Ponerologia: Psicopatas no Poder
Associações ponerogênicas
Nós daremos o nome de “associação ponerogênica” a qualquer grupo de pessoas
caracterizado pelos processos ponerogênicos de intensidade social acima da média, onde os
portadores de vários fatores patológicos funcionam como inspiradores, propagandistas e
líderes, e onde é gerada uma estrutura social patológica apropriada. Associações menores,
menos permanentes, devem ser chamadas de “grupos” ou “uniões”.
Tal associação dá origem ao mal que fere outras pessoas, assim como fere seus próprios
membros. Nós poderíamos listar vários nomes relacionados a tais organizações pela tradição
linguística: gangues, máfias criminosas, máfias, facções e seitas, que com perspicácia evitam
colidir com a lei, enquanto procuram ganhar sua própria vantagem. Tais uniões aspiram
freqüentemente a poderes políticos, com o objetivo de impor sua legislação conveniente sobre
as sociedades em nome de uma ideologia preparada adequadamente, resultando em vantagens
na forma de prosperidade desproporcionada e na satisfação de sua ânsia por poder.
A descrição e classificação de tais associações com uma visão de seus números, objetivos,
ideologias oficialmente promulgadas e organizações internas seria, é claro, cientificamente
valiosa. Tal descrição, realizada por um observador perceptivo, poderia auxiliar um
ponerologista a determinar algumas das propriedades de tais uniões, que não podem ser
determinadas por meio da linguagem conceitual natural.
Uma descrição deste tipo, contudo, não deve encobrir os fenômenos mais factuais e as
dependências psicológicas que operam dentro dessas uniões. A falta de atenção a esse aviso
pode facilmente fazer com que a descrição sociológica indique propriedades que são de
importância secundária, ou mesmo feitas “para mostrar”, visando impressionar os não
iniciados, e escondendo através disso os fenômenos reais que decidem a qualidade, o papel e
o destino de tal união. Particularmente, se essa descrição não for realista, ela pode fornecer
conhecimento meramente ilusório ou substituto, passando uma percepção naturalista e
deixando a compreensão dos fenômenos mais difícil.
Todos os grupos e associações ponerogênicas têm em comum um fenômeno, que é o fato de
que seus membros perdem (ou já perderam) a capacidade de perceber indivíduos
patológicos como tais, interpretando seus comportamentos de um modo fascinante, heróico ou
melodramático. As opiniões, idéias e julgamentos das pessoas portadoras de vários déficits
psicológicos são dotados de uma importância no mínimo igual àquela dos indivíduos
marcantes entre as pessoas normais.
A atrofia das faculdades críticas naturais com respeito a indivíduos patológicos torna-se
uma abertura para as suas atividades e, ao mesmo tempo, um critério pare reconhecer a
associação em questão como ponerogênica. Vamos chamar isso de primeiro critério da
ponerogênese.
Outro fenômeno que todas as associações ponerogênicas têm em comum é a alta
concentração estatística de indivíduos com várias anomalias psicológicas. Sua composição
qualitativa é crucialmente importante na formação do caráter, nas atividades, no
desenvolvimento e na extinção da união como um todo.
Grupos dominados por vários tipos de indivíduos caracteropatas desenvolverão atividades
relativamente primitivas, tornando bastante fácil, para uma sociedade de pessoas normais, quebrá-los. Contudo, as coisas são um tanto diferentes quando tais uniões são inspiradas por
indivíduos psicopatas. Invoquemos o exemplo a seguir, que ilustra os papéis de duas
anomalias diferentes, selecionadas dentre eventos reais estudados pelo autor.
Em gangues juvenis criminosas, garotos (e ocasionalmente garotas) portadores de um déficit
característico, que é muitas vezes uma sequela da inflamação das glândulas parótidas
(caxumba), representam um papel específico. Essa doença confere reações cerebrais em
alguns casos, deixando como sequelas uma discreta, porém permanente, palidez nos
sentimentos e um leve decréscimo nas habilidades mentais gerais. Resultados similares
acontecem, algumas vezes, após a difteria. Como resultado, tais pessoas sucumbem facilmente
a sugestões e manipulações de indivíduos mais espertos.
Quando atraídos para um grupo criminoso, esses indivíduos enfraquecidos em sua
constituição tornam-se auxiliares pouco críticos e executores das intenções dos líderes, ou
seja, ferramentas nas mãos dos líderes mais traiçoeiros, normalmente psicopatas. Uma vez
presos, eles se submetem às explicações insinuadas por seus líderes de que o ideal maior
(paramoral) do grupo exige que eles se tornem bodes expiatórios, levando a maior parte da
culpa sobre si mesmos. No tribunal, os mesmos líderes que iniciaram as delinquências sem
piedade descarregam toda a culpa em seus colegas menos espertos. Algumas vezes o juiz
acaba aceitando as insinuações.
Indivíduos com as características acima mencionadas, pós-caxumba e pós-difteria,
constituem menos de 1% da população como um todo, mas sua participação chega a um quarto
nos grupos de delinquentes juvenis. Isso representa um aumento da ordem de 30 vezes, sem a
necessidade de métodos posteriores de análise estatística. Quando estudamos os conteúdos
das uniões ponerogênicas de forma suficientemente hábil, encontramos sempre um aumento de
outras anomalias psicológicas que também falam por si mesmas.
***
Dois tipos básicos das uniões acima mencionadas devem ser diferenciados: as
ponerogênicas primárias e as ponerogênicas secundárias. Considera-se como ponerogênica
primária a união cujos membros anormais são ativos desde o início, tendo um papel de
catalisadores da cristalização, tão logo o processo de criação do grupo tenha ocorrido. Nós
chamamos de ponerogênica secundária a união que foi fundada em nome de alguma idéia com
um significado social independente, geralmente compreensível dentro das categorias da visão
de mundo natural, mas que posteriormente sucumbiu a uma certa degeneração moral. Isso, por
sua vez, abriu a porta para a infecção e para a ativação dos fatores patológicos internos, e
posteriormente para a ponerização do grupo como um todo, ou freqüentemente de uma fração
do mesmo.
Desde o tênue início, uma união primariamente ponerogênica é um corpo estranho dentro do
organismo da sociedade, com seu caráter em confronto com os valores morais mantidos ou
respeitados pela maioria. As atividades de tais grupos provocam oposição e repugnância, e
são consideradas imorais. Como regra, em geral, tais grupos não se espalham muito, nem se
dividem em numerosas uniões. No final, eles perdem sua batalha para a sociedade.
Para ter uma chance de se desenvolver em uma associação ponerogênica grande, contudo, basta que uma organização humana qualquer, caracterizada por objetivos sociais ou políticos
e por uma ideologia com algum valor criativo, seja aceita por um grande número de pessoas
normais antes de sucumbir ao processo de malignidade ponerogênica. A tradição primária e
os valores ideológicos de tal sociedade podem, então, por um longo período, proteger uma
união que sucumbiu ao processo de ponerização a partir da consciência da sociedade,
especialmente de seus componentes críticos menores. Quando o processo ponerogênico toca
esse tipo de organização humana, que emergiu e agiu originalmente em nome de objetivos
políticos ou sociais, e cujas causas foram condicionadas pela situação histórica e social, os
valores primários do grupo original irão alimentar e proteger tal união, apesar do fato de que
tais valores primários tenham sucumbido à degeneração característica e a função prática tenha
se tornado completamente diferente da inicial, porque os nomes e os símbolos são mantidos.
É aí que as fraquezas dos “sensos comuns” individual e social são reveladas.
Isso é uma reminiscência da situação que os psicopatologistas conhecem bem: uma pessoa
que aprecia a verdade e o respeito em seus círculos começa a se comportar com uma
arrogância absurda e a ferir os outros, alegadamente em nome de suas convicções já
conhecidas, decentes e aceitas, que – nesse meio tempo – se deterioraram devido a algum
processo ponerogênico que as tornam primitivas, mas emocionalmente dinâmicas. Contudo, as
pessoas de suas antigas relações – que a conheciam por muito tempo como a pessoa que ela
era – não acreditam nas pessoas ofendidas, as quais reclamam sobre o seu comportamento
novo, ou até mesmo encoberto, e estão preparadas para denegri-las e considerá-las como
mentirosas. Esse processo aumenta a injúria e fornece encorajamento e licença ao indivíduo
cuja personalidade está no processo de deterioração para cometer outros atos prejudiciais.
Como uma regra, tal situação se perpetua até que a loucura da pessoa torne-se óbvia.
As uniões ponerogênicas do tipo primária são principalmente de interesse criminoso. Nossa
principal preocupação será com as associações que sucumbem ao processo secundário de
malignidade ponerogênica. Primeiro, todavia, vamos estruturar algumas propriedades de tais
associações que já se renderam ao processo.
Dentro de cada união ponerogênica é criada uma estrutura psicológica, que pode ser
considerada uma contrapartida ou uma caricatura da estrutura normal da sociedade ou de uma
organização social normal. Em uma organização social normal, os indivíduos com várias
forças e fraquezas psicológicas complementam as características e os talentos uns dos outros.
Essa estrutura é sujeita a modificações diacrônicas, de acordo com as mudanças no caráter da
associação como um todo. O mesmo é verdade para uma união ponerogênica. Os indivíduos
com várias aberrações psicológicas também complementam as características e talentos uns
dos outros.
A primeira fase de atividades de uma união ponerogênica é usualmente dominada por
indivíduos caracteropatas, particularmente paranóicos, que freqüentemente têm um papel de
inspiração e de fascinação no processo de ponerização. Recordemos aqui que o poder da
caracteropatia paranóica reside no fato de que seus portadores escravizam facilmente as
mentes menos críticas, isto é, pessoas com outros tipos de deficiências psicopatológicas ou
que tenham sido vítimas de indivíduos com desvios de caráter e, em particular, um grande
segmento de pessoas jovens.
Nesse período, a união ainda exibe certas características românticas e ainda não está
caracterizada pelo comportamento excessivamente brutal. Logo, no entanto, os membros mais
normais são empurrados para funções marginais e são excluídos dos segredos organizacionais;
alguns deles, por conta disso, deixam tal união.
Então, indivíduos com anomalias herdadas assumem progressivamente as posições de
liderança e de inspiração. O papel dos psicopatas essenciais cresce gradualmente, embora
eles gostem de permanecer ostensivamente nas sombras (isto é, dirigindo pequenos grupos),
determinando o ritmo como uma eminência parda.[ 61 ] Nas uniões ponerogênicas de grande
escala social, o papel de líder é geralmente assumido por um tipo diferente de indivíduo, mais
facilmente digerível e representativo. Os exemplos incluem portadores de caracteropatias
frontais ou de alguns complexos menores e mais discretos.
No início, o propagandista também possui o papel de líder em um grupo ponerogênico.
Depois aparece um outro tipo de “talento de liderança”, um indivíduo mais vital, que
geralmente se juntou à organização mais tarde, depois de ela ter sucumbido à ponerização. O
indivíduo que tinha o papel de propagandista, por ser mais fraco, é forçado a aceitar os
termos, sendo desviado para os bastidores, e a reconhecer a “genialidade” do novo líder, ou
aceitar a ameaça de fracasso total. As funções são divididas. O propagandista necessita do
apoio do líder primitivo, mas decisivo, que em troca necessita do propagandista para sustentar
a ideologia da associação, tão essencial na manutenção da postura correta por parte daqueles
membros mais graduados e das fileiras, que carecem de uma tendência à crítica e duvidam da
variedade moral.
O trabalho do propagandista, então, é o de reempacotar a ideologia adequadamente,
inserindo cuidadosamente novos conteúdos sob velhos títulos, de forma que possa continuar
representando a sua função de propaganda sob condições que mudam o tempo todo. Ele
também tem que sustentar a mística do líder dentro e fora da associação. A verdade total não
pode existir entre os dois, no entanto, já que o líder despreza secretamente o propagandista e
sua ideologia, enquanto o propagandista desdenha do líder por ser um indivíduo grosseiro. Um
confronto é sempre provável; aquele que for mais fraco perderá.
A estrutura de tal união passa então à diversificação e à especialização. Um abismo se abre
entre os membros um pouco mais normais e a elite de iniciados que são, como regra, mais
patológicos. Este subgrupo se torna ainda mais dominado por fatores patológicos hereditários,
e aquele por indivíduos portadores dos efeitos posteriores a várias doenças que afetam o
cérebro, por indivíduos menos tipicamente psicopatas, e por pessoas cuja personalidade
malformada foi causada por privação precoce ou por métodos brutais de educação infantil por
parte de indivíduos patológicos. Não demora para que haja cada vez menos espaço para
pessoas normais no grupo como um todo. Os segredos dos líderes e as intenções são mantidos
escondidos dos proletários do grupo; os produtos do trabalho do propagandista devem ser
suficientes para esse segmento.
Alguém que observe de fora tais atividades da união, utilizando-se da visão de mundo
psicológica natural, tenderá sempre a superestimar o papel do líder e de sua função
alegadamente autocrática. O propagandista e o aparato de propaganda são mobilizados para
manter essa opinião errônea em quem está de fora. O líder, contudo, é dependente dos interesses da união, especialmente dos iniciados da elite, em uma extensão muito maior do
que ele mesmo sabe. Ele empreende um jogo de constante disputa por posição; ele é um ator
com um diretor. Em uniões macrossociais, essa posição é geralmente ocupada por um
indivíduo mais representativo, não privado de certas faculdades críticas; iniciá-lo em todos
aqueles planos e cálculos criminosos seria contraproducente. Em conjunto com parte da elite,
u m grupo de indivíduos psicopatas, escondidos nos bastidores, dirige o líder, da mesma
forma que Borman e sua facção dirigiram Hitler. Se o líder não cumpre seu papel designado,
ele geralmente sabe que a facção que representa a elite da união está apta a matá-lo ou
removê-lo de alguma outra forma.
Nós esboçamos as propriedades de uniões nas quais o processo ponerogênico transformou
seu conteúdo original genericamente benevolente em uma caricatura patológica e modificou
sua estrutura e suas alterações posteriores de um modo suficientemente amplo para abranger o
maior escopo possível desse tipo de fenômeno, desde a menor até a maior escala social. As
regras gerais que governam esses fenômenos parecem ser no mínimo análogas, não
dependendo da escala quantitativa, social ou histórica de tal fenômeno.