Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 17 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Associações ponerogênicas

Nós daremos o nome de “associação ponerogênica” a qualquer grupo de pessoas

caracterizado pelos processos ponerogênicos de intensidade social acima da média, onde os

portadores de vários fatores patológicos funcionam como inspiradores, propagandistas e

líderes, e onde é gerada uma estrutura social patológica apropriada. Associações menores,

menos permanentes, devem ser chamadas de “grupos” ou “uniões”.

Tal associação dá origem ao mal que fere outras pessoas, assim como fere seus próprios

membros. Nós poderíamos listar vários nomes relacionados a tais organizações pela tradição

linguística: gangues, máfias criminosas, máfias, facções e seitas, que com perspicácia evitam

colidir com a lei, enquanto procuram ganhar sua própria vantagem. Tais uniões aspiram

freqüentemente a poderes políticos, com o objetivo de impor sua legislação conveniente sobre

as sociedades em nome de uma ideologia preparada adequadamente, resultando em vantagens

na forma de prosperidade desproporcionada e na satisfação de sua ânsia por poder.

A descrição e classificação de tais associações com uma visão de seus números, objetivos,

ideologias oficialmente promulgadas e organizações internas seria, é claro, cientificamente

valiosa. Tal descrição, realizada por um observador perceptivo, poderia auxiliar um

ponerologista a determinar algumas das propriedades de tais uniões, que não podem ser

determinadas por meio da linguagem conceitual natural.

Uma descrição deste tipo, contudo, não deve encobrir os fenômenos mais factuais e as

dependências psicológicas que operam dentro dessas uniões. A falta de atenção a esse aviso

pode facilmente fazer com que a descrição sociológica indique propriedades que são de

importância secundária, ou mesmo feitas “para mostrar”, visando impressionar os não

iniciados, e escondendo através disso os fenômenos reais que decidem a qualidade, o papel e

o destino de tal união. Particularmente, se essa descrição não for realista, ela pode fornecer

conhecimento meramente ilusório ou substituto, passando uma percepção naturalista e

deixando a compreensão dos fenômenos mais difícil.

Todos os grupos e associações ponerogênicas têm em comum um fenômeno, que é o fato de

que seus membros perdem (ou já perderam) a capacidade de perceber indivíduos

patológicos como tais, interpretando seus comportamentos de um modo fascinante, heróico ou

melodramático. As opiniões, idéias e julgamentos das pessoas portadoras de vários déficits

psicológicos são dotados de uma importância no mínimo igual àquela dos indivíduos

marcantes entre as pessoas normais.

A atrofia das faculdades críticas naturais com respeito a indivíduos patológicos torna-se

uma abertura para as suas atividades e, ao mesmo tempo, um critério pare reconhecer a

associação em questão como ponerogênica. Vamos chamar isso de primeiro critério da

ponerogênese.

Outro fenômeno que todas as associações ponerogênicas têm em comum é a alta

concentração estatística de indivíduos com várias anomalias psicológicas. Sua composição

qualitativa é crucialmente importante na formação do caráter, nas atividades, no

desenvolvimento e na extinção da união como um todo.

Grupos dominados por vários tipos de indivíduos caracteropatas desenvolverão atividades

relativamente primitivas, tornando bastante fácil, para uma sociedade de pessoas normais, quebrá-los. Contudo, as coisas são um tanto diferentes quando tais uniões são inspiradas por

indivíduos psicopatas. Invoquemos o exemplo a seguir, que ilustra os papéis de duas

anomalias diferentes, selecionadas dentre eventos reais estudados pelo autor.

Em gangues juvenis criminosas, garotos (e ocasionalmente garotas) portadores de um déficit

característico, que é muitas vezes uma sequela da inflamação das glândulas parótidas

(caxumba), representam um papel específico. Essa doença confere reações cerebrais em

alguns casos, deixando como sequelas uma discreta, porém permanente, palidez nos

sentimentos e um leve decréscimo nas habilidades mentais gerais. Resultados similares

acontecem, algumas vezes, após a difteria. Como resultado, tais pessoas sucumbem facilmente

a sugestões e manipulações de indivíduos mais espertos.

Quando atraídos para um grupo criminoso, esses indivíduos enfraquecidos em sua

constituição tornam-se auxiliares pouco críticos e executores das intenções dos líderes, ou

seja, ferramentas nas mãos dos líderes mais traiçoeiros, normalmente psicopatas. Uma vez

presos, eles se submetem às explicações insinuadas por seus líderes de que o ideal maior

(paramoral) do grupo exige que eles se tornem bodes expiatórios, levando a maior parte da

culpa sobre si mesmos. No tribunal, os mesmos líderes que iniciaram as delinquências sem

piedade descarregam toda a culpa em seus colegas menos espertos. Algumas vezes o juiz

acaba aceitando as insinuações.

Indivíduos com as características acima mencionadas, pós-caxumba e pós-difteria,

constituem menos de 1% da população como um todo, mas sua participação chega a um quarto

nos grupos de delinquentes juvenis. Isso representa um aumento da ordem de 30 vezes, sem a

necessidade de métodos posteriores de análise estatística. Quando estudamos os conteúdos

das uniões ponerogênicas de forma suficientemente hábil, encontramos sempre um aumento de

outras anomalias psicológicas que também falam por si mesmas.

***

Dois tipos básicos das uniões acima mencionadas devem ser diferenciados: as

ponerogênicas primárias e as ponerogênicas secundárias. Considera-se como ponerogênica

primária a união cujos membros anormais são ativos desde o início, tendo um papel de

catalisadores da cristalização, tão logo o processo de criação do grupo tenha ocorrido. Nós

chamamos de ponerogênica secundária a união que foi fundada em nome de alguma idéia com

um significado social independente, geralmente compreensível dentro das categorias da visão

de mundo natural, mas que posteriormente sucumbiu a uma certa degeneração moral. Isso, por

sua vez, abriu a porta para a infecção e para a ativação dos fatores patológicos internos, e

posteriormente para a ponerização do grupo como um todo, ou freqüentemente de uma fração

do mesmo.

Desde o tênue início, uma união primariamente ponerogênica é um corpo estranho dentro do

organismo da sociedade, com seu caráter em confronto com os valores morais mantidos ou

respeitados pela maioria. As atividades de tais grupos provocam oposição e repugnância, e

são consideradas imorais. Como regra, em geral, tais grupos não se espalham muito, nem se

dividem em numerosas uniões. No final, eles perdem sua batalha para a sociedade.

Para ter uma chance de se desenvolver em uma associação ponerogênica grande, contudo, basta que uma organização humana qualquer, caracterizada por objetivos sociais ou políticos

e por uma ideologia com algum valor criativo, seja aceita por um grande número de pessoas

normais antes de sucumbir ao processo de malignidade ponerogênica. A tradição primária e

os valores ideológicos de tal sociedade podem, então, por um longo período, proteger uma

união que sucumbiu ao processo de ponerização a partir da consciência da sociedade,

especialmente de seus componentes críticos menores. Quando o processo ponerogênico toca

esse tipo de organização humana, que emergiu e agiu originalmente em nome de objetivos

políticos ou sociais, e cujas causas foram condicionadas pela situação histórica e social, os

valores primários do grupo original irão alimentar e proteger tal união, apesar do fato de que

tais valores primários tenham sucumbido à degeneração característica e a função prática tenha

se tornado completamente diferente da inicial, porque os nomes e os símbolos são mantidos.

É aí que as fraquezas dos “sensos comuns” individual e social são reveladas.

Isso é uma reminiscência da situação que os psicopatologistas conhecem bem: uma pessoa

que aprecia a verdade e o respeito em seus círculos começa a se comportar com uma

arrogância absurda e a ferir os outros, alegadamente em nome de suas convicções já

conhecidas, decentes e aceitas, que – nesse meio tempo – se deterioraram devido a algum

processo ponerogênico que as tornam primitivas, mas emocionalmente dinâmicas. Contudo, as

pessoas de suas antigas relações – que a conheciam por muito tempo como a pessoa que ela

era – não acreditam nas pessoas ofendidas, as quais reclamam sobre o seu comportamento

novo, ou até mesmo encoberto, e estão preparadas para denegri-las e considerá-las como

mentirosas. Esse processo aumenta a injúria e fornece encorajamento e licença ao indivíduo

cuja personalidade está no processo de deterioração para cometer outros atos prejudiciais.

Como uma regra, tal situação se perpetua até que a loucura da pessoa torne-se óbvia.

As uniões ponerogênicas do tipo primária são principalmente de interesse criminoso. Nossa

principal preocupação será com as associações que sucumbem ao processo secundário de

malignidade ponerogênica. Primeiro, todavia, vamos estruturar algumas propriedades de tais

associações que já se renderam ao processo.

Dentro de cada união ponerogênica é criada uma estrutura psicológica, que pode ser

considerada uma contrapartida ou uma caricatura da estrutura normal da sociedade ou de uma

organização social normal. Em uma organização social normal, os indivíduos com várias

forças e fraquezas psicológicas complementam as características e os talentos uns dos outros.

Essa estrutura é sujeita a modificações diacrônicas, de acordo com as mudanças no caráter da

associação como um todo. O mesmo é verdade para uma união ponerogênica. Os indivíduos

com várias aberrações psicológicas também complementam as características e talentos uns

dos outros.

A primeira fase de atividades de uma união ponerogênica é usualmente dominada por

indivíduos caracteropatas, particularmente paranóicos, que freqüentemente têm um papel de

inspiração e de fascinação no processo de ponerização. Recordemos aqui que o poder da

caracteropatia paranóica reside no fato de que seus portadores escravizam facilmente as

mentes menos críticas, isto é, pessoas com outros tipos de deficiências psicopatológicas ou

que tenham sido vítimas de indivíduos com desvios de caráter e, em particular, um grande

segmento de pessoas jovens.

Nesse período, a união ainda exibe certas características românticas e ainda não está

caracterizada pelo comportamento excessivamente brutal. Logo, no entanto, os membros mais

normais são empurrados para funções marginais e são excluídos dos segredos organizacionais;

alguns deles, por conta disso, deixam tal união.

Então, indivíduos com anomalias herdadas assumem progressivamente as posições de

liderança e de inspiração. O papel dos psicopatas essenciais cresce gradualmente, embora

eles gostem de permanecer ostensivamente nas sombras (isto é, dirigindo pequenos grupos),

determinando o ritmo como uma eminência parda.[ 61 ] Nas uniões ponerogênicas de grande

escala social, o papel de líder é geralmente assumido por um tipo diferente de indivíduo, mais

facilmente digerível e representativo. Os exemplos incluem portadores de caracteropatias

frontais ou de alguns complexos menores e mais discretos.

No início, o propagandista também possui o papel de líder em um grupo ponerogênico.

Depois aparece um outro tipo de “talento de liderança”, um indivíduo mais vital, que

geralmente se juntou à organização mais tarde, depois de ela ter sucumbido à ponerização. O

indivíduo que tinha o papel de propagandista, por ser mais fraco, é forçado a aceitar os

termos, sendo desviado para os bastidores, e a reconhecer a “genialidade” do novo líder, ou

aceitar a ameaça de fracasso total. As funções são divididas. O propagandista necessita do

apoio do líder primitivo, mas decisivo, que em troca necessita do propagandista para sustentar

a ideologia da associação, tão essencial na manutenção da postura correta por parte daqueles

membros mais graduados e das fileiras, que carecem de uma tendência à crítica e duvidam da

variedade moral.

O trabalho do propagandista, então, é o de reempacotar a ideologia adequadamente,

inserindo cuidadosamente novos conteúdos sob velhos títulos, de forma que possa continuar

representando a sua função de propaganda sob condições que mudam o tempo todo. Ele

também tem que sustentar a mística do líder dentro e fora da associação. A verdade total não

pode existir entre os dois, no entanto, já que o líder despreza secretamente o propagandista e

sua ideologia, enquanto o propagandista desdenha do líder por ser um indivíduo grosseiro. Um

confronto é sempre provável; aquele que for mais fraco perderá.

A estrutura de tal união passa então à diversificação e à especialização. Um abismo se abre

entre os membros um pouco mais normais e a elite de iniciados que são, como regra, mais

patológicos. Este subgrupo se torna ainda mais dominado por fatores patológicos hereditários,

e aquele por indivíduos portadores dos efeitos posteriores a várias doenças que afetam o

cérebro, por indivíduos menos tipicamente psicopatas, e por pessoas cuja personalidade

malformada foi causada por privação precoce ou por métodos brutais de educação infantil por

parte de indivíduos patológicos. Não demora para que haja cada vez menos espaço para

pessoas normais no grupo como um todo. Os segredos dos líderes e as intenções são mantidos

escondidos dos proletários do grupo; os produtos do trabalho do propagandista devem ser

suficientes para esse segmento.

Alguém que observe de fora tais atividades da união, utilizando-se da visão de mundo

psicológica natural, tenderá sempre a superestimar o papel do líder e de sua função

alegadamente autocrática. O propagandista e o aparato de propaganda são mobilizados para

manter essa opinião errônea em quem está de fora. O líder, contudo, é dependente dos interesses da união, especialmente dos iniciados da elite, em uma extensão muito maior do

que ele mesmo sabe. Ele empreende um jogo de constante disputa por posição; ele é um ator

com um diretor. Em uniões macrossociais, essa posição é geralmente ocupada por um

indivíduo mais representativo, não privado de certas faculdades críticas; iniciá-lo em todos

aqueles planos e cálculos criminosos seria contraproducente. Em conjunto com parte da elite,

u m grupo de indivíduos psicopatas, escondidos nos bastidores, dirige o líder, da mesma

forma que Borman e sua facção dirigiram Hitler. Se o líder não cumpre seu papel designado,

ele geralmente sabe que a facção que representa a elite da união está apta a matá-lo ou

removê-lo de alguma outra forma.

Nós esboçamos as propriedades de uniões nas quais o processo ponerogênico transformou

seu conteúdo original genericamente benevolente em uma caricatura patológica e modificou

sua estrutura e suas alterações posteriores de um modo suficientemente amplo para abranger o

maior escopo possível desse tipo de fenômeno, desde a menor até a maior escala social. As

regras gerais que governam esses fenômenos parecem ser no mínimo análogas, não

dependendo da escala quantitativa, social ou histórica de tal fenômeno.