Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo III - O ciclo de histeria
O CICLO DE HISTERIA
DESDE QUE AS SOCIEDADES E CIVILIZAÇÕES HUMANAS foram criadas em nosso globo, as pessoas
anseiam por tempos felizes, repletos de tranqüilidade e justiça, os quais teriam permitido a
todos cuidar das suas ovelhas em paz, buscar por vales férteis, lavrar a terra, cavar em busca
de tesouros ou construir casas e palácios. O homem deseja a paz para gozar dos benefícios
acumulados pelas gerações anteriores e para observar orgulhosamente o crescimento da
geração futura por ele gerada. Melhor ainda se bebendo vinho ou hidromel[ 20 ] nesse ínterim.
Ele gostaria de sonhar sobre isso, se familiarizar com outras pessoas e outros povos ou
apreciar o céu do sul salpicado de estrelas, as cores da natureza e as faces e os costumes das
mulheres. Ele gostaria também de dar asas à sua imaginação e imortalizar seu nome nos
trabalhos artísticos, sejam eles esculpidos em mármore ou eternizados na mitologia e poesia.
Desde os tempos primitivos, então, o homem tem sonhado com uma vida na qual o esforço
dispendido pela mente e pelos músculos fosse compensado pelo descanso bem merecido. Ele
gostaria de aprender sobre as leis da natureza de forma que pudesse dominá-la e obter as
vantagens das suas dádivas. O homem recrutou o poder natural dos animais para fazer com que
seus sonhos se tornassem realidade, e quando isto não atendeu às suas necessidades, ele então
se voltou para a sua própria espécie com este propósito, privando em parte os outros seres
humanos de sua humanidade, simplesmente porque ele era mais poderoso.
Sonhos de uma vida feliz e pacífica deram então origem ao uso da força sobre o outro, uma
força que embota a mente de quem a utiliza. É por isso que os sonhos de felicidade do homem
não se tornaram realidade através da história. Esta visão hedonista de “felicidade” contém as
sementes da miséria e alimenta o ciclo eterno pelo qual épocas boas dão origem a épocas
ruins, que por sua vez provocarão o sofrimento e o esforço mental que irão produzir
experiência mental, bom senso, moderação e uma certa quantidade de conhecimento
psicológico, virtudes essas que servirão para reconstruir condições de existência mais felizes.
Durante épocas boas, as pessoas perdem progressivamente de vista a necessidade da
reflexão profunda, da introspecção, do conhecimento dos outros e de um entendimento das leis
complicadas da vida. Vale a pena ponderar as propriedades da natureza humana e da
personalidade imperfeita do homem, sejam elas próprias ou de outra pessoa? Podemos
entender o significado criativo do sofrimento pelo qual nós mesmos não passamos, em vez de
tomar o caminho fácil de culpar a vítima? Qualquer excesso de esforço mental nos parece
trabalho perdido se as alegrias da vida parecem estar disponíveis para serem curtidas. Um
indivíduo inteligente, alegre e liberal é uma pessoa divertida; uma pessoa que prediz os
resultados ruins que virão mais adiante torna-se um estraga-prazeres.
A percepção da verdade sobre o ambiente real, especialmente um entendimento da
personalidade humana e seus valores, deixa de ser uma virtude durante os chamados tempos “felizes”; os céticos ponderados são considerados intrometidos que não conseguem viver bem
sozinhos. Isso, por sua vez, leva a um empobrecimento do conhecimento psicológico, da
capacidade de diferenciar as propriedades da natureza e da personalidade humana, e da
habilidade para moldar criativamente as mentes. O culto ao poder, então, suplanta aqueles
valores mentais tão essenciais à manutenção da lei e da ordem por meios pacíficos. O
enriquecimento ou a involução de uma nação em relação à sua visão de mundo psicológica
pode ser considerado um indicador de quão bom ou ruim será o seu futuro.
Durante as épocas “boas”, a busca pela verdade torna-se desconfortável porque revela fatos
inconvenientes. É melhor pensar sobre coisas mais fáceis e mais agradáveis. A eliminação
inconsciente de informações que são, ou aparentam ser, não recomendáveis, torna-se
gradualmente um hábito, e a seguir transforma-se em um costume aceito pela sociedade em
larga escala. O problema é que qualquer processo de pensamento baseado em informações
truncadas, possivelmente não gerará conclusões corretas; ele leva, além disso, a uma
substituição subconsciente de premissas inconvenientes por outras mais cômodas,
aproximando-se dos limites da psicopatologia.
Tais períodos de satisfação para um determinado grupo de pessoas – freqüentemente com
raízes em alguma injustiça para outras pessoas ou nações – passa a estrangular a capacidade
de consciência individual e da sociedade; fatores subconscientes acabam assumindo um papel
decisivo na vida. Tal sociedade, já infectada pelo estado de histeria,[ 21 ] considera qualquer
percepção de uma verdade desconfortável como um sinal de grosseria ou falta de educação. O
iceberg de J. G. Herder[ 22 ] é mergulhado em um mar de informações inconscientes
falsificadas; somente a ponta do iceberg é visível sobre as ondas da vida. A catástrofe fica à
espera. Em momentos como esses, a capacidade para o pensamento lógico e disciplinado,
nascido durante os tempos difíceis, começa a esvanecer. Quando as comunidades perdem sua
capacidade psicológica da razão e de análise moral, os processos de geração do mal são
intensificados em todas as escalas sociais, sejam elas individuais ou macrossociais, até que
tudo se converta em épocas “ruins”.
Nós já sabemos que toda sociedade contém um certo percentual de pessoas que carregam
desvios psicológicos causados por vários fatores, herdados ou adquiridos, que produzem
anomalias na percepção, no pensamento e no caráter. Muitas destas pessoas tentam dar um
significado às suas vidas irregulares através da hiperatividade social. Elas criam os seus
próprios mitos e ideologias de sobrecompensação e têm uma tendência a insinuar
egoisticamente para os outros que os seus desvios de percepção são superiores, bem como os
objetivos e idéias resultantes dos mesmos.
Quando umas poucas gerações gozam das despreocupações de “tempos bons”, o resultado
para a sociedade é um déficit em relação às habilidades psicológicas e de análise moral, que
pavimenta o caminho para os conspiradores patológicos, os magos e outros impostores mais
primitivos ainda agirem e se unirem nos processos originadores do mal. Esses são fatores
essenciais na sua síntese. No próximo capítulo, eu tentarei persuadir meus leitores de que a
participação dos fatores patológicos, tão subestimados pelas ciências sociais, é um fenômeno
comum nos processos de geração do mal.
Aquelas épocas, chamadas por muitas pessoas de “bons velhos tempos”, fornecem um solo fértil para a tragédia futura, por causa da degeneração dos valores morais, intelectuais e da
personalidade, dando origem a eras como a de Rasputin.[ 23 ]
A descrição acima é um esboço para compreensão das causas da realidade, que de forma
alguma contradiz a percepção teleológica[ 24 ] do senso de causalidade. Os tempos difíceis
não são somente o resultado da regressão hedonista ao passado, eles tem um objetivo histórico
a cumprir.
O sofrimento, o esforço e a atividade mental durante tempos de iminente amargura leva a
uma regeneração progressiva, e geralmente mais elevada, dos valores perdidos, o que resulta
no progresso humano. Infelizmente, nós ainda não temos uma compreensão filosófica
suficientemente exaustiva desta interdependência de causalidade e teleologia em relação aos
fatos ocorridos. Parece que os profetas tiveram uma visão mais clara, à luz das leis da
criação, do que filósofos como E. S. Russel,[ 25 ] R. B. Braithwate,[ 26 ] G. Sommerhoff[ 27
] e outros que ponderaram sobre este assunto.
Quando chegam os tempos ruins e as pessoas ficam impressionadas pelo excesso de mal,
elas precisam reunir todas as suas forças físicas e mentais para lutar pela existência e proteger
a razão humana. A busca por algum meio para escapar das dificuldades e perigos reacende
poderes de discernimento há muito tempo sepultados. Tais pessoas têm uma tendência inicial
de confiar na força para contra-atacar o medo; elas podem, por exemplo, se transformar em
atiradoras[ 28 ] ou dependentes de armas.
Lentamente e de forma trabalhosa, contudo, elas descobrem as vantagens conferidas pelo
esforço mental; um entendimento aperfeiçoado da situação psicológica em particular, uma
melhor diferenciação das personalidades e caráteres humanos e, finalmente, a compreensão
dos adversários. Durante esses tempos, as virtudes que as gerações anteriores relegaram a
obras literárias reconquistam sua substância real e aplicável e tornam-se apreciadas por seu
valor. Uma pessoa sábia, capaz de fornecer um conselho seguro, é altamente respeitada.
Quão surpreendentemente similar são as filosofias de Sócrates e Confúcio, os dois
pensadores quase lendários que, apesar de serem quase contemporâneos, viveram em locais
opostos do grande continente. Ambos viveram em tempos perversos e sangrentos, e
descreveram um método para vencer o mal, especialmente em relação à percepção das leis
cotidianas e do conhecimento da natureza humana. Eles procuraram por critérios de valor
moral dentro da natureza humana e consideraram o conhecimento e o entendimento como
sendo virtudes. Ambos os homens, contudo, ouviram as mesmas vozes internas que avisam
àqueles que embarcam em questões morais importantes: “Sócrates, não faça isso.” Por isso é
que seus esforços e sacrifícios constituem uma assistência permanente na batalha contra o mal.
Épocas difíceis e cansativas dão origem a valores que finalmente vencem o mal e produzem
tempos melhores. A análise sucinta e precisa dos fenômenos, possível graças à vitória sobre
as emoções supérfluas e sobre o egoísmo que caracteriza as pessoas presunçosas, abre a porta
para o comportamento causal, principalmente nas áreas da filosofia, psicologia e reflexão
moral, e eleva a escala de medida para a vantagem da bondade. Se estes valores forem
totalmente incorporados à herança cultural da espécie humana, eles podem proteger
suficientemente as nações da próxima era de erros e distorções. Contudo, a memória coletiva
é provisória e particularmente suscetível à remoção de um filósofo e de seu trabalho do contexto em que ele o elaborou, a saber, sua época, sua localidade e os objetivos aos quais
ele serviu.
Sempre que uma pessoa experiente encontra um momento de relativa paz depois de uma
dificuldade e de um esforço doloroso, sua mente está livre para refletir, uma vez que não tem
mais a preocupação com emoções supérfluas e com as atitudes obsoletas do passado, mas é
auxiliada pelo conhecimento dos anos passados. Ela, então, se aproxima de um entendimento
objetivo dos fenômenos e de uma percepção das ligações causais reais, incluindo as ligações
que não podem ser entendidas dentro da estrutura da linguagem natural. Assim, ela medita
sobre um círculo de leis gerais que está sempre se expandindo enquanto contempla o
significado daquelas ocorrências passadas que separaram os períodos da história. Nós
alcançamos os preceitos antigos porque os entendemos melhor; eles facilitam nosso
entendimento tanto da gênese como do significado criativo dos tempos infelizes.
O ciclo de tempos felizes e pacíficos favorece um estreitamento da visão de mundo e um
aumento no egotismo. As sociedades tornam-se sujeitas a uma histeria progressiva e, no
estágio final, conhecido descritivamente pelos historiadores, produz finalmente tempos de
desânimo e confusão, o que ocorreu durante milênios e ainda continua a ocorrer. A recessão
da mente e da personalidade, que é uma característica de tempos ostensivamente felizes, varia
de uma nação para outra, de forma que alguns países conseguem sobreviver aos resultados de
tais crises com pequenas perdas, enquanto outros perdem nações e impérios. Aspectos
geopolíticos também têm um papel decisivo.
As características psicológicas de tais crises suportam, sem dúvida, o carimbo do tempo e
da civilização em questão, mas deve ter havido uma exacerbação da condição histérica da
sociedade como denominador comum. Esse desvio, ou melhor ainda, essa deficiência
formativa no caráter, é uma doença perene nas sociedades, especialmente das elites
privilegiadas. A existência de casos individuais exagerados, especialmente os casos
caracterizados como clínicos, é um desdobramento do nível de histeria social, muito
freqüentemente correlacionado com alguma causa adicional, tal como a presença de pequenas
lesões no tecido cerebral. Quantitativamente e qualitativamente, esses indivíduos podem
servir para revelar e avaliar tais períodos, como indicado na história The Book of San
Michele.[ 29 ] A partir da perspectiva do tempo histórico, seria mais difícil examinar a
regressão da habilidade e da correção do raciocínio, ou a intensidade de Austrian talk,[ 30 ]
embora esses dois fenômenos se aproximem do centro do problema melhor e mais
diretamente.
Apesar das diferenças qualitativas mencionadas acima, a duração desses períodos de tempo
tende a ser similar. Se nós assumirmos que a histeria europeia extrema ocorreu por volta de
1900, e que retorna mais ou menos a cada dois séculos, nós descobrimos condições similares.
Tal isocronismo cíclico pode abranger uma civilização e cruzar para os países vizinhos, mas
não atravessará os oceanos ou penetrará em civilizações distantes ou muito diferentes.
Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, os jovens oficiais dançavam e cantavam nas
ruas de Viena: “Krieg, Krieg, Krieg! Es wird ein schoener Krieg...”[ 31 ] Ao visitar a Alta
Áustria em 1978, eu decidi conversar com o pároco local que tinha por volta de setenta anos,
naquela ocasião. Quando contei a ele sobre mim, eu percebi repentinamente que ele pensou que eu estava mentindo e inventando histórias bonitas. Ele submeteu as minhas declarações à
análise psicológica, baseado nesse pressuposto inatacável, e tentou me convencer de que seus
princípios morais eram nobres. Quando eu reclamei para um amigo sobre isso, ele achou
engraçado: “Como um psicólogo, você foi extremamente sortudo em achar um sobrevivente da
autêntica Austrian talk. Nós, os mais novos, seríamos incapazes de demonstrar para você o
que seria a Austrian talk, mesmo se quiséssemos simulá-la.”
Nos idiomas europeus, Austrian talk tornou-se o termo comum para descrever o
paralogismo.[ 32 ] Muitos jovens que hoje utilizam esse termo não conhecem sua origem.
Dentro do contexto de intensidade histérica máxima na Europa daquela época, o artigo
autêntico representou um produto típico do pensamento conversivo: seleção subconsciente e
substituição de dados levando a um caso crônico de rejeição do cerne da questão. Da mesma
forma, o reflexo de supor que todo interlocutor está mentindo é uma indicação da anti-cultura
histérica da mendacidade, na qual dizer a verdade torna-se “imoral”.
Essa era de regressão histérica deu origem à grande guerra e à grande revolução que se
estendeu até o Fascismo, o Hitlerismo e a tragédia da Segunda Guerra Mundial. Ela também
produziu o fenômeno macrossocial cujo desvio de caráter tornou-se sobreposto sobre este
ciclo, filtrando e destruindo sua natureza. A Europa contemporânea está caminhando para o
extremo oposto desta curva senoidal histórica. Nós poderíamos assumir, então, que o começo
do próximo século produziria uma era de excelentes aptidões e de correção da razão, levando
assim a muitos novos valores em todos os campos da criatividade e descoberta humanas. Nós
também podemos vislumbrar que o entendimento psicológico realista e o enriquecimento
espiritual serão características desta era.
Ao mesmo tempo, a América, em especial os Estados Unidos, tem alcançado o ponto mais
baixo pela primeira vez em sua curta história. Os europeus de cabelos grisalhos que vivem
atualmente nos Estados Unidos estão impressionados pela similaridade entre esses fenômenos
e aqueles que dominavam a Europa, na época de sua juventude. O sentimentalismo dominante
nas esferas individual, coletiva e política, assim como a seleção subconsciente e a
substituição das informações no raciocínio, estão empobrecendo o desenvolvimento de uma
visão de mundo psicológica e direcionando para um egoísmo individual e da nação como um
todo. A mania de ficar ofendido por qualquer coisa provoca retaliações constantes,
aproveitando-se da hiper-irritabilidade e da hipo-criticidade por parte dos outros. Isso pode
ser considerado similar à mania de duelo europeu daquelas épocas. Pessoas afortunadas o
suficiente para alcançar uma posição mais elevada que as demais são orgulhosas em relação
às pessoas que supostamente lhe são inferiores, de um modo altamente similar aos costumes
da Rússia czarista. A psicologia freudiana da virada do século encontra solo fértil neste país,
por causa da similaridade das condições psicológicas e sociais.
A recessão psicológica americana arrasta na sua esteira uma adaptação sócio-profissional
deficiente das pessoas do seu país, o que leva a um desperdício de talento humano e a uma
involução da estrutura da sociedade. Se fôssemos calcular o índice de correlação da
adaptação desse país, conforme sugerido no capítulo anterior, provavelmente estaria abaixo
dos índices da grande maioria das nações livres e civilizadas do mundo, e possivelmente
abaixo dos índices de alguns países que perderam sua liberdade.
Nos Estados Unidos, um indivíduo altamente talentoso encontra cada vez mais dificuldade
para lutar pelo seu caminho em direção à auto-realização e a uma posição socialmente
criativa. As universidades, os políticos e as empresas mostram-se, cada vez mais, como uma
frente unida de pessoas relativamente incapazes e até mesmo incompetentes. A palavra
“overeducated” é ouvida com mais e mais frequência. Esses indivíduos “superqualificados”
finalmente se escondem em algum laboratório de fundação, onde conseguem ganhar um prêmio
Nobel, desde que não façam nada de realmente útil. No meio tempo, o país como um todo
sofre devido ao déficit na inspiração de indivíduos superdotados.
Como resultado, a América sufoca o progresso em todas as áreas da vida, da cultura à
tecnologia e economia, sem excluir a incompetência política. Isso, quando ligado a outras
deficiências, como uma incapacidade do egotista de entender as outras pessoas e nações,
conduz ao erro político e à criação de um bode expiatório externo. Frear a evolução das
estruturas políticas e das instituições sociais aumenta tanto a inércia administrativa como o
descontentamento por parte das vítimas.
Nós deveríamos perceber que as tensões e dificuldades sociais mais dramáticas ocorrem no
mínimo dez anos depois que se observam as primeiras indicações de se ter emergido de uma
crise psicológica. Sendo uma sequela, tais tensões e dificuldades também constituem uma
reação atrasada para a causa ou são estimuladas pelo mesmo processo de ativação
psicológica. O intervalo de tempo para a tomada de contramedidas eficazes é, portanto, bem
limitado.
A Europa tem o direito de olhar com superioridade para a América por esta estar sofrendo
da mesma doença a que os antigos sucumbiram tantas vezes no passado? O sentimento de
superioridade da América em relação à Europa derivou destes eventos passados e de seus
resultados trágicos e desumanos? Se foi isso que aconteceu, não seria esta atitude mais que um
anacronismo inocente? Seria mais útil se as nações européias se aproveitassem da sua
experiência histórica e do conhecimento psicológico mais moderno, de forma a ajudar
efetivamente a América.
O Leste Europeu, agora sob a dominação soviética, é parte do ciclo europeu, embora ainda
um pouco atrasado; o mesmo se aplica ao império soviético, especialmente à porção européia.
Lá, contudo, ao rastrear essas alterações e isolá-las dos fenômenos mais dramáticos acaba-se
frustrando as possibilidades de observação, mesmo que seja somente uma questão de
metodologia. Mesmo lá, contudo, existe um crescimento progressivo na resistência dos grupos
locais, proveniente do poder regenerativo do senso comum saudável. Ano após ano, o sistema
dominante sente-se mais fraco em relação a essas transformações orgânicas. Devemos
adicionar a isso um fenômeno que o Ocidente acha totalmente incompreensível e que deve ser
discutido em grande detalhe: o crescimento do conhecimento específico e prático sobre a
realidade dos governos dos países com regimes similares. Isso facilita a resistência individual
e a reconstrução das ligações sociais. Tais processos devem, em última análise, produzir uma
situação decisiva, ainda que provavelmente não seja uma contrarrevolução sangrenta.
A questão sugere por si mesma: chegará um tempo em que este ciclo eterno que deixa as
nações quase impotentes poderá ser vencido? Os países poderão manter permanentemente
suas atividades criativas e críticas consistentemente em alto nível? Nossa era contém muitos momentos excepcionais; o caldeirão das bruxas de Macbeth do nosso tempo contém, além dos
ingredientes venenosos, também o progresso e o entendimento, tais como a humanidade não
viu no milênio.
Os economistas mais otimistas apontam que a humanidade ganhou um escravo poderoso na
forma de energia elétrica e que a guerra, a conquista e a submissão de outros países está se
tornando cada vez menos lucrativa no longo prazo. Infelizmente, como nós veremos mais tarde
neste trabalho, as nações podem ser impulsionadas por desejos e ações economicamente
irracionais por outros motivos, cujo caráter é meta-econômico. É por isso que superar essas
outras causas e fenômenos que dão origem ao mal é uma tarefa difícil, embora pelo menos
teoricamente atingível. Contudo, para dominá-la nós temos que entender a natureza e a
dinâmica dos ditos fenômenos: um velho princípio da medicina, que eu repetirei novamente,
“Ignota, nulla curatio morbi.”
Uma realização da ciência moderna, que contribui para a destruição desses ciclos eternos, é
o desenvolvimento dos sistemas de comunicação que transformaram o globo terrestre em uma
grande “vila”. Os ciclos de tempo aqui esboçados costumavam percorrer seu curso quase que
independentemente, em várias civilizações com localizações geográficas diferentes. Suas
fases nunca foram, nem são, sincronizadas. Nós podemos assumir que a fase americana está 80
anos atrasada em relação à européia. Quando o mundo se torna uma estrutura inter-relacionada
do ponto de vista da comunicação, tanto de informações como de notícias, os diferentes
conteúdos sociais e opiniões causados pelas fases contrárias dos ciclos mencionados, entre
outras coisas, excedem todos os limites e sistemas de segurança da informação. Isso irá gerar
pressões que podem alterar as dependências causais aqui descritas. Uma situação psicológica
mais flexível pode então emergir, o que aumenta as possibilidades para ações mais exatas,
baseadas no entendimento dos fenômenos.
Ao mesmo tempo, apesar das muitas dificuldades de natureza científica, social e política,
nós observamos o desenvolvimento de uma nova comunidade de fatores que podem
eventualmente contribuir para a liberação da humanidade dos efeitos da incompreensão das
causas históricas. O desenvolvimento da ciência, cujo objetivo final é um melhor
entendimento do homem e das leis da vida social, pode, no longo prazo, fazer com que a
opinião pública aceite o conhecimento essencial sobre a natureza humana e o desenvolvimento
da personalidade humana, o que permitirá que os processos perigosos sejam controlados.
Algumas formas de cooperação e supervisão internacional serão necessárias para isso.
O desenvolvimento da personalidade humana e de sua capacidade para o pensamento
apropriado e para a compreensão precisa da realidade confere uma certa dose de risco,
exigindo a superação da ociosidade confortável e a aplicação de esforços para um trabalho
científico especial, sob condições um tanto quanto diferentes daquelas sob as quais nós fomos
criados.
Sob tais condições, uma personalidade egotista, acostumada a um ambiente confortavelmente
restrito, ao pensamento superficial e a um sentimentalismo descontrolado, experimentará
mudanças muito favoráveis que não podem ser induzidas por nenhum outro modo. Condições
especialmente alteradas farão com que tais personalidades comecem a se desintegrar, dando
origem, desta forma, aos esforços cognitivos e intelectuais e à reflexão moral.
Um exemplo de programa desse tipo de experiência é o American Peace Corps. Pessoas
jovens viajam para muitos países pouco desenvolvidos para lá viver e trabalhar, muitas vezes
sob condições primitivas. Elas aprendem a entender as demais nações e costumes e o seu
egotismo decresce. Sua visão de mundo se desenvolve e ela se torna mais realista. Elas
perdem, assim, os defeitos característicos de caráter do americano moderno.
Para superar algo cuja origem está encoberta nos mistérios dos tempos imemoriais, nós
freqüentemente sentimos que devemos lutar contra os moinhos de vento da história, sempre em
movimento. Contudo, o objetivo final de tal esforço é a possibilidade de que um entendimento
objetivo da natureza humana e de sua eterna fraqueza, mais a transformação resultante da
psicologia social, possam nos capacitar efetivamente para neutralizar ou prevenir os
resultados destrutivos e trágicos, muitas vezes em um futuro não muito distante.
Nossos tempos são excepcionais, e o sofrimento, hoje, nos leva a um melhor entendimento
do que nos levava alguns séculos atrás. Este entendimento e este conhecimento adequam-se
melhor ao quadro geral, uma vez que estão baseados em dados objetivos. Tal observação,
portanto, torna-se realista, e as pessoas e os problemas amadurecem em ação. Tais ações não
devem estar limitadas à contemplação teórica mas, pelo contrário, devem adquirir
organização e forma.
Assim, para facilitar isso, vamos considerar as questões selecionadas e a idéia de uma nova
disciplina que estudaria o mal, descobriria os fatores de sua gênese, as propriedades
insuficientemente compreendidas e os seus pontos fracos, delineando assim novas
possibilidades de neutralizar a origem do sofrimento humano.
Hidromel é uma bebida alcoólica da antiguidade, anterior ao vinho e à cerveja. Histeria é um termo de diagnóstico aplicado a um estado mental de medo incontrolável ou de excesso emocional. Neste livro, o uso refere-se ao medo da verdade ou medo de pensar sobre coisas desagradáveis, para não estragar a festa de contentamento presente.
Johann Gottfried Herder – Foi um filósofo e escritor alemão do século XVIII que influenciou fortemente a literatura alemã. Sua analogia das culturas nacionais como seres orgânicos teve uma enorme influência na consciência histórica moderna – NT. Grigoriy Yefimovich Rasputin (1869-1916); místico russo que se tornou muito influente no período do czar Nicolau II. Detinha a total confiança da czarina, ainda que fosse constantemente acusado de levar uma vida imoral. Foi assassinado em dezembro de 1916 – NT.
Teleologia – é o estudo filosófico das causas finais, isto é, dos propósitos da sociedade, da humanidade, da natureza – NT. Edward Stuart Russel (1887-1954), biólogo e filósofo escocês – NT. Richard Bevan Braithwate (1900-1990), filósofo inglês especializado na filosofia da ciência – NT. Gerd Sommerhoff (1915-2002), neurocientista e professor alemão que passou boa parte da vida radicado na Inglaterra – NT. No original, trigger-happy, que é uma expressão para a pessoa que sente prazer em atirar, ansiosa por uma batalha – NT. O livro de San Michele; as memórias do médico sueco Axel Munthe (1857-1949) – NT. Austrian talk é uma expressão que significa conversa vazia. O relativo em português seria “conversa fiada” – NT. “Guerra, Guerra, Guerra! Vai ser uma Guerra legal...”
Paralogismo: discurso falso, mas que tem a aparência de verdade – NT.
CAPÍTULO IV