Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 40 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Posfácio: Os problemas da Ponerologia

OS PROBLEMAS DA PONEROLOGIA

 

Um posfácio por Andrew Lobaczewski

 

DESDE O INÍCIO DA PSIQUIATRIA MODERNA, no final do século XIX, o estudo dos desvios

psicológicos foi perseguido na Europa. Durante os primeiros trinta anos do século XX,

diversos psiquiatras europeus eminentes foram pioneiros nesse assunto. Então se seguiu um

tempo de perseguição não só da ciência, mas dos cientistas, e parece, baseado numa revisão

do que se conhece atualmente no ocidente, que muito desse trabalho foi irremediavelmente

perdido.

 

Como um exemplo, quando eu era um estudante, uma história chegou aos nossos ouvidos, na

Polônia, sobre um célebre professor alemão que havia escrito uma análise da personalidade

psicopática de Hitler, e que teve um final infeliz. Ele aparentemente tentou alertar os alemães

de que seu Führer levaria a Alemanha a uma calamidade terrível. Ele foi levado a um campo

de concentração onde morreu enquanto era espancado. Dizem que suas últimas palavras foram

Ich habe das deutlich benachwiesen! (Eu provei claramente!). Eu não consegui descobrir seu

nome, então pode ser que essa história seja um tanto anedótica, mas não deixa de ser

interessante por ser apenas uma de muitas histórias que pululavam no meio acadêmico dessa

época.

Parece que, ao mesmo tempo, os soviéticos perceberam o perigo da ciência. Eles não

somente paralisaram os estudos sobre a genética[ 81 ] como também procuraram acabar com

as pesquisas independentes na área de psicologia e tomar o controle político da ciência para

usá-la com suas próprias finalidades nefastas. Alguns anos após o final da Segunda Guerra

Mundial, todas as bibliotecas públicas da Polônia foram vasculhadas e os livros “perigosos”

foram removidos e destruídos. Os professores foram informados de quais assuntos eram

permitidos em suas aulas, e como deviam ensinar as matérias. As “autoridades” sabiam

melhor o que um psiquiatra ou um patologista clínico tinha permissão para compreender.

Desta forma, a maior parte das pesquisas valorosas que estavam em andamento naquela época

foi sufocada e esquecida.

Então, na América, Hervey Cleckley e outros pesquisadores assumiram a tarefa de

descobrir, mais uma vez, coisas que já haviam sido pesquisadas no cadinho do assunto mesmo

que eles procuravam entender: anomalias psicológicas socialmente perigosas. Mas eles não

tinham acesso aos resultados mais antigos das pesquisas européias; ninguém no Ocidente

tinha, pois eles haviam sido apagados minuciosamente do domínio público.

Para mim e para outros pesquisadores da gênese do mal e da natureza dos fenômenos de

patologia macrossocial que engolfaram nossos países, esta ciência européia mais antiga,

preservada em nossas mentes através de palestras ministradas antes do início da supressão

política, criou as bases de nosso entendimento. Recuperar esta ciência proveniente dos

pesquisadores e psiquiatras desta era, apagada pelo Fascismo e pelo Comunismo, é, creio eu,

uma precondição vital para o progresso adicional no estudo do mal macrossocial. É importante notar que o desenvolvimento da terminologia européia para este campo foi melhor

elaborado e unívoco. Parece que, no Ocidente de hoje, há uma grande confusão na

terminologia.

Como eu já havia aprendido a partir do artigo de Salekin, Trobst e Krioukuva, [ 82 ] está em

uso nos Estados Unidos um inventário pessoal bem desenvolvido, como sistema principal para

descoberta e estimativa de psicopatias. Esta maneira pode levar a um grau considerável de

probabilidade de diagnóstico, mas não irá prover a certeza suficiente devido à variação de

tipos. Nós precisamos de ações práticas e de mais progresso científico. A assertividade de

diagnose necessária pode algumas vezes ser provida pelo conhecimento de vários tipo de

anomalias mentais, elaborado pelo trabalho científico europeu que foi suprimido e que agora

está perdido.

De acordo com minha experiência como psicólogo clínico e pesquisador da natureza do mal

nos domínios da psicopatologia, me parece que quase metade dos fatores patológicos que são

parte do processo de geração do mal – que eu chamo de Ponerogênese – são resultado de

vários tipos de lesões do tecido cerebral. As psicopatias perfazem uma porcentagem menor

desses tipos. Há outros fatores também, como os que são popularmente conhecidos como os

de personalidades múltiplas. A concentração de nossa atenção nas psicopatias levará somente

a uma compreensão unilateral do problema geral e a erros de prática, particularmente na

psicoterapia. A situação tocante aos casos de psicopatia é muito mais confusa. Mas um

conhecimento exaustivo da natureza biológica e das propriedades genéticas de tipos

particulares de psicopatia pode, eu espero, dar ocasião a um início de compreensão. É por

esta razão que eu ofereço estes comentários baseados em meu treinamento e em minha

experiência nestes tipos de eventos que nós esperamos – não, que devemos – entender.

O alvo deveria ser a redução da atividade da patologia na gênese do mal na sociedade e

seus resultados trágicos em todas as escalas, de indivíduos (como mulheres que acabam como

presas de psicopatas), até famílias, grupos sociais, movimentos sociais, até a mais larga

escala dos eventos políticos. Um alvo como este requer um fundamento firme de conhecimento

profundo e detalhado da natureza de todas as anormalidades. Todos os resultados dos

psiquiatras mais antigos bem como as realizações contemporâneas devem ser cuidadosamente

considerados e utilizados para explorações adicionais. O estado real do conhecimento atual

pode ser suficiente para compreender o fenômeno macrossocial, mas ainda assim não é

adequado para a realização completa da tarefa à nossa frente, incluindo os casos individuais.

A principal tarefa parece ser, para mim, a de distinguir entre as anomalias causadas por

danos ao tecido cerebral e aquelas transmitidas por hereditariedade. Este é também o pão de

cada dia do psicólogo. Estimar o local e o tipo de dano não é difícil se utilizarmos testes e

tecnologia padrão. Observa-se que aqueles portadores de patologias resultantes de desordens

mecânicas são os iniciadores mais freqüentes de processos macrossociais que levam ao

sofrimento humano em larga escala; eles abrem as portas às atividades adicionais dos fatores

patológicos transmitidos geneticamente.Parece ser mais fácil tomar controle destas condições

através da psicoterapia. Uma vez que as lesões no cérebro não são hereditárias, o terapeuta

tem a obrigação de informar ao paciente e àqueles preocupados com sua vida de que o perigo

de um problema hereditário não existe, e assim o plano de ação seria diferente do caso onde a hereditariedade é um fator.

Os casos mais ativos, em termos de atividade ponerológica (e aqui nós não estamos

necessariamente falando de comportamento criminoso, ainda que esse possa ter alguma

influência, mesmo se não detectado), foram em minhas pesquisas os de caracteropatia frontal.

(Eu creio que estas caracteropatias são comumente chamadas no Ocidente de “distúrbios de

personalidade”).

O dano aos centros 10 A e B é causado predominantemente em recém-nascidos como

resultado de hipóxia neonatal ou de diversas doenças que são comuns nesta idade crítica. As

características patológicas não são percebíveis em crianças em idade pré-escolar. No entanto,

os problemas aumentam durante a vida até que, geralmente, por volta dos cinquenta anos de

idade, haja uma personalidade ponerogênica severa. Um exemplo claro e típico é Stálin.

Considerações comparativas devem ser incluídas na lista desta caracteropatia particular, que

se desenvolveu com o pano de fundo do dano perinatal a seus campos pré-frontais do cérebro.

A literatura e as notícias sobre ele abundam em indicações: brutal, carismático, encantador,

emissor de decisões irrevogáveis, crueldade desumana, vingança patológica dirigida a

qualquer um que se colocasse em seu caminho; e a crença egotística em sua própria

genialidade, da parte de uma pessoa suja mente era, na verdade, apenas mediana. Este estado

também explica sua dependência psicológica de um psicopata como Beria. Algumas

fotografias revelam a deformação típica de sua testa, que aparece em pessoas que sofreram

danos muito prematuros nas áreas mencionadas acima.

As tendências modernas no cuidado obstétrico e neonatal diminuíram muito a incidência

deste tipo de caracteropatia, mas há mais a se fazer. Hoje em dia nós nos deparamos com

casos mais leves. Assim, serviços médicos melhorados – particularmente para mulheres e

crianças – estão entre as coisas que devem ser incluídas em qualquer plano para lidar com o

mal na escala macrossocial. Esperamos que um outro Stálin jamais volte a surgir.

Deixe-me esboçar rapidamente, uma vez mais, as categorias principais com alguns detalhes

adicionais que não estão no texto original.

As doenças de caráter paranóico são um outro tipo de caracteropatia que contribui para a

gênese do mal. Nós sabemos hoje que o mecanismo psicológico dos fenômenos paranóicos se

desdobra em dois: um é causado por dano ao tecido cerebral, o outro é funcional ou

comportamental. Algumas lesões no tecido cerebral causam um certo afrouxamento da

precisão de raciocínio e, como consequência, há a perda de controle da estrutura da

personalidade. Os casos mais típicos são aqueles causados por uma agressão ao diencéfalo

por vários fatores patológicos, resultando em uma habilidade tonal permanentemente reduzida,

e de modo similar a redução do tônus de inibição do córtex cerebral. Particularmente durante

noites de insônia, pensamentos fugitivos acabam por criar uma visão paranóica da realidade

humana, bem como idéias que podem ser tanto ingênuas como violentamente revolucionárias.

Em pessoas livres de danos ao tecido cerebral, tais fenômenos ocorrem mais freqüentemente

como resultado de serem criadas por pessoas com caracteropatia paranóica, juntamente com o

terror psicológico de sua infância. Tal material psicológico é então assimilado, criando os

estereótipos rígidos da experiência anormal. Isto torna difícil o desenvolvimento normal do

pensamento e da visão de mundo, e os conteúdos aterrorizantes que foram bloqueados se transformam em centros permanentes de congestão funcional.

É uma característica do comportamento paranóico que as pessoas que o apresentam sejam

capazes de um raciocínio relativamente correto e de discussão, conquanto a conversação

envolva diferenças mínimas de opinião. Isto cessa abruptamente quando os argumentos do

oponente passam a minar suas ideias supervalorizadas, a destruir seus estereótipos arraigados

de raciocínio, ou a forçá-los a aceitar a conclusão que eles rejeitaram previamente em seu

subconsciente. Um estímulo como esse libera na direção do oponente uma torrente de abusos

pseudológicos, altamente paramoralísticos e sugestivos.

Reações como essa servem geralmente apenas para repelir pessoas cultas e lógicas, que

tendem a evitar os tipos paranóicos. No entanto, o poder da paranóia reside no fato de que

seus portadores escravizam facilmente as mentes mais fracas, como por exemplo as pessoas

com outros tipos de deficiências psicológicas, as vítimas de indivíduos com doenças de

caráter e, em particular, uma grande parte das pessoas jovens.

Um membro da classe trabalhadora pode perceber esse poder de escravizar como sendo um

tipo de vitória sobre as pessoas muito cultas e intelectuais e assim tomar o lado do paranóico.

Entretanto, esta não é a reação normal por parte das pessoas comuns, onde a inteligência e a

percepção da realidade psicológica ocorrem com a mesma frequência do que entre os

intelectuais.

Em suma, então, a resposta de aceitação ao discurso paranóico é qualitativamente mais

freqüente na proporção inversa ao nível de civilização da comunidade em questão. Não

obstante, indivíduos paranóicos se tornam conscientes de sua influência escravizadora através

da experiência e da tentativa de tirar vantagem disso de uma maneira patologicamente egotista.

As psicopatias são as anomalias transmitidas hereditariamente; são principalmente do

substrato instintivo humano. Elas representam as deficiências desta doação filogenética

natural, mas são de uma natureza diversa. Nós sabemos de um certo número de tipos distintos

destas anomalias que diferem tanto em natureza como em transmissão hereditária. Assim, deve

ser compreendido deste o início que elas são entidades biologicamente diferentes.

A mais ativa em termos de ponerogênese são as que os cientistas que tiveram seus trabalhos

suprimidos chamavam de “psicopatia essencial”. Hoje em dia este tipo é descrito por muitos

pesquisadores, embora eles utilizem uma nomenclatura diferente.

Esta anomalia é melhor conhecida devido ao seu envolvimento freqüentemente dramático em

tragédias de vida envolvendo mulheres. Colin Wilson discute o que ele chama de “Homem

Correto”, que poderia em outros usos ser chamado de “Macho Dominante” ou “Macho Alfa”,

ainda que aqui estejamos interessados nos extremos de comportamento, não apenas na

dominância ordinária ou nas características de liderança. Esta descrição, embora use uma

terminologia diferente, dá uma boa noção do tipo da psicopatia essencial. Muito

freqüentemente o psicopata essencial é um tirano doméstico que aterroriza sua família, mas

eles também podem ser encontrados em todas as áreas do esforço humano. Eles são

reconhecidos logo na infância como valentões e torturadores de criaturas desprotegidas.

A discussão de Wilson é baseada no trabalho de A.E. Van Vogt, que é o autor de diversos

estudos psicológicos. O conceito de Van Vogt do ‘Homem Correto’ ou ‘homem violento’ é

importante aqui por seu poder descritivo da patologia em questão; não necessariamente por sua interpretação. Wilson escreve:

Em 1954 Van Vogt começou a trabalhar em seu romance de guerra chamado O Homem Violento, que se passava em

um campo chinês de prisioneiros. O comandante do campo é uma dessas figuras selvagemente autoritárias que ordenaria, sem nenhuma hesitação, a execução de qualquer um que questionasse sua autoridade. Van Vogt estava criando o tipo a partir da observação de homens como Hitler e Stálin. E, ao pensar sobre o comportamento assassino do comandante, ele se viu a divagar: ‘O que poderia motivar um homem como esse?’ Por que é que alguns homens acreditam que qualquer um que os contradiga ou é desonesto ou perverso? Eles realmente acreditam, no fundo de seus corações, que são deuses incapazes de cometer um erro? E se pensam assim, eles são insanos de alguma forma, como um homem que pensa ser Júlio César?

Procurando à sua volta por exemplos, Van Vogt foi confrontado com o fato de que o comportamento masculino

autoritário é comum demais para ser considerado como insanidade... [Por exemplo,] o casamento parece trazes à tona o personalidade ‘autoritária’ em muitos homens, de acordo com as observações de Van Vogt...

‘O homem violento’ ou o ‘Homem Correto’ ... é um homem dirigido pela necessidade maníaca por auto-estima – de

sentir que ele é ‘alguém’. Ele é obcecado pela questão de ‘perder o respeito’, e por isso jamais, sob quaisquer circunstâncias, ele admitirá que está enganado...

Igualmente interessante é o ciúme selvagem e insano. A maioria de nós está sujeita ao ciúme, já que a noção de que

alguém de quem gostamos prefira outra pessoa é um assalto ao nosso amor próprio. Mas o Homem Correto, cuja auto-estima é como uma ferida aberta e purulenta, cai num frenesi de pensamento, tornando-se capaz de assassinar...

Ele sente que está justificado em sua explosão, como um deus irado. Ele sente que está infligindo uma punição justa...

A única coisa que se torna óbvia em todos os casos do Homem Correto é que seus ataques não são inevitáveis; alguns

de seus delitos são cuidadosamente planejados e calculados, e executados com determinação. O Homem Correto faz estas coisas porque acha que elas o ajudarão a atingir seu próprio caminho, que é o que o interessa.

E isso, por sua vez, deixa evidente que o problema do Homem Correto é um problema de pessoas altamente

dominantes. A dominância é objeto de grande interesse para biólogos e zoólogos porque a porcentagem de animais dominantes – ou seres humanos – parece ser incrivelmente constante. Estudos biológicos têm confirmado que, por alguma razão estranha, precisamente cinco por cento – um a cada vinte – de qualquer grupo animal são dominantes – possuem qualidades de liderança...

Um membro ‘médio’ desses cinco por cento de dominantes não enxerga razões para não ser rico e famoso também.

Ele experimenta a ira e a frustração diante de sua falta de ‘primazia’, e está disposto a considerar métodos não ortodoxos para forçar seu caminho rumo à dianteira. Isto explica claramente um ponto importante sobre os níveis crescentes de crimes e violência em nossa sociedade...

Nós podemos também ver como membros grandes destes grupos de indivíduos dominantes se desenvolvem em

‘Homens Corretos’. Em cada escola com quinhentos alunos há aproximadamente vinte e cinco dominantes lutando pela primazia. Alguns deles têm vantagens naturais: são bons atletas, bons estudantes, bons debatedores. (E há, é claro, muitos alunos não dominantes que são talentosos o suficiente para ganhar alguns dos prêmios). Inevitavelmente, uma porcentagem dos alunos dominantes não têm nenhum talento ou aptidão especial; alguns podem ser até mesmo completamente idiotas. Como tal pessoa irá satisfazer sua necessidade por primazia? Ele irá, indubitavelmente, escolher por expressar sua dominância pelos meios possíveis. [Colin Wilson, A Criminal History of Mankind (1984)]

Ora, a análise de Van Vogt e de Wilson não atingem o núcleo do problema – a psicopatia

essencial – mas eles descreveram o tipo em sua manifestação externa e tocaram apenas

tangencialmente nas questões genéticas.

Em minhas próprias pesquisas ficou claro que uma investigação profunda deste tipo era

necessária pois ele parecia ter um papel inspiracional principal na patologia macrossocial

ainda chamada de “Comunismo”. A frequência de suas aparições variam de país para país.

Minha estimativa para a Polônia, meu lar, é de aproximadamente seis por mil.

O substrato instintivo de tais indivíduos carece de respostas naturais sintônicas. É como se

houvesse lacunas nos dons naturais, ou “cordas faltantes” em um instrumento. Como resultado,

tais indivíduos são incapazes de compreender emoções humanas sutis e até mesmo o que

poderia ser considerado como senso comum. Eles são egoístas bem como egotistas patológicos, tentando forçar outras pessoas a sentir e pensar como eles desejam.

Como resultado de minha longa experiência observando este fenômeno e de minhas

tentativas de rastrear sua fonte, eu compartilho a convicção com outros pesquisadores de que

esta anomalia é herdada através do cromossomo X e que não é transferível de pai para filho.

Se a mãe for normal em ambos os seus cromossomos, o filho é genotipicamente livre. Em

alguns casos, essa é uma informação essencial para que as punições dos “pecados dos pais”

não sejam imputadas aos filhos. As filhas são então as portadoras, e elas algumas vezes – mais

sim do que não, mas não sempre – demonstram algumas características patológicas. A

pergunta de por que nem todas exibem a patologia é uma questão que precisa ser investigada.

A psicopatia esquizoidal aparece em ambos os sexos e é similar tanto em apresentação

como em frequência. Isto sugere que a anomalia possui uma transmissão autossômica. Sua

frequência média é um pouco mais alta do que a da psicopatia essencial, mas varia

consideravelmente entre grupos étnicos ou raciais. Aparecendo em sua maior frequência entre

Judeus, e devido à tenacidade excepcional e à natureza persistente que caracterizam esta

patologia, ela marca sua civilização inteira, sua visão de mundo e suas atividades.

O substrato instintivo do psicopata esquizoidal opera como um todo como se estivesse sobre

areia movediça. Eles carecem de um senso natural das realidades psicológicas. Eles possuem

intelectos bastante eficientes, mas que oscilam sobre sentimentos obscurecidos da natureza

humana. Ainda assim, o aspecto intelectual se esforça e empreende persistentemente para

gerar grandes doutrinas e estratégias amorais que são astuciosamente concebidas para agir de

forma sugestiva sobre indivíduos ingênuos, cujos intelectos não são tão bem desenvolvidos.

Os esquizóides e suas doutrinas tiveram o papel inicial na criação de grandes tragédias

macrossociais de nossos tempos.

Nas relações familiares, o psicopata esquizóide gera estados abatidos e depressivos em seus

parceiros. Os tipos menos desenvolvidos intelectualmente parecem ser ferramentas fáceis para

os criadores de intriga mais espertos. Quando seus erros de julgamento ou de associação

resultam em problemas sérios, eles caem facilmente num estado reativo que lembra muito o da

esquizofrenia.

A psicopatia astênica pode ser notada como a de classificação mais significativa,

numericamente falando. Há dúvidas sobre a possibilidade de casos sintomaticamente

similares serem suficientemente semelhantes no que tange ao aspecto nomológico[ 83 ].

Parece que alguns dos tipos astênicos tiveram certamente um papel ativo na gênese do mal,

mas outros parecem estar mais aptos a se ajustarem às demandas da vida social.

A esquirtoidia aparece similarmente em ambos os sexos. Estas pessoas são emocionalmente

dinâmicas, grosseiras, carentes da compreensão das questões sutis da moralidade. As do sexo

masculino se tornam ótimos soldados, mas quando sua energia não é canalizada nesse sentido,

elas se tornam uma versão excessivamente egotística e mais fraca do “homem correto”

mencionado acima. Eles abusam de suas esposas e crianças, mas são suficientemente

preocupados com seu próprio bem-estar a ponto de não cruzar a linha da lei.

Os antigos psiquiatras da Europa Oriental também incluíam em sua taxonomia o “debilismo”

ou “salon debils”[ 84 ]. Esta é uma anomalia qualitativa entendida como hereditária e de

alguma forma similar à esquizoidia. Tais indivíduos eram geralmente decentes, mas marcados por uma loquacidade plana e adulatória, e por uma falta de habilidade para entender qualquer

tipo de assunto sério.

Eu listei acima os tipos mais freqüentemente descritos de psicopatias com as quais tenho

familiaridade. Vários híbridos destas anomalias, e outras mais raras, conhecidas ou

desconhecidas ou insuficientemente descritas, compreendem um conjunto à espreita dentro das

sociedades. Tal conjunto existe em todos os países do mundo, (embora sua composição varie)

consistindo entre 4% e 9% da população total.

O conhecimento detalhado da natureza de todas estas anomalias, particularmente de suas

propriedades biológicas, é básico a qualquer expectativa de realização de ações práticas em

todos os campos que poderiam ajudar a blindar a humanidade contra as ações de tais

patogenias sociais. Em meu próprio caso, as possibilidades de uma pessoa, trabalhando sob

as condições mais inconvenientes e impossíveis, eram bem pequenas; agora me resta somente

apelar a outros pesquisadores que promovam o trabalho nesta área importante com o objetivo

da sobrevivência da humanidade.

O entendimento de quais tipos de anomalias mentais são ativas em qualquer processo de

ponerogênese, e de que formas elas participam, é básico para qualquer ação efetiva. Como

exemplo, tal entendimento é crucial na psicoterapia de qualquer indivíduo cuja visão de

mundo tenha sido deformada por influência de uma personalidade patológica, aumentando a

taxa de sucesso no gerenciamento do paciente.

Por exemplo, a tentativa de persuadir um indivíduo que esteja sob o encanto de um psicopata

essencial (geralmente mulheres, mas não sempre), é geralmente fadada ao fracasso. No

entanto, quando fazemos a pergunta: “por que a vítima não percebeu imediatamente o modo

anômalo de ‘sentir’ e pensar do psicopata?”, nós descobrimos freqüentemente que há, na

vítima, circuitos de pensamento e de comportamento ali embutidos pela influência prematura

de uma outra personalidade anormal, geralmente caracterizada pelas doenças mentais

causadas por danos ao tecido cerebral. Isto foi notado por mim com tanta frequência que

requer uma ênfase e consideração especiais. O importante é que uma vez que é revelada, a

porta se abre para uma psicoterapia efetiva.

O psicoterapeuta pode então ajudar o paciente a elaborar sua consciência plena desta

influência prejudicial bem como os meios para superar ou para eliminar estas próprias

tendências da personalidade dele ou dela. O resultado é que o paciente pode reaprender

modos precisos de sentir e entender não somente a si mesmo, mas também as outras pessoas.

E assim ocorre quando um paciente apresenta certos problemas para os quais parece não

haver uma causa óbvia, e o psicoterapeuta se torna consciente da influência encantadora do

psicopata na vida de seu ou sua paciente, é mais conducente à terapia de sucesso se aproximar

do problema desta maneira, e assim o problema oculto – a influência do psicopata – será

resolvido, bem como o paciente aprenderá a ver a anormalidade no processo de identificá-la

em si mesmo.

É necessário que os psicoterapeutas sejam um pouco astutos. O fato é que a psicoterapia é o

domínio inicial onde a ponerologia possui aplicação imediata. Em minha experiência, o

entendimento dos elementos macrossociais, movendo-os aos elementos de grupo e família,

leva à identificação e implementação de medidas corretivas mais concisas e efetivas. Estas análises podem então trazer uma reordenação mais duradoura da personalidade do paciente e

ajudar a enriquecer a mente com a habilidade para a auto-gestão por toda a vida. Algumas

dificuldades são encontradas com pacientes menos inteligentes. De qualquer forma, minha

própria experiência me convence de que o estudo da ponerologia em todas as escalas deveria

ser introduzido no escopo da psicologia e se tornar uma parte da profissão de todos os

psicoterapeutas.

Várias anomalias mentais estão incluídas nos processos da ponerogênese em todas as

escalas sociais, desde indivíduos até fenômenos macrossociais. Elas estão ativas dentro dos

indivíduos, limitando suas possibilidades de auto-controle, ou agindo como influência

traumatizante ou fascinante sobre outros, particularmente sobre jovens, distorcendo suas

personalidades e suas visões de mundo. A tarefa e o domínio de nossa ciência consistem na

busca por estes processos variados de ponerogênese. Esta ciência da Ponerologia cumpre os

requisitos do princípio do remédio: “Ignoti nulla curatio morbi”. Não tente curar o que você

não entende.

Os resultados da ciência da ponerologia, falando de forma geral, corroboram freqüentemente

algumas convicções de filósofos morais antigos, reforçando-os do lado do raciocínio

naturalista. Ao utilizar dados não levados em consideração até agora, ou os que só foram

descobertos nas últimas décadas, a ciência da Ponerologia nos permite entender e resolver

muitos problemas enigmáticos e misteriosos da vida, incluindo aqueles que afligem

indivíduos, famílias, comunidades e nações. Num futuro bem próximo, esta ciência poderá

muito bem prevenir outras tragédias como as históricas do último século.

A abordagem ponerológica à psicologia e à psicoterapia pode trazer também correções

detalhadas para as ciências éticas. Ao reconhecer a causalidade real e os processos confusos

da ponerogênese, a Ponerologia introduz o mecanismo de classificação das facetas

psicológicas e psicopatológicas dos problemas macrossociais, que devem, em todo tempo, ser

levadas em consideração. Portanto, a interpretação tradicional do mal, apenas em termos

morais, pode ser deixada para trás como uma relíquia arcaica e fora de moda de um passado

não científico. Há uma boa razão para isso, porque as interpretações moralistas não permitem

uma neutralização e uma ação contrária suficientemente efetivas ao mal que aparece um dia

sob um disfarce e no dia seguinte sob outro. Então podemos dizer que o raciocínio ético puro,

sem a contribuição científica da Ponerologia, também tem sido imoral. Mas tem sido assim

por milênios. Para superar esta longa tradição nós devemos enfrentar a resistência dos

filósofos; mas esta é a nossa tarefa.

A abordagem Ponerológica parece ser bem promissora em muitos domínios da ciência e da

prática. Tal reinterpretação dos eventos dramáticos da história, tanto os antigos como os

recentes, pode substituir a narrativa seca dos historiógrafos com uma fotografia vívida da

dinâmica real que pode nos ensinar sobre as reais razões e assim prover novas possibilidades

de prevenção da gênese do mal, ou pelo menos ajudar no gerenciamento de seus resultados. A

história da humanidade demanda ser lida e contada novamente por historiadores educados na

ciência da Ponerologia.

A Ponerologia nasceu no cadinho das tentativas de entender, cientificamente, um fenômeno

macrossocial que só pode ser chamado de extrema e excessivamente mal: o Fascismo e o Comunismo Soviético. Após um tempo de adversidade intelectual, quando a linguagem comum

das ciências sociais se mostrou inadequada para descrever o que estava sendo vivido e

experimentado, tornou-se óbvio que a primeira necessidade era a de elaborar um novo ramo

da ciência e uma linguagem tal que pudéssemos ter categorias e nomenclaturas adequadas a

lidar com algo desta magnitude. Esta elaboração finalmente permitiu que achássemos as

respostas adequadas e a elaboração de descrições científicas apropriadas à natureza real do

fenômeno. Este sistema macrossocial tinha todas as características de uma escritura individual

patológica bem grande, como eu descrevo em meu livro. Eu estava ciente de que tais

fenômenos similares haviam aparecido na história da humanidade tantas outras vezes, em

várias escalas, sob várias condições históricas, e sempre foram levados para dentro da

sociedade, como um Cavalo de Tróia, revestido com a ideologia de algum movimento

idealista e socialmente heterogêneo. Isto ainda é verdade no tempo presente.

Em muitos países, a Regra da Lei tem ajudado a sociedade a lidar com tais patologias em

várias escalas. Mas sem premissas e alvos objetivos baseados nos princípios revelados pela

ciência da Ponerologia, a Regra da Lei funciona apenas por acaso; tentativa e erro. E assim

será até que a Regra da Lei esteja sustentada pela ciência da Ponerologia. Mas a mudança não

será fácil! A utilização desta ciência e o que ela revela causarão um terremoto nas mentes dos

juristas tradicionais. E a elaboração de uma lei aperfeiçoada demandará muito trabalho no

tempo apropriado. Novos métodos e caminhos para combater o mal na sociedade são

necessários além de apenas um esquema de punições. Meios mais efetivos de lidar com a

gênese do mal devem ser achados!

Onde ir a partir daqui?

A primeira coisa que precisa ser feita é reconstruir toda a ciência da psicologia e promover

e financiar pesquisas em todas as áreas onde a psicologia é aplicável, o que geralmente

significa em todas as áreas da vida em sociedade. Depois, promover a ciência e sua utilidade

para a sociedade em geral. Ela deveria ser ensinada nos colégios, incluindo os dados

necessários sobre as patologias, bem como uma visão geral das implicações macrossociais. A

popularização da psicologia verdadeira melhoraria a habilidade das pessoas e das

comunidades de tomar decisões melhores em suas vidas e planos. Um conhecimento básico da

natureza verdadeira do mal – que é algo que pode ser cientificamente elaborado – tornaria as

pessoas menos circunspectas em seus engajamentos com outras pessoas e com a vida em geral.

Tal pano de fundo popularizado é necessário para o desenvolvimento da ciência e de suas

várias aplicações sociais. Comunidades que entendem seus valores e idéias irão apoiar a

implementação das mudanças necessárias para lidar com a patologia social. Esta

popularização poderia habilitar o desenvolvimento do que poderia ser chamado de

“moralidade eugênica”, que inspiraria esforços voluntários para contribuir com a redução, de

geração para geração, do fardo das anomalias psicopatológicas geneticamente transmitidas. A

ingenuidade das mulheres, devida à carência grave de conhecimento psicológico preciso, é

uma das principais causas para os números crescentes de psicopatas nascidos nos dias atuais

e nos últimos 50 anos.

O que é de suma importância é a compreensão total da importância da ciência da

Ponerologia e quantas aplicações ela pode ter para o futuro da paz e de uma humanidade humana. Esta ciência permite que a mente humana entenda coisas que têm sido, por milênios,

inteligíveis: a gênese do mal. Este entendimento poderia muito bem levar a humanidade a um

ponto de inflexão na história da civilização, a qual, eu gostaria de adicionar, está atualmente

num ponto de auto-destruição.

Portanto, meu pedido a você é este: Não fique chocado com o tamanho gigantesco da tarefa!

Tome-a como um trabalho a ser gradualmente executado e tenha a esperança de que muitas

outras pessoas virão para ajudar e assim assegurar o progresso.

Parece que, na ordem natural das coisas, aquelas pessoas que sofreram mais nas mãos de

psicopatas ou de outros portadores de anomalias mentais serão chamadas para fazer este

trabalho, para aceitar o fardo. Se for com você, dama ou cavalheiro, aceite também seu

destino com um coração aberto e com humildade, e sempre com um senso de humor. Acalente

a ajuda da Mente Universal, e saiba que Grandes Valores freqüentemente crescem a partir de

Grandes Sofrimentos.

Rzeszów, Polônia, 24 de agosto de 2006.

 

Em nenhum outro lugar a disputa entre criação e natureza foi tão clara como na União Soviética. A genética ficou parada por vinte e cinco anos por causa de ideologia. Os Marxistas não podiam aceitar que algumas características estão além da intervenção humana por serem parte de um código biológico. Marx insistia que o homem poderia ser mudado pela sociedade; uma vez que a revolução fosse bem sucedida, uma humanidade nova e melhor emergiria. Esta era, em si mesma, uma teoria sobre herança. O processo de produção do novo homem havia ido mais longe na União Soviética do que em qualquer outro lugar. As massas cumpriram o primeiro plano de cinco anos em quatro, destruindo milhões de kulaks e intelectuais – destruidores e sabotadores – no processo...

A ideologia – e os experimentos falsificados – teve efeitos desastrosos. Em 1942 Lysenko alegou que se o trigo de inverno (que é cultivado em locais com um clima ameno o suficiente para sustentá-lo) fosse plantado na Sibéria misturado ao restolho do trigo de primavera (que cresce durante o verão) ele sobreviveria ao mais rigoroso inverno. A “vernalização do trigo” (que simplesmente não funcionou) foi imposta aos fazendeiros e levou à escassez e fome gerais.

Em 1948 a genética parou na URSS... A herança das características adquiridas se tornou lei... Muito depois Khruschev disse a Lysenko: “Você e seus experimentos podem ir para a lua”, e somente na década de 1970 é que a genética foi readmitida ao mundo da ciência. Lysenko foi a visão oposta da vigente na Alemanha e em todos os outros lugares na década de 1930: de que os genes faziam tudo. Sabe-se que o próprio Hitler leu um livro sobre genética humana e que muitos experts na área de “higiene racial” (como o assunto era chamado na época) estavam envolvidos no movimento de extermínio. Favorecer aqueles com os melhores genes e erradicar aqueles com os piores era a única maneira de melhorar a sociedade. Esta idéia também foi reprovada no teste da história. (J. Steven Jones, In the Blood, Harper Collins, 1995) Salekin, Trobst and Krioukuva, “Construct Validity of Psychopathy in a Community Sample: A Nomological Net Approach”, Journal of Personality Disorders, 15(5), (2001) 425-441 De acordo com as leis reais da natureza. Uma explicação dedutiva-nomológica é um método formal de explicação baseado no teste de hipóteses derivadas de leis gerais.

Em francês, algo como “pessoa louca” ou “idiota do bairro”.