nos mostra o que é decente e apropriado no tocante às outras pessoas e às
outras sociedades.
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Bloqueio reversivo: insistir enfaticamente em algo que é o oposto da verdade bloqueia a
mente da pessoa mediana para perceber a verdade. De acordo com os ditados do senso
comum saudável, ela inicia a busca de sentido no “meio termo” entre a verdade e o seu
oposto, terminando com alguma falsificação satisfatória. As pessoas que pensam assim não
percebem que esse efeito é precisamente a intenção de quem os sujeita a esse método. Se a
falsificação da verdade é o oposto de uma verdade moral, ao mesmo tempo, ela representa
simultaneamente um paramoralismo extremo, e carrega seu caráter peculiarmente sugestivo.
Nós raramente vemos esse método sendo utilizado por pessoas normais; mesmo que tenham
sido criadas por pessoas que abusaram dele; geralmente, elas só apresentam os resultados do
método em suas dificuldades características para apreender a realidade adequadamente. O uso
desse método pode ser incluído dentro dos conhecimentos psicológicos especiais
mencionados anteriormente, que são desenvolvidos por psicopatas no tocante às fraquezas da
natureza humana e à arte de levar os outros ao erro. Onde eles governam, esse método é
utilizado com virtuosidade e em uma extensão proporcional ao seu poder.
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Seleção e substituição de informação: a existência dos fenômenos psicológicos sobre o
subconsciente conhecidos dos estudantes de filosofia pré-Freudianos segue se repetindo. Os
processos psicológicos inconscientes superam o raciocínio consciente, tanto no tempo
como na abordagem, o que torna possível muitos fenômenos psicológicos: incluindo aqueles
genericamente descritos como conversivos, tais como o bloqueio subconsciente das
conclusões, a seleção e, também, a substituição de premissas aparentemente desconfortáveis.
Nós falamos de bloqueio de conclusões se o processo inferencial foi apropriado em
princípio e quase chegou a uma conclusão e compreensão finais dentro do ato de projeção
interna, mas tornou-se frustrada por uma diretiva precedente do subconsciente, que considerou
a conclusão inadequada ou perturbadora. Essa é a prevenção primitiva da desintegração da
personalidade, que pode parecer vantajosa. Contudo, ela também previne todas as vantagens
que poderiam derivar da conclusão e da reintegração elaboradas conscientemente. Uma
conclusão, assim rejeitada, permanece em nosso subconsciente e causa, de uma forma mais
inconsciente, os próximos bloqueios e seleções desse tipo. Isso pode ser extremamente
prejudicial, escravizando progressivamente a pessoa em seu próprio subconsciente, e está
freqüentemente acompanhado de um sentimento de tensão e amargura.
Nós falamos de seleção de premissas sempre que o retorno penetra mais profundamente no
raciocínio resultante e, assim, exclui do seu banco de dados somente aquela parte da
informação que foi responsável pela conclusão desconfortável, reprimindo-a para o
subconsciente. Dessa forma, nosso subconsciente permite o raciocínio lógico posterior, exceto
aquele cujo resultado estará em desacordo, na proporção direta ao significado real da
informação reprimida. Um número sempre crescente de tais informações reprimidas é
coletado em nossa memória subconsciente. Finalmente, um tipo de hábito parece assumir o
comando: todo material similar é tratado da mesma forma, mesmo que o raciocínio leve a um
resultado perfeitamente vantajoso para a pessoa.
O processo mais complexo desse tipo é a substituição de premissas assim eliminadas por
outras informações, garantindo uma conclusão ostensivamente mais confortável. Nossa
habilidade associativa elabora rapidamente um novo item para substituir o que foi removido,
que levará a uma conclusão confortável. Essa operação leva muito tempo e é improvável que
seja exclusivamente subconsciente. Tais substituições são, com frequência, efetuadas
coletivamente, em certos grupos de pessoas, através do uso de comunicação verbal. É por
essa razão que elas se qualificam melhor para o epíteto moralista “hipocrisia” do que
qualquer um dos outros processos descritos acima.
Os exemplos acima de fenômenos conversivos não exaurem o problema ilustrado ricamente
nos trabalhos psicanalíticos. Nosso subconsciente pode portar as raízes do gênio humano
dentro de si, mas sua operação não é perfeita; algumas vezes é uma reminiscência de um
computador cego, especialmente quando permitimos que ele seja entulhado com material
ansiosamente rejeitado. Isso explica porque o monitoramento consciente, mesmo ao preço de
aceitar corajosamente estados desintegrativos, é igualmente necessário à nossa natureza, para
não dizer ao nosso bem individual e social.
Não existe tal coisa, de uma pessoa cujo autoconhecimento perfeito a permite eliminar todas
as tendências em direção ao pensamento conversivo, mas somente pessoas relativamente
próximas desse estado, enquanto outras permanecem escravas desses processos. Aquelas
pessoas que utilizam operações conversivas com muita frequência, com o propósito de
encontrar conclusões convenientes, ou de construir algumas declarações paralógicas ou
paramoralistas perspicazes, começam eventualmente a empreender esse comportamento por
razões cada vez mais triviais, perdendo a capacidade para o controle consciente sobre o seu
processo de pensamento como um todo. Isso leva necessariamente a erros de comportamento,
que serão pagos por outras pessoas tanto quanto por elas mesmas.
As pessoas que perderam sua higiene psicológica e sua capacidade para o pensamento
apropriado ao longo dessa estrada, também perdem suas faculdades críticas naturais em
relação às declarações e comportamentos de indivíduos cujos processos de pensamento
anormal foram formados no substrato das anomalias patológicas, sejam elas herdadas ou
adquiridas. Os hipócritas param de diferenciar entre indivíduos normais e patológicos,
abrindo então uma “entrada para a infecção” para o papel ponerogênico dos fatores
patológicos.
Geralmente, cada comunidade contém pessoas sobre as quais métodos similares de
pensamento foram desenvolvidos em grande escala, com seus vários desvios como um pano
de fundo. Nós encontramos isso tanto nas personalidades caracteropatas como também nas
psicopatas. Algumas têm até sido influenciadas por outras para crescerem acostumadas a tais
raciocínios, uma vez que o pensamento conversivo é altamente contagioso e pode se espalhar
através de uma sociedade inteira. Nos “tempos felizes”, especialmente, a tendência para o
pensamento conversivo geralmente se intensifica. Ela aparece acompanhada por uma onda de
aumento de histeria na dita sociedade. Aqueles que tentam manter o senso comum e o
raciocínio apropriado finalmente terminam como minoria, sentindo-se injustiçados por ter seu
direito humano de manter a higiene psicológica violado por pressões vindas de todos os
lados. Isso significa que tempos infelizes não estão distantes.
Nós deveríamos salientar que os processos de pensamento errôneo descritos aqui, como
regra, também violam as leis da lógica com uma perfídia característica. Educar pessoas na
arte do raciocínio apropriado pode, assim, servir como contramedida a tais tendências; tal
arte possui uma tradição antiga e santificada que não parece ter sido suficientemente efetiva
por séculos. Exemplo: de acordo com as leis da lógica, uma questão contendo uma sugestão
errônea ou não confirmada não tem resposta. Apesar disso, as operações com tais questões
não somente se tornam uma epidemia entre as pessoas com a tendência para o pensamento
conversivo, e uma origem do terror quando usadas por indivíduos psicopatas; elas também
ocorrem entre as pessoas que pensam normalmente, ou mesmo entre aquelas que estudaram a
lógica.
Essa tendência decrescente na capacidade de uma sociedade para o pensamento apropriado
deve ser neutralizada, uma vez que ela também diminui a imunidade aos processos
ponerogênicos. Uma medida efetiva ensinaria as duas coisas, o pensamento apropriado e a
habilidade na detecção dos erros de pensamento. A linha de frente de tal educação deveria ser
expandida, incluindo psicologia, psicopatologia e a ciência descrita aqui, com o objetivo de
formar pessoas que possam detectar facilmente qualquer paralogismo.