Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 10 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Capítulo III - O ciclo de histeria

O CICLO DE HISTERIA

 

DESDE QUE AS SOCIEDADES E CIVILIZAÇÕES HUMANAS foram criadas em nosso globo, as pessoas

anseiam por tempos felizes, repletos de tranqüilidade e justiça, os quais teriam permitido a

todos cuidar das suas ovelhas em paz, buscar por vales férteis, lavrar a terra, cavar em busca

de tesouros ou construir casas e palácios. O homem deseja a paz para gozar dos benefícios

acumulados pelas gerações anteriores e para observar orgulhosamente o crescimento da

geração futura por ele gerada. Melhor ainda se bebendo vinho ou hidromel[ 20 ] nesse ínterim.

Ele gostaria de sonhar sobre isso, se familiarizar com outras pessoas e outros povos ou

apreciar o céu do sul salpicado de estrelas, as cores da natureza e as faces e os costumes das

mulheres. Ele gostaria também de dar asas à sua imaginação e imortalizar seu nome nos

trabalhos artísticos, sejam eles esculpidos em mármore ou eternizados na mitologia e poesia.

 

Desde os tempos primitivos, então, o homem tem sonhado com uma vida na qual o esforço

dispendido pela mente e pelos músculos fosse compensado pelo descanso bem merecido. Ele

gostaria de aprender sobre as leis da natureza de forma que pudesse dominá-la e obter as

vantagens das suas dádivas. O homem recrutou o poder natural dos animais para fazer com que

seus sonhos se tornassem realidade, e quando isto não atendeu às suas necessidades, ele então

se voltou para a sua própria espécie com este propósito, privando em parte os outros seres

humanos de sua humanidade, simplesmente porque ele era mais poderoso.

Sonhos de uma vida feliz e pacífica deram então origem ao uso da força sobre o outro, uma

força que embota a mente de quem a utiliza. É por isso que os sonhos de felicidade do homem

não se tornaram realidade através da história. Esta visão hedonista de “felicidade” contém as

sementes da miséria e alimenta o ciclo eterno pelo qual épocas boas dão origem a épocas

ruins, que por sua vez provocarão o sofrimento e o esforço mental que irão produzir

experiência mental, bom senso, moderação e uma certa quantidade de conhecimento

psicológico, virtudes essas que servirão para reconstruir condições de existência mais felizes.

Durante épocas boas, as pessoas perdem progressivamente de vista a necessidade da

reflexão profunda, da introspecção, do conhecimento dos outros e de um entendimento das leis

complicadas da vida. Vale a pena ponderar as propriedades da natureza humana e da

personalidade imperfeita do homem, sejam elas próprias ou de outra pessoa? Podemos

entender o significado criativo do sofrimento pelo qual nós mesmos não passamos, em vez de

tomar o caminho fácil de culpar a vítima? Qualquer excesso de esforço mental nos parece

trabalho perdido se as alegrias da vida parecem estar disponíveis para serem curtidas. Um

indivíduo inteligente, alegre e liberal é uma pessoa divertida; uma pessoa que prediz os

resultados ruins que virão mais adiante torna-se um estraga-prazeres.

A percepção da verdade sobre o ambiente real, especialmente um entendimento da

personalidade humana e seus valores, deixa de ser uma virtude durante os chamados tempos “felizes”; os céticos ponderados são considerados intrometidos que não conseguem viver bem

sozinhos. Isso, por sua vez, leva a um empobrecimento do conhecimento psicológico, da

capacidade de diferenciar as propriedades da natureza e da personalidade humana, e da

habilidade para moldar criativamente as mentes. O culto ao poder, então, suplanta aqueles

valores mentais tão essenciais à manutenção da lei e da ordem por meios pacíficos. O

enriquecimento ou a involução de uma nação em relação à sua visão de mundo psicológica

pode ser considerado um indicador de quão bom ou ruim será o seu futuro.

Durante as épocas “boas”, a busca pela verdade torna-se desconfortável porque revela fatos

inconvenientes. É melhor pensar sobre coisas mais fáceis e mais agradáveis. A eliminação

inconsciente de informações que são, ou aparentam ser, não recomendáveis, torna-se

gradualmente um hábito, e a seguir transforma-se em um costume aceito pela sociedade em

larga escala. O problema é que qualquer processo de pensamento baseado em informações

truncadas, possivelmente não gerará conclusões corretas; ele leva, além disso, a uma

substituição subconsciente de premissas inconvenientes por outras mais cômodas,

aproximando-se dos limites da psicopatologia.

Tais períodos de satisfação para um determinado grupo de pessoas – freqüentemente com

raízes em alguma injustiça para outras pessoas ou nações – passa a estrangular a capacidade

de consciência individual e da sociedade; fatores subconscientes acabam assumindo um papel

decisivo na vida. Tal sociedade, já infectada pelo estado de histeria,[ 21 ] considera qualquer

percepção de uma verdade desconfortável como um sinal de grosseria ou falta de educação. O

iceberg de J. G. Herder[ 22 ] é mergulhado em um mar de informações inconscientes

falsificadas; somente a ponta do iceberg é visível sobre as ondas da vida. A catástrofe fica à

espera. Em momentos como esses, a capacidade para o pensamento lógico e disciplinado,

nascido durante os tempos difíceis, começa a esvanecer. Quando as comunidades perdem sua

capacidade psicológica da razão e de análise moral, os processos de geração do mal são

intensificados em todas as escalas sociais, sejam elas individuais ou macrossociais, até que

tudo se converta em épocas “ruins”.

Nós já sabemos que toda sociedade contém um certo percentual de pessoas que carregam

desvios psicológicos causados por vários fatores, herdados ou adquiridos, que produzem

anomalias na percepção, no pensamento e no caráter. Muitas destas pessoas tentam dar um

significado às suas vidas irregulares através da hiperatividade social. Elas criam os seus

próprios mitos e ideologias de sobrecompensação e têm uma tendência a insinuar

egoisticamente para os outros que os seus desvios de percepção são superiores, bem como os

objetivos e idéias resultantes dos mesmos.

Quando umas poucas gerações gozam das despreocupações de “tempos bons”, o resultado

para a sociedade é um déficit em relação às habilidades psicológicas e de análise moral, que

pavimenta o caminho para os conspiradores patológicos, os magos e outros impostores mais

primitivos ainda agirem e se unirem nos processos originadores do mal. Esses são fatores

essenciais na sua síntese. No próximo capítulo, eu tentarei persuadir meus leitores de que a

participação dos fatores patológicos, tão subestimados pelas ciências sociais, é um fenômeno

comum nos processos de geração do mal.

Aquelas épocas, chamadas por muitas pessoas de “bons velhos tempos”, fornecem um solo fértil para a tragédia futura, por causa da degeneração dos valores morais, intelectuais e da

personalidade, dando origem a eras como a de Rasputin.[ 23 ]

A descrição acima é um esboço para compreensão das causas da realidade, que de forma

alguma contradiz a percepção teleológica[ 24 ] do senso de causalidade. Os tempos difíceis

não são somente o resultado da regressão hedonista ao passado, eles tem um objetivo histórico

a cumprir.

O sofrimento, o esforço e a atividade mental durante tempos de iminente amargura leva a

uma regeneração progressiva, e geralmente mais elevada, dos valores perdidos, o que resulta

no progresso humano. Infelizmente, nós ainda não temos uma compreensão filosófica

suficientemente exaustiva desta interdependência de causalidade e teleologia em relação aos

fatos ocorridos. Parece que os profetas tiveram uma visão mais clara, à luz das leis da

criação, do que filósofos como E. S. Russel,[ 25 ] R. B. Braithwate,[ 26 ] G. Sommerhoff[ 27

] e outros que ponderaram sobre este assunto.

Quando chegam os tempos ruins e as pessoas ficam impressionadas pelo excesso de mal,

elas precisam reunir todas as suas forças físicas e mentais para lutar pela existência e proteger

a razão humana. A busca por algum meio para escapar das dificuldades e perigos reacende

poderes de discernimento há muito tempo sepultados. Tais pessoas têm uma tendência inicial

de confiar na força para contra-atacar o medo; elas podem, por exemplo, se transformar em

atiradoras[ 28 ] ou dependentes de armas.

Lentamente e de forma trabalhosa, contudo, elas descobrem as vantagens conferidas pelo

esforço mental; um entendimento aperfeiçoado da situação psicológica em particular, uma

melhor diferenciação das personalidades e caráteres humanos e, finalmente, a compreensão

dos adversários. Durante esses tempos, as virtudes que as gerações anteriores relegaram a

obras literárias reconquistam sua substância real e aplicável e tornam-se apreciadas por seu

valor. Uma pessoa sábia, capaz de fornecer um conselho seguro, é altamente respeitada.

Quão surpreendentemente similar são as filosofias de Sócrates e Confúcio, os dois

pensadores quase lendários que, apesar de serem quase contemporâneos, viveram em locais

opostos do grande continente. Ambos viveram em tempos perversos e sangrentos, e

descreveram um método para vencer o mal, especialmente em relação à percepção das leis

cotidianas e do conhecimento da natureza humana. Eles procuraram por critérios de valor

moral dentro da natureza humana e consideraram o conhecimento e o entendimento como

sendo virtudes. Ambos os homens, contudo, ouviram as mesmas vozes internas que avisam

àqueles que embarcam em questões morais importantes: “Sócrates, não faça isso.” Por isso é

que seus esforços e sacrifícios constituem uma assistência permanente na batalha contra o mal.

Épocas difíceis e cansativas dão origem a valores que finalmente vencem o mal e produzem

tempos melhores. A análise sucinta e precisa dos fenômenos, possível graças à vitória sobre

as emoções supérfluas e sobre o egoísmo que caracteriza as pessoas presunçosas, abre a porta

para o comportamento causal, principalmente nas áreas da filosofia, psicologia e reflexão

moral, e eleva a escala de medida para a vantagem da bondade. Se estes valores forem

totalmente incorporados à herança cultural da espécie humana, eles podem proteger

suficientemente as nações da próxima era de erros e distorções. Contudo, a memória coletiva

é provisória e particularmente suscetível à remoção de um filósofo e de seu trabalho do contexto em que ele o elaborou, a saber, sua época, sua localidade e os objetivos aos quais

ele serviu.

Sempre que uma pessoa experiente encontra um momento de relativa paz depois de uma

dificuldade e de um esforço doloroso, sua mente está livre para refletir, uma vez que não tem

mais a preocupação com emoções supérfluas e com as atitudes obsoletas do passado, mas é

auxiliada pelo conhecimento dos anos passados. Ela, então, se aproxima de um entendimento

objetivo dos fenômenos e de uma percepção das ligações causais reais, incluindo as ligações

que não podem ser entendidas dentro da estrutura da linguagem natural. Assim, ela medita

sobre um círculo de leis gerais que está sempre se expandindo enquanto contempla o

significado daquelas ocorrências passadas que separaram os períodos da história. Nós

alcançamos os preceitos antigos porque os entendemos melhor; eles facilitam nosso

entendimento tanto da gênese como do significado criativo dos tempos infelizes.

O ciclo de tempos felizes e pacíficos favorece um estreitamento da visão de mundo e um

aumento no egotismo. As sociedades tornam-se sujeitas a uma histeria progressiva e, no

estágio final, conhecido descritivamente pelos historiadores, produz finalmente tempos de

desânimo e confusão, o que ocorreu durante milênios e ainda continua a ocorrer. A recessão

da mente e da personalidade, que é uma característica de tempos ostensivamente felizes, varia

de uma nação para outra, de forma que alguns países conseguem sobreviver aos resultados de

tais crises com pequenas perdas, enquanto outros perdem nações e impérios. Aspectos

geopolíticos também têm um papel decisivo.

As características psicológicas de tais crises suportam, sem dúvida, o carimbo do tempo e

da civilização em questão, mas deve ter havido uma exacerbação da condição histérica da

sociedade como denominador comum. Esse desvio, ou melhor ainda, essa deficiência

formativa no caráter, é uma doença perene nas sociedades, especialmente das elites

privilegiadas. A existência de casos individuais exagerados, especialmente os casos

caracterizados como clínicos, é um desdobramento do nível de histeria social, muito

freqüentemente correlacionado com alguma causa adicional, tal como a presença de pequenas

lesões no tecido cerebral. Quantitativamente e qualitativamente, esses indivíduos podem

servir para revelar e avaliar tais períodos, como indicado na história The Book of San

Michele.[ 29 ] A partir da perspectiva do tempo histórico, seria mais difícil examinar a

regressão da habilidade e da correção do raciocínio, ou a intensidade de Austrian talk,[ 30 ]

embora esses dois fenômenos se aproximem do centro do problema melhor e mais

diretamente.

Apesar das diferenças qualitativas mencionadas acima, a duração desses períodos de tempo

tende a ser similar. Se nós assumirmos que a histeria europeia extrema ocorreu por volta de

1900, e que retorna mais ou menos a cada dois séculos, nós descobrimos condições similares.

Tal isocronismo cíclico pode abranger uma civilização e cruzar para os países vizinhos, mas

não atravessará os oceanos ou penetrará em civilizações distantes ou muito diferentes.

Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, os jovens oficiais dançavam e cantavam nas

ruas de Viena: “Krieg, Krieg, Krieg! Es wird ein schoener Krieg...”[ 31 ] Ao visitar a Alta

Áustria em 1978, eu decidi conversar com o pároco local que tinha por volta de setenta anos,

naquela ocasião. Quando contei a ele sobre mim, eu percebi repentinamente que ele pensou que eu estava mentindo e inventando histórias bonitas. Ele submeteu as minhas declarações à

análise psicológica, baseado nesse pressuposto inatacável, e tentou me convencer de que seus

princípios morais eram nobres. Quando eu reclamei para um amigo sobre isso, ele achou

engraçado: “Como um psicólogo, você foi extremamente sortudo em achar um sobrevivente da

autêntica Austrian talk. Nós, os mais novos, seríamos incapazes de demonstrar para você o

que seria a Austrian talk, mesmo se quiséssemos simulá-la.”

Nos idiomas europeus, Austrian talk tornou-se o termo comum para descrever o

paralogismo.[ 32 ] Muitos jovens que hoje utilizam esse termo não conhecem sua origem.

Dentro do contexto de intensidade histérica máxima na Europa daquela época, o artigo

autêntico representou um produto típico do pensamento conversivo: seleção subconsciente e

substituição de dados levando a um caso crônico de rejeição do cerne da questão. Da mesma

forma, o reflexo de supor que todo interlocutor está mentindo é uma indicação da anti-cultura

histérica da mendacidade, na qual dizer a verdade torna-se “imoral”.

Essa era de regressão histérica deu origem à grande guerra e à grande revolução que se

estendeu até o Fascismo, o Hitlerismo e a tragédia da Segunda Guerra Mundial. Ela também

produziu o fenômeno macrossocial cujo desvio de caráter tornou-se sobreposto sobre este

ciclo, filtrando e destruindo sua natureza. A Europa contemporânea está caminhando para o

extremo oposto desta curva senoidal histórica. Nós poderíamos assumir, então, que o começo

do próximo século produziria uma era de excelentes aptidões e de correção da razão, levando

assim a muitos novos valores em todos os campos da criatividade e descoberta humanas. Nós

também podemos vislumbrar que o entendimento psicológico realista e o enriquecimento

espiritual serão características desta era.

Ao mesmo tempo, a América, em especial os Estados Unidos, tem alcançado o ponto mais

baixo pela primeira vez em sua curta história. Os europeus de cabelos grisalhos que vivem

atualmente nos Estados Unidos estão impressionados pela similaridade entre esses fenômenos

e aqueles que dominavam a Europa, na época de sua juventude. O sentimentalismo dominante

nas esferas individual, coletiva e política, assim como a seleção subconsciente e a

substituição das informações no raciocínio, estão empobrecendo o desenvolvimento de uma

visão de mundo psicológica e direcionando para um egoísmo individual e da nação como um

todo. A mania de ficar ofendido por qualquer coisa provoca retaliações constantes,

aproveitando-se da hiper-irritabilidade e da hipo-criticidade por parte dos outros. Isso pode

ser considerado similar à mania de duelo europeu daquelas épocas. Pessoas afortunadas o

suficiente para alcançar uma posição mais elevada que as demais são orgulhosas em relação

às pessoas que supostamente lhe são inferiores, de um modo altamente similar aos costumes

da Rússia czarista. A psicologia freudiana da virada do século encontra solo fértil neste país,

por causa da similaridade das condições psicológicas e sociais.

A recessão psicológica americana arrasta na sua esteira uma adaptação sócio-profissional

deficiente das pessoas do seu país, o que leva a um desperdício de talento humano e a uma

involução da estrutura da sociedade. Se fôssemos calcular o índice de correlação da

adaptação desse país, conforme sugerido no capítulo anterior, provavelmente estaria abaixo

dos índices da grande maioria das nações livres e civilizadas do mundo, e possivelmente

abaixo dos índices de alguns países que perderam sua liberdade.

Nos Estados Unidos, um indivíduo altamente talentoso encontra cada vez mais dificuldade

para lutar pelo seu caminho em direção à auto-realização e a uma posição socialmente

criativa. As universidades, os políticos e as empresas mostram-se, cada vez mais, como uma

frente unida de pessoas relativamente incapazes e até mesmo incompetentes. A palavra

“overeducated” é ouvida com mais e mais frequência. Esses indivíduos “superqualificados”

finalmente se escondem em algum laboratório de fundação, onde conseguem ganhar um prêmio

Nobel, desde que não façam nada de realmente útil. No meio tempo, o país como um todo

sofre devido ao déficit na inspiração de indivíduos superdotados.

Como resultado, a América sufoca o progresso em todas as áreas da vida, da cultura à

tecnologia e economia, sem excluir a incompetência política. Isso, quando ligado a outras

deficiências, como uma incapacidade do egotista de entender as outras pessoas e nações,

conduz ao erro político e à criação de um bode expiatório externo. Frear a evolução das

estruturas políticas e das instituições sociais aumenta tanto a inércia administrativa como o

descontentamento por parte das vítimas.

Nós deveríamos perceber que as tensões e dificuldades sociais mais dramáticas ocorrem no

mínimo dez anos depois que se observam as primeiras indicações de se ter emergido de uma

crise psicológica. Sendo uma sequela, tais tensões e dificuldades também constituem uma

reação atrasada para a causa ou são estimuladas pelo mesmo processo de ativação

psicológica. O intervalo de tempo para a tomada de contramedidas eficazes é, portanto, bem

limitado.

A Europa tem o direito de olhar com superioridade para a América por esta estar sofrendo

da mesma doença a que os antigos sucumbiram tantas vezes no passado? O sentimento de

superioridade da América em relação à Europa derivou destes eventos passados e de seus

resultados trágicos e desumanos? Se foi isso que aconteceu, não seria esta atitude mais que um

anacronismo inocente? Seria mais útil se as nações européias se aproveitassem da sua

experiência histórica e do conhecimento psicológico mais moderno, de forma a ajudar

efetivamente a América.

O Leste Europeu, agora sob a dominação soviética, é parte do ciclo europeu, embora ainda

um pouco atrasado; o mesmo se aplica ao império soviético, especialmente à porção européia.

Lá, contudo, ao rastrear essas alterações e isolá-las dos fenômenos mais dramáticos acaba-se

frustrando as possibilidades de observação, mesmo que seja somente uma questão de

metodologia. Mesmo lá, contudo, existe um crescimento progressivo na resistência dos grupos

locais, proveniente do poder regenerativo do senso comum saudável. Ano após ano, o sistema

dominante sente-se mais fraco em relação a essas transformações orgânicas. Devemos

adicionar a isso um fenômeno que o Ocidente acha totalmente incompreensível e que deve ser

discutido em grande detalhe: o crescimento do conhecimento específico e prático sobre a

realidade dos governos dos países com regimes similares. Isso facilita a resistência individual

e a reconstrução das ligações sociais. Tais processos devem, em última análise, produzir uma

situação decisiva, ainda que provavelmente não seja uma contrarrevolução sangrenta.

A questão sugere por si mesma: chegará um tempo em que este ciclo eterno que deixa as

nações quase impotentes poderá ser vencido? Os países poderão manter permanentemente

suas atividades criativas e críticas consistentemente em alto nível? Nossa era contém muitos momentos excepcionais; o caldeirão das bruxas de Macbeth do nosso tempo contém, além dos

ingredientes venenosos, também o progresso e o entendimento, tais como a humanidade não

viu no milênio.

Os economistas mais otimistas apontam que a humanidade ganhou um escravo poderoso na

forma de energia elétrica e que a guerra, a conquista e a submissão de outros países está se

tornando cada vez menos lucrativa no longo prazo. Infelizmente, como nós veremos mais tarde

neste trabalho, as nações podem ser impulsionadas por desejos e ações economicamente

irracionais por outros motivos, cujo caráter é meta-econômico. É por isso que superar essas

outras causas e fenômenos que dão origem ao mal é uma tarefa difícil, embora pelo menos

teoricamente atingível. Contudo, para dominá-la nós temos que entender a natureza e a

dinâmica dos ditos fenômenos: um velho princípio da medicina, que eu repetirei novamente,

“Ignota, nulla curatio morbi.”

Uma realização da ciência moderna, que contribui para a destruição desses ciclos eternos, é

o desenvolvimento dos sistemas de comunicação que transformaram o globo terrestre em uma

grande “vila”. Os ciclos de tempo aqui esboçados costumavam percorrer seu curso quase que

independentemente, em várias civilizações com localizações geográficas diferentes. Suas

fases nunca foram, nem são, sincronizadas. Nós podemos assumir que a fase americana está 80

anos atrasada em relação à européia. Quando o mundo se torna uma estrutura inter-relacionada

do ponto de vista da comunicação, tanto de informações como de notícias, os diferentes

conteúdos sociais e opiniões causados pelas fases contrárias dos ciclos mencionados, entre

outras coisas, excedem todos os limites e sistemas de segurança da informação. Isso irá gerar

pressões que podem alterar as dependências causais aqui descritas. Uma situação psicológica

mais flexível pode então emergir, o que aumenta as possibilidades para ações mais exatas,

baseadas no entendimento dos fenômenos.

Ao mesmo tempo, apesar das muitas dificuldades de natureza científica, social e política,

nós observamos o desenvolvimento de uma nova comunidade de fatores que podem

eventualmente contribuir para a liberação da humanidade dos efeitos da incompreensão das

causas históricas. O desenvolvimento da ciência, cujo objetivo final é um melhor

entendimento do homem e das leis da vida social, pode, no longo prazo, fazer com que a

opinião pública aceite o conhecimento essencial sobre a natureza humana e o desenvolvimento

da personalidade humana, o que permitirá que os processos perigosos sejam controlados.

Algumas formas de cooperação e supervisão internacional serão necessárias para isso.

O desenvolvimento da personalidade humana e de sua capacidade para o pensamento

apropriado e para a compreensão precisa da realidade confere uma certa dose de risco,

exigindo a superação da ociosidade confortável e a aplicação de esforços para um trabalho

científico especial, sob condições um tanto quanto diferentes daquelas sob as quais nós fomos

criados.

Sob tais condições, uma personalidade egotista, acostumada a um ambiente confortavelmente

restrito, ao pensamento superficial e a um sentimentalismo descontrolado, experimentará

mudanças muito favoráveis que não podem ser induzidas por nenhum outro modo. Condições

especialmente alteradas farão com que tais personalidades comecem a se desintegrar, dando

origem, desta forma, aos esforços cognitivos e intelectuais e à reflexão moral.

Um exemplo de programa desse tipo de experiência é o American Peace Corps. Pessoas

jovens viajam para muitos países pouco desenvolvidos para lá viver e trabalhar, muitas vezes

sob condições primitivas. Elas aprendem a entender as demais nações e costumes e o seu

egotismo decresce. Sua visão de mundo se desenvolve e ela se torna mais realista. Elas

perdem, assim, os defeitos característicos de caráter do americano moderno.

Para superar algo cuja origem está encoberta nos mistérios dos tempos imemoriais, nós

freqüentemente sentimos que devemos lutar contra os moinhos de vento da história, sempre em

movimento. Contudo, o objetivo final de tal esforço é a possibilidade de que um entendimento

objetivo da natureza humana e de sua eterna fraqueza, mais a transformação resultante da

psicologia social, possam nos capacitar efetivamente para neutralizar ou prevenir os

resultados destrutivos e trágicos, muitas vezes em um futuro não muito distante.

Nossos tempos são excepcionais, e o sofrimento, hoje, nos leva a um melhor entendimento

do que nos levava alguns séculos atrás. Este entendimento e este conhecimento adequam-se

melhor ao quadro geral, uma vez que estão baseados em dados objetivos. Tal observação,

portanto, torna-se realista, e as pessoas e os problemas amadurecem em ação. Tais ações não

devem estar limitadas à contemplação teórica mas, pelo contrário, devem adquirir

organização e forma.

Assim, para facilitar isso, vamos considerar as questões selecionadas e a idéia de uma nova

disciplina que estudaria o mal, descobriria os fatores de sua gênese, as propriedades

insuficientemente compreendidas e os seus pontos fracos, delineando assim novas

possibilidades de neutralizar a origem do sofrimento humano.

 

Hidromel é uma bebida alcoólica da antiguidade, anterior ao vinho e à cerveja. Histeria é um termo de diagnóstico aplicado a um estado mental de medo incontrolável ou de excesso emocional. Neste livro, o uso refere-se ao medo da verdade ou medo de pensar sobre coisas desagradáveis, para não estragar a festa de contentamento presente.

Johann Gottfried Herder – Foi um filósofo e escritor alemão do século XVIII que influenciou fortemente a literatura alemã. Sua analogia das culturas nacionais como seres orgânicos teve uma enorme influência na consciência histórica moderna – NT. Grigoriy Yefimovich Rasputin (1869-1916); místico russo que se tornou muito influente no período do czar Nicolau II. Detinha a total confiança da czarina, ainda que fosse constantemente acusado de levar uma vida imoral. Foi assassinado em dezembro de 1916 – NT.

Teleologia – é o estudo filosófico das causas finais, isto é, dos propósitos da sociedade, da humanidade, da natureza – NT. Edward Stuart Russel (1887-1954), biólogo e filósofo escocês – NT. Richard Bevan Braithwate (1900-1990), filósofo inglês especializado na filosofia da ciência – NT. Gerd Sommerhoff (1915-2002), neurocientista e professor alemão que passou boa parte da vida radicado na Inglaterra – NT. No original, trigger-happy, que é uma expressão para a pessoa que sente prazer em atirar, ansiosa por uma batalha – NT. O livro de San Michele; as memórias do médico sueco Axel Munthe (1857-1949) – NT. Austrian talk é uma expressão que significa conversa vazia. O relativo em português seria “conversa fiada” – NT. “Guerra, Guerra, Guerra! Vai ser uma Guerra legal...”

Paralogismo: discurso falso, mas que tem a aparência de verdade – NT.

CAPÍTULO IV