Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 1 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Prefácio

 

por Olavo de Carvalho

 

MUITAS VEZES O LEITOR JÁ DEVE TER-SE PERGUNTADO como é possível que tantas pessoas,

aparentemente racionais, amem e aplaudam os governos mais perversos e genocidas do mundo

e se recusem a enxergar a liberdade e o respeito de que elas próprias desfrutam nas

democracias ocidentais, ao mesmo tempo que continuam acreditando, contra todas as

evidências, que são moral e intelectualmente superiores aos que não seguem o seu exemplo.

 

Hoje em dia essas pessoas, no Brasil, são a parcela dominante no governo, no Parlamento,

nas cátedras universitárias, no show business e na mídia. A presença delas nesses altos postos

garante a este país setenta mil homicídios por ano, o crescimento recorde do consumo de

drogas, o aumento da corrupção até a escala do indescritível, cinqüenta por cento de

analfabetos funcionais entre os diplomados das universidades e, anualmente, os últimos

lugares para os alunos dos nossos cursos secundários em todos os testes internacionais, abaixo

dos estudantes de Uganda, do Paraguai e da Serra Leoa. Sem contar, é claro, indícios menos

quantificáveis, mas nem por isso menos visíveis, da deterioração de todas as relações

humanas, rebaixadas ao nível do oportunismo cínico e da obscenidade, quando não da

animalidade pura e simples.

Isso torna a pergunta ainda mais crucial e urgente. A resposta, no entanto, vem de longe.

Sessenta e tantos anos atrás, alguns estudantes de medicina na Polônia, na Hungria e na

Checoslováquia começaram a notar que havia algo de muito estranho no ar. Eles haviam

lutado na resistência antinazista junto com seus colegas, e isto havia consolidado laços de

amizade e solidariedade que, esperavam, durariam para sempre. Aos poucos, após a

instauração do regime comunista, novos professores e funcionários, enviados pelos

governantes, estavam alterando profundamente o ambiente moral nas universidades daqueles

países. Um jovem psiquiatra escreveu:

(…) sentíamos que algo estranho tinha invadido nossas mentes e algo valioso estava se esvaindo de forma irreparável.

O mundo da realidade psicológica e dos valores morais parecia suspenso em um nevoeiro gelado. Nosso sentimento humano e nossa solidariedade estudantil perderam seus significados, como também aconteceu com o patriotismo e nossos velhos critérios estabelecidos. Então, nos perguntamos uns aos outros, “isso está acontecendo com você também?”.

Impossibilitados de reagir, eles começaram a trocar idéias, perguntando como poderiam se

defender da devastação psicológica geral. Aos poucos essas conversações evoluíram para o

plano de um estudo psiquiátrico da elite dirigente comunista e da sua influência psíquica sobre

a população.

O estudo prosseguiu em segredo, durante décadas, sem poder jamais ser publicado. Aos

poucos os membros da equipe foram envelhecendo e morrendo (nem sempre de causas

naturais), até que o último deles, o psiquiatra polonês Andrej (Andrew) Lobaczewski (1921-

2007), reuniu as notas de seus colegas e compôs o livro que veio a sair pela primeira vez no

Canadá, em 2006, e que agora a Vide Editorial, de Campinas, está a publicar em tradução brasileira de Adelice Godoy: “Ponerologia: Psicopatas no Poder”, do qual extraí o parágrafo

acima.

“Poneros”, em grego, significa “o mal”. O mal, porque o traço dominante no caráter dos

novos dirigentes, que davam o modelo de conduta para o resto da sociedade, era

inequivocamente a psicopatia. O psicopata não é um psicótico, um doente mental. Só lhe falta

uma coisa: os sentimentos morais, especialmente a compaixão e a culpa. Não que ele

desconheça esses sentimentos. Conhece-os perfeitamente, mas os vivencia de maneira

puramente intelectual, como informações a ser usadas, sem participação pessoal e íntima.

Quanto maior a sua frieza moral, maior a sua habilidade de manipular as emoções dos outros,

usando-as para os seus próprios fins, que, nessas condições, só podem ser malignos e

criminosos. Justamente porque não sentem compaixão nem culpa, os psicopatas sabem

despertá-las nos outros como quem toca um piano e produz o acorde que lhe convém.

Não é preciso nenhum estudo especial para saber que, invariavelmente, o discurso

comunista, pró-comunista ou esquerdista é cem por cento baseado na exploração da

compaixão e da culpa. Isso é da experiência comum.

Mas o que o dr. Lobaczewski e seus colaboradores descobriram foi muito além desse ponto.

Eles descobriram, em primeiro lugar, que só uma classe de psicopatas tem a agressividade

mental suficiente para se impor a toda uma sociedade por esses meios. Segundo: descobriram

que, quando os psicopatas dominam, a insensitividade moral se espalha por toda a sociedade,

roendo o tecido das relações humanas e fazendo da vida um inferno. Terceiro: descobriram

que isso acontece não porque a psicopatia seja contagiosa, mas porque aquelas mentes menos

ativas que, meio às tontas, vão se adaptando às novas regras e valores, se tornam presas de

uma sintomatologia claramente histérica, ou histeriforme. O histérico não diz o que sente, mas

passa a sentir aquilo que disse – e, na medida em que aquilo que disse é a cópia de fórmulas

prontas espalhadas na atmosfera como gases onipresentes, qualquer empenho de chamá-lo de

volta às suas percepções reais abala de tal modo a sua segurança psicológica emprestada, que

acaba sendo recebido como uma ameaça, uma agressão, um insulto.

É assim que um grupo relativamente pequeno de líderes psicopáticos destrói a alma de uma

nação.