Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo VII - Psicologia e psiquiatria sob o domínio patocrático
PSICOLOGIA E PSIQUIATRIA
SOB O DOMÍNIO PATOCRÁTICO
SE ALGUM DIA HOUVESSE ALGO COMO UM PAÍS com uma estrutura comunista conforme
visualizado por Karl Marx, onde a ideologia esquerdista da classe trabalhadora fosse a base
do governo, o que, eu creio, seria severo mas não desprovido do pensamento humanista
saudável, as ciências sociais, bio-humanísticas e médicas contemporâneas seriam
consideradas valiosas e então apropriadamente desenvolvidas e usadas para o bem da classe
trabalhadora. O conselho psicológico para os jovens e para as pessoas com vários problemas
pessoais seria naturalmente a preocupação das autoridades e da sociedade como um todo.
Pacientes gravemente doentes teriam a vantagem de ter um cuidado habilidoso correspondente.
Contudo, é praticamente o oposto o que ocorre em uma estrutura patocrática.
Quando eu vim para o ocidente, encontrei pessoas com visões esquerdistas que acreditavam
inquestionavelmente que os países comunistas existiam mais ou menos na forma exposta pelas
versões americanas das doutrinas políticas comunistas. Essas pessoas estavam quase certas de
que a psicologia e a psiquiatria deviam gozar de liberdade em tais países referidos como
comunistas, e que os assuntos eram similares ao que foi mencionado acima. Quando eu as
contradisse, elas se recusaram a acreditar em mim e se mantiveram perguntando por que, “por
que é desse jeito?”. O que os políticos têm a ver com psiquiatria?
Em minhas tentativas de explicar como aquela outra realidade se parece, eu encontrei as
mesmas dificuldades com as quais já estava familiarizado, embora algumas pessoas tinham
previamente ouvido sobre o abuso da psiquiatria. Contudo, tais “porquês” se mantinham
surgindo na conversa e permaneciam não respondidos.
A situação dessas áreas científicas, de atividades sociais e curativas, e das pessoas que se
ocupavam desses assuntos, pode somente ser compreendida uma vez que você tenha percebido
a natureza real da patocracia à luz da abordagem ponerológica.
Vamos então imaginar algo que somente é possível na teoria, ou seja, um país que sob um
governo patocrático permitiu inadvertidamente o desenvolvimento livre dessas ciências,
possibilitando um influxo normal de literatura científica e de contatos com cientistas de outros
países. Psicologia, psicopatologia e psiquiatria iriam florescer abundantemente e produzir
representantes notórios.
Qual seria o resultado?
Esse acúmulo de conhecimento apropriado, dentro de um espaço de tempo muito curto,
geraria a obrigação de investigações cujo significado nós já entendemos. Os elementos
faltantes e as questões insuficientemente investigadas seriam complementadas e aprofundadas
por meio de pesquisa adequada e detalhada. O diagnóstico do estado de coisas patocrático
seria então elaborado, mais ou menos, dentro da primeira dúzia de anos de formação da patocracia, especialmente se esta fosse imposta. A base de dedução racional seria
significantemente mais ampla que qualquer coisa que o autor pode apresentar aqui, e seria
ilustrada por meio de um corpo rico de material analítico e estatístico.
Uma vez transmitido à opinião pública mundial, tal diagnóstico seria rapidamente
incorporado àquela opinião, forçando a saída das doutrinas de propaganda e de política
ingênuas para fora da consciência social. Ele atingiria as nações que são objeto das intenções
expansionistas do império patocrático. Isso renderia a fama, no mínimo duvidosa, de cavalo
de Tróia patocrático à utilidade de qualquer ideologia propagandeada.
Apesar das diferenças entre si, outros países com sistemas humanos normais seriam unidos
pela solidariedade característica na defesa de um perigo compreendido, similar às ligações de
solidariedade das pessoas normais que vivem sob o domínio patocrático.
Essa consciência, popularizada nos países afetados por esse fenômeno, reforçaria
simultaneamente a resistência psicológica da parte das sociedades dos homens normais e as
aparelharia com novas medidas de autodefesa.
Pode um império patocrático arriscar-se, permitindo tal possibilidade?
Em épocas em que as disciplinas acima mencionadas são desenvolvidas rapidamente em
muitos países, o problema de prevenir tal ameaça psiquiátrica se torna uma questão de “ser ou
não ser” para a patocracia. Qualquer possibilidade de que tal situação emerja deve, portanto,
ser mitigada profilática e habilidosamente, tanto dentro como fora do império. Ao mesmo
tempo, o império é capaz de encontrar medidas preventivas efetivas graças à sua consciência
de ser diferente e ao conhecimento psicológico específico dos psicopatas, com o qual já
estamos familiarizados, parcialmente reforçados por conhecimento acadêmico.
Tanto internamente quanto fora das fronteiras dos países afetados pelo fenômeno aqui
descrito, um sistema objetivo e consciente de controle, terror e desvio de atenção é então
colocado em prática.
Quaisquer artigos científicos publicados sob tais governos, ou importados de fora, devem
ser monitorados para a certificação de que não contenham qualquer informação que poderia
ser perigosa para a patocracia. Especialistas com talento superior se tornam objetos de
chantagem e controle malicioso. Isso, é claro, faz com que os resultados obtidos se tornem
inferiores em relação a essas áreas da ciência.
Logicamente, a operação inteira deve ser gerenciada de forma a evitar atrair a atenção da
opinião pública de países com as estruturas do humano normal. Os efeitos de tal “desacato”
poderiam ir muito longe. Isso explica porque as pessoas que são pegas fazendo trabalhos
investigativos nessa área são destruídas na surdina, e as pessoas suspeitas são forçadas ao
exílio, para lá se tornarem objeto de campanhas de assédio apropriadamente organizadas.
As batalhas são então travadas em frentes secretas que podem ser reminiscentes da Segunda
Guerra Mundial. Os soldados e líderes, lutando em vários planos, não estavam cientes de que
seus destinos dependiam muito mais do resultado de outra guerra, travada por cientistas e
outros soldados, cujo objetivo era impedir os alemães de produzirem a bomba atômica. Os
Aliados venceram essa batalha e os Estados Unidos se tornaram o primeiro a possuir essa
arma letal. No presente, contudo, o Ocidente continua perdendo as batalhas políticas e científicas nessa nova frente secreta. Lutadores solitários são considerados estranhos, a
assistência lhes é negada, e são forçados a trabalhar duro para ganhar seu pão. Enquanto isso,
o cavalo de Tróia ideológico continua invadindo novos países.
Um exame da metodologia de tais batalhas, tanto nas frentes internas como nas externas,
aponta para aquele conhecimento patocrático específico, tão difícil de se compreender à luz
dos conceitos da linguagem natural. Assim, para estar apto a controlar as pessoas e aquelas
áreas da ciência relativamente não popularizadas, deve-se saber, ou ter a habilidade de
perceber, o que está acontecendo e quais fragmentos da psicopatologia são mais perigosos. O
examinador dessa metodologia se torna também ciente dos limites e imperfeições desse
autoconhecimento e prática, ou seja, as fraquezas, os erros e os lapsos do outro lado, e pode
gerenciá-los de forma a tirar vantagem deles.
Em nações com sistemas patocráticos, a supervisão sobre as organizações culturais e
científicas é designada a um departamento especial de pessoas especialmente confiáveis, um
“Escritório Sem Nome” composto quase inteiramente de pessoas relativamente inteligentes
que revelam traços psicopáticos característicos. Essas pessoas devem ser capazes de
completar seus estudos acadêmicos, embora às vezes forçando os examinadores a atribuírem
avaliações generosas. Seus talentos são geralmente inferiores aos dos estudantes medianos,
especialmente em relação à ciência psicológica. Apesar disso, eles são recompensados pelos
seus serviços pela obtenção de graus e posições acadêmicas, e têm permissão para
representar seus países perante a comunidade científica no exterior. Como são indivíduos
especialmente confiáveis, permite-se que eles não participem das reuniões locais do partido e
até mesmo evita-se completamente que eles se associem. Em caso de necessidade, eles podem
assim passar como apartidários. Apesar disso, esses superintendentes culturais e científicos
são bem conhecidos pela sociedade das pessoas normais, que aprendem a arte de diferenciá-
los relativamente rápido. Eles nem sempre são distinguidos adequadamente dos agentes da
polícia política, e embora se considerem como uma classe superior a esta, devem mesmo
assim cooperar com ela.
Com frequência nós encontramos essas pessoas no exterior, nos países de pessoas normais,
onde várias fundações e institutos concedem-nas subsídios científicos, com a convicção de
que estão, dessa forma, ajudando no desenvolvimento de conhecimento apropriado em países
sob governos “comunistas”. Esses benfeitores não percebem que estão prestando um
desserviço à ciência e aos cientistas verdadeiros ao permitir que esses supervisores
conquistem uma certa autoridade semi-autêntica, e por permitir que eles se tornem mais
familiarizados com algo que mais adiante julgarão como perigoso.
Afinal de contas, essas pessoas terão mais tarde o poder de permitir a alguém obter um
doutorado, embarcar em uma carreira científica, obter um mandato acadêmico ou ser
promovido. Sendo eles mesmos cientistas muito medíocres, tentam neutralizar as pessoas mais
talentosas, tanto por conta do auto-interesse como por causa daquela inveja típica que
caracteriza a atitude do patocrata em relação às pessoas normais. Eles são os que irão
monitorar os artigos científicos para que estejam “adequados à ideologia” e tentarão garantir
que seja negada a literatura científica de que um bom especialista necessita.
Os controles são excepcionalmente maliciosos e traiçoeiros nas ciências psicológicas em particular, por razões agora compreensíveis para nós. São compiladas listas escritas e não
escritas dos assuntos que não podem ser ensinados, e são emitidas diretrizes correspondentes
para distorcer apropriadamente outros assuntos. Essa lista é tão vasta na área da psicologia
que nada dessa ciência permanece, exceto um esqueleto depenado, desnudado de qualquer
coisa que possa ser sutil ou penetrante.
O currículo requerido a um psiquiatra não contém nem o conhecimento mínimo das áreas de
psicologia geral, comportamental e clínica, nem as habilidades básicas de psicoterapia.
Devido a tal estado de coisas, o mais medíocre ou privilegiado dos médicos se torna um
psiquiatra depois de um curso de estudos que leva somente semanas. Isso abre a porta da
carreira de psiquiatria para indivíduos que são, por natureza, inclinados a servir à autoridade
patocrática, e isso tem repercussões decisivas sobre o nível do tratamento. Posteriormente,
permite o abuso da psiquiatria em propósitos para os quais ela nunca deveria ser usada.
Por não serem bem educados, esses psicólogos se mostram impotentes face a muitos
problemas humanos, especialmente em casos onde é necessário um conhecimento detalhado.
Tal conhecimento deve então ser adquirido por si mesmo, um feito que nem toda pessoa está
capacitada a conduzir.
Tal comportamento traz no seu rastro uma boa quantidade de dano e injustiça humanos em
áreas da vida que não têm nada a ver com política. Infelizmente, no entanto, tal
comportamento é necessário do ponto de vista patocrático, para evitar que essas ciências
perigosas coloquem em risco a existência de um sistema que eles consideram ser o melhor
de todos os mundos possíveis.
Os especialistas nas áreas de psicologia e psicopatologia achariam altamente interessante a
análise desse sistema de proibições e recomendações. Torna-se assim possível perceber que
esta pode ser uma das vias pela qual podemos chegar ao cerne da questão ou à natureza desse
fenômeno macrossocial. As proibições englobam a psicologia profunda, a análise do
substrato instintivo humano, junto com a análise de sonhos.
Como já apontado no capítulo em que introduzimos alguns conceitos indispensáveis, o
entendimento do instinto humano é a chave para o entendimento do homem; no entanto, o
conhecimento das anomalias desse instinto também representa a chave para entender a
patocracia.
Embora cada vez mais raramente utilizada na prática psicológica, a análise de sonhos
sempre será a melhor escola de pensamento psicológico, o que a torna perigosa por natureza.
Consequentemente, mesmo a pesquisa sobre psicologia na seleção de parceiros é
desaprovada, na melhor das hipóteses.
A essência da psicopatia não pode, é claro, ser pesquisada ou elucidada. A escuridão é
lançada sobre esse assunto por meio de uma definição de psicopatia deliberadamente
concebida, que inclui vários tipos de transtornos de caráter, junto com aqueles originados por
causas completamente diferentes e conhecidas. Essa definição deve ser memorizada não
somente por cada professor acadêmico em psicopatologia, psiquiatria e psicologia, mas
também por alguns funcionários políticos com nenhuma educação na área.
Essa definição deve ser usada em todas as aparições públicas, sempre que, por alguma
razão, seja impossível evitar o assunto. Contudo, é preferível que um professor de tais áreas seja alguém que sempre acredita em qualquer coisa que seja mais conveniente em sua
situação, e cuja inteligência não o predestine a aprofundar-se em diferenciações sutis de
natureza psicológica.
É também importante ressaltar aqui que a doutrina principal de tal sistema é “Existência
define consciência”. Como tal, ela pertence à psicologia em vez de a qualquer doutrina
política. Essa doutrina, na realidade, contradiz uma boa dose de dados empíricos que indicam
o papel dos fatores hereditários no desenvolvimento da personalidade do homem e de seu
destino. Os professores podem se referir a investigações sobre gêmeos idênticos, mas somente
de modo breve, cuidadoso e formal. Considerações sobre esse assunto, todavia, não devem
ser publicadas na forma impressa.
Nós retornamos uma vez mais ao “gênio” psicológico peculiar do sistema e seu auto-
conhecimento. Alguém pode se espantar sobre como as definições de psicopatia mencionadas
acima bloqueiam efetivamente a habilidade de compreender os fenômenos abrangidos por ela.
Nós podemos investigar as relações entre essas proibições e a essência do fenômeno
macrossocial que elas de fato espelham. Nós podemos também observar os limites dessas
habilidades e os erros cometidos por aqueles que executam essa estratégia. Essas deficiências
são aproveitadas habilmente com o propósito de contrabandear algum conhecimento adequado
da parte dos mais talentosos especialistas, ou de pessoas mais velhas que não temem mais por
suas carreiras ou até mesmo por suas vidas.
A batalha “ideológica” está sendo travada em um território completamente despercebido
pelos cientistas que vivem sob governos de estruturas humanas normais e tentam imaginar essa
outra realidade. Isso se aplica a todas as pessoas que denunciam o “Comunismo”, assim como
àquelas para quem essa ideologia se tornou sua fé.
Logo depois de chegar aos Estados Unidos, um homem negro e jovem me entregou um jornal,
em alguma rua do Queens, em Nova Iorque. Eu fui pegar minha carteira, mas ele fez um gesto
com as mãos, dizendo que não precisava; o jornal era de graça.
A primeira página mostrava uma foto simpática de um Breznev jovem, com o peito decorado
com medalhas que ele não havia recebido de fato até muito tempo depois. Na última página,
contudo, eu encontrei um resumo muito bem trabalhado de investigações realizadas na
Universidade de Massachusetts sobre gêmeos idênticos que foram criados separadamente.
Essas investigações forneciam indicações empíricas do papel importante da hereditariedade e
a descrição continha uma ilustração literária das similaridades nos destinos dos pares de
gêmeos. Quão “ideologicamente desorientados” os editores desse jornal deviam estar para
publicar algo que não poderia nunca ter aparecido na área sujeita a um sistema supostamente
comunista.
Naquela outra realidade, a frente de batalha atravessa cada estudo de psicologia e
psiquiatria, cada hospital psiquiátrico, cada centro de consulta de saúde mental e a
personalidade de cada um que trabalhe nessas áreas. O que acontece lá: duelos verbais
escondidos, contrabando de informações e realizações verdadeiramente científicas, e assédio.
Algumas pessoas tornam-se moralmente descarriladas sob essas condições, enquanto outras
criam uma fundação sólida para suas convicções e são preparadas para assumir a dificuldade
e o risco a fim de obterem conhecimento honesto, e assim servir aos doentes e necessitados. A motivação inicial desse último grupo não é de caráter político, uma vez que deriva de sua boa
vontade e decência profissional. A consciência das causas políticas dessas limitações e o
significado político dessa batalha aparecem para eles somente depois, juntamente com a
experiência e a maturidade profissional, especialmente se sua experiência e habilidades
precisarem ser utilizadas para salvar pessoas perseguidas.
Enquanto isso, contudo, os artigos e os dados científicos necessários devem ser obtidos de
algum modo, levando em conta as dificuldades e a falta de compreensão das outras pessoas.
Os estudantes e os especialistas em início de carreira, que não estão ainda cientes do que foi
removido do currículo educacional, tentam ganhar acesso aos dados científicos que deles
foram roubados. A ciência começa a ser degradada a uma taxa preocupante uma vez que tal
consciência esteja em falta.
***
Nós temos que entender a natureza do fenômeno macrossocial, bem como essa relação
básica e controversa entre o sistema patológico e aquelas áreas da ciência que descrevem os
fenômenos psicológicos e psicopatológicos. Do contrário, não poderemos nos tornar
completamente conscientes das razões para tal comportamento bem conhecido do governo.
As ações e reações de uma pessoa normal, suas idéias e critérios morais, tudo, muito
freqüentemente, atinge os indivíduos anormais como sendo algo anormal. Pois se uma pessoa
com algum desvio psicológico se considera normal, o que é de fato significativamente mais
fácil se ela possuir autoridade, então ela considerará uma pessoa normal como diferente e
portanto anormal, na realidade ou como resultado do pensamento conversivo. Isso explica
porque o governo dessas pessoas sempre terá a tendência de tratar qualquer dissidente como
“mentalmente anormal”.
Operações como direcionar uma pessoa normal ao diagnóstico de uma doença psicológica e
fazer uso das instituições psiquiátricas para esse propósito acontecem na maioria dos países
em que tais instituições existem. A legislação contemporânea que recai sobre os países dos
homens normais não é baseada em um entendimento adequado da psicologia de tal
comportamento, e assim não institui uma medida preventiva o suficiente contra ele.
Dentro das categorias da visão de mundo psicológica normal, as motivações desse
comportamento foram entendidas e descritas de diversas maneiras: contas pessoais e da
família, assuntos de propriedade, intenção de desacreditar a declaração de uma testemunha, e
mesmo motivações políticas. Tais sugestões difamatórias são utilizadas com particular
frequência por indivíduos que não são eles mesmos totalmente normais, cujo comportamento
direcionou alguém a um colapso ou a um protesto violento. Entre os histéricos tal
comportamento tende a ser a projeção sobre a outra pessoa de suas próprias associações
autocríticas. Uma pessoa normal é vista pelo psicopata como um ingênuo, uma pessoa que
se acha esperta e acredita em teorias muito mal compreensíveis: chamá-la de “louca” não
está tão longe assim.
Contudo, quando nós levantamos um número suficiente de exemplos desse tipo ou coletamos
experiências suficientes nesta área, outro nível motivacional muito mais essencial para tal
comportamento se torna aparente. O que acontece, como regra, é que a idéia de levar alguém a uma doença mental parte de mentes com diversas aberrações e defeitos psicológicos. Só
raramente o componente dos fatores psicológicos realmente toma parte na ponerogênese de tal
comportamento, fora de seus agentes. Uma legislação bem pensada e cuidadosamente
estruturada deveria, portanto, requerer testes em indivíduos cujas sugestões de que outra
pessoa é psicologicamente anormal são muito insistentes ou fundamentadas de modo suspeito.
Por outro lado, qualquer sistema no qual o abuso da psiquiatria para razões alegadamente
políticas se torne um fenômeno comum deve ser examinado à luz de critérios psicológicos
similares, extrapolados para uma escala macrossocial. Qualquer pessoa que se rebele
internamente contra um sistema governamental, que sempre chegará a ela como sendo estranho
e difícil de entender, e que seja incapaz de esconder isso muito bem, será facilmente
designada pelos representantes de tal governo como “mentalmente anormal”, alguém que deve
ser submetido a tratamento psiquiátrico. Uma psiquiatria degenerada moralmente e
cientificamente se torna uma ferramenta facilmente utilizada para esse propósito. Assim nasce
um método único de terror e tortura humana, desconhecido até mesmo pela polícia secreta do
czar Alexandre II.
O abuso da psiquiatria para objetivos que já conhecemos deriva assim da natureza
mesma da patocracia, como um fenômeno psicopatológico macrossocial. Afinal de contas,
essa mesma área de conhecimento e tratamento deve primeiro ser degradada com o objetivo
de prevenir que ela coloque em risco o próprio sistema pelo anúncio de um diagnóstico
dramático, para depois ser utilizada como uma ferramenta expediente nas mãos das
autoridades. Em todo país, contudo, encontram-se pessoas que percebem esse movimento e
agem astutamente contra isso.
A patocracia sente-se crescentemente ameaçada por essa área sempre que há progresso nas
ciências médicas ou psicológicas. Afinal, essas ciências não só podem tirar a arma da
conquista psicológica de suas mãos; elas podem também atacar com sua própria natureza, e
de dentro do império.
Uma percepção específica desses assuntos ordena assim que a patocracia esteja
“conceitualmente alerta” nessa área. Isso também explica porque alguém que seja ao mesmo
tempo muito conhecedor dos assuntos nessa área e muito distante do alcance imediato dessas
autoridades possa ser acusado de qualquer coisa que foi fabricada, inclusive de anormalidade
psicológica.
CAPÍTULO VIII