Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 32 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Capítulo VII - Psicologia e psiquiatria sob o domínio patocrático

PSICOLOGIA E PSIQUIATRIA

SOB O DOMÍNIO PATOCRÁTICO

 

SE ALGUM DIA HOUVESSE ALGO COMO UM PAÍS com uma estrutura comunista conforme

visualizado por Karl Marx, onde a ideologia esquerdista da classe trabalhadora fosse a base

do governo, o que, eu creio, seria severo mas não desprovido do pensamento humanista

saudável, as ciências sociais, bio-humanísticas e médicas contemporâneas seriam

consideradas valiosas e então apropriadamente desenvolvidas e usadas para o bem da classe

trabalhadora. O conselho psicológico para os jovens e para as pessoas com vários problemas

pessoais seria naturalmente a preocupação das autoridades e da sociedade como um todo.

Pacientes gravemente doentes teriam a vantagem de ter um cuidado habilidoso correspondente.

 

Contudo, é praticamente o oposto o que ocorre em uma estrutura patocrática.

Quando eu vim para o ocidente, encontrei pessoas com visões esquerdistas que acreditavam

inquestionavelmente que os países comunistas existiam mais ou menos na forma exposta pelas

versões americanas das doutrinas políticas comunistas. Essas pessoas estavam quase certas de

que a psicologia e a psiquiatria deviam gozar de liberdade em tais países referidos como

comunistas, e que os assuntos eram similares ao que foi mencionado acima. Quando eu as

contradisse, elas se recusaram a acreditar em mim e se mantiveram perguntando por que, “por

que é desse jeito?”. O que os políticos têm a ver com psiquiatria?

Em minhas tentativas de explicar como aquela outra realidade se parece, eu encontrei as

mesmas dificuldades com as quais já estava familiarizado, embora algumas pessoas tinham

previamente ouvido sobre o abuso da psiquiatria. Contudo, tais “porquês” se mantinham

surgindo na conversa e permaneciam não respondidos.

A situação dessas áreas científicas, de atividades sociais e curativas, e das pessoas que se

ocupavam desses assuntos, pode somente ser compreendida uma vez que você tenha percebido

a natureza real da patocracia à luz da abordagem ponerológica.

Vamos então imaginar algo que somente é possível na teoria, ou seja, um país que sob um

governo patocrático permitiu inadvertidamente o desenvolvimento livre dessas ciências,

possibilitando um influxo normal de literatura científica e de contatos com cientistas de outros

países. Psicologia, psicopatologia e psiquiatria iriam florescer abundantemente e produzir

representantes notórios.

Qual seria o resultado?

Esse acúmulo de conhecimento apropriado, dentro de um espaço de tempo muito curto,

geraria a obrigação de investigações cujo significado nós já entendemos. Os elementos

faltantes e as questões insuficientemente investigadas seriam complementadas e aprofundadas

por meio de pesquisa adequada e detalhada. O diagnóstico do estado de coisas patocrático

seria então elaborado, mais ou menos, dentro da primeira dúzia de anos de formação da patocracia, especialmente se esta fosse imposta. A base de dedução racional seria

significantemente mais ampla que qualquer coisa que o autor pode apresentar aqui, e seria

ilustrada por meio de um corpo rico de material analítico e estatístico.

Uma vez transmitido à opinião pública mundial, tal diagnóstico seria rapidamente

incorporado àquela opinião, forçando a saída das doutrinas de propaganda e de política

ingênuas para fora da consciência social. Ele atingiria as nações que são objeto das intenções

expansionistas do império patocrático. Isso renderia a fama, no mínimo duvidosa, de cavalo

de Tróia patocrático à utilidade de qualquer ideologia propagandeada.

Apesar das diferenças entre si, outros países com sistemas humanos normais seriam unidos

pela solidariedade característica na defesa de um perigo compreendido, similar às ligações de

solidariedade das pessoas normais que vivem sob o domínio patocrático.

Essa consciência, popularizada nos países afetados por esse fenômeno, reforçaria

simultaneamente a resistência psicológica da parte das sociedades dos homens normais e as

aparelharia com novas medidas de autodefesa.

Pode um império patocrático arriscar-se, permitindo tal possibilidade?

Em épocas em que as disciplinas acima mencionadas são desenvolvidas rapidamente em

muitos países, o problema de prevenir tal ameaça psiquiátrica se torna uma questão de “ser ou

não ser” para a patocracia. Qualquer possibilidade de que tal situação emerja deve, portanto,

ser mitigada profilática e habilidosamente, tanto dentro como fora do império. Ao mesmo

tempo, o império é capaz de encontrar medidas preventivas efetivas graças à sua consciência

de ser diferente e ao conhecimento psicológico específico dos psicopatas, com o qual já

estamos familiarizados, parcialmente reforçados por conhecimento acadêmico.

Tanto internamente quanto fora das fronteiras dos países afetados pelo fenômeno aqui

descrito, um sistema objetivo e consciente de controle, terror e desvio de atenção é então

colocado em prática.

Quaisquer artigos científicos publicados sob tais governos, ou importados de fora, devem

ser monitorados para a certificação de que não contenham qualquer informação que poderia

ser perigosa para a patocracia. Especialistas com talento superior se tornam objetos de

chantagem e controle malicioso. Isso, é claro, faz com que os resultados obtidos se tornem

inferiores em relação a essas áreas da ciência.

Logicamente, a operação inteira deve ser gerenciada de forma a evitar atrair a atenção da

opinião pública de países com as estruturas do humano normal. Os efeitos de tal “desacato”

poderiam ir muito longe. Isso explica porque as pessoas que são pegas fazendo trabalhos

investigativos nessa área são destruídas na surdina, e as pessoas suspeitas são forçadas ao

exílio, para lá se tornarem objeto de campanhas de assédio apropriadamente organizadas.

As batalhas são então travadas em frentes secretas que podem ser reminiscentes da Segunda

Guerra Mundial. Os soldados e líderes, lutando em vários planos, não estavam cientes de que

seus destinos dependiam muito mais do resultado de outra guerra, travada por cientistas e

outros soldados, cujo objetivo era impedir os alemães de produzirem a bomba atômica. Os

Aliados venceram essa batalha e os Estados Unidos se tornaram o primeiro a possuir essa

arma letal. No presente, contudo, o Ocidente continua perdendo as batalhas políticas e científicas nessa nova frente secreta. Lutadores solitários são considerados estranhos, a

assistência lhes é negada, e são forçados a trabalhar duro para ganhar seu pão. Enquanto isso,

o cavalo de Tróia ideológico continua invadindo novos países.

Um exame da metodologia de tais batalhas, tanto nas frentes internas como nas externas,

aponta para aquele conhecimento patocrático específico, tão difícil de se compreender à luz

dos conceitos da linguagem natural. Assim, para estar apto a controlar as pessoas e aquelas

áreas da ciência relativamente não popularizadas, deve-se saber, ou ter a habilidade de

perceber, o que está acontecendo e quais fragmentos da psicopatologia são mais perigosos. O

examinador dessa metodologia se torna também ciente dos limites e imperfeições desse

autoconhecimento e prática, ou seja, as fraquezas, os erros e os lapsos do outro lado, e pode

gerenciá-los de forma a tirar vantagem deles.

Em nações com sistemas patocráticos, a supervisão sobre as organizações culturais e

científicas é designada a um departamento especial de pessoas especialmente confiáveis, um

“Escritório Sem Nome” composto quase inteiramente de pessoas relativamente inteligentes

que revelam traços psicopáticos característicos. Essas pessoas devem ser capazes de

completar seus estudos acadêmicos, embora às vezes forçando os examinadores a atribuírem

avaliações generosas. Seus talentos são geralmente inferiores aos dos estudantes medianos,

especialmente em relação à ciência psicológica. Apesar disso, eles são recompensados pelos

seus serviços pela obtenção de graus e posições acadêmicas, e têm permissão para

representar seus países perante a comunidade científica no exterior. Como são indivíduos

especialmente confiáveis, permite-se que eles não participem das reuniões locais do partido e

até mesmo evita-se completamente que eles se associem. Em caso de necessidade, eles podem

assim passar como apartidários. Apesar disso, esses superintendentes culturais e científicos

são bem conhecidos pela sociedade das pessoas normais, que aprendem a arte de diferenciá-

los relativamente rápido. Eles nem sempre são distinguidos adequadamente dos agentes da

polícia política, e embora se considerem como uma classe superior a esta, devem mesmo

assim cooperar com ela.

Com frequência nós encontramos essas pessoas no exterior, nos países de pessoas normais,

onde várias fundações e institutos concedem-nas subsídios científicos, com a convicção de

que estão, dessa forma, ajudando no desenvolvimento de conhecimento apropriado em países

sob governos “comunistas”. Esses benfeitores não percebem que estão prestando um

desserviço à ciência e aos cientistas verdadeiros ao permitir que esses supervisores

conquistem uma certa autoridade semi-autêntica, e por permitir que eles se tornem mais

familiarizados com algo que mais adiante julgarão como perigoso.

Afinal de contas, essas pessoas terão mais tarde o poder de permitir a alguém obter um

doutorado, embarcar em uma carreira científica, obter um mandato acadêmico ou ser

promovido. Sendo eles mesmos cientistas muito medíocres, tentam neutralizar as pessoas mais

talentosas, tanto por conta do auto-interesse como por causa daquela inveja típica que

caracteriza a atitude do patocrata em relação às pessoas normais. Eles são os que irão

monitorar os artigos científicos para que estejam “adequados à ideologia” e tentarão garantir

que seja negada a literatura científica de que um bom especialista necessita.

Os controles são excepcionalmente maliciosos e traiçoeiros nas ciências psicológicas em particular, por razões agora compreensíveis para nós. São compiladas listas escritas e não

escritas dos assuntos que não podem ser ensinados, e são emitidas diretrizes correspondentes

para distorcer apropriadamente outros assuntos. Essa lista é tão vasta na área da psicologia

que nada dessa ciência permanece, exceto um esqueleto depenado, desnudado de qualquer

coisa que possa ser sutil ou penetrante.

O currículo requerido a um psiquiatra não contém nem o conhecimento mínimo das áreas de

psicologia geral, comportamental e clínica, nem as habilidades básicas de psicoterapia.

Devido a tal estado de coisas, o mais medíocre ou privilegiado dos médicos se torna um

psiquiatra depois de um curso de estudos que leva somente semanas. Isso abre a porta da

carreira de psiquiatria para indivíduos que são, por natureza, inclinados a servir à autoridade

patocrática, e isso tem repercussões decisivas sobre o nível do tratamento. Posteriormente,

permite o abuso da psiquiatria em propósitos para os quais ela nunca deveria ser usada.

Por não serem bem educados, esses psicólogos se mostram impotentes face a muitos

problemas humanos, especialmente em casos onde é necessário um conhecimento detalhado.

Tal conhecimento deve então ser adquirido por si mesmo, um feito que nem toda pessoa está

capacitada a conduzir.

Tal comportamento traz no seu rastro uma boa quantidade de dano e injustiça humanos em

áreas da vida que não têm nada a ver com política. Infelizmente, no entanto, tal

comportamento é necessário do ponto de vista patocrático, para evitar que essas ciências

perigosas coloquem em risco a existência de um sistema que eles consideram ser o melhor

de todos os mundos possíveis.

Os especialistas nas áreas de psicologia e psicopatologia achariam altamente interessante a

análise desse sistema de proibições e recomendações. Torna-se assim possível perceber que

esta pode ser uma das vias pela qual podemos chegar ao cerne da questão ou à natureza desse

fenômeno macrossocial. As proibições englobam a psicologia profunda, a análise do

substrato instintivo humano, junto com a análise de sonhos.

Como já apontado no capítulo em que introduzimos alguns conceitos indispensáveis, o

entendimento do instinto humano é a chave para o entendimento do homem; no entanto, o

conhecimento das anomalias desse instinto também representa a chave para entender a

patocracia.

Embora cada vez mais raramente utilizada na prática psicológica, a análise de sonhos

sempre será a melhor escola de pensamento psicológico, o que a torna perigosa por natureza.

Consequentemente, mesmo a pesquisa sobre psicologia na seleção de parceiros é

desaprovada, na melhor das hipóteses.

A essência da psicopatia não pode, é claro, ser pesquisada ou elucidada. A escuridão é

lançada sobre esse assunto por meio de uma definição de psicopatia deliberadamente

concebida, que inclui vários tipos de transtornos de caráter, junto com aqueles originados por

causas completamente diferentes e conhecidas. Essa definição deve ser memorizada não

somente por cada professor acadêmico em psicopatologia, psiquiatria e psicologia, mas

também por alguns funcionários políticos com nenhuma educação na área.

Essa definição deve ser usada em todas as aparições públicas, sempre que, por alguma

razão, seja impossível evitar o assunto. Contudo, é preferível que um professor de tais áreas seja alguém que sempre acredita em qualquer coisa que seja mais conveniente em sua

situação, e cuja inteligência não o predestine a aprofundar-se em diferenciações sutis de

natureza psicológica.

É também importante ressaltar aqui que a doutrina principal de tal sistema é “Existência

define consciência”. Como tal, ela pertence à psicologia em vez de a qualquer doutrina

política. Essa doutrina, na realidade, contradiz uma boa dose de dados empíricos que indicam

o papel dos fatores hereditários no desenvolvimento da personalidade do homem e de seu

destino. Os professores podem se referir a investigações sobre gêmeos idênticos, mas somente

de modo breve, cuidadoso e formal. Considerações sobre esse assunto, todavia, não devem

ser publicadas na forma impressa.

Nós retornamos uma vez mais ao “gênio” psicológico peculiar do sistema e seu auto-

conhecimento. Alguém pode se espantar sobre como as definições de psicopatia mencionadas

acima bloqueiam efetivamente a habilidade de compreender os fenômenos abrangidos por ela.

Nós podemos investigar as relações entre essas proibições e a essência do fenômeno

macrossocial que elas de fato espelham. Nós podemos também observar os limites dessas

habilidades e os erros cometidos por aqueles que executam essa estratégia. Essas deficiências

são aproveitadas habilmente com o propósito de contrabandear algum conhecimento adequado

da parte dos mais talentosos especialistas, ou de pessoas mais velhas que não temem mais por

suas carreiras ou até mesmo por suas vidas.

A batalha “ideológica” está sendo travada em um território completamente despercebido

pelos cientistas que vivem sob governos de estruturas humanas normais e tentam imaginar essa

outra realidade. Isso se aplica a todas as pessoas que denunciam o “Comunismo”, assim como

àquelas para quem essa ideologia se tornou sua fé.

Logo depois de chegar aos Estados Unidos, um homem negro e jovem me entregou um jornal,

em alguma rua do Queens, em Nova Iorque. Eu fui pegar minha carteira, mas ele fez um gesto

com as mãos, dizendo que não precisava; o jornal era de graça.

A primeira página mostrava uma foto simpática de um Breznev jovem, com o peito decorado

com medalhas que ele não havia recebido de fato até muito tempo depois. Na última página,

contudo, eu encontrei um resumo muito bem trabalhado de investigações realizadas na

Universidade de Massachusetts sobre gêmeos idênticos que foram criados separadamente.

Essas investigações forneciam indicações empíricas do papel importante da hereditariedade e

a descrição continha uma ilustração literária das similaridades nos destinos dos pares de

gêmeos. Quão “ideologicamente desorientados” os editores desse jornal deviam estar para

publicar algo que não poderia nunca ter aparecido na área sujeita a um sistema supostamente

comunista.

Naquela outra realidade, a frente de batalha atravessa cada estudo de psicologia e

psiquiatria, cada hospital psiquiátrico, cada centro de consulta de saúde mental e a

personalidade de cada um que trabalhe nessas áreas. O que acontece lá: duelos verbais

escondidos, contrabando de informações e realizações verdadeiramente científicas, e assédio.

Algumas pessoas tornam-se moralmente descarriladas sob essas condições, enquanto outras

criam uma fundação sólida para suas convicções e são preparadas para assumir a dificuldade

e o risco a fim de obterem conhecimento honesto, e assim servir aos doentes e necessitados. A motivação inicial desse último grupo não é de caráter político, uma vez que deriva de sua boa

vontade e decência profissional. A consciência das causas políticas dessas limitações e o

significado político dessa batalha aparecem para eles somente depois, juntamente com a

experiência e a maturidade profissional, especialmente se sua experiência e habilidades

precisarem ser utilizadas para salvar pessoas perseguidas.

Enquanto isso, contudo, os artigos e os dados científicos necessários devem ser obtidos de

algum modo, levando em conta as dificuldades e a falta de compreensão das outras pessoas.

Os estudantes e os especialistas em início de carreira, que não estão ainda cientes do que foi

removido do currículo educacional, tentam ganhar acesso aos dados científicos que deles

foram roubados. A ciência começa a ser degradada a uma taxa preocupante uma vez que tal

consciência esteja em falta.

***

Nós temos que entender a natureza do fenômeno macrossocial, bem como essa relação

básica e controversa entre o sistema patológico e aquelas áreas da ciência que descrevem os

fenômenos psicológicos e psicopatológicos. Do contrário, não poderemos nos tornar

completamente conscientes das razões para tal comportamento bem conhecido do governo.

As ações e reações de uma pessoa normal, suas idéias e critérios morais, tudo, muito

freqüentemente, atinge os indivíduos anormais como sendo algo anormal. Pois se uma pessoa

com algum desvio psicológico se considera normal, o que é de fato significativamente mais

fácil se ela possuir autoridade, então ela considerará uma pessoa normal como diferente e

portanto anormal, na realidade ou como resultado do pensamento conversivo. Isso explica

porque o governo dessas pessoas sempre terá a tendência de tratar qualquer dissidente como

“mentalmente anormal”.

Operações como direcionar uma pessoa normal ao diagnóstico de uma doença psicológica e

fazer uso das instituições psiquiátricas para esse propósito acontecem na maioria dos países

em que tais instituições existem. A legislação contemporânea que recai sobre os países dos

homens normais não é baseada em um entendimento adequado da psicologia de tal

comportamento, e assim não institui uma medida preventiva o suficiente contra ele.

Dentro das categorias da visão de mundo psicológica normal, as motivações desse

comportamento foram entendidas e descritas de diversas maneiras: contas pessoais e da

família, assuntos de propriedade, intenção de desacreditar a declaração de uma testemunha, e

mesmo motivações políticas. Tais sugestões difamatórias são utilizadas com particular

frequência por indivíduos que não são eles mesmos totalmente normais, cujo comportamento

direcionou alguém a um colapso ou a um protesto violento. Entre os histéricos tal

comportamento tende a ser a projeção sobre a outra pessoa de suas próprias associações

autocríticas. Uma pessoa normal é vista pelo psicopata como um ingênuo, uma pessoa que

se acha esperta e acredita em teorias muito mal compreensíveis: chamá-la de “louca” não

está tão longe assim.

Contudo, quando nós levantamos um número suficiente de exemplos desse tipo ou coletamos

experiências suficientes nesta área, outro nível motivacional muito mais essencial para tal

comportamento se torna aparente. O que acontece, como regra, é que a idéia de levar alguém a uma doença mental parte de mentes com diversas aberrações e defeitos psicológicos. Só

raramente o componente dos fatores psicológicos realmente toma parte na ponerogênese de tal

comportamento, fora de seus agentes. Uma legislação bem pensada e cuidadosamente

estruturada deveria, portanto, requerer testes em indivíduos cujas sugestões de que outra

pessoa é psicologicamente anormal são muito insistentes ou fundamentadas de modo suspeito.

Por outro lado, qualquer sistema no qual o abuso da psiquiatria para razões alegadamente

políticas se torne um fenômeno comum deve ser examinado à luz de critérios psicológicos

similares, extrapolados para uma escala macrossocial. Qualquer pessoa que se rebele

internamente contra um sistema governamental, que sempre chegará a ela como sendo estranho

e difícil de entender, e que seja incapaz de esconder isso muito bem, será facilmente

designada pelos representantes de tal governo como “mentalmente anormal”, alguém que deve

ser submetido a tratamento psiquiátrico. Uma psiquiatria degenerada moralmente e

cientificamente se torna uma ferramenta facilmente utilizada para esse propósito. Assim nasce

um método único de terror e tortura humana, desconhecido até mesmo pela polícia secreta do

czar Alexandre II.

O abuso da psiquiatria para objetivos que já conhecemos deriva assim da natureza

mesma da patocracia, como um fenômeno psicopatológico macrossocial. Afinal de contas,

essa mesma área de conhecimento e tratamento deve primeiro ser degradada com o objetivo

de prevenir que ela coloque em risco o próprio sistema pelo anúncio de um diagnóstico

dramático, para depois ser utilizada como uma ferramenta expediente nas mãos das

autoridades. Em todo país, contudo, encontram-se pessoas que percebem esse movimento e

agem astutamente contra isso.

A patocracia sente-se crescentemente ameaçada por essa área sempre que há progresso nas

ciências médicas ou psicológicas. Afinal, essas ciências não só podem tirar a arma da

conquista psicológica de suas mãos; elas podem também atacar com sua própria natureza, e

de dentro do império.

Uma percepção específica desses assuntos ordena assim que a patocracia esteja

“conceitualmente alerta” nessa área. Isso também explica porque alguém que seja ao mesmo

tempo muito conhecedor dos assuntos nessa área e muito distante do alcance imediato dessas

autoridades possa ser acusado de qualquer coisa que foi fabricada, inclusive de anormalidade

psicológica.

CAPÍTULO VIII