Ponerologia: Psicopatas no Poder
A partir da perspectiva do tempo
Se uma pessoa com um substrato instintivo normal e uma inteligência básica já ouviu ou leu
sobre tais sistemas cruéis de governo autocrático “baseados em uma ideologia fanática”, ela
sente que já tem uma opinião formada sobre o assunto. Contudo, a confrontação direta com o
fenômeno, inevitavelmente, produziria nela um sentimento de impotência intelectual. Todas as
suas imaginações anteriores se mostrariam praticamente inúteis; elas explicam quase nada.
Isso provoca uma sensação persistente de que ela e a sociedade em que foi educada são
bastante ingênuas.
Qualquer pessoa capaz de aceitar esse amargo vazio com a consciência de sua própria
ignorância, o que faria com que um filósofo ficasse orgulhoso, pode também encontrar um
caminho de orientação dentro desse mundo anômalo. Contudo, proteger egotisticamente a sua
visão de mundo da desilusão desintegrativa e tentar combinar isso com observações dessa
nova realidade divergente, somente leva ao caos mental. Isso tem produzido conflitos
desnecessários e desilusão com o novo governo em algumas pessoas; outros têm se
subordinado à realidade patológica. Uma das diferenças observadas entre uma pessoa
normalmente resistente e alguém que se submeteu à transpersonificação é que aquela está mais
capacitada para sobreviver ao vácuo cognitivo desintegrativo, enquanto esta preenche o vazio
com material de propaganda patológica sem controles suficientes.
Quando a mente humana entra em contato com essa nova realidade, tão diferente de
quaisquer experiências encontradas por uma pessoa que cresceu em uma sociedade dominada
por pessoas normais, ela libera sintomas de choque psicofisiológico no cérebro humano com
um tônus mais elevado de inibição do córtex e uma repressão de sentimentos, que algumas
vezes jorram incontrolavelmente. A mente, então, trabalha mais lentamente e com menor
intensidade porque os mecanismos associativos se tornaram ineficientes. Principalmente,
quando uma pessoa tem contato direto com os representantes psicopatas do novo regime, que
utilizam sua experiência específica para traumatizar as mentes dos “outros” com suas próprias
personalidades, a mente de tal pessoa sucumbe para um estado catatônico de curto prazo. Suas
técnicas arrogantes e humilhantes, paramoralizações brutais e assim por diante, anestesiam os
processos de pensamento e as capacidades de autodefesa da pessoa, e seu método de
experiência divergente se ancora na mente da pessoa. Na presença desse tipo de fenômeno,
qualquer avaliação moralizante do comportamento de uma pessoa em tal situação torna-se
assim imprecisa, na melhor das hipóteses.
Somente quando esses estados psicológicos desagradáveis e inacreditáveis passaram, graças
ao descanso na companhia de pessoas benevolentes, é possível refletir, o que é sempre um
processo doloroso e difícil, ou ficar ciente de que a mente e o senso comum foram enganados
por alguma coisa que não se encaixa na imaginação humana normal.
O homem e a sociedade se sustentam por um longo caminho de experiências desconhecidas
que, depois de muito experimento e terror, finalmente levam a um certo conhecimento
hermético de quais são as características do fenômeno e de qual é a melhor forma de
estabelecer uma resistência psicológica a ele. Especialmente durante a fase dissimulativa, que
torna possível a adaptação à vida nesse mundo diferente e assim providencia condições de
vida mais toleráveis. Nós estaremos, então, capacitados a notar os fenômenos psicológicos, o conhecimento, a imunização e a adaptação, como não poderia ter sido feito antes, e de um
modo que não pode ser entendido no mundo que permanece sob o governo dos sistemas do
homem normal. Uma pessoa normal, no entanto, nunca será capaz de se adaptar completamente
ao sistema patológico; é fácil ser pessimista sobre o resultado final a que isso leva.
Tais experiências são trocadas durante discussões noturnas em um círculo de amigos,
criando assim, dentro das mentes das pessoas, um tipo de conglomerado cognitivo que é
inicialmente incoerente e que contém deficiências factuais. A participação de categorias
morais na compreensão do fenômeno macrossocial e do modo pelo qual alguns indivíduos se
comportam é proporcionalmente muito maior dentro dessa nova visão de mundo do que a
participação do conhecimento científico exemplificado. A ideologia pregada oficialmente pela
patocracia continua a manter seus poderes sugestivos, cada vez menores, até o momento em
que a razão humana consegue controlá-los como algo subordinado, que não é descritivo da
essência do fenômeno.
Os valores morais e religiosos, assim como a herança cultural de séculos das nações,
fornece à maioria das sociedades o suporte para o longo caminho, tanto individual como
coletivo, de busca através da floresta de fenômenos estranhos. Essa capacidade perceptiva
que as pessoas possuem, dentro da estrutura de visão do mundo natural, contém uma
deficiência que esconde o núcleo do fenômeno por muitos anos. Sob tais condições, tanto o
instinto quanto os sentimentos, e a inteligência básica resultante, possuem papéis
instrumentais, estimulando o homem a fazer escolhas que são em grande extensão
subconscientes.
Sob as condições criadas pelos governos patocráticos impostos em particular, onde as
deficiências psicológicas descritas são decisivas na união às atividades de tal sistema, nosso
substrato instintivo humano natural é um fator instrumental para se juntar à oposição.
Da mesma forma, as motivações econômicas, ambientais e ideológicas que influenciam a
formação de uma personalidade individual, incluindo aquelas atitudes políticas assumidas
anteriormente, representam um papel de fator de mudança, embora elas não sejam tão
duradouras no tempo. A atividade desses últimos fatores, embora seja relativamente clara em
relação aos indivíduos, desaparece dentro da abordagem estatística e diminui através dos anos
de governo patocrático. As decisões e as escolhas feitas pelo lado da sociedade composto de
pessoas normais são, mais uma vez, finalmente decididas por fatores usualmente herdados por
meios biológicos, em vez de serem produtos de opção pessoal, e predominantemente em
processos subconscientes.
A inteligência geral do homem, especialmente no nível intelectual, tem um papel
relativamente limitado nesse processo de seleção do caminho de ação, expresso como sendo
estatisticamente significativo, mas de baixa correlação (-0,16). Quanto maior o nível geral de
talento de uma pessoa, em geral, mais difícil é para ela se reconciliar com essa realidade
diferente e encontrar um modus vivendi dentro de si.
Ao mesmo tempo, existem pessoas talentosas e dotadas que se juntam à patocracia, e
palavras duras de desprezo pelo sistema podem ser ouvidas da parte das pessoas mais
simples e sem instrução. Somente essas pessoas com o mais alto grau de inteligência que,
conforme mencionado, não se associam às psicopatias, são incapazes de encontrar sentido para a vida dentro de tal sistema. Algumas vezes, elas são capazes de tirar vantagem de sua
mentalidade superior, de forma a encontrar meios excepcionais para serem úteis aos outros. O
desperdício dos melhores talentos anuncia uma eventual catástrofe para qualquer sistema
social.
Uma vez que esses fatores sujeitos à lei genética demonstram-se decisivos, a sociedade se
torna dividida, por meio de critérios não conhecidos anteriormente, em duas partes: os
adeptos do novo governo – a nova classe média mencionada acima – e a maioria de oposição.
Dado que as propriedades que causaram essa nova divisão aparecem mais ou menos na
mesma proporção que em qualquer grupo ou nível social antigo, essa nova divisão faz um
corte direto através das camadas tradicionais da sociedade. Se colocarmos a estratificação
antiga, cuja formação foi decisivamente influenciada pelo fator de talento, na horizontal, a
nova estratificação deveria ser representada como sendo vertical. O fator mais instrumental
nessa última estratificação é uma boa inteligência básica que, conforme já sabemos, é
amplamente distribuída através de todos os grupos sociais.
Mesmo aquelas pessoas que foram objeto de injustiça social no antigo sistema e então se
entregaram ao novo, que alegadamente os protegeria, começam lentamente a criticar esse
último. Ainda que tenham sido obrigados a se associar ao partido patocrático, a maioria dos
antigos comunistas do período pré-guerra, na pátria do autor, tornou-se gradualmente crítica,
utilizando a linguagem mais enfática possível. Eles foram os primeiros a negar que o sistema
governante fosse comunista em sua natureza, apontando persuasivamente as diferenças reais
entre a ideologia e a realidade. Eles tentaram informar seus companheiros dos países ainda
independentes, por meio de cartas. Preocupados com essa “traição”, esses companheiros
entregaram tais cartas aos seus partidos locais naqueles outros países, de onde elas foram
devolvidas à policia secreta dos países de origem. Os autores das cartas pagaram com as suas
vidas ou com anos de prisão. Ao final, nenhum outro grupo social esteve sujeito à vigilância
policial tão rigorosa como eles.
Independentemente de qual seja a nossa avaliação da ideologia ou dos partidos comunistas,
estamos presumidamente justificados para acreditar que os velhos comunistas foram
perfeitamente competentes para distinguir o que estava e o que não estava de acordo com sua
ideologia e suas crenças. Suas declarações altamente enfáticas sobre o assunto, inteiramente
populares entre os círculos dos velhos comunistas da Polônia, são impressionantes e até
mesmo persuasivas.[ 75 ] Por causa da linguagem utilizada aqui, contudo, nós devemos
designá-las como interpretações excessivamente moralizadoras, que não se coadunam com o
caráter desse trabalho. Ao mesmo tempo, devemos admitir que a maioria dos comunistas
poloneses do período pré-guerra não eram psicopatas.
Do ponto de vista da economia e da realidade, qualquer sistema onde a maior parte da
propriedade e dos postos de trabalho pertence ao estado, de jure et de facto,[ 76 ] é
capitalismo de estado e não comunismo. Tal sistema exibe as características de um
explorador capitalista primitivo do século XIX, que teve uma compreensão insuficiente de seu
papel na sociedade e de como os seus interesses estavam ligados ao bem estar dos seus
trabalhadores. Os trabalhadores são muito conscientes dessas características, principalmente
quando reúnem uma certa quantidade de conhecimento em conexão com suas atividades políticas.
Um socialista razoável buscando substituir o capitalismo por algum sistema em
conformidade com suas idéias - que poderia ser baseado na participação dos trabalhadores na
administração do local de trabalho e nos lucros – rejeitaria tal sistema como a “pior
variedade de capitalismo”. Afinal de contas, concentrar o capital e o governo em um único
lugar leva sempre à degeneração. O capital deve estar sujeito à autoridade da justiça.
Eliminar tal forma degenerada de capitalismo deveria, então, ser uma tarefa prioritária para
qualquer socialista. Apesar de tudo, tal raciocínio por meio das categorias sociais e
econômicas obviamente perde o ponto central da questão.
A experiência histórica nos ensina que qualquer tentativa de realizar a idéia comunista pelo
caminho revolucionário, seja ele violento ou dissimulado, leva a uma distorção do processo
na direção das formas anacrônicas e patológicas, cujas essências e conteúdos permanecem
inacessíveis para as mentes que utilizam os conceitos da visão de mundo natural. A evolução
constrói e transforma mais rápido do que a revolução, e sem complicações trágicas.
Uma das primeiras descobertas feitas por uma sociedade de pessoas normais é que ela é
superior aos novos governantes em inteligência e habilidades práticas, não importando quão
geniais eles busquem mostrar que são. Os nós da razão embrutecida são gradualmente
desfeitos e a fascinação com o conhecimento secreto e o plano de ação inexistentes dos novos
governantes começa a diminuir, seguida pela familiarização com o conhecimento preciso
sobre essa nova realidade depravada.
O mundo das pessoas normais será sempre superior ao mundo das anomalias todas as vezes
que uma atividade construtiva for necessária, seja ela a reconstrução de um país devastado, a
área da tecnologia, a organização da vida econômica ou o trabalho médico e científico. “Eles
querem construir coisas, mas eles não conseguem fazer muito sem nós”. Especialistas
qualificados são freqüentemente capazes de fazer certas exigências; infelizmente, eles somente
são considerados qualificados até que o trabalho seja feito e, nesse ponto, podem ser
eliminados. Uma vez que a fábrica inicie suas atividades, os especialistas podem sair; o
gerenciamento será assumido por outra pessoa, incapaz de avançar no progresso, e sob quem
muito do esforço gasto será desperdiçado.
Como nós já apontamos, toda anomalia psicológica é de fato um tipo de deficiência. Os
psicopatas são baseados principalmente nas deficiências no substrato instintivo; contudo, sua
influência exercida sobre o desenvolvimento mental dos outros também leva a deficiências na
inteligência geral, conforme já foi discutido. Essa deficiência de inteligência em uma pessoa
normal, induzida pela psicopatia, não é compensada pelo conhecimento psicológico especial
que observamos entre alguns psicopatas. Tal conhecimento perde seu poder hipnótico quando
as pessoas normais também aprendem a entender esses fenômenos. O psicopatologista não
ficou surpreso, então, pelo fato de que o mundo das pessoas normais é dominante em relação
às habilidades e aos talentos. Para aquela sociedade, contudo, isso representou uma
descoberta que gerou esperança e produziu um relaxamento psicológico.
Já que nossa inteligência é superior à deles, nós podemos reconhecê-los e entender como
eles pensam e agem. Isso é o que uma pessoa aprende em tal sistema, por sua própria
iniciativa, pressionada pelas necessidade do cotidiano. Ela aprende enquanto trabalha em seu escritório, na escola ou na fábrica, quando necessita lidar com as autoridades e quando é
presa, algo que somente algumas pessoas conseguem evitar. O autor e muitos outros
aprenderam um bom tanto sobre a psicologia desse fenômeno macrossocial durante a
doutrinação escolar compulsória. Os organizadores e os professores podem não ter tido a
intenção de que esse resultado fosse obtido. O conhecimento prático dessa nova realidade
cresce, portanto, e graças a isso a sociedade ganha uma desenvoltura de ação que a capacita a
tirar cada vez mais vantagem dos pontos fracos do sistema governante. Isso permite a
reorganização gradual das ligações sociais, que produzem frutos com o tempo.
Essa nova ciência é incalculavelmente rica em detalhes de casuística;[ 77 ] eu não a
classificaria, apesar disso, como excessivamente literária. Ela contém conhecimento e uma
descrição do fenômeno nas categorias da visão de mundo natural, correspondentemente
modificada de acordo com a necessidade de entender os assuntos que estão, de fato, fora da
esfera de sua aplicabilidade. Isso também abre a porta para a criação de certas doutrinas que
mereceriam um estudo separado porque contêm uma verdade parcial, tal como uma
interpretação demonológica do fenômeno.
O desenvolvimento da familiaridade com o fenômeno é acompanhado pelo desenvolvimento
da linguagem comunicativa, por meio da qual a sociedade pode ficar informada e lançar
avisos de perigo. Uma terceira linguagem aparece então junto com a língua dupla ideológica
descrita anteriormente; em parte, ela toma emprestados os nomes utilizados pela ideologia
oficial em seus significados transformados. Em parte, essa linguagem opera com palavras
emprestadas das piadas que circulam com ainda mais vivacidade. Apesar de sua estranheza,
essa linguagem pode ser traduzida e comunicada nas relações com os residentes de outros
países com sistemas governamentais análogos, mesmo se a “ideologia oficial” do outro país
for diferente. Todavia, apesar dos esforços da parte dos literatos e jornalistas, essa linguagem
permanece comunicativa somente para dentro do fenômeno; ela se torna hermética para fora da
abrangência do fenômeno, incompreendida pelas pessoas para as quais falta a experiência
pessoal apropriada.
Vale a pena apontar o papel específico de certos indivíduos durante esses tempos; eles
participaram na descoberta da natureza dessa nova realidade e ajudaram os outros a encontrar
o caminho correto. Eles possuem uma natureza normal mas experimentaram uma infância
desafortunada, sendo sujeitos desde muito cedo à dominação por indivíduos com vários
desvios psicológicos, incluindo o egotismo patológico e os métodos de aterrorizar os outros.
O novo sistema de governo atinge estas pessoas como uma multiplicação social em larga
escala de algo que elas já conheciam em sua experiência pessoal. Desde o início, esses
indivíduos viram esta realidade de forma muito mais prosaica, e de imediato trataram a
ideologia de acordo com as histórias paralógicas, bem conhecidas por eles, cuja proposta era
mascarar a realidade amarga de sua experiência de juventude. Eles logo alcançaram a
verdade, uma vez que a gênese e a natureza do mal são análogas, sem levar em conta a
escala social na qual aparecem.
Tais pessoas são raramente entendidas nas sociedades felizes, mas elas foram valorosas
naquela situação. Suas explicações e conselhos mostraram-se precisos e foram transmitidos
para outros que aderiram à rede desse patrimônio perceptivo. Todavia, o próprio sofrimento foi duplicado, uma vez que isso foi muito mais do mesmo abuso para uma só vida lidar.
Conseqüentemente, eles alimentavam sonhos de fuga para uma liberdade ainda existente em
um mundo externo.
Finalmente, a sociedade enxerga o aparecimento de indivíduos que juntaram uma percepção
intuitiva excepcional e o conhecimento prático na questão de como os patocratas pensam e de
como tal sistema de governo opera. Alguns se tornam tão proficientes na linguagem deficiente
deles e em sua idiomática, que são capazes de usá-la como se fosse um idioma estrangeiro que
eles aprenderam muito bem. Uma vez que possuem a habilidade de decifrar as intenções dos
governantes, tais pessoas aconselham aqueles que estão tendo dificuldades com as
autoridades. Esses advogados da sociedade das pessoas normais possuem um papel
insubstituível na vida da sociedade.
Os patocratas, todavia, nunca conseguem aprender a pensar nas categorias humanas normais.
Ao mesmo tempo, a incapacidade dessa autoridade de predizer a reação das pessoas normais
a leva à conclusão de que o sistema é rigidamente determinante e de que não existe liberdade
de escolha natural.
Essa nova ciência, expressa em uma linguagem derivada a partir de uma realidade anômala,
é algo estranho para as pessoas que desejam entender esse fenômeno macrossocial mas que
pensam nas categorias dos países dos homens normais. As tentativas de entender essa
linguagem produzem um certo sentimento de impotência, que dá origem à tendência de criação
de uma doutrina própria, construída a partir dos conceitos que se tem do próprio mundo e de
uma certa quantidade de material de propaganda patocrática apropriado para cooptação. Tal
doutrina seria, por exemplo, a propaganda anticomunista americana. Tais conceitos
distorcidos e deformados torna ainda mais difícil entender aquela outra realidade. Que a
descrição objetiva exemplificada aqui possa capacitá-los a superar esse impasse assim
produzido.
Em países sujeitos ao governo patocrático, esse conhecimento e essa linguagem,
especialmente a experiência humana, criam uma concatenação mediadora de tal forma que a
maioria das pessoas podem assimilar essa descrição objetiva do fenômeno sem maiores
dificuldades, com a ajuda da percepção ativa. As dificuldades são encontradas somente pelas
gerações mais velhas e por uma certa proporção das pessoas jovens, crescidas no sistema
desde a infância, o que é psicologicamente compreensível.
Uma vez eu tratei uma paciente que havia sido uma interna de um campo de concentração
nazista. Ela voltou daquele inferno em uma condição tão excepcionalmente boa, que esteve
apta a se casar e gerar três filhos. Contudo, os métodos de criação de suas crianças eram
extremamente rígidos, em virtude da reminiscência da vida no campo de concentração, tão
teimosamente persistente em ex-prisioneiros. A reação de seus filhos era de protesto neurótico
e de agressividade em relação às outras crianças.
Durante a psicoterapia da mãe nós trouxemos de volta as imagens dos oficiais da S.S.,
masculinos e femininos, à sua mente, apontando suas características psicopáticas (tais pessoas
eram principalmente recrutas). Para ajudá-la a eliminar o material patológico, proveniente
oficiais, de sua pessoa, eu forneci a ela dados estatísticos aproximados em relação ao
aparecimento de tais indivíduos dentro da população como um todo. Isso a ajudou a alcançar uma visão mais objetiva daquela realidade e reestabelecer a confiança na sociedade das
pessoas normais.
Durante a visita seguinte, a paciente me mostrou um pequeno cartão no qual ela tinha escrito
os nomes dos patocratas locais notáveis e adicionado o seu próprio diagnóstico, que era
correto, em grande medida. Então, eu fiz um sinal de silêncio com o meu dedo e a adverti
enfaticamente de que nós estávamos lidando somente com os problemas dela. A paciente
entendeu e, eu tenho certeza, não deixou que suas reflexões sobre o assunto fossem conhecidas
nos lugares errados.
Paralelos ao desenvolvimento do conhecimento prático e da linguagem de comunicação
interna, outros fenômenos psicológicos tomam forma; eles são verdadeiramente significativos
na transformação da vida social sob o governo patocrático, e discerni-los é essencial se
alguém deseja entender os indivíduos e as nações fadadas a viver em tais condições e avaliar
a situação na esfera política. Eles incluem a imunização psicológica das pessoas e sua
adaptação à vida sob tais condições anômalas.
Os métodos de terror psicológico (aquela arte patocrática específica), as técnicas de
arrogância patológica e a invasão das almas das outras pessoas, inicialmente têm efeitos tão
traumáticos que as pessoas são privadas da sua capacidade de reação objetiva. Eu já
exemplifiquei os aspectos psicológicos desses estados. Dez ou vinte anos depois, um
comportamento análogo já passa a ser reconhecido como uma palhaçada bem conhecida, e não
priva a vítima da sua habilidade de pensar e reagir com propósito. Suas respostas são
geralmente estratégias bem pensadas, lançadas da posição de superioridade de uma pessoa
normal e sempre enfeitadas com o ridículo. Quando o homem consegue olhar diretamente para
o sofrimento ou mesmo para a morte com a calma necessária, uma arma perigosa cai das mãos
do governante.
Nós temos que entender que esse processo de imunização não é meramente um resultado do
aumento de conhecimento prático do fenômeno macrossocial descrito acima. Ele é o efeito de
um processo gradual, multicamadas, de crescimento do conhecimento, familiarização com o
fenômeno, criação de um hábito reativo apropriado, e autocontrole, com uma concepção
abrangente e princípios morais sendo trabalhados no ínterim. Depois de vários anos, o mesmo
estímulo que no passado causou impotência espiritual insensível ou paralisia mental, agora
provoca o desejo de fazer gargarejo com algo forte, para se livrar dessa sujeira.
Houve um tempo quando muitas pessoas sonhavam em encontrar alguma pílula que tornaria
mais fácil suportar lidar com as autoridades ou frequentar as sessões de doutrinação forçada,
geralmente presididas por um personagem psicopático. Alguns antidepressivos de fato
provaram ter o efeito desejado. Vinte anos depois, isso foi completamente esquecido.
***
Quando eu fui preso pela primeira vez, em 1951, a força, a arrogância e os métodos psicopáticos de confissão forçada
privaram-me quase inteiramente das minhas capacidades de autodefesa. Meu cérebro parou de funcionar depois de alguns dias sem água, em tal ponto que eu não podia sequer lembrar apropriadamente do incidente que resultou na minha prisão repentina. Eu não estava sequer ciente que ele havia sido propositadamente provocado e que as condições que permitiam a autodefesa de fato existiam. Eles fizeram praticamente tudo o que queriam comigo.
Quando eu fui preso pela última vez, em 1968, fui interrogado por cinco funcionários da segurança, de olhares ferozes.
Em um momento em particular, depois de pensar através de suas reações previsíveis, eu deixei meu olhar passar em cada
face, sequencialmente, com grande atenção. O mais importante deles me perguntou: “O que se passa em sua mente, imbecil, para ficar nos encarando assim?”. Eu respondi sem qualquer medo das consequências: “Eu estou somente pensando porque tantos cavalheiros da sua linha de trabalho acabam em um hospital psiquiátrico.” Eles foram surpreendidos por um momento, e então o mesmo homem exclamou: “Porque é um maldito trabalho ruim!” Eu calmamente respondi: “Eu sou da opinião de que é o contrário”. Então fui levado de volta para a minha cela.
Três dias depois, eu tive a oportunidade de falar com ele novamente, mas dessa vez ele foi muito mais respeitoso.
Então, ele ordenou que eu fosse liberado – para fora, como aconteceu. Peguei o bonde para casa e, ao passar por um grande parque, eu ainda era incapaz de acreditar nos meus olhos. Uma vez no meu quarto, deitei na cama; o mundo ainda não era muito real, mas as pessoas exaustas adormecem rapidamente. Quando eu acordei, falei alto: “Querido Deus, não era para o senhor estar no comando, aqui nesse mundo?”
***
Naquele tempo, eu sabia não somente que um quinto de todos os oficiais da polícia secreta
terminavam em hospitais psiquiátricos, mas também que sua “doença ocupacional” é a
demência congestiva, que no passado era encontrada somente em prostitutas velhas. O homem
não pode violar impunemente os sentimentos humanos naturais que estão dentro de si, não
importa em qual tipo de profissão ele atue. Daquele ponto de vista, o companheiro capitão
estava parcialmente certo. Ao mesmo tempo, contudo, minhas reações tinham se tornado
resistentes, muito diferente do que tinham sido dezessete anos antes.
Todas essas transformações do consciente e subconsciente humanos resultam em uma
adaptação individual e coletiva para viver sob tal sistema. Sob condições alteradas, tanto de
limitações materiais como morais, uma desenvoltura existencial emerge, preparada para
superar muitas dificuldades. Uma nova rede da sociedade das pessoas normais é também
criada, para assistência mútua e auto-ajuda.
Essa sociedade age de acordo com o real estado das coisas, e está ciente dele; ela começa a
desenvolver caminhos para influenciar vários elementos da autoridade e alcançar objetivos
que são socialmente úteis. Instruir e convencer pacientemente os representantes medíocres do
governo leva um tempo considerável e requer habilidades pedagógicas. Contudo, as pessoas
mais bem-humoradas são selecionadas para esse trabalho, pessoas com um talento específico
para influenciar os patocratas e com familiaridade suficiente com sua psicologia. A opinião de
que a sociedade é totalmente privada de qualquer influência sobre o governo em um país
desse é, dessa forma, imprecisa. Na realidade, a sociedade realmente co-governa em uma
certa extensão, algumas vezes tendo sucesso e outras vezes falhando na sua tentativa de criar
condições de vida mais toleráveis. Isso, contudo, ocorre de um modo totalmente diferente do
que acontece nos países democráticos.
Esses processos cognitivos – imunização psicológica e adaptação – permitem a criação de
novas ligações sociais e interpessoais, que operam dentro da esfera da grande maioria que nós
estamos chamando de “sociedade das pessoas normais”. Essas ligações se estendem
discretamente para dentro do mundo da classe média do regime, entre as pessoas que são
confiáveis até uma certa extensão. Em tempo: as ligações sociais criadas são
significantemente mais efetivas do que aquelas ativas nas sociedades governadas por sistemas
humanos normais. A troca de informações, avisos e assistências abrangem a sociedade inteira.
Qualquer um que seja capaz de fazê-lo oferta ajuda para outro que se encontre em dificuldade,
sempre de uma forma que a pessoa ajudada nem sequer sabe quem foi que lhe prestou
assistência. Contudo, se ela causou sua desgraça, pela sua própria falta de prudência em relação às autoridades, ela encontra reprovação, mas nunca a omissão de assistência.
É possível criar tais ligações porque essa nova divisão da sociedade dá uma atenção
limitada a fatores como nível de talento, educação ou tradições ligadas às antigas camadas
sociais. Nem as diferenças reduzidas de prosperidade desmancham essas ligações. Um lado
dessa divisão contém aqueles da mais elevada cultura mental, pessoas comuns simples,
intelectuais, especialistas para trabalhos mentais, trabalhadores de fábrica e camponeses,
todos unidos pelo protesto em comum de sua natureza humana contra a dominação dos
métodos experimentais para-humanos do governo. Essas ligações produzem entendimento
interpessoal e sentimento de companheirismo entre as pessoas e os grupos anteriormente
divididos por diferenças econômicas e tradições sociais. Os processos de pensamento que
alimentam essas ligações são de caráter mais psicológico, capazes de compreender as
motivações da outra pessoa. Ao mesmo tempo, as pessoas comuns mantêm respeito pelas
outras formalmente educadas e que representam valores intelectuais. Certos valores sociais e
morais também aparecem e podem se tornar permanentes.
A gênese, contudo, dessa grande solidariedade interpessoal, somente se torna compreensível
quando conhecemos a natureza do fenômeno macrossocial patológico que ocasionou a
liberação de tais atitudes, em conjunto com o reconhecimento da própria humanidade e da
humanidade dos outros. Outra reflexão também aparece, a saber, quão diferentes essas
ligações são em relação à “sociedade competitiva” americana, para quem a anterior –
diferenças econômicas e sociais – representam algo que é operacional, mesmo que cruze os
limites da imaginação.
Alguém poderia pensar que a vida cultura e intelectual de uma nação degeneraria
rapidamente quando sujeita ao isolamento do país das ligações culturais e científicas com
outras nações, às limitações patocráticas sobre o desenvolvimento do pensamento individual,
ao sistema de censura, ao nível mental dos executivos e a todos os demais atributos de tal
governo. A realidade, no entanto, não valida tais predições pessimistas.
A necessidade de um esforço mental constante tão crucial para encontrar algum meio de vida
tolerável, não totalmente despojado do senso moral e dentro dessa realidade anômala, causa o
desenvolvimento de uma percepção realista, especialmente na área dos fenômenos sócio-
psicológicos. Proteger uma mente dos efeitos da propaganda paralógica, assim como manter
uma personalidade protegida da influência de paramoralismos e de outras técnicas já
descritas, aguça os processos de pensamento controlado e a habilidade de discernir esses
fenômenos. Tal treinamento é também um tipo especial de universidade do homem comum.
Durante esse tempo, a sociedade encontra fontes históricas na busca pelas causas antigas do
seu infortúnio e por meios de melhorar seu destino no futuro. As mentes científicas e sociais
analisam trabalhosamente a história nacional em busca da interpretação dos fatos que
poderiam ser profundos do ponto de vista do realismo psicológico e moral. Nós, de forma
sóbria, discernimos o que aconteceu anos e séculos atrás, percebendo os erros das gerações
anteriores e os resultados da intolerância ou de tomadas de decisão emocionalmente
sobrecarregadas. Essa análise importante das visões de mundo individual, social e histórica,
na busca pelo sentido da vida e da história, é um produto de épocas infelizes e auxiliará no
caminho de volta aos tempos felizes.
Outro objeto de consideração nos apareceu: problemas morais aplicáveis à vida individual,
bem como à história e à política. A mente inicia uma busca cada vez mais profunda nessa área,
atingindo um entendimento cada vez mais sutil do assunto, porque é precisamente nesse mundo
que as simplificações exageradas se mostraram insatisfatórias. Um entendimento das outras
pessoas, incluindo aquelas que cometem erros e crimes, aparece na forma de solução de
problemas que foi subestimado anteriormente. O perdão é somente um passo além do
entendimento. Como Madame de Staël escreveu: Tout comprendere, c’est tout pardoner .[ 78
]
A religião de uma sociedade é afetada por transformações análogas. A proporção de
pessoas que mantêm a crença religiosa não é significantemente afetada, particularmente em
países nos quais a patocracia foi imposta. Ocorre, no entanto, uma modificação dos conteúdos
e da qualidade de tais crenças, de tal forma que a religião, com o tempo, se torna mais atrativa
para as pessoas educadas de forma indiferente à fé. A velha religião, dominada pela tradição,
por rituais e pela falta de sinceridade, agora se vê transformada em fé, condicionada por
estudos necessários e convicções que determinam os critérios de comportamento.
Qualquer pessoa que lê o Evangelho durante esses tempos encontra algo que é difícil para os
outros cristãos entenderem. É tão real a similaridade entre as relações sociais do governo da
Roma pagã antiga e essas sob a patocracia ateísta, que o leitor imagina as situações descritas
mais facilmente e percebe a realidade das ocorrências de forma mais vívida. Tal leitura
também fornece encorajamento e conselhos que ele pode utilizar nessas situações. Assim,
durante tempos brutais de confrontação com o mal, as capacidades humanas de discriminar os
fenômenos se tornam sutis; a percepção e a sensibilidade moral se desenvolvem. As
faculdades críticas algumas vezes beiram o cinismo.
***
Uma vez, eu entrei em um bonde que subia uma montanha, o qual estava cheio de estudantes de colegial e
universitários. Durante a viagem a música enchia o veículo e as colinas no entorno. Velhos sons de antes da guerra, com
poemas de Lesmian,[ 79 ] tanto frívolos como espirituosos: ‘Nossos ancestral Noé foi um homem corajoso...’, e outros. O texto, contudo, havia sido corrigido com humor e talento literário, eliminando qualquer coisa que irritasse esses jovens crescidos durante os tempos difíceis. Esse foi um resultado não intencional?
***
Como resultado de todas essas transformações, incluindo a de-egotização do pensamento e
atitude conectadas a elas, a sociedade se torna capaz de uma criatividade mental que vai além
das condições normais. Esse esforço poder ser útil em qualquer área cultural, técnica ou
econômica, se as autoridades não se opuserem e não as reprimirem por se sentirem ameaçadas
por essa atividade.
O gênio humano não nasce da prosperidade preguiçosa e no meio de uma camaradagem
gentil, mas ao contrário, está em confronto contínuo com a realidade recalcitrante que é
diferente da imaginação humana comum. Sob tais condições, abordagens teóricas de larga
escala são descobertas como tendo valor existencial prático. O velho sistema de pensamento
que permanece em uso nos países livres começa a parecer retrógrado, ingênuo, e destituído do
sentimento de valores.
Se as nações que chegaram a esse estado estivessem para recuperar sua liberdade, muitas realizações valiosas do pensamento humano amadureceriam dentro de um curto espaço de
tempo. Nenhum medo excessivo estaria em pauta a respeito da capacidade desta nação de
elaborar um sistema sócio-econômico viável. Pelo contrário: a ausência de grupos de pressão
egoístas, a natureza conciliatória de uma sociedade que tem anos de experiência amarga atrás
de si, e os processos de pensamento penetrantes e moralmente profundos permitiriam que o
caminho de volta fosse encontrado de forma relativamente rápida. Perigos e dificuldades
viriam, ao contrário, de pressões externas da parte das nações que não entendem
adequadamente as condições em tal país. Mas, infelizmente, a patocracia não pode ser
receitada como um remédio amargo!
A geração mais velha, que cresceu em um país de homens normais, geralmente reage
desenvolvendo as habilidades acima mencionadas, ou seja, pelo enriquecimento. A geração
mais nova, contudo, foi educada sob o domínio patocrático e assim sucumbe a um maior
empobrecimento da visão de mundo, ao enrijecimento reflexivo da personalidade e à
dominação pelas estruturas habituais, aqueles resultados típicos da operação das
personalidades patológicas. A propaganda paralógica e sua doutrinação correspondente são
conscientemente rejeitadas; no entanto, esse processo demanda tempo e esforço que poderiam
ser melhor utilizados para a percepção ativa de conteúdos valiosos. Estes últimos podem ser
acessíveis somente com dificuldade, devido tanto às limitações como aos problemas de
percepção. É aí que surge o sentimento de um certo vazio que é difícil de preencher. Apesar
da boa vontade humana, certos paralogismos e paramoralismos, assim como o materialismo
cognitivo, ficam ancorados e persistem nos cérebros. A mente humana não é capaz de refutar
cada uma das falsidades que lhe foram sugeridas.
A vida emocional das pessoas que crescerem dentro dessas realidades psicológicas
deficientes é também repleta de dificuldades. Apesar da razão crítica, uma certa saturação da
personalidade de um jovem com material psicológico patológico é inevitável, assim como são
um grau de primitivismo e a rigidez de sentimentos. Os esforços constantes para controlar as
emoções, assim como para evitar alguma reação tempestuosa que provoque a repressão por
parte de um regime vingativo e retentor, faz com que os sentimentos sejam reprimidos para um
papel de algo menos problemático, algo que não deve ter uma saída natural. As reações
emocionais suprimidas surgem posteriormente, quando a pessoa permite que elas sejam
expressadas. Elas então chegam atrasadas e de forma inadequada ao contexto da situação.
Preocupações com o futuro despertam o egotismo entre as pessoas assim adaptadas à vida em
uma estrutura social patológica.
A neurose é uma resposta natural da natureza humana se uma pessoa normal é subordinada à
dominação por pessoas patológicas. O mesmo se aplica à subordinação de uma sociedade e
de seus membros a um sistema patológico de autoridade. Em um estado patocrático, cada
pessoa com uma natureza normal exibe assim um certo estado neurótico crônico, controlado
pelos esforços da razão. A intensidade desses estados varia entre indivíduos, dependendo das
diferentes circunstâncias, usualmente mais graves na proporção direta à inteligência do
indivíduo. A psicoterapia para tais pessoas somente é possível e efetiva se pudermos contar
com a familiaridade adequada com as causas desses estados. Os psicólogos educados no
ocidente se mostraram completamente não práticos com relação a esses pacientes.
Um psicólogo trabalhando nesse país deve desenvolver técnicas operacionais especiais
desconhecidas e até mesmo insondáveis para os especialistas que atuam no mundo livre. Elas
têm o objetivo de liberar parcialmente a voz do instinto e do sentimento de seu supercontrole
anormal e de redescobrir a voz interior da sabedoria natural, mas isso deve ser feito de tal
forma que evite expor o paciente a resultados infelizes de liberdade excessiva de reação nas
condições sob as quais ele é obrigado a viver. Um psicólogo deve operar cuidadosamente,
com a ajuda de alusões, porque ele pode raramente informar o paciente, de forma clara, sobre
a natureza patológica do sistema. Contudo, mesmo sob essas condições, nós podemos atingir
uma grande experiência de liberdade, processos de pensamento mais apropriados e melhor
capacidade de tomada de decisões. Como resultado de tudo isso, o paciente se comporta
ulteriormente com grande cuidado, e sente-se mais seguro.
Se as estações de rádio do Ocidente, desimpedidas pelos temores dos psicólogos do outro
lado, abandonassem a simples contrapropaganda em favor de uma técnica psicoterapêutica
similar, elas poderiam contribuir poderosamente para o futuro de países ainda hoje sob o
domínio patocrático. Até o final desse livro eu devo tentar persuadir o leitor de que os
assuntos psicológicos são tão importantes para o futuro quanto a grande política ou as armas
poderosas.