Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 30 de 43

Páginas do PDF

Ponerologia: Psicopatas no Poder

A partir da perspectiva do tempo

Se uma pessoa com um substrato instintivo normal e uma inteligência básica já ouviu ou leu

sobre tais sistemas cruéis de governo autocrático “baseados em uma ideologia fanática”, ela

sente que já tem uma opinião formada sobre o assunto. Contudo, a confrontação direta com o

fenômeno, inevitavelmente, produziria nela um sentimento de impotência intelectual. Todas as

suas imaginações anteriores se mostrariam praticamente inúteis; elas explicam quase nada.

Isso provoca uma sensação persistente de que ela e a sociedade em que foi educada são

bastante ingênuas.

Qualquer pessoa capaz de aceitar esse amargo vazio com a consciência de sua própria

ignorância, o que faria com que um filósofo ficasse orgulhoso, pode também encontrar um

caminho de orientação dentro desse mundo anômalo. Contudo, proteger egotisticamente a sua

visão de mundo da desilusão desintegrativa e tentar combinar isso com observações dessa

nova realidade divergente, somente leva ao caos mental. Isso tem produzido conflitos

desnecessários e desilusão com o novo governo em algumas pessoas; outros têm se

subordinado à realidade patológica. Uma das diferenças observadas entre uma pessoa

normalmente resistente e alguém que se submeteu à transpersonificação é que aquela está mais

capacitada para sobreviver ao vácuo cognitivo desintegrativo, enquanto esta preenche o vazio

com material de propaganda patológica sem controles suficientes.

Quando a mente humana entra em contato com essa nova realidade, tão diferente de

quaisquer experiências encontradas por uma pessoa que cresceu em uma sociedade dominada

por pessoas normais, ela libera sintomas de choque psicofisiológico no cérebro humano com

um tônus mais elevado de inibição do córtex e uma repressão de sentimentos, que algumas

vezes jorram incontrolavelmente. A mente, então, trabalha mais lentamente e com menor

intensidade porque os mecanismos associativos se tornaram ineficientes. Principalmente,

quando uma pessoa tem contato direto com os representantes psicopatas do novo regime, que

utilizam sua experiência específica para traumatizar as mentes dos “outros” com suas próprias

personalidades, a mente de tal pessoa sucumbe para um estado catatônico de curto prazo. Suas

técnicas arrogantes e humilhantes, paramoralizações brutais e assim por diante, anestesiam os

processos de pensamento e as capacidades de autodefesa da pessoa, e seu método de

experiência divergente se ancora na mente da pessoa. Na presença desse tipo de fenômeno,

qualquer avaliação moralizante do comportamento de uma pessoa em tal situação torna-se

assim imprecisa, na melhor das hipóteses.

Somente quando esses estados psicológicos desagradáveis e inacreditáveis passaram, graças

ao descanso na companhia de pessoas benevolentes, é possível refletir, o que é sempre um

processo doloroso e difícil, ou ficar ciente de que a mente e o senso comum foram enganados

por alguma coisa que não se encaixa na imaginação humana normal.

O homem e a sociedade se sustentam por um longo caminho de experiências desconhecidas

que, depois de muito experimento e terror, finalmente levam a um certo conhecimento

hermético de quais são as características do fenômeno e de qual é a melhor forma de

estabelecer uma resistência psicológica a ele. Especialmente durante a fase dissimulativa, que

torna possível a adaptação à vida nesse mundo diferente e assim providencia condições de

vida mais toleráveis. Nós estaremos, então, capacitados a notar os fenômenos psicológicos, o conhecimento, a imunização e a adaptação, como não poderia ter sido feito antes, e de um

modo que não pode ser entendido no mundo que permanece sob o governo dos sistemas do

homem normal. Uma pessoa normal, no entanto, nunca será capaz de se adaptar completamente

ao sistema patológico; é fácil ser pessimista sobre o resultado final a que isso leva.

Tais experiências são trocadas durante discussões noturnas em um círculo de amigos,

criando assim, dentro das mentes das pessoas, um tipo de conglomerado cognitivo que é

inicialmente incoerente e que contém deficiências factuais. A participação de categorias

morais na compreensão do fenômeno macrossocial e do modo pelo qual alguns indivíduos se

comportam é proporcionalmente muito maior dentro dessa nova visão de mundo do que a

participação do conhecimento científico exemplificado. A ideologia pregada oficialmente pela

patocracia continua a manter seus poderes sugestivos, cada vez menores, até o momento em

que a razão humana consegue controlá-los como algo subordinado, que não é descritivo da

essência do fenômeno.

Os valores morais e religiosos, assim como a herança cultural de séculos das nações,

fornece à maioria das sociedades o suporte para o longo caminho, tanto individual como

coletivo, de busca através da floresta de fenômenos estranhos. Essa capacidade perceptiva

que as pessoas possuem, dentro da estrutura de visão do mundo natural, contém uma

deficiência que esconde o núcleo do fenômeno por muitos anos. Sob tais condições, tanto o

instinto quanto os sentimentos, e a inteligência básica resultante, possuem papéis

instrumentais, estimulando o homem a fazer escolhas que são em grande extensão

subconscientes.

Sob as condições criadas pelos governos patocráticos impostos em particular, onde as

deficiências psicológicas descritas são decisivas na união às atividades de tal sistema, nosso

substrato instintivo humano natural é um fator instrumental para se juntar à oposição.

Da mesma forma, as motivações econômicas, ambientais e ideológicas que influenciam a

formação de uma personalidade individual, incluindo aquelas atitudes políticas assumidas

anteriormente, representam um papel de fator de mudança, embora elas não sejam tão

duradouras no tempo. A atividade desses últimos fatores, embora seja relativamente clara em

relação aos indivíduos, desaparece dentro da abordagem estatística e diminui através dos anos

de governo patocrático. As decisões e as escolhas feitas pelo lado da sociedade composto de

pessoas normais são, mais uma vez, finalmente decididas por fatores usualmente herdados por

meios biológicos, em vez de serem produtos de opção pessoal, e predominantemente em

processos subconscientes.

A inteligência geral do homem, especialmente no nível intelectual, tem um papel

relativamente limitado nesse processo de seleção do caminho de ação, expresso como sendo

estatisticamente significativo, mas de baixa correlação (-0,16). Quanto maior o nível geral de

talento de uma pessoa, em geral, mais difícil é para ela se reconciliar com essa realidade

diferente e encontrar um modus vivendi dentro de si.

Ao mesmo tempo, existem pessoas talentosas e dotadas que se juntam à patocracia, e

palavras duras de desprezo pelo sistema podem ser ouvidas da parte das pessoas mais

simples e sem instrução. Somente essas pessoas com o mais alto grau de inteligência que,

conforme mencionado, não se associam às psicopatias, são incapazes de encontrar sentido para a vida dentro de tal sistema. Algumas vezes, elas são capazes de tirar vantagem de sua

mentalidade superior, de forma a encontrar meios excepcionais para serem úteis aos outros. O

desperdício dos melhores talentos anuncia uma eventual catástrofe para qualquer sistema

social.

Uma vez que esses fatores sujeitos à lei genética demonstram-se decisivos, a sociedade se

torna dividida, por meio de critérios não conhecidos anteriormente, em duas partes: os

adeptos do novo governo – a nova classe média mencionada acima – e a maioria de oposição.

Dado que as propriedades que causaram essa nova divisão aparecem mais ou menos na

mesma proporção que em qualquer grupo ou nível social antigo, essa nova divisão faz um

corte direto através das camadas tradicionais da sociedade. Se colocarmos a estratificação

antiga, cuja formação foi decisivamente influenciada pelo fator de talento, na horizontal, a

nova estratificação deveria ser representada como sendo vertical. O fator mais instrumental

nessa última estratificação é uma boa inteligência básica que, conforme já sabemos, é

amplamente distribuída através de todos os grupos sociais.

Mesmo aquelas pessoas que foram objeto de injustiça social no antigo sistema e então se

entregaram ao novo, que alegadamente os protegeria, começam lentamente a criticar esse

último. Ainda que tenham sido obrigados a se associar ao partido patocrático, a maioria dos

antigos comunistas do período pré-guerra, na pátria do autor, tornou-se gradualmente crítica,

utilizando a linguagem mais enfática possível. Eles foram os primeiros a negar que o sistema

governante fosse comunista em sua natureza, apontando persuasivamente as diferenças reais

entre a ideologia e a realidade. Eles tentaram informar seus companheiros dos países ainda

independentes, por meio de cartas. Preocupados com essa “traição”, esses companheiros

entregaram tais cartas aos seus partidos locais naqueles outros países, de onde elas foram

devolvidas à policia secreta dos países de origem. Os autores das cartas pagaram com as suas

vidas ou com anos de prisão. Ao final, nenhum outro grupo social esteve sujeito à vigilância

policial tão rigorosa como eles.

Independentemente de qual seja a nossa avaliação da ideologia ou dos partidos comunistas,

estamos presumidamente justificados para acreditar que os velhos comunistas foram

perfeitamente competentes para distinguir o que estava e o que não estava de acordo com sua

ideologia e suas crenças. Suas declarações altamente enfáticas sobre o assunto, inteiramente

populares entre os círculos dos velhos comunistas da Polônia, são impressionantes e até

mesmo persuasivas.[ 75 ] Por causa da linguagem utilizada aqui, contudo, nós devemos

designá-las como interpretações excessivamente moralizadoras, que não se coadunam com o

caráter desse trabalho. Ao mesmo tempo, devemos admitir que a maioria dos comunistas

poloneses do período pré-guerra não eram psicopatas.

Do ponto de vista da economia e da realidade, qualquer sistema onde a maior parte da

propriedade e dos postos de trabalho pertence ao estado, de jure et de facto,[ 76 ] é

capitalismo de estado e não comunismo. Tal sistema exibe as características de um

explorador capitalista primitivo do século XIX, que teve uma compreensão insuficiente de seu

papel na sociedade e de como os seus interesses estavam ligados ao bem estar dos seus

trabalhadores. Os trabalhadores são muito conscientes dessas características, principalmente

quando reúnem uma certa quantidade de conhecimento em conexão com suas atividades políticas.

Um socialista razoável buscando substituir o capitalismo por algum sistema em

conformidade com suas idéias - que poderia ser baseado na participação dos trabalhadores na

administração do local de trabalho e nos lucros – rejeitaria tal sistema como a “pior

variedade de capitalismo”. Afinal de contas, concentrar o capital e o governo em um único

lugar leva sempre à degeneração. O capital deve estar sujeito à autoridade da justiça.

Eliminar tal forma degenerada de capitalismo deveria, então, ser uma tarefa prioritária para

qualquer socialista. Apesar de tudo, tal raciocínio por meio das categorias sociais e

econômicas obviamente perde o ponto central da questão.

A experiência histórica nos ensina que qualquer tentativa de realizar a idéia comunista pelo

caminho revolucionário, seja ele violento ou dissimulado, leva a uma distorção do processo

na direção das formas anacrônicas e patológicas, cujas essências e conteúdos permanecem

inacessíveis para as mentes que utilizam os conceitos da visão de mundo natural. A evolução

constrói e transforma mais rápido do que a revolução, e sem complicações trágicas.

Uma das primeiras descobertas feitas por uma sociedade de pessoas normais é que ela é

superior aos novos governantes em inteligência e habilidades práticas, não importando quão

geniais eles busquem mostrar que são. Os nós da razão embrutecida são gradualmente

desfeitos e a fascinação com o conhecimento secreto e o plano de ação inexistentes dos novos

governantes começa a diminuir, seguida pela familiarização com o conhecimento preciso

sobre essa nova realidade depravada.

O mundo das pessoas normais será sempre superior ao mundo das anomalias todas as vezes

que uma atividade construtiva for necessária, seja ela a reconstrução de um país devastado, a

área da tecnologia, a organização da vida econômica ou o trabalho médico e científico. “Eles

querem construir coisas, mas eles não conseguem fazer muito sem nós”. Especialistas

qualificados são freqüentemente capazes de fazer certas exigências; infelizmente, eles somente

são considerados qualificados até que o trabalho seja feito e, nesse ponto, podem ser

eliminados. Uma vez que a fábrica inicie suas atividades, os especialistas podem sair; o

gerenciamento será assumido por outra pessoa, incapaz de avançar no progresso, e sob quem

muito do esforço gasto será desperdiçado.

Como nós já apontamos, toda anomalia psicológica é de fato um tipo de deficiência. Os

psicopatas são baseados principalmente nas deficiências no substrato instintivo; contudo, sua

influência exercida sobre o desenvolvimento mental dos outros também leva a deficiências na

inteligência geral, conforme já foi discutido. Essa deficiência de inteligência em uma pessoa

normal, induzida pela psicopatia, não é compensada pelo conhecimento psicológico especial

que observamos entre alguns psicopatas. Tal conhecimento perde seu poder hipnótico quando

as pessoas normais também aprendem a entender esses fenômenos. O psicopatologista não

ficou surpreso, então, pelo fato de que o mundo das pessoas normais é dominante em relação

às habilidades e aos talentos. Para aquela sociedade, contudo, isso representou uma

descoberta que gerou esperança e produziu um relaxamento psicológico.

Já que nossa inteligência é superior à deles, nós podemos reconhecê-los e entender como

eles pensam e agem. Isso é o que uma pessoa aprende em tal sistema, por sua própria

iniciativa, pressionada pelas necessidade do cotidiano. Ela aprende enquanto trabalha em seu escritório, na escola ou na fábrica, quando necessita lidar com as autoridades e quando é

presa, algo que somente algumas pessoas conseguem evitar. O autor e muitos outros

aprenderam um bom tanto sobre a psicologia desse fenômeno macrossocial durante a

doutrinação escolar compulsória. Os organizadores e os professores podem não ter tido a

intenção de que esse resultado fosse obtido. O conhecimento prático dessa nova realidade

cresce, portanto, e graças a isso a sociedade ganha uma desenvoltura de ação que a capacita a

tirar cada vez mais vantagem dos pontos fracos do sistema governante. Isso permite a

reorganização gradual das ligações sociais, que produzem frutos com o tempo.

Essa nova ciência é incalculavelmente rica em detalhes de casuística;[ 77 ] eu não a

classificaria, apesar disso, como excessivamente literária. Ela contém conhecimento e uma

descrição do fenômeno nas categorias da visão de mundo natural, correspondentemente

modificada de acordo com a necessidade de entender os assuntos que estão, de fato, fora da

esfera de sua aplicabilidade. Isso também abre a porta para a criação de certas doutrinas que

mereceriam um estudo separado porque contêm uma verdade parcial, tal como uma

interpretação demonológica do fenômeno.

O desenvolvimento da familiaridade com o fenômeno é acompanhado pelo desenvolvimento

da linguagem comunicativa, por meio da qual a sociedade pode ficar informada e lançar

avisos de perigo. Uma terceira linguagem aparece então junto com a língua dupla ideológica

descrita anteriormente; em parte, ela toma emprestados os nomes utilizados pela ideologia

oficial em seus significados transformados. Em parte, essa linguagem opera com palavras

emprestadas das piadas que circulam com ainda mais vivacidade. Apesar de sua estranheza,

essa linguagem pode ser traduzida e comunicada nas relações com os residentes de outros

países com sistemas governamentais análogos, mesmo se a “ideologia oficial” do outro país

for diferente. Todavia, apesar dos esforços da parte dos literatos e jornalistas, essa linguagem

permanece comunicativa somente para dentro do fenômeno; ela se torna hermética para fora da

abrangência do fenômeno, incompreendida pelas pessoas para as quais falta a experiência

pessoal apropriada.

Vale a pena apontar o papel específico de certos indivíduos durante esses tempos; eles

participaram na descoberta da natureza dessa nova realidade e ajudaram os outros a encontrar

o caminho correto. Eles possuem uma natureza normal mas experimentaram uma infância

desafortunada, sendo sujeitos desde muito cedo à dominação por indivíduos com vários

desvios psicológicos, incluindo o egotismo patológico e os métodos de aterrorizar os outros.

O novo sistema de governo atinge estas pessoas como uma multiplicação social em larga

escala de algo que elas já conheciam em sua experiência pessoal. Desde o início, esses

indivíduos viram esta realidade de forma muito mais prosaica, e de imediato trataram a

ideologia de acordo com as histórias paralógicas, bem conhecidas por eles, cuja proposta era

mascarar a realidade amarga de sua experiência de juventude. Eles logo alcançaram a

verdade, uma vez que a gênese e a natureza do mal são análogas, sem levar em conta a

escala social na qual aparecem.

Tais pessoas são raramente entendidas nas sociedades felizes, mas elas foram valorosas

naquela situação. Suas explicações e conselhos mostraram-se precisos e foram transmitidos

para outros que aderiram à rede desse patrimônio perceptivo. Todavia, o próprio sofrimento foi duplicado, uma vez que isso foi muito mais do mesmo abuso para uma só vida lidar.

Conseqüentemente, eles alimentavam sonhos de fuga para uma liberdade ainda existente em

um mundo externo.

Finalmente, a sociedade enxerga o aparecimento de indivíduos que juntaram uma percepção

intuitiva excepcional e o conhecimento prático na questão de como os patocratas pensam e de

como tal sistema de governo opera. Alguns se tornam tão proficientes na linguagem deficiente

deles e em sua idiomática, que são capazes de usá-la como se fosse um idioma estrangeiro que

eles aprenderam muito bem. Uma vez que possuem a habilidade de decifrar as intenções dos

governantes, tais pessoas aconselham aqueles que estão tendo dificuldades com as

autoridades. Esses advogados da sociedade das pessoas normais possuem um papel

insubstituível na vida da sociedade.

Os patocratas, todavia, nunca conseguem aprender a pensar nas categorias humanas normais.

Ao mesmo tempo, a incapacidade dessa autoridade de predizer a reação das pessoas normais

a leva à conclusão de que o sistema é rigidamente determinante e de que não existe liberdade

de escolha natural.

Essa nova ciência, expressa em uma linguagem derivada a partir de uma realidade anômala,

é algo estranho para as pessoas que desejam entender esse fenômeno macrossocial mas que

pensam nas categorias dos países dos homens normais. As tentativas de entender essa

linguagem produzem um certo sentimento de impotência, que dá origem à tendência de criação

de uma doutrina própria, construída a partir dos conceitos que se tem do próprio mundo e de

uma certa quantidade de material de propaganda patocrática apropriado para cooptação. Tal

doutrina seria, por exemplo, a propaganda anticomunista americana. Tais conceitos

distorcidos e deformados torna ainda mais difícil entender aquela outra realidade. Que a

descrição objetiva exemplificada aqui possa capacitá-los a superar esse impasse assim

produzido.

Em países sujeitos ao governo patocrático, esse conhecimento e essa linguagem,

especialmente a experiência humana, criam uma concatenação mediadora de tal forma que a

maioria das pessoas podem assimilar essa descrição objetiva do fenômeno sem maiores

dificuldades, com a ajuda da percepção ativa. As dificuldades são encontradas somente pelas

gerações mais velhas e por uma certa proporção das pessoas jovens, crescidas no sistema

desde a infância, o que é psicologicamente compreensível.

Uma vez eu tratei uma paciente que havia sido uma interna de um campo de concentração

nazista. Ela voltou daquele inferno em uma condição tão excepcionalmente boa, que esteve

apta a se casar e gerar três filhos. Contudo, os métodos de criação de suas crianças eram

extremamente rígidos, em virtude da reminiscência da vida no campo de concentração, tão

teimosamente persistente em ex-prisioneiros. A reação de seus filhos era de protesto neurótico

e de agressividade em relação às outras crianças.

Durante a psicoterapia da mãe nós trouxemos de volta as imagens dos oficiais da S.S.,

masculinos e femininos, à sua mente, apontando suas características psicopáticas (tais pessoas

eram principalmente recrutas). Para ajudá-la a eliminar o material patológico, proveniente

oficiais, de sua pessoa, eu forneci a ela dados estatísticos aproximados em relação ao

aparecimento de tais indivíduos dentro da população como um todo. Isso a ajudou a alcançar uma visão mais objetiva daquela realidade e reestabelecer a confiança na sociedade das

pessoas normais.

Durante a visita seguinte, a paciente me mostrou um pequeno cartão no qual ela tinha escrito

os nomes dos patocratas locais notáveis e adicionado o seu próprio diagnóstico, que era

correto, em grande medida. Então, eu fiz um sinal de silêncio com o meu dedo e a adverti

enfaticamente de que nós estávamos lidando somente com os problemas dela. A paciente

entendeu e, eu tenho certeza, não deixou que suas reflexões sobre o assunto fossem conhecidas

nos lugares errados.

Paralelos ao desenvolvimento do conhecimento prático e da linguagem de comunicação

interna, outros fenômenos psicológicos tomam forma; eles são verdadeiramente significativos

na transformação da vida social sob o governo patocrático, e discerni-los é essencial se

alguém deseja entender os indivíduos e as nações fadadas a viver em tais condições e avaliar

a situação na esfera política. Eles incluem a imunização psicológica das pessoas e sua

adaptação à vida sob tais condições anômalas.

Os métodos de terror psicológico (aquela arte patocrática específica), as técnicas de

arrogância patológica e a invasão das almas das outras pessoas, inicialmente têm efeitos tão

traumáticos que as pessoas são privadas da sua capacidade de reação objetiva. Eu já

exemplifiquei os aspectos psicológicos desses estados. Dez ou vinte anos depois, um

comportamento análogo já passa a ser reconhecido como uma palhaçada bem conhecida, e não

priva a vítima da sua habilidade de pensar e reagir com propósito. Suas respostas são

geralmente estratégias bem pensadas, lançadas da posição de superioridade de uma pessoa

normal e sempre enfeitadas com o ridículo. Quando o homem consegue olhar diretamente para

o sofrimento ou mesmo para a morte com a calma necessária, uma arma perigosa cai das mãos

do governante.

Nós temos que entender que esse processo de imunização não é meramente um resultado do

aumento de conhecimento prático do fenômeno macrossocial descrito acima. Ele é o efeito de

um processo gradual, multicamadas, de crescimento do conhecimento, familiarização com o

fenômeno, criação de um hábito reativo apropriado, e autocontrole, com uma concepção

abrangente e princípios morais sendo trabalhados no ínterim. Depois de vários anos, o mesmo

estímulo que no passado causou impotência espiritual insensível ou paralisia mental, agora

provoca o desejo de fazer gargarejo com algo forte, para se livrar dessa sujeira.

Houve um tempo quando muitas pessoas sonhavam em encontrar alguma pílula que tornaria

mais fácil suportar lidar com as autoridades ou frequentar as sessões de doutrinação forçada,

geralmente presididas por um personagem psicopático. Alguns antidepressivos de fato

provaram ter o efeito desejado. Vinte anos depois, isso foi completamente esquecido.

***

Quando eu fui preso pela primeira vez, em 1951, a força, a arrogância e os métodos psicopáticos de confissão forçada

privaram-me quase inteiramente das minhas capacidades de autodefesa. Meu cérebro parou de funcionar depois de alguns dias sem água, em tal ponto que eu não podia sequer lembrar apropriadamente do incidente que resultou na minha prisão repentina. Eu não estava sequer ciente que ele havia sido propositadamente provocado e que as condições que permitiam a autodefesa de fato existiam. Eles fizeram praticamente tudo o que queriam comigo.

Quando eu fui preso pela última vez, em 1968, fui interrogado por cinco funcionários da segurança, de olhares ferozes.

Em um momento em particular, depois de pensar através de suas reações previsíveis, eu deixei meu olhar passar em cada

face, sequencialmente, com grande atenção. O mais importante deles me perguntou: “O que se passa em sua mente, imbecil, para ficar nos encarando assim?”. Eu respondi sem qualquer medo das consequências: “Eu estou somente pensando porque tantos cavalheiros da sua linha de trabalho acabam em um hospital psiquiátrico.” Eles foram surpreendidos por um momento, e então o mesmo homem exclamou: “Porque é um maldito trabalho ruim!” Eu calmamente respondi: “Eu sou da opinião de que é o contrário”. Então fui levado de volta para a minha cela.

Três dias depois, eu tive a oportunidade de falar com ele novamente, mas dessa vez ele foi muito mais respeitoso.

Então, ele ordenou que eu fosse liberado – para fora, como aconteceu. Peguei o bonde para casa e, ao passar por um grande parque, eu ainda era incapaz de acreditar nos meus olhos. Uma vez no meu quarto, deitei na cama; o mundo ainda não era muito real, mas as pessoas exaustas adormecem rapidamente. Quando eu acordei, falei alto: “Querido Deus, não era para o senhor estar no comando, aqui nesse mundo?”

***

Naquele tempo, eu sabia não somente que um quinto de todos os oficiais da polícia secreta

terminavam em hospitais psiquiátricos, mas também que sua “doença ocupacional” é a

demência congestiva, que no passado era encontrada somente em prostitutas velhas. O homem

não pode violar impunemente os sentimentos humanos naturais que estão dentro de si, não

importa em qual tipo de profissão ele atue. Daquele ponto de vista, o companheiro capitão

estava parcialmente certo. Ao mesmo tempo, contudo, minhas reações tinham se tornado

resistentes, muito diferente do que tinham sido dezessete anos antes.

Todas essas transformações do consciente e subconsciente humanos resultam em uma

adaptação individual e coletiva para viver sob tal sistema. Sob condições alteradas, tanto de

limitações materiais como morais, uma desenvoltura existencial emerge, preparada para

superar muitas dificuldades. Uma nova rede da sociedade das pessoas normais é também

criada, para assistência mútua e auto-ajuda.

Essa sociedade age de acordo com o real estado das coisas, e está ciente dele; ela começa a

desenvolver caminhos para influenciar vários elementos da autoridade e alcançar objetivos

que são socialmente úteis. Instruir e convencer pacientemente os representantes medíocres do

governo leva um tempo considerável e requer habilidades pedagógicas. Contudo, as pessoas

mais bem-humoradas são selecionadas para esse trabalho, pessoas com um talento específico

para influenciar os patocratas e com familiaridade suficiente com sua psicologia. A opinião de

que a sociedade é totalmente privada de qualquer influência sobre o governo em um país

desse é, dessa forma, imprecisa. Na realidade, a sociedade realmente co-governa em uma

certa extensão, algumas vezes tendo sucesso e outras vezes falhando na sua tentativa de criar

condições de vida mais toleráveis. Isso, contudo, ocorre de um modo totalmente diferente do

que acontece nos países democráticos.

Esses processos cognitivos – imunização psicológica e adaptação – permitem a criação de

novas ligações sociais e interpessoais, que operam dentro da esfera da grande maioria que nós

estamos chamando de “sociedade das pessoas normais”. Essas ligações se estendem

discretamente para dentro do mundo da classe média do regime, entre as pessoas que são

confiáveis até uma certa extensão. Em tempo: as ligações sociais criadas são

significantemente mais efetivas do que aquelas ativas nas sociedades governadas por sistemas

humanos normais. A troca de informações, avisos e assistências abrangem a sociedade inteira.

Qualquer um que seja capaz de fazê-lo oferta ajuda para outro que se encontre em dificuldade,

sempre de uma forma que a pessoa ajudada nem sequer sabe quem foi que lhe prestou

assistência. Contudo, se ela causou sua desgraça, pela sua própria falta de prudência em relação às autoridades, ela encontra reprovação, mas nunca a omissão de assistência.

É possível criar tais ligações porque essa nova divisão da sociedade dá uma atenção

limitada a fatores como nível de talento, educação ou tradições ligadas às antigas camadas

sociais. Nem as diferenças reduzidas de prosperidade desmancham essas ligações. Um lado

dessa divisão contém aqueles da mais elevada cultura mental, pessoas comuns simples,

intelectuais, especialistas para trabalhos mentais, trabalhadores de fábrica e camponeses,

todos unidos pelo protesto em comum de sua natureza humana contra a dominação dos

métodos experimentais para-humanos do governo. Essas ligações produzem entendimento

interpessoal e sentimento de companheirismo entre as pessoas e os grupos anteriormente

divididos por diferenças econômicas e tradições sociais. Os processos de pensamento que

alimentam essas ligações são de caráter mais psicológico, capazes de compreender as

motivações da outra pessoa. Ao mesmo tempo, as pessoas comuns mantêm respeito pelas

outras formalmente educadas e que representam valores intelectuais. Certos valores sociais e

morais também aparecem e podem se tornar permanentes.

A gênese, contudo, dessa grande solidariedade interpessoal, somente se torna compreensível

quando conhecemos a natureza do fenômeno macrossocial patológico que ocasionou a

liberação de tais atitudes, em conjunto com o reconhecimento da própria humanidade e da

humanidade dos outros. Outra reflexão também aparece, a saber, quão diferentes essas

ligações são em relação à “sociedade competitiva” americana, para quem a anterior –

diferenças econômicas e sociais – representam algo que é operacional, mesmo que cruze os

limites da imaginação.

Alguém poderia pensar que a vida cultura e intelectual de uma nação degeneraria

rapidamente quando sujeita ao isolamento do país das ligações culturais e científicas com

outras nações, às limitações patocráticas sobre o desenvolvimento do pensamento individual,

ao sistema de censura, ao nível mental dos executivos e a todos os demais atributos de tal

governo. A realidade, no entanto, não valida tais predições pessimistas.

A necessidade de um esforço mental constante tão crucial para encontrar algum meio de vida

tolerável, não totalmente despojado do senso moral e dentro dessa realidade anômala, causa o

desenvolvimento de uma percepção realista, especialmente na área dos fenômenos sócio-

psicológicos. Proteger uma mente dos efeitos da propaganda paralógica, assim como manter

uma personalidade protegida da influência de paramoralismos e de outras técnicas já

descritas, aguça os processos de pensamento controlado e a habilidade de discernir esses

fenômenos. Tal treinamento é também um tipo especial de universidade do homem comum.

Durante esse tempo, a sociedade encontra fontes históricas na busca pelas causas antigas do

seu infortúnio e por meios de melhorar seu destino no futuro. As mentes científicas e sociais

analisam trabalhosamente a história nacional em busca da interpretação dos fatos que

poderiam ser profundos do ponto de vista do realismo psicológico e moral. Nós, de forma

sóbria, discernimos o que aconteceu anos e séculos atrás, percebendo os erros das gerações

anteriores e os resultados da intolerância ou de tomadas de decisão emocionalmente

sobrecarregadas. Essa análise importante das visões de mundo individual, social e histórica,

na busca pelo sentido da vida e da história, é um produto de épocas infelizes e auxiliará no

caminho de volta aos tempos felizes.

Outro objeto de consideração nos apareceu: problemas morais aplicáveis à vida individual,

bem como à história e à política. A mente inicia uma busca cada vez mais profunda nessa área,

atingindo um entendimento cada vez mais sutil do assunto, porque é precisamente nesse mundo

que as simplificações exageradas se mostraram insatisfatórias. Um entendimento das outras

pessoas, incluindo aquelas que cometem erros e crimes, aparece na forma de solução de

problemas que foi subestimado anteriormente. O perdão é somente um passo além do

entendimento. Como Madame de Staël escreveu: Tout comprendere, c’est tout pardoner .[ 78

]

A religião de uma sociedade é afetada por transformações análogas. A proporção de

pessoas que mantêm a crença religiosa não é significantemente afetada, particularmente em

países nos quais a patocracia foi imposta. Ocorre, no entanto, uma modificação dos conteúdos

e da qualidade de tais crenças, de tal forma que a religião, com o tempo, se torna mais atrativa

para as pessoas educadas de forma indiferente à fé. A velha religião, dominada pela tradição,

por rituais e pela falta de sinceridade, agora se vê transformada em fé, condicionada por

estudos necessários e convicções que determinam os critérios de comportamento.

Qualquer pessoa que lê o Evangelho durante esses tempos encontra algo que é difícil para os

outros cristãos entenderem. É tão real a similaridade entre as relações sociais do governo da

Roma pagã antiga e essas sob a patocracia ateísta, que o leitor imagina as situações descritas

mais facilmente e percebe a realidade das ocorrências de forma mais vívida. Tal leitura

também fornece encorajamento e conselhos que ele pode utilizar nessas situações. Assim,

durante tempos brutais de confrontação com o mal, as capacidades humanas de discriminar os

fenômenos se tornam sutis; a percepção e a sensibilidade moral se desenvolvem. As

faculdades críticas algumas vezes beiram o cinismo.

***

Uma vez, eu entrei em um bonde que subia uma montanha, o qual estava cheio de estudantes de colegial e

universitários. Durante a viagem a música enchia o veículo e as colinas no entorno. Velhos sons de antes da guerra, com

poemas de Lesmian,[ 79 ] tanto frívolos como espirituosos: ‘Nossos ancestral Noé foi um homem corajoso...’, e outros. O texto, contudo, havia sido corrigido com humor e talento literário, eliminando qualquer coisa que irritasse esses jovens crescidos durante os tempos difíceis. Esse foi um resultado não intencional?

***

Como resultado de todas essas transformações, incluindo a de-egotização do pensamento e

atitude conectadas a elas, a sociedade se torna capaz de uma criatividade mental que vai além

das condições normais. Esse esforço poder ser útil em qualquer área cultural, técnica ou

econômica, se as autoridades não se opuserem e não as reprimirem por se sentirem ameaçadas

por essa atividade.

O gênio humano não nasce da prosperidade preguiçosa e no meio de uma camaradagem

gentil, mas ao contrário, está em confronto contínuo com a realidade recalcitrante que é

diferente da imaginação humana comum. Sob tais condições, abordagens teóricas de larga

escala são descobertas como tendo valor existencial prático. O velho sistema de pensamento

que permanece em uso nos países livres começa a parecer retrógrado, ingênuo, e destituído do

sentimento de valores.

Se as nações que chegaram a esse estado estivessem para recuperar sua liberdade, muitas realizações valiosas do pensamento humano amadureceriam dentro de um curto espaço de

tempo. Nenhum medo excessivo estaria em pauta a respeito da capacidade desta nação de

elaborar um sistema sócio-econômico viável. Pelo contrário: a ausência de grupos de pressão

egoístas, a natureza conciliatória de uma sociedade que tem anos de experiência amarga atrás

de si, e os processos de pensamento penetrantes e moralmente profundos permitiriam que o

caminho de volta fosse encontrado de forma relativamente rápida. Perigos e dificuldades

viriam, ao contrário, de pressões externas da parte das nações que não entendem

adequadamente as condições em tal país. Mas, infelizmente, a patocracia não pode ser

receitada como um remédio amargo!

A geração mais velha, que cresceu em um país de homens normais, geralmente reage

desenvolvendo as habilidades acima mencionadas, ou seja, pelo enriquecimento. A geração

mais nova, contudo, foi educada sob o domínio patocrático e assim sucumbe a um maior

empobrecimento da visão de mundo, ao enrijecimento reflexivo da personalidade e à

dominação pelas estruturas habituais, aqueles resultados típicos da operação das

personalidades patológicas. A propaganda paralógica e sua doutrinação correspondente são

conscientemente rejeitadas; no entanto, esse processo demanda tempo e esforço que poderiam

ser melhor utilizados para a percepção ativa de conteúdos valiosos. Estes últimos podem ser

acessíveis somente com dificuldade, devido tanto às limitações como aos problemas de

percepção. É aí que surge o sentimento de um certo vazio que é difícil de preencher. Apesar

da boa vontade humana, certos paralogismos e paramoralismos, assim como o materialismo

cognitivo, ficam ancorados e persistem nos cérebros. A mente humana não é capaz de refutar

cada uma das falsidades que lhe foram sugeridas.

A vida emocional das pessoas que crescerem dentro dessas realidades psicológicas

deficientes é também repleta de dificuldades. Apesar da razão crítica, uma certa saturação da

personalidade de um jovem com material psicológico patológico é inevitável, assim como são

um grau de primitivismo e a rigidez de sentimentos. Os esforços constantes para controlar as

emoções, assim como para evitar alguma reação tempestuosa que provoque a repressão por

parte de um regime vingativo e retentor, faz com que os sentimentos sejam reprimidos para um

papel de algo menos problemático, algo que não deve ter uma saída natural. As reações

emocionais suprimidas surgem posteriormente, quando a pessoa permite que elas sejam

expressadas. Elas então chegam atrasadas e de forma inadequada ao contexto da situação.

Preocupações com o futuro despertam o egotismo entre as pessoas assim adaptadas à vida em

uma estrutura social patológica.

A neurose é uma resposta natural da natureza humana se uma pessoa normal é subordinada à

dominação por pessoas patológicas. O mesmo se aplica à subordinação de uma sociedade e

de seus membros a um sistema patológico de autoridade. Em um estado patocrático, cada

pessoa com uma natureza normal exibe assim um certo estado neurótico crônico, controlado

pelos esforços da razão. A intensidade desses estados varia entre indivíduos, dependendo das

diferentes circunstâncias, usualmente mais graves na proporção direta à inteligência do

indivíduo. A psicoterapia para tais pessoas somente é possível e efetiva se pudermos contar

com a familiaridade adequada com as causas desses estados. Os psicólogos educados no

ocidente se mostraram completamente não práticos com relação a esses pacientes.

Um psicólogo trabalhando nesse país deve desenvolver técnicas operacionais especiais

desconhecidas e até mesmo insondáveis para os especialistas que atuam no mundo livre. Elas

têm o objetivo de liberar parcialmente a voz do instinto e do sentimento de seu supercontrole

anormal e de redescobrir a voz interior da sabedoria natural, mas isso deve ser feito de tal

forma que evite expor o paciente a resultados infelizes de liberdade excessiva de reação nas

condições sob as quais ele é obrigado a viver. Um psicólogo deve operar cuidadosamente,

com a ajuda de alusões, porque ele pode raramente informar o paciente, de forma clara, sobre

a natureza patológica do sistema. Contudo, mesmo sob essas condições, nós podemos atingir

uma grande experiência de liberdade, processos de pensamento mais apropriados e melhor

capacidade de tomada de decisões. Como resultado de tudo isso, o paciente se comporta

ulteriormente com grande cuidado, e sente-se mais seguro.

Se as estações de rádio do Ocidente, desimpedidas pelos temores dos psicólogos do outro

lado, abandonassem a simples contrapropaganda em favor de uma técnica psicoterapêutica

similar, elas poderiam contribuir poderosamente para o futuro de países ainda hoje sob o

domínio patocrático. Até o final desse livro eu devo tentar persuadir o leitor de que os

assuntos psicológicos são tão importantes para o futuro quanto a grande política ou as armas

poderosas.