Ponerologia: Psicopatas no Poder
Sociedade
A natureza projetou o homem para ser social, como um estado já codificado
antecipadamente no nível instintivo da nossa espécie, conforme já descrito acima. Nossas
mentes e personalidades não poderiam, provavelmente, se desenvolver sem o contato e a
interação com um círculo maior de pessoas. Nossa mente recebe dados dos outros, seja
consciente ou inconscientemente, em relação a questões da vida emocional e mental, tradição
e pensamento, através da sensibilidade ressonante, da identificação e da imitação, e pela troca
de idéias e regras permanentes. O material que obtemos por estes meios é então transformado
pela nossa psique para criar uma nova personalidade humana, que nós podemos chamar de
“nossa própria”. Contudo, nossa existência é dependente das ligações necessárias com
aqueles que viveram antes, com aqueles que constroem a nossa sociedade no presente, e com
aqueles que existirão no futuro. Nossa existência somente assume significado como uma
função dos laços sociais; o isolamento hedonista faz com que fiquemos perdidos.
É o destino do homem cooperar ativamente para dar forma ao destino da sociedade, através
de dois meios principais: formando, dentro dela, sua vida individual e familiar, e tornando-se
ativo no somatório total dos assuntos sociais baseado em sua – tomara que suficiente –
compreensão do que é necessário ser feito, do que deve ser feito e se ele consegue ou não
fazê-lo. Isto requer que um indivíduo desenvolva duas áreas de conhecimento sobre as coisas,
que de certa forma são sobrepostas; sua vida depende da qualidade do seu desenvolvimento,
assim como sua nação e a humanidade como um todo.
Se, digamos, nós observamos uma colméia com um olhar de pintor, vemos que parece uma
multidão agrupada de insetos ligados pela sua similaridade de espécie. O apicultor, no
entanto, percebe as leis complicadas que estão codificadas em cada instinto do inseto e no
instinto coletivo da colméia mesma; isso o ajuda a entender como cooperar com as leis da
natureza que governam a sociedade das abelhas. A colméia é um organismo de ordem
superior; nenhuma abelha individual pode existir sem ela e, portanto, se submete à natureza
absoluta de suas leis.
Se observarmos uma multidão de pessoas ocupando as ruas de alguma grande metrópole
humana, veremos algo como indivíduos dirigidos pelos seus negócios e problemas, atrás de
uma migalha de felicidade. Contudo, tal simplificação da realidade faz com que
negligenciemos as leis da vida social, que existem desde muito antes das metrópoles, e que
continuarão a existir até muito depois que as grandes cidades forem esvaziadas das pessoas e
dos objetivos. Os solitários na multidão têm uma dificuldade em aceitar esta realidade que –
para eles – existe somente na forma potencial, embora nunca consigam percebê-la diretamente.
Na realidade, a aceitação das leis da vida social em toda a sua complexidade, mesmo se
encontramos dificuldades iniciais em compreendê-las, nos ajuda a obter, finalmente, um certo
nível de entendimento que adquirimos de certa forma como por osmose. Graças a essa
compreensão, ou mesmo somente a uma intuição instintiva de tais leis, um indivíduo é capaz
de atingir seus objetivos e desenvolver sua personalidade em ação. Graças à intuição e à
compreensão suficientes destas condições, a sociedade é capaz de progredir culturalmente e
economicamente para atingir uma maturidade política.
Quanto mais progredimos neste entendimento, mais as doutrinas sociais nos tacham de primitivos e psicologicamente ingênuos, especialmente aquelas baseadas nas idéias de
pensadores que viveram nos séculos XVIII e XIX, caracterizados pela carência de percepção
psicológica. A natureza sugestiva destas doutrinas deriva da sua simplificação excessiva da
realidade, algo facilmente adaptável e usado como propaganda política. Essas doutrinas e
ideologias mostram suas falhas básicas, no tocante ao entendimento das personalidades
humanas e das diferenças entre as pessoas, de maneira muito clara se observadas à luz da
nossa linguagem natural dos conceitos psicológicos, e mais ainda à luz da linguagem objetiva.
Uma visão psicológica da sociedade, mesmo se baseada somente na experiência
profissional, sempre coloca o indivíduo humano no primeiro plano; ela então amplia a
perspectiva para incluir pequenos grupos, tais como as famílias, e finalmente as sociedades e
a humanidade como um todo. Nós devemos, então, aceitar o princípio de que o destino de um
indivíduo é significativamente dependente da circunstância. Quando nós aumentamos
gradualmente o campo das nossas observações, ganhamos também uma maior especificidade
nas representações das ligações causais, e os dados estatísticos assumem uma estabilidade
ainda maior.
Assim, para descrever a interdependência entre o destino de alguém e a personalidade e o
estado de desenvolvimento da sociedade, nós devemos estudar o corpo inteiro de informações
coletadas nesta área até o momento, e adicionar um novo trabalho escrito em uma linguagem
objetiva. Aqui eu devo dar somente alguns poucos exemplos de tais raciocínios, para abrir a
porta para outras questões apresentadas nos capítulos posteriores.
***
Ao longo das eras e em várias culturas, os melhores pedagogos entenderam a importância,
no que diz respeito à formação de uma cultura e do caráter de uma pessoa, do escopo dos
conceitos que descrevem o fenômeno psicológico. A qualidade e a riqueza dos conceitos e da
terminologia de domínio do indivíduo e da sociedade, assim como o grau com que se
aproximam de uma visão de mundo objetiva, condicionam o desenvolvimento de nossas
atitudes morais e sociais. A correção do nosso entendimento de nós mesmos e dos outros
caracteriza os componentes que condicionam nossas decisões e escolhas, sejam elas mundanas
ou importantes, em nossas vidas privadas e nas nossas atividades sociais.
O nível e a qualidade da visão de mundo psicológica de uma dada sociedade é também uma
condição de realização da plena estrutura sociopsicológica, presente como um potencial na
variedade psicológica existente na nossa espécie. Somente quando podemos entender uma
pessoa em relação aos seus conteúdos internos reais, e não a algum rótulo externo substituto,
nós podemos ajudá-la ao longo do seu caminho para se ajustar adequadamente à vida social, o
que seria uma vantagem para ela e também auxiliaria na criação de uma estrutura criativa e
estável de sociedade.
Apoiada por um sentimento apropriado em relação às qualidades psicológicas, e um
entendimento das mesmas, tal estrutura transmitiria uma função social alta a indivíduos que
possuem ao mesmo tempo uma normalidade psicológica plena, talento suficiente e preparação
específica. A inteligência coletiva básica das massas então os respeitaria e os apoiaria.
E também, em tal sociedade, os únicos problemas pendentes de solução seriam as questões tão difíceis a ponto de sobrepujar a linguagem natural dos conceitos, por mais enriquecidos e
qualitativamente dignificados que sejam.
Contudo, sempre existiram “pedagogos da sociedade”, menos talentosos, mas muito mais
numerosos, que se tornaram fascinados pelas suas próprias idéias grandiosas, que podem,
muitas vezes, até serem verdadeiras, mas que são amiúde limitadas ou contêm uma mácula
derivada de alguns processos de pensamento patológicos encobertos. Tais pessoas têm sempre
se esforçado para impor métodos pedagógicos que empobrecem e deformam o
desenvolvimento da visão de mundo psicológica de indivíduos e sociedades; elas impõem um
perigo permanente sobre as sociedades, privando-as de valores universalmente úteis. Dizendo
que agem em nome de uma idéia mais valiosa, tais pedagogos atualmente solapam os valores
que dizem defender e abrem a porta para ideologias destrutivas.
Ao mesmo tempo, como já mencionamos, cada sociedade contém uma pequena, mas ativa,
minoria de pessoas com várias visões depravadas de mundo, especialmente nas áreas tratadas
acima, que são causadas tanto por anomalias psicológicas que serão discutidas abaixo, ou
pela influência de tais anomalias sobre suas psiques, por um longo período, principalmente
durante a infância. Tais pessoas, posteriormente, exercem uma influência perniciosa sobre o
processo formativo da visão psicológica de mundo na sociedade, seja pela atividade direta ou
por meio da transmissão escrita ou em qualquer outra forma, especialmente quando estão
engajados, a serviço de uma ou de outra ideologia.
Muitas causas que escapam facilmente da percepção de sociólogos e cientistas políticos
podem assim ser divididas e analisadas com base tanto no desenvolvimento como na
involução desse fator, cujo significado para a vida em sociedade é tão decisivo quanto a
qualidade de sua linguagem de conceitos psicológicos.
Vamos imaginar que queiramos analisar esses processos: nós construiríamos um método de
preparação que tivesse credibilidade suficiente para examinar os conteúdos e a correção da
área de estudo da visão de mundo em questão. Depois de submeter os grupos representativos
apropriados a tais testes, nós então obteríamos indicadores da habilidade desta sociedade
particular em entender os fenômenos psicológicos e as suas dependências dentro de seu país e
em outras nações. Isso constituiria simultaneamente os indicadores básicos dos talentos de
uma dada sociedade para o autogoverno e para o progresso, bem como sua habilidade para
levar adiante uma política internacional razoável. Tais testes poderiam fornecer um sistema de
alerta antecipado se tais habilidades estivessem a ponto de se deteriorar e, neste caso, seria
apropriado utilizar o esforço devido no campo da pedagogia social. Em casos extremos, pode
ser adequado, para aqueles países que estão avaliando o problema, tomar uma ação corretiva
mais direta, e mesmo isolar o país deteriorado até que as correções apropriadas estejam em
curso.
Introduzamos um outro exemplo de natureza análoga: o desenvolvimento de dons,
habilidades, pensamento realista e visão de mundo psicológica e natural de um ser humano
adulto será otimizado quando o nível e a qualidade de sua educação e as demandas de sua
prática profissional corresponderem ao seus talentos individuais. Obter tal posição concede a
ele vantagens pessoais, materiais e morais; ao mesmo tempo, a sociedade como um todo
também colhe os benefícios. Tal pessoa, então, perceberia isso como justiça social em relação a si mesma.
Se várias circunstâncias são combinadas, incluindo a visão psicológica de mundo deficiente
de uma dada sociedade, os indivíduos são forçados a exercer funções em que não fazem uso
total dos seus talentos. Quando isso acontece, a produtividade dessa pessoa não é melhor, e às
vezes é até pior, que a do trabalhador com talentos satisfatórios. Tal indivíduo se sente então
traído e inundado de dúvidas que podem impedi-lo de atingir a auto-realização. Seus
pensamentos desviam-se das suas dúvidas para um mundo de fantasia, ou para assuntos que
são de maior interesse para ele; no seu mundo de devaneios, ele é o que deveria e o que
merece ser. Tal pessoa sempre sabe se o seu ajustamento social ou profissional tomou uma
direção descendente; ao mesmo tempo, contudo, se ela falha em desenvolver uma capacidade
crítica saudável em relação aos limites superiores de seus próprios talentos, seus devaneios
podem “entender” uma visão de mundo injusto onde “tudo o que você necessita é poder”. As
idéias revolucionárias e radicais encontram um solo fértil entre tais pessoas em adaptações
sociais descendentes. É do melhor interesse da sociedade corrigir tais condições, não somente
para melhorar a produtividade, mas para evitar tragédias.
Indivíduos de um outro tipo, por outro lado, podem atingir um posto importante por
pertencerem a grupos ou organizações sociais privilegiadas que estão no poder, mesmo que
seus talentos e habilidades não sejam suficientes para as suas obrigações, especialmente os
problemas mais difíceis. Assim, tais pessoas evitam a problemática e dedicam-se a assuntos
menores de forma quase ostentosa. Um componente histriônico aparece em sua conduta e os
testes indicam que sua correção de raciocínio se deteriora progressivamente após alguns
poucos anos dignos de tais atividades. Frente a pressões crescentes para executar as
atividades em um nível inatingível para elas, e com medo de serem descobertas como
incompetentes, começam a direcionar ataques contra qualquer um com talentos e habilidades
melhores, removendo estas pessoas dos cargos devidos e desempenhando um papel ativo na
degradação de seus ajustamentos profissionais e sociais. Isso, é claro, gera um sentimento de
injustiça e pode levar a problemas do indivíduo que teve uma adaptação descendente, como
descrito acima. Pessoas com um ajustamento ascendente favorecem, assim, os chicoteadores e
os governos totalitários que protegem suas posições.
Ajustamentos sociais para cima e para baixo, assim como os qualitativamente inadequados,
resultam em desperdício do capital básico de qualquer sociedade, formado pelo conjunto de
talentos de seus membros. Isso leva simultaneamente a um aumento da insatisfação e das
tensões entre os indivíduos e os grupos sociais; qualquer tentativa de abordagem sobre as
problemáticas do talento humano e sua produtividade como sendo um assunto puramente
privado deve, contudo, ser considerado perigosamente ingênuo. O desenvolvimento ou a
involução em todas as áreas da vida cultural, econômica e política dependem da extensão na
qual o seu conjunto de talentos é apropriadamente utilizado. Em última análise, isso também
determina se haverá evolução ou revolução.
Tecnicamente falando, seria mais fácil construir métodos apropriados que nos habilitassem
avaliar as correlações entre os talentos individuais e os ajustamentos sociais em um dado
país, do que lidar com a proposição inicial do desenvolvimento dos conceitos psicológicos. A
condução de testes apropriados poderia nos fornecer um índice valioso que poderíamos chamar “indicador de ordem social”. Quanto mais próximo o número estivesse de +1.0, mais
o país em questão estaria próximo do cumprimento daquelas pré-condições básicas para a
ordem social, e tomando o caminho apropriado em direção ao desenvolvimento dinâmico.
Uma baixa correlação seria um indicador de que uma reforma social é necessária. Uma
correlação com valor próximo de zero ou mesmo negativo deveria ser interpretada como um
sinal de alerta indicando que a revolução é iminente. Revoluções em um país sempre causam
problemas múltiplos para outros países; desta forma, é de grande interesse de todos os países
monitorar tais condições.
Os exemplos apresentados acima não exaurem a questão dos fatores causais que influenciam
a criação de uma estrutura social, os quais corresponderiam adequadamente às leis da
natureza. Nosso nível instintivo da espécie já codificou a intuição de que a existência da
estrutura interna da sociedade, baseada nas variações psicológicas, é necessária; ele continua
se desenvolvendo ao lado de nossa inteligência básica, inspirando nosso senso comum
saudável. Isto explica porque a parte mais numerosa da população, cujos talentos estão
próximos da média, geralmente aceita sua posição social modesta, em qualquer país, desde
que esta posição preencha os requisitos indispensáveis de ajustamento social adequado e
garanta um meio de vida justo, não importando em qual nível da sociedade o indivíduo
encontre sua adaptação adequada.
Esta maioria de pessoas medianas aceita e respeita o papel social das pessoas cujos talentos
e educação são superiores, contanto que eles ocupem posições apropriadas dentro da estrutura
social. As mesmas pessoas, contudo, reagirão com críticas, desrespeito, e até desprezo,
sempre que alguém, tão mediano quanto eles, compense as suas deficiências exibindo sua
posição de ajustamento acima da que merece. Os julgamentos declarados por este segmento
das pessoas medianas, mas sensíveis, podem com freqüência ser altamente precisos, e
deveriam ser considerados ainda mais notáveis se levarmos em consideração que tais pessoas
possivelmente não tiveram conhecimento suficiente a respeito dos muitos problemas reais,
sejam eles científicos, técnicos ou econômicos.
Um político experiente raramente pode assumir que as dificuldades nas áreas econômica, de
defesa ou da política internacional serão completamente compreendidas pelo seu círculo
eleitoral. Contudo, ele pode e deve assumir que sua própria compreensão das questões
humanas, e tudo o que tem a ver com relações interpessoais dentro desse círculo, encontrará
um eco nessa mesma parcela majoritária dos membros da sociedade. Estes fatos justificam
parcialmente a idéia de democracia, especialmente se um país em particular tem mantido esta
tradição historicamente, se a estrutura social é bem desenvolvida e se o nível de educação é
adequado. Todavia, eles não representam dados psicológicos suficientes para elevar a
democracia ao nível de um critério moral em política. Uma democracia composta de
indivíduos de conhecimento psicológico inadequado só pode se degenerar.
O mesmo político deve estar consciente do fato de que a sociedade contém pessoas que já
carregam os resultados psicológicos de um desajustamento social. Alguns destes indivíduos
tentam proteger suas posições para as quais suas habilidades não estão à altura, enquanto
outros disputam a permissão para utilizar os seus talentos. Governar um país torna-se
incrivelmente difícil quando tais batalhas começam a esconder outras necessidades importantes. É por isso que a criação de uma estrutura social justa continua a ser uma
precondição básica para a ordem social e para a liberação dos valores criativos. Isso
também explica porque a propriedade e a produtividade do processo de “criação de estrutura”
constituem um critério para um bom sistema político.
Os políticos deveriam também estar cientes de que, em toda sociedade, existem pessoas cuja
inteligência básica, cuja visão de mundo psicológica natural e cujo raciocínio moral se
desenvolveram de forma inapropriada. Algumas destas pessoas contêm as causas deste
desenvolvimento inapropriado dentro de si mesmas, e outras foram sujeitas a pessoas
psicologicamente anormais quando crianças. A compreensão das questões morais e sociais de
tais indivíduos é diferente, tanto do ponto de vista natural como do objetivo; eles constituem
um fator destrutivo para o desenvolvimento dos conceitos psicológicos, da estrutura social e
das ligações internas de uma sociedade.
Ao mesmo tempo, tais pessoas interpenetram facilmente a estrutura social com uma rede
ramificada de conspirações patológicas mútuas, conectadas deficientemente à estrutura social
principal. Estas pessoas e suas redes participam da gênese daquele mal que não poupa
nenhuma nação. Esta subestrutura dá vida a sonhos de obtenção de poder e de imposição da
vontade de uma pessoa sobre a sociedade, trazidos à realidade com freqüência em diversos
países, durante épocas históricas. É por essa razão que uma porção significativa de nossa
consideração deve ser dedicada a um entendimento dessa fonte de problemas antiga e
perigosa.
Alguns países com uma população não homogênea manifestam fatores adicionais que operam
destrutivamente sobre a formação da estrutura social e o processo de desenvolvimento
permanente da visão de mundo psicológica de uma sociedade. Primeiramente, entre esses
fatores, estão as diferenças raciais, étnicas e culturais existentes em praticamente toda nação
formada por conquistas. As memórias de sofrimentos anteriores e do desprezo pelos
conquistados continua a dividir a população por séculos. É possível superar estas
dificuldades se entendimento e boa vontade prevalecerem através de várias gerações.
Diferenças de crenças religiosas e as convicções morais relacionadas a elas continuam a
causar problemas, embora muito menos perigosos que os descritos acima, a menos que sejam
agravadas por alguma doutrina de intolerância ou superioridade de uma fé sobre as outras.
A criação da estrutura social cujas ligações são patrióticas e esteja acima das religiões tem,
apesar de tudo, se mostrado possível.
Todas estas dificuldades tornam-se extremamente destrutivas se um grupo social ou
religioso, para manter sua doutrina, exige que sejam cedidas aos seus membros posições que
estão, de fato, acima das verdadeiras capacidades dessas pessoas.
Uma estrutura social justa, composta por pessoas adaptadas individualmente, isto é, criativa
e dinâmica como um todo, somente pode ser formada se esse processo estiver sujeito às suas
leis naturais e não a doutrinas conceituais. Isso beneficia a sociedade como um todo, uma vez
que cada indivíduo é capaz de encontrar seu próprio caminho para a auto-realização com a
assistência da sociedade que compreende essas leis, os interesses individuais e o bem comum.
Um obstáculo ao desenvolvimento da visão de mundo psicológica de uma sociedade, à
construção de uma estrutura social saudável e à instituição de formas apropriadas de governar a nação, parece ser as populações enormes e as longas distâncias dos países gigantes. São
precisamente estas nações que dão origem às maiores diferenças étnicas e culturais. Em uma
vasta difusão de terra contendo centenas de milhões de pessoas, os indivíduos perdem o
suporte de uma pátria familiar e sentem-se impotentes para exercer um efeito sobre os
assuntos da alta política. A estrutura da sociedade se perde em espaços muito amplos. O que
permanece são ligações estreitas, em geral familiares.
Ao mesmo tempo, governar tal país cria seus próprios problemas não evitáveis: gigantes
sofrem do que poderia ser chamado de macropatia permanente (doença do gigante), uma vez
que as autoridades principais estão muito distantes de quaisquer assuntos individuais ou
locais. O sintoma principal é a proliferação de regulamentos requeridos para a administração;
eles podem parecer apropriados na capital, mas freqüentemente não fazem o menor sentido
nos distritos afastados ou quando aplicados a assuntos individuais. Os funcionários públicos
são forçados a seguir regulamentos cegamente; o espaço para que eles utilizem sua razão
humana para diferenciar as situações reais torna-se realmente muito estreito. Tais
procedimentos comportamentais têm um impacto sobre a sociedade, que também passa a
pensar em regulamentos em vez de pensar na realidade prática e psicológica. A visão de
mundo psicológica, que constitui o fator básico para o desenvolvimento cultural e faz a vida
social funcionar, torna-se portanto intrincada.
Isso nos faz então perguntar: O bom governo é possível? Os países gigantes são capazes de
sustentar uma evolução cultural e social? Pareceria, ao contrário, que os melhores
candidatos para desenvolvimento são aqueles países cuja população está entre 10 e 20
milhões de habitantes, nos quais as ligações pessoais entre os próprios cidadãos, e entre estes
e as autoridades, ainda protegem uma diferenciação psicológica correta e as relações naturais.
Países muito grandes deveriam ser divididos em organismos menores, que gozariam de uma
autonomia considerável, especialmente em relação aos assuntos econômicos e culturais; eles
poderiam proporcionar aos seus cidadãos um sentimento de pátria dentro do qual suas
personalidades poderiam se desenvolver e amadurecer.
Se alguém me perguntar o que deveria ser feito para curar os Estados Unidos da América,
um país que manifesta sintomas de macropatia, entre outras coisas, eu recomendaria
subdividir esta vasta nação em treze estados – exatamente como os originais, exceto que
seriam proporcionalmente maiores e com limites mais naturais. A estes estados, então, deveria
ser dada uma autonomia considerável. Isto proporcionaria aos cidadãos um sentimento de
pátria, embora uma pátria menor, e libertaria as motivações de patriotismo local e de
rivalidade entre tais estados. Isso facilitaria, por sua vez, as soluções para outros problemas
de origens diferentes.
***
A sociedade não é um organismo que subordina cada célula ao bem do todo; nem é uma
colônia de insetos, na qual o instinto coletivo age como um ditador. Contudo, também deveria
ser evitado que fosse um compêndio de indivíduos egocêntricos ligados puramente pelos
interesses econômicos e pela organização legal e formal.
Qualquer sociedade é uma estrutura sócio-psicológica formada por indivíduos cuja organização psicológica é a mais elevada e portanto mais diversificada. Uma parcela
significativa da liberdade individual do homem deriva desse estado de coisas e subsiste em
uma relação extremamente complicada entre suas múltiplas dependências e obrigações
psicológicas, no tocante ao coletivo como um todo.
Isolar o interesse pessoal de um indivíduo como se ele estivesse em guerra contra os
interesses coletivos é pura especulação que simplifica radicalmente as condições reais ao
invés de levar em consideração sua natureza complexa. Levantar questões baseadas em tais
esquemas é logicamente falho, uma vez que contém sugestões errôneas.
Na realidade, muitos interesses ostensivamente contraditórios, tais como interesses
individuais versus coletivos, ou aqueles de vários grupos sociais e subestruturas, podem ser
reconciliados se nós pudermos ser guiados por um entendimento suficientemente profundo
sobre o bem do homem e da sociedade, e se pudermos superar a operação das emoções, bem
como algumas doutrinas mais ou menos primitivas. Tal reconciliação, contudo, requer a
transferência dos problemas humanos e sociais em questão para um nível mais elevado de
entendimento e de aceitação das leis naturais da vida. Neste nível, mesmo os problemas mais
difíceis acabam tendo uma solução, uma vez que eles derivam invariavelmente das mesmas
operações insidiosas dos fenômenos psicopatológicos. Nós deveremos lidar com esta questão
mais adiante, ao final deste livro.
Uma colônia de insetos, não importa quão bem organizada socialmente, estará condenada à
extinção sempre que seu instinto coletivo continuar a operar de acordo com um código
psicogenético, apesar do significado biológico ter desaparecido. Por exemplo, se uma abelha-
rainha não realiza seu vôo nupcial a tempo, porque o clima estava particularmente ruim, ela
começa a colocar ovos não fertilizados que eclodirão em nada. As abelhas continuarão a
defender sua rainha, como requer seu instinto, e quando a última abelha morrer a colônia toda
será extinta.
Neste ponto, somente uma “autoridade superior”, na forma de um apicultor, poderá salvar tal
colméia. Ele precisa encontrar e destruir a rainha estéril e introduzir uma rainha fértil e
saudável dentro da colméia, junto com algumas das suas abelhas operárias jovens. É
necessária uma rede para proteger por alguns dias tal rainha e suas operárias de serem
picadas pelas abelhas leais à antiga rainha. Então, o instinto da colméia aceita a nova rainha.
O apicultor geralmente recebe algumas dolorosas ferroadas no processo.
Da comparação acima deriva a seguinte questão: a colméia humana que habita o nosso globo
é capaz de atingir uma compreensão suficiente do fenômeno patológico macrossocial que é tão
perigoso, abominável e fascinante ao mesmo tempo, antes que seja tarde demais? No
momento, nossos instintos individuais e coletivos e nossa visão de mundo moral e psicológica
natural não podem fornecer todas as respostas para servir de base a medidas contrárias
efetivas.
Aquelas pessoas que pregam que tudo o que nos resta é acreditar no “Grande Apicultor do
Céu” e retornar aos seus mandamentos, estão vislumbrando uma verdade geral, mas elas
também tendem a tratar verdades particulares de forma trivial, especialmente as de origem
naturalista. É esta última que constitui a base para a compreensão dos fenômenos e visa a ação
prática. As leis da natureza nos fizeram muito diferentes uns dos outros. Graças a essas
características individuais, a circunstâncias de vida excepcionais e ao esforço científico, o
homem alcançou algum domínio da arte de compreensão objetiva dos fenômenos do tipo
acima mencionado, mas nós devemos ressaltar que isso ocorreu somente porque estava de
acordo com as leis da natureza.
Se as sociedades e seus indivíduos sábios são capazes de aceitar um entendimento objetivo
dos fenômenos sociais e sociopatológicos, superando o emocionalismo e o egotismo da visão
de mundo natural para esse propósito, eles encontrarão os meios de ação baseados no
entendimento da essência dos fenômenos. Então, ficará evidente que uma vacina ou um
tratamento adequado podem ser encontrados para cada uma das doenças que atacam a Terra na
forma de epidemias sociais maiores ou menores.
Assim como um navegador que possui um mapa náutico preciso aprecia a maior liberdade
na seleção do percurso e na manobra por entre ilhas e baías, uma pessoa dotada de uma
melhor compreensão de si mesma, das outras pessoas e das interdependências complexas da
vida social torna-se mais independente das circunstâncias diversas da vida e melhor
preparada para superar situações que são difíceis de entender. Ao mesmo tempo, este
conhecimento aperfeiçoado torna o indivíduo mais responsável para aceitar seus deveres para
com a sociedade e para subordinar-se à disciplina que surge como um corolário. Sociedades
melhor informadas também atingem uma ordem interna e critérios para os esforços coletivos.
Este livro é dedicado a reforçar este conhecimento por meio de um entendimento naturalístico
do fenômeno, algo compreendido até o momento somente por meio de categorias
excessivamente moralistas da visão de mundo natural.
Em uma perspectiva mais ampla, uma constante melhoria na compreensão das leis que
governam a vida social, e suas tréguas isoladas atípicas, devem nos levar a refletir sobre as
falhas e as deficiências daquelas doutrinas sociais abordadas até o momento, que são
baseadas em um entendimento extremamente primitivo destas leis e fenômenos. A distância
entre tais considerações e um melhor entendimento das operações dessas dependências nos
sistemas sociais prévios e existentes não é longa; o mesmo se aplica à crítica substantiva. Uma
nova idéia está para surgir baseada nesse entendimento cada vez mais profundo das leis
naturais, a saber, a construção de um novo sistema social para as nações.
Tal sistema seria melhor que qualquer um de seus antecessores. Sua construção é possível e
necessária, não é somente uma visão vaga e futurista. Afinal de contas, uma série inteira de
países está dominada, no momento, por condições que destruíram as formas estruturais que
funcionaram historicamente, e as substituíram com sistemas inimigos do funcionamento
criativo, sistemas que podem sobreviver somente por meio da força. Nós somos então
confrontados com um grande projeto de construção que demanda um trabalho amplo e bem
organizado. Quanto antes iniciarmos o trabalho, mais tempo teremos para levá-lo adiante.
Achaeans – uma das quatro maiores tribos da Grécia antiga. Homero costumava utilizar o termo como um nome genérico para os gregos na Ilíada – NT.
Ivan Pavlov – Fisiólogo russo, premiado com o Nobel de Medicina em 1904, pelo estudo do processo digestivo em animais. Contudo, é mais conhecido pelos estudos realizados sobre o reflexo condicionado – NT. C.G. Jung – Psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundador da psicologia analítica – NT. Behavioristas pertencem a uma linha da psicologia conhecida como Behaviorismo ou comportamentalismo, que teve como marco inicial o manifesto de John Watson, que se baseou nas experiências de Pavlov sobre o reflexo condicionado – NT.
Purusha é uma palavra que vem do Hinduísmo, e significa “o homem primitivo”, considerado como a alma do universo, criado fora de seu corpo – NT.
A ontogênese descreve a origem e o desenvolvimento de um organismo a partir do óvulo fertilizado até sua forma madura. Augusto Comte (1798-1857) foi um filósofo francês conhecido como o Pai do Positivismo, corrente filosófica que defende uma reforma da sociedade a partir de novos critérios científicos. Também é conhecido por sistematizar a sociologia – NT. John Stuart Mill (1806-1873) foi um filósofo e economista inglês. Tornou-se um dos mais influentes pensadores liberais do século XIX – NT.
Ver: A Mess in Psychiatry, uma entrevista com Robert van Voren, Secretário Geral da Iniciativa de Genebra na Psiquiatria, pulicada no jornal holandês De Volkskrant em 9 de agosto de 1977 na qual ele diz: “Desde 1950 a psiquiatria soviética não somente está paralisada, mas regrediu. Absolutamente nada mudou. A maior parte dos psiquiatras russos nunca conseguiriam um emprego como psiquiatras no ocidente. Lá, os métodos de tratamento utilizados são tais que hoje nem sequer são mais possíveis de serem citados no Ocidente”.
Pensamento conversivo – usar um termo, dando a ele significados opostos ou invertidos.
CAPÍTULO III