Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 14 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Anormalidades herdadas

A ciência já protege a sociedade dos resultados de algumas anomalias fisiológicas que são

acompanhadas por uma certa fraqueza psicológica. O trágico papel da hemofilia hereditária

entre a realeza européia é bem conhecido. Pessoas responsáveis, em países onde o sistema de

monarquia ainda sobrevive, procuram não permitir que uma portadora de tal gene se torne uma

rainha. Qualquer sociedade que exerça tanta preocupação sobre indivíduos com insuficiência

na coagulação sanguínea, ou outra patologia grave e que ameace a vida, deveria protestar se

um homem afligido por tal condição fosse designado para um alto cargo que trouxesse

responsabilidade sobre muitas pessoas. Esse modelo de comportamento deveria ser estendido

para muitas patologias, incluindo as anomalias psicológicas hereditárias.

Os daltônicos, homens com uma habilidade defeituosa para distinguir as cores verde e

vermelha do cinza, são agora barrados de profissões nas quais isso possa causar uma

catástrofe. Nós também sabemos que essa anomalia é sempre acompanhada por um

decréscimo na experiência estética, nas emoções e no sentimento de ligação às pessoas que

vêem as cores normalmente. Os psicólogos industriais são, assim, cuidadosos quando uma

pessoa deve ser designada para trabalhos que requerem a dependência de um senso

automático de responsabilidade, uma vez que a segurança dos trabalhadores depende desse

senso.

Foi descoberto há muito tempo que esses duas anomalias acima mencionadas – hemofilia e

daltonismo – são herdados por meios de um gene localizado no cromossomo X, e rastrear sua

transmissão através de muitas gerações não é difícil. Os geneticistas têm estudado de forma

similar a hereditariedade de muitas outras características dos organismos humanos, mas a

atenção deles para as anomalias que nos interessam aqui é escassa. Muitas características de

caráter humano têm uma base hereditária em genes localizados no mesmo cromossomo X,

embora isso não seja uma regra. Algo parecido poderia se aplicar à maioria das anomalias

psicológicas que serão discutidas a seguir.

Um progresso significativo foi feito recentemente com o conhecimento de uma série de

anomalias cromossômicas resultantes de divisões defeituosas das células reprodutivas e seus

sintomas psicológicos fenotípicos. O estado desses assuntos nos permite iniciar os estudos

sobre o seu papel ponerogenético e introduzir as conclusões que são teoricamente valiosas,

algo que, na realidade, já vem sendo feito. Na prática, contudo, a maioria das anomalias

cromossômicas não são transferidas para a próxima geração. Além do mais, seus portadores

constituem uma parte muito pequena da população como um todo, e sua inteligência geral é

mais baixa que a média da sociedade, de forma que o seu papel ponerogênico é ainda menor

que sua distribuição estatística. Muitos problemas são causados pelo cariótipo XYY,[ 46 ] que

produz homens altos, fortes e emocionalmente violentos, com uma inclinação a entrar em

confronto com a lei. Isso gerou testes e discussões, mas o seu papel no nível em que estamos

estudando aqui é ainda muito pequeno.

Muito mais numerosas são aquelas anomalias psicológicas que têm um papel

correspondentemente maior como fator patológico nos processos ponerológicos. O mais

provável é que elas sejam transmitidas através da hereditariedade normal. Contudo, esse

campo da genética, em particular, está diante de múltiplas dificuldades biológicas e psicológicas, no tocante ao reconhecimento desses fenômenos. A situação “pessoas estudando

sua psicopatologia” não preenche os critérios de separação biológica. E os biólogos não

possuem uma diferenciação psicológica clara de tais fenômenos, o que permitiria estudos da

mecânica hereditária e algumas outras propriedades.

Na época em que muitas das observações nas quais este livro está baseado estavam sendo

feitas, os trabalhos de muitos pesquisadores que posteriormente lançaram alguma luz sobre

muitos dos aspectos das questões discutidas aqui, durante a última metade dos anos sessenta,

eram inexistentes ou indisponíveis. Cientistas que estudaram os fenômenos descritos abaixo

foram abrindo seus caminhos através de uma mata de sintomas, baseados em trabalhos

anteriores e em seus próprios esforços. Um entendimento da essência de algumas dessas

características hereditárias e de seu papel ponerogênico mostrou-se uma precondição

necessária para atingir o objetivo principal. Os resultados foram coletados e serviram como

uma base para o raciocínio posterior. Para o bem do quadro geral, e porque o modo de

elaboração também traz certos valores teóricos, eu decidi manter a metodologia de descrição

para tais anomalias que surgiu do meu próprio trabalho e dos trabalhos de outros que foram

consultados na ocasião.

Numerosos cientistas, durante essa era fértil acima mencionada, e alguns cientistas que

vieram depois, tais como R. Jenkis, H. Cleckey, S. K. Ehrlich, K. C. Gray, H. C. Hutchison, F.

Kraupl Taylor e outros, lançaram nova luz sobre a questão. Eles eram médicos e concentraram

sua atenção sobre os casos mais demonstrativos que tiveram um papel menor nos processos

de gênese do mal, de acordo com regra geral da ponerologia, anteriormente mencionada. Nós,

todavia, precisamos diferenciar aqueles estados analógicos que são menos intensos ou que

contêm menos deficiências psicológicas. Igualmente valiosos para a ponerologia são as

investigações relacionadas à natureza dos fenômenos sob discussão, o que facilita a

diferenciação de sua essência e a análise de seu papel como fator patológico na gênese do

mal.

***

Esquizoidia: a esquizoidia, ou psicopatia esquizóide, foi isolada por um dos primeiros

criadores famosos da psiquiatria moderna.[ 47 ] Desde o início, ela foi tratada como uma

forma mais amena da mesma infecção hereditária que é a causa da susceptibilidade à

esquizofrenia. Contudo, essa conexão não pôde nem ser confirmada e nem negada por meio da

análise estatística, e nenhum teste biológico que pudesse resolver esse dilema foi encontrado

na ocasião. Por razões práticas, nós discutiremos a esquizoidia sem nenhuma referência a essa

relação tradicional.

A literatura nos fornece as descrições de diversas variedades dessa anomalia, cuja

existência pode ser atribuída tanto a alterações no fator genético, como a diferenças em outras

características individuais de natureza não patológica. Vamos então esboçar as características

comuns dessas duas subespécies.

Os portadores dessa anomalia são hipersensíveis e desconfiados, enquanto, ao mesmo

tempo, prestam pouca atenção aos sentimentos dos outros. Eles tendem a assumir posições

extremas e são ávidos por retaliar ofensas menores. Algumas vezes eles são excêntricos e estranhos. Seu senso pobre da situação psicológica e da realidade os leva a sobrepor

interpretações errôneas e pejorativas sobre as intenções das outras pessoas. Eles se tornam

facilmente envolvidos em atividades que são ostensivamente morais, mas que na verdade

infligem danos a eles mesmos e aos outros. Sua visão psicológica de mundo, empobrecida, faz

com que eles sejam tipicamente pessimistas em relação à natureza humana. Nós

freqüentemente encontramos expressões de suas atitudes características em suas declarações e

escritos: “A natureza humana é tão má que a ordem, na sociedade humana, somente pode ser

mantida por um poder forte criado por indivíduos altamente qualificados em nome de alguma

idéia mais elevada”. Vamos chamar essa expressão típica de “declaração esquizóide”.

A natureza humana, de fato, tende a ser perversa, especialmente quando os portadores de

esquizoidia amargam a vida das outras pessoas. No entanto, quando os esquizóides se tornam

envolvidos em situações de estresse grave, suas fraquezas fazem com que desmoronem

facilmente. A capacidade para o pensamento é, por causa disso, caracteristicamente reprimida

e, freqüentemente, os esquizóides caem em estados psicóticos reativos tão parecidos em

aparência com a esquizofrenia que levam a um diagnóstico errado.

O fator comum entre as variedades dessa anormalidade é o embotamento afetivo e a falta de

sentimento das realidades psicológicas, um fator essencial na inteligência básica. Isso pode

ser atribuído a alguma qualidade incompleta do substrato instintivo, que trabalha como se

estivesse construído sobre areia movediça. A baixa pressão emocional os habilita a

desenvolver um raciocínio especulativo apropriado, que é útil nas esferas de atividades não

humanísticas, mas por causa da sua parcialidade, eles tendem a se considerar intelectualmente

superiores às pessoas “normais”.

A frequência quantitativa dessa anomalia varia entre as raças e as nações: baixa entre os

negros, e a mais alta é entre os judeus. Estimativas dessa faixa de frequência vão de

desprezível a 3%. Na Polônia, ela pode ser estimada como sendo 0,7% da população. Minhas

observações sugerem que essa anomalia é hereditária autossômica.[ 48 ]

A atividade ponerológica do esquizóide deve ser avaliada em dois aspectos. Na escala

menor, tais pessoas causam problemas para suas famílias, e se tornam facilmente motivos de

intriga nas mãos de indivíduos espertos e inescrupulosos, e geralmente fazem um trabalho ruim

na educação de crianças. Sua tendência a ver a realidade humana em uma forma doutrinária e

simplista que eles consideram “apropriada” – “preto ou branco” – transforma suas intenções,

freqüentemente boas, em resultados ruins. Contudo, seu papel ponerogênico pode ter

implicações macrossociais se sua atitude em relação à realidade humana e sua tendência a

inventar grandes doutrinas forem colocadas no papel e reproduzidas em grandes edições.

Apesar de suas deficiências típicas, ou mesmo diante de uma declaração abertamente

esquizóide, os seus leitores não percebem como as características do autor realmente são.

Ignorantes da verdadeira condição do autor, tais leitores desinformados tendem a interpretar

tais trabalhos de um modo que corresponda à sua própria natureza. As mentes das pessoas

normais tendem em direção a uma interpretação correta devido à participação da sua própria

visão de mundo psicológica, que é mais rica.

Ao mesmo tempo, muitos outros leitores rejeitam criticamente tais trabalhos com

repugnância moral, mas sem estarem a par da causa específica.

Uma análise do papel desempenhado pelos escritos de Karl Marx revela facilmente todos os

tipos de percepção e de reações sociais acima mencionados, que criaram animosidade entre

vários grupos de pessoas.

Ao ler qualquer um desses trabalhos que causam discórdias de forma perturbadora, devemos

examiná-los cuidadosamente para o conteúdo de qualquer uma dessas anomalias

características, ou mesmo de uma declaração esquizóide formulada abertamente. Tal processo

nos habilita a ganhar uma distância crítica apropriada dos conteúdos, tornando mais fácil

procurar os elementos potencialmente valiosos fora do material doutrinário. Se isso for feito

por duas ou mais pessoas que representem interpretações amplamente divergentes, seus

métodos de percepção se aproximarão, e as causas de dissidência se dissiparão. Tal projeto

pode ser tentado como um experimento psicológico e para a manutenção da higiene mental

apropriada.

***

Psicopatia essencial: dentro da estrutura das suposições acima, vamos caracterizar um

outro tipo de anomalia transmitida por hereditariedade, cujo papel no processo ponerogênico

e m qualquer escala social parece ser excepcionalmente grande. Nós devemos também

sublinhar que a necessidade de isolar este fenômeno e examiná-lo em detalhes tornou-se

rapidamente e profundamente evidente para aqueles pesquisadores – incluindo o autor – que

estavam interessados na escala macrossocial da gênese do mal, porque eles foram testemunhas

disso. Eu reconheço meu débito com Kazimierz Dabrowski,[ 49 ] por esse trabalho e por ter

dado o nome a essa anomalia de “psicopatia essencial”.

Biologicamente falando, o fenômeno é similar ao daltonismo, mas ocorre em uma frequência

dez vezes mais baixa (ligeiramente acima de 0,5%), exceto que, ao contrário do daltonismo,

ela afeta ambos os sexos. Sua intensidade também varia em grau, desde um nível quase

imperceptível para um observador experiente até uma deficiência patológica óbvia.

Assim como o daltonismo, essa anomalia também parece representar um déficit na

transformação do estímulo, embora ocorra não no nível sensorial, mas no instintivo. Os

psiquiatras da velha escola costumavam chamar tais indivíduos de “Daltônicos de sentimentos

humanos e valores sócio-morais”.

O quadro psicológico mostra deficiências claras somente entre os homens; entre as mulheres

o tom é geralmente minimizado, talvez pelo efeito de um segundo alelo normal. Isso sugere

que a anomalia é também herdada via cromossomo X, mas através de um gene semi-

dominante. Contudo, o autor não foi capaz de confirmar isso por exclusão da hereditariedade

do pai para o filho.

A análise dos diferentes modos de vivências apresentadas por esses indivíduos nos fez

concluir que o seu substrato instintivo também é deficiente, contendo certas lacunas e carente

das respostas de sintonia naturais comumente evidenciadas por membros da espécie Homo

Sapiens. O instinto da nossa espécie é o nosso primeiro professor; ele está conosco em

qualquer lugar e por toda a nossa vida. Desenvolvem-se, sobre esse substrato instintivo

deficiente, os déficits de sentimentos superiores e as deformidades e empobrecimentos nos

conceitos sociais, morais e psicológicos, em correspondência com essas lacunas.

Nosso mundo natural de conceitos – baseados nos instintos da espécie como já descrito em

capítulo anterior – atinge o psicopata como uma convenção quase incompreensível, sem

nenhuma justificação na sua própria experiência psicológica. Eles pensam que os costumes e

os princípios de decência são uma convenção externa inventada e imposta por alguém

(“provavelmente por padres”), tola, onerosa, em alguns casos até mesmo ridícula. Ao mesmo

tempo, contudo, eles percebem facilmente as deficiências e fraquezas da nossa linguagem

natural de conceitos psicológicos e morais, de uma forma que lembra um pouco a atitude de

um psicólogo contemporâneo – exceto na caricatura.

A inteligência média do psicopata, especialmente se medida através dos testes comumente

utilizados, é um tanto mais baixa que a das pessoas normais, embora varie de forma parecida.

Apesar da ampla variedade de inteligência e interesses, esse grupo não contém exemplos de

inteligência altíssima, nem foram encontrados por nós talentos técnicos ou artísticos entre eles.

Os membros mais talentosos desse tipo podem então obter realizações naquelas ciências que

não requerem uma visão de mundo humanística correta ou habilidades práticas (a decência

acadêmica é outro assunto, no entanto). Sempre que tentamos construir testes especiais para

medir a “sabedoria de vida” ou a “imaginação sócio-moral”, mesmo que as dificuldades da

avaliação psicométrica sejam levadas em consideração, os indivíduos desse tipo demonstram

um déficit desproporcional ao seu QI pessoal.

Apesar de suas deficiências de conhecimento psicológico e moral, eles desenvolvem, e

então têm a seu dispor, um conhecimento deles mesmos que algumas vezes falta às pessoas

com uma visão de mundo natural. Eles aprendem a reconhecer um ao outro em uma

multidão, mesmo quando crianças, e desenvolvem uma ciência da existência de outros

indivíduos parecidos com eles. Eles também se tornam conscientes de serem diferentes da

multidão das outras pessoas que os envolve. Eles nos vêem com uma certa distância, como

uma variedade para-específica. As reações humanas naturais que sempre falham em chamar a

atenção de pessoas normais – porque são consideradas auto-evidentes – atingem o psicopata

como sendo esquisitas e, veja que interessante, até mesmo cômicas. Eles então nos observam,

derivando conclusões, formando seu mundo diferente de conceitos. Eles se tornam

especialistas nas nossas fraquezas e algumas vezes executam experimentos cruéis. O

sofrimento e a injustiça que eles causam não os inflige nenhuma culpa interior, uma vez que

tais reações dos outros são simplesmente um resultado do fato de serem diferentes, e se

aplicam somente a “aquelas outras” pessoas que eles não percebem como sendo exatamente da

mesma espécie. Uma pessoa normal, ou nossa visão de mundo natural, não pode conceber

completamente e nem avaliar de forma apropriada a existência desse mundo de conceitos

diferentes.

Um pesquisador de tais fenômenos pode vislumbrar o conhecimento irregular do psicopata

através de estudos de longo prazo das personalidades de tais pessoas, usando-o com alguma

dificuldade, como se fosse uma linguagem estrangeira. Como poderemos ver abaixo, tais

habilidades práticas tornam-se mais difundidas em países que são afligidos pelo fenômeno

patológico macrossocial, onde essa anomalia tem um papel inspirador.

Uma pessoa normal pode aprender a falar na linguagem conceitual do psicopata, e até

mesmo se tornar de certa forma proficiente, mas o psicopata não está apto a incorporar a visão de mundo de uma pessoa normal, embora tente fazê-lo com frequência, durante toda sua vida.

O produto de seus esforços é somente um papel e uma máscara atrás dos quais ele esconde sua

realidade dissidente.

Outro mito e outro papel que eles representam com frequência, embora contendo um núcleo

de verdade, está relacionado ao “conhecimento psicológico especial” que o psicopata adquire

em relação às pessoas normais, e que seria fruto da mente brilhante do psicopata ou de sua

genialidade; alguns deles realmente acreditam nisso e tentam insinuar esta crença para os

outros.

Ao falar da máscara de normalidade psicológica usada por tais indivíduos (e por outros

afetados em uma extensão menor), nós devemos mencionar o livro A Máscara da Sanidade,

de autoria de Hervey Cleckley, que fez com que esse fenômeno se tornasse o centro das

reflexões. Um fragmento:

Vamos nos lembrar que seu comportamento típico derrota o que aparentavam ser seus próprios objetivos. Não é ele

mesmo quem é mais profundamente enganado pela sua aparente normalidade? Embora trapaceie deliberadamente os outros e esteja de certa forma consciente de suas mentiras, ele aparenta ser incapaz de distinguir adequadamente entre as suas próprias pseudo-intenções, seu pseudo-código, pseudo-amor etc., e as respostas genuínas de uma pessoa normal. Sua falta monumental de percepção indica quão pouco ele avalia a natureza da sua anomalia. Quando os outros falham em aceitar imediatamente seu “mundo de honra como um cavalheiro”, seu assombro, eu acredito, é sempre genuíno. Sua experiência subjetiva é tão artificial em relação às emoções profundas, que ele é invencivelmente ignorante sobre o que a vida significa para os outros.

Sua consciência do contrário da hipocrisia é tão carente de fundamento teórico que se torna questionável no caso de

atribuirmos a ele o que de fato entendemos como hipocrisia. Não tendo ele mesmo nenhum valor maior, seria possível afirmar que ele percebe adequadamente a natureza e a qualidade dos horrores que sua conduta causa aos outros? Uma criança pequena que não tem uma memória impressionante de dor intensa pode ter ouvido de sua mãe que é errado cortar o rabo do cachorro. Mesmo sabendo que é errado, ela pode continuar com a operação. Nós não a absolveremos totalmente da responsabilidade se dissermos que ela tem menos consciência do que fez do que um adulto que, em plena avaliação da agonia física, resolve usar uma faca. Uma pessoa pode experimentar níveis profundos de tristeza sem um conhecimento considerável da felicidade? Ela pode ter uma má intenção em seu sentido pleno, sem a consciência real do

oposto do mal? Eu não tenho uma resposta final a essas questões.[ 50 ]

Todos os pesquisadores da psicopatia destacam três qualidades principais com relação à

sua variação mais típica: a ausência de um senso de culpa pelas ações antissociais, a

inabilidade de amar verdadeiramente e a tendência para ser tagarela, de um modo que se

desvia facilmente da realidade.

Um paciente neurótico é geralmente taciturno e tem dificuldades para explicar o que o

machuca mais. Um psicólogo deve saber como superar esses obstáculos com a ajuda de

interações não dolorosas. Os neuróticos também são sujeitos à culpa excessiva por ações que

são facilmente perdoáveis. Tais pacientes são capazes de amor decente e duradouro, embora

tenham uma dificuldade em expressá-lo ou em atingir os seus sonhos. O comportamento do

psicopata constitui a antípoda de tais fenômenos e dificuldades.

Nosso primeiro contato com o psicopata é caracterizado por um fluxo de palavras que sai

com facilidade, evitando assuntos realmente importantes com igual facilidade se estes não

forem confortáveis para o interlocutor. Sua linha de pensamento também evita aqueles

assuntos abstratos sobre sentimentos humanos e valores cuja representação é ausente na visão

de mundo do psicopata, a menos que, é claro, ele esteja sendo deliberadamente enganador, e

neste caso usará muitas palavras “sentimentais” que, cuidadosamente analisadas, revelarão

que ele não entende essas palavras do mesmo jeito que as pessoas normais o fazem. Nós, então, também sentimos que estamos lidando com uma imitação dos padrões de pensamento de

uma pessoa normal, na qual alguma outra coisa é, na verdade, “normal”. Do ponto de vista

lógico, o fluxo de pensamento é aparentemente correto, embora talvez removido dos critérios

comumente aceitos. Um análise formal mais detalhada, contudo, evidencia o uso de muitos

paralogismos sugestivos.

Indivíduos com a psicopatologia que estamos descrevendo aqui são virtualmente não

familiarizados com emoções duradouras de amor por outra pessoa, particularmente pelo

parceiro de casamento. Isso constitui um conto de fadas daquele “outro” mundo humano.

Amor, para o psicopata, é um fenômeno efêmero voltado para a aventura sexual. Muitos Dons

Juans psicopatas são capazes de representar um papel de amante suficientemente bem, a ponto

de seus parceiros considerarem genuíno. Depois do casamento, sentimentos que realmente

nunca existiram são substituídos por egoísmo, egotismo e hedonismo. A religião, que ensina o

amor ao próximo, também o atinge como se fosse um conto de fadas, bom somente para

crianças e para aqueles “outros” diferentes.

Alguém pode esperar que eles se sintam culpados como consequência de seus muitos atos

antissociais, contudo sua falta de culpa é o resultado de todos os seus déficits, os quais temos

discutido aqui.[ 51 ] O mundo das pessoas normais, que eles machucam, é incompreensível e

hostil para eles, e a vida para o psicopata é a busca de suas atrações imediatas, momentos de

prazer e sentimentos temporários de poder. Eles freqüentemente se encontram com a falha no

decorrer de suas vidas, juntamente com a força e a condenação moral da sociedade composta

por aquelas outras pessoas incompreensíveis.

No seu livro Psicopatia e Delinquência, W. e J. McCord dizem o seguinte sobre eles:

O psicopata sente pouca, se alguma, culpa. Ele pode cometer os atos mais horripilantes, e ainda vê-los sem remorso. O

psicopata tem uma capacidade deturpada para o amor. Suas relações emocionais, quando existem, são escassas, efêmeras e planejadas para satisfazer seus próprios desejos. Esses dois últimos traços, falta do sentimento de culpa e falta

de amor, marcam visivelmente o psicopata como diferente dos demais homens.[ 52 ]

O problema da moral e da responsabilidade legal do psicopata permanece, então, em aberto

e sujeito a várias soluções, freqüentemente sumárias ou emocionais, em vários países e

circunstâncias. Permanece como um assunto de discussão cuja solução não parece possível

dentro da estrutura dos princípios atualmente aceitos do pensamento legal.

***

Outras psicopatias: Os casos de psicopatia essencial parecem ser suficientemente similares

uns aos outros, o que possibilita que sejam classificados como qualitativamente homogêneos.

Contudo, nós podemos também incluir nas categorias de psicopatia um certo número

indeterminado de anomalias com um substrato hereditário, cujos sintomas são próximos a esse

fenômeno mais típico.

Nós também encontramos indivíduos difíceis, com uma tendência a se comportar de um

modo prejudicial para as outras pessoas, para os quais os testes não indicam que exista uma

anomalia no tecido cerebral e a anamnese não detecta experiências de uma infância anormal,

que poderiam explicar o seu estado. O fato de que tais casos se repitam dentro de famílias

sugere que exista um substrato hereditário, mas nós devemos também levar em conta a

possibilidade de que fatores nocivos participem do estágio fetal. Essa é uma área da medicina e da psicologia que requer mais estudo, uma vez que há mais para aprender do que já

conhecemos concretamente.

Tais pessoas também tentam mascarar seu mundo diferente de experiências e assim

representar um papel de pessoas normais, em vários graus, embora esta não seja a máscara

descrita por Cleckley. Alguns são notáveis pelas demonstrações de sua estranheza. Essas

pessoas participam na gênese do mal de várias formas diferentes, seja fazendo parte

diretamente ou, em uma extensão menor, quando conseguiram se adaptar aos modos

apropriados de vida. Essas psicopatias e fenômenos relacionados podem, quantitativamente

falando, ser estimados sumariamente em duas a três vezes os casos de psicopatia essencial, ou

seja, menos que 2% da população.

Esse tipo de pessoa acha mais fácil se ajustar à vida social. Nos casos mais amenos, em

particular, elas se adaptam às demandas da sociedade das pessoas normais, levando vantagem

de seu entendimento para as artes e outras áreas com tradições similares. Sua criatividade

literária é sempre perturbadora se concebida somente em categoria ideais; elas insinuam para

seus leitores que seu mundo de conceitos e experiências é auto-evidente; e também que contém

deformidades características.

Entre essas psicopatias, a mais freqüentemente demonstrada, e conhecida de longa data, é a

psicopatia astênica, que se manifesta em todas as intensidades concebíveis, desde quase

imperceptível até uma anomalia patológica óbvia.

Essas pessoas, astênicas e hipersensíveis, não demonstram a mesma anomalia evidente nos

sentimentos morais e na capacidade de perceber as situações psicológicas, como ocorre com

os psicopatas essenciais. Elas são, de certa forma, idealistas, e tendem a ter uma certa

angústia na consciência quando seu comportamento é faltoso.

Na média, elas também são menos inteligentes que as pessoas normais e suas mentes evitam

a consistência e a precisão de raciocínio. Sua visão de mundo psicológica é claramente

falsificada, de forma que suas opiniões sobre as pessoas nunca podem ser confiáveis. Um tipo

de máscara oculta o mundo das suas aspirações pessoais, que está em desacordo com o que

elas são realmente capazes de fazer. Seu comportamento em relação às pessoas que não

percebem suas falhas é cortês, até mesmo amigável. Contudo, manifestam uma agressão e

hostilidade preventiva contra pessoas que possuem talentos para a psicologia, ou que

demonstram conhecer este campo.

A psicopatia astênica é relativamente menos vital, sexualmente falando, e é, portanto,

receptiva à aceitação do celibato; este é o motivo pelo qual muitos monges e padres Católicos

representam com frequência casos amenos ou menores dessa anomalia. Tais indivíduos podem

muito bem ter inspirado a atitude anti-psicológica tradicional no pensamento da Igreja.

Nos casos mais graves, os astênicos são brutalmente mais anti-psicológicos e altivos em

relação às pessoas normais; eles tendem a ser ativos nos processos de gênese do mal em uma

escala ampla. Seus sonhos são compostos de um certo idealismo similar às idéias das pessoas

normais. Eles gostariam de reformar o mundo, para que ficasse conforme seu gosto, mas são

incapazes de visualizar as implicações e os resultados de mais longo prazo. Inspiradas pelo

desvio, suas visões podem influenciar rebeldes ingênuos ou pessoas que sofreram alguma

injustiça. A existência de injustiça social pode parecer uma justificativa para uma visão de mundo radicalizada e para a assimilação de tais visões.

Abaixo, segue um exemplo de um padrão de pensamento de uma pessoa que demonstra um

caso típico e grave de psicopatia astênica:

 

“Se eu tivesse que começar a minha vida de novo, eu faria tudo SINTOMA:

exatamente da mesma forma: é uma necessidade orgânica e não UM SENTIMENTO DE }

uma sentença obrigatória. Eu tenho uma coisa que me mantém em SER DIFERENTE

movimento e que faz com que eu seja sereno mesmo quando as A NOSTALGIA SUPERFICIAL CARACTERÍSTICA DESTA }

coisas são tão tristes. Isso é uma fé inabalável nas pessoas. As PSICOPATIA

condições mudarão e o mal deixará de reinar, e os homens serão

irmãos entre si, e não lobos como é o caso de hoje em dia. Minha VISÃO DE UM MUNDO NOVO. CONHECIMENTO }

paciência deriva não da minha imaginação, mas muito mais da PSICOLÓGICO DIFERENTE

minha visão clara da causa que faz com que o mal se origine”.

 

Essas palavras foram escritas na prisão, em 15 de dezembro de 1913, por Felix Dzerzhinsky,

um descendente da aristocracia polonesa que logo se juntou para originar a Cherezvichayka,[

53 ] na União Soviética, e se tornar um dos maiores idealistas entre esses famosos assassinos.

A psicopatia surge em todas as nações.[ 54 ]

Se algum dia chegar o tempo em que “as condições mudarão” e o “mal deixará de reinar”,

será porque o progresso no estudo dos fenômenos psicopatológicos e sua função ponerogênica

tornará possível às sociedades aceitar calmamente a sua existência e compreendê-los como

categorias da natureza. A visão de uma nova estrutura justa de sociedade pode então ser

concebida no âmbito e sob o controle de pessoas normais. Tendo nos reconciliado com o fato

de que tais pessoas são diferentes e têm capacidades limitadas para a adaptação social, nós

deveríamos criar um sistema de proteção permanente para elas, em uma estrutura de

conhecimento apropriada e racional, um sistema que faria com que seus sonhos se tornassem

parcialmente realidade.

Para nossos propósitos, devemos também prestar atenção aos tipos com características

irregulares; estes tipos foram isolados, há relativamente bastante tempo, por Edward

Brzezicki[ 55 ] e aceitos por Enerst Kretschmer,[ 56 ] como característicos do ocidente

europeu em particular. Skirtóides[ 57 ] são indivíduos vitais, egotistas e caras de pau, que dão

bons soldados por causa de sua persistência e resistência psicológica. Em tempos de paz,

contudo, eles são incapazes de entender os assuntos sutis da vida ou de educar crianças de

forma prudente. Eles são felizes em ambientes primitivos; um ambiente confortável causa

facilmente a tendência à histeria. Eles são rigidamente conservadores em todas as áreas e

apoiadores de governantes que governam com mão pesada.

Kretschmer achava que essa anomalia era o fenômeno biodinâmico causado pelo cruzamento

de dois grupos étnicos amplamente separados, o que é freqüente naquela área da Europa. Se

esse fosse o caso, os Estados Unidos estariam lotados de skirtóides, uma hipótese que merece

observação. Nós podemos assumir que o skirtoidismo é herdado normalmente; não é ligado ao

cromossomo sexual. Essa anomalia deveria ser levada em consideração se quisermos entender

a história da Rússia, assim como a história da Polônia, em uma menor medida.

Outra questão interessante se sugere: que tipo de pessoa são os chamados “chacais”,

contratados como matadores mercenários e profissionais por vários grupos, e que tão

rapidamente e facilmente empunham armas como meios para uma batalha política? Eles se oferecem como especialistas que executam a obrigação tal como aceita; nenhum sentimento

humano interfere em seus planos abomináveis. Eles não são, muito provavelmente, pessoas

normais, mas nenhuma das anomalias descritas aqui se encaixa nesse quadro. Como regra,

psicopatas essenciais são falantes e incapazes de tais atividades cuidadosamente planejadas.

Talvez nós devêssemos assumir que esse tipo é produto de um cruzamento entre problemas

menores de vários desvios. Mesmo que aceitemos a probabilidade estatística de que estes

híbridos possam aparecer, levando em conta os dados quantitativos, eles deveriam ser

fenômenos extremamente raros. Contudo, a psicologia de seleção de pares produz

emparelhamentos que, de forma bilateral, representam várias anomalias. Os portadores de

dois, ou até três fatores de desvio menores, deveriam assim ser mais freqüentes. Um chacal

poderia então ser imaginado como o portador de características esquizóides, em combinação

com alguma outra psicopatia, isto é, psicopatia essencial ou skirtoidismo. Exemplos mais

freqüentes de tais híbridos são uma grande parte do conjunto de fatores ponerogênicos-

patológicos-hereditários da sociedade.

***

As caracterizações acima são exemplos selecionados de fatores patológicos que participam

nos processos ponerogênicos. A literatura crescente nessa área fornece aos leitores

interessados uma ampla faixa de dados e, muitas vezes, descrições detalhadas de tais

fenômenos. O estado atual do conhecimento nessa área, contudo, é ainda insuficiente para

produzir soluções práticas para os muitos problemas que os seres humanos encaram,

particularmente aqueles em uma escala individual e familiar. Os estudos da natureza biológica

destes fenômenos são necessários para esse propósito.

Eu gostaria de avisar aos leitores que não possuem conhecimento e experiência próprios

nessa área para que não fiquem com a impressão de que o mundo que os cerca é dominado por

indivíduos com desvios patológicos, sejam eles descritos aqui ou não; ele não é. A

representação gráfica a seguir, na forma de círculos, mostra a presença aproximada de

indivíduos com várias anomalias psicológicas dentro de uma sociedade.

***

Fenômenos patológicos representados na proporção aproximada de sua ocorrência:

O fato de que indivíduos com desvios são uma minoria deveria ser enfatizado, cada vez

mais, em face da existência de teorias a respeito do papel excepcionalmente criativo de

indivíduos anormais, e mesmo de uma identificação da genialidade humana com a psicologia

da anormalidade. Contudo, a parcialidade dessas teorias parece ser derivada de pessoas que

estão à procura da afirmação de suas próprias personalidades por meio de tal visão de mundo.

Pensadores renomados, descobridores e artistas têm sido também espécimes de normalidade

psicológica, qualitativamente falando.

Afinal de contas, as pessoas psicologicamente normais constituem tanto a grande maioria

estatística, como também a base real da vida em sociedade, em cada comunidade. De acordo

com a lei natural, elas deveriam então ser aquelas que determinam o passo; a lei moral é

derivada de sua natureza. O poder deve estar nas mãos das pessoas normais. Um

ponerologista pede somente que tal autoridade seja atribuída com um entendimento apropriado

dessas pessoas “menos normais”, e que a lei tenha por base tal entendimento.

A composição quantitativa e qualitativa dessa fração da população bio-psicologicamente

deficiente certamente varia no tempo e no espaço em nosso planeta. Isso pode ser

representado por um percentual de um dígito em alguma nações, e em outras fica entre 10 e 20

por cento. Essa estrutura quantitativa e qualitativa influencia todo o clima psicológico e moral

do país em questão. E é por isso que esse problema deve ser uma preocupação consciente.

Todavia, é digno de nota que a evidência sugere que os sonhos de poder, tão freqüentemente

presentes nesses círculos, não se manifestam sempre e necessariamente por completo em

países onde esse percentual tem sido mais alto. Outras circunstâncias históricas também foram

decisivas.

Em qualquer sociedade do mundo, indivíduos psicopatas e algum dos outros tipos

irregulares criam uma rede comum de conluios, ponerogenicamente ativa, e parcialmente

alienada da comunidade das pessoas normais. O papel inspiracional da psicopatia essencial, nessa rede, parece ser um fenômeno comum. Eles tomam ciência de que são diferentes

conforme vão obtendo suas experiências de vida e se tornando familiares com modos

diferentes de lutar por seus objetivos. Seu mundo é para sempre dividido entre “nós e eles”;

entre seu pequeno mundo com suas leis e costumes próprios e aquele outro mundo estranho,

das pessoas normais, as quais eles enxergam como cheias de idéias e costumes arrogantes

pelos quais eles são condenados moralmente. Seu senso de honra os permite trapacear e

insultar aquele outro mundo humano e seus valores a cada oportunidade. Em contradição aos

costumes das pessoas normais, eles sentem que quebrar as suas promessas é um

comportamento apropriado.

Uma das coisas mais perturbadoras que as pessoas normais têm que lidar em relação aos

psicopatas é o fato de que eles aprendem, muito cedo, como suas personalidades podem ter

efeitos traumatizantes sobre as personalidades daquelas outras pessoas normais, e como levar

vantagem desse terror com o propósito de atingir os seus objetivos. Essa dicotomia de mundos

é permanente e não desaparece, mesmo se eles forem bem sucedidos em realizar o seu sonho

de juventude, ganhando poder sobre a sociedade das pessoas normais. Isso sugere, fortemente,

que a separação é biologicamente condicionada.

No psicopata, um sonho emerge como um tipo de utopia de um mundo “feliz” e de um

sistema social que não os rejeite, nem os force a se submeter a leis e costumes cujo

significado é incompreensível para eles. Eles sonham com um mundo no qual seu modo

simples e radical de experimentar e perceber a realidade fosse o modo dominante, onde eles

poderiam, é lógico, garantir segurança e prosperidade. Nesse sonho utópico, eles imaginam

que aqueles “outros”, diferentes, mas também tecnicamente mais habilidosos do que eles,

deveriam ser colocados para trabalhar de forma a atingir esse objetivo para os psicopatas e

outros do seu tipo. “Nós”, eles dizem, “afinal de contas, criaremos um novo governo, de

justiça”. Eles são preparados para lutar e para sofrer pelo bem deste novo mundo corajoso e,

também, é claro, para infligir o sofrimento sobre os outros. Essa visão justifica matar as

pessoas, cujo sofrimento não lhes causa compaixão, porque “eles” não são exatamente da

mesma espécie. Eles não percebem que encontrarão, consequentemente, uma oposição que

poderá permanecer por gerações.

Subordinar uma pessoa normal a indivíduos psicologicamente anormais traz consequências

graves e deformantes à sua personalidade: gera trauma e neurose. Isso é executado de uma

forma que geralmente escapa dos controles conscientes. Tal situação priva a pessoa dos seus

direitos naturais: praticar sua própria higiene mental, desenvolver uma personalidade

suficientemente autônoma e utilizar seu senso comum. À luz da lei natural, isso constitui um

tipo de crime – que pode ocorrer em qualquer classe social, em qualquer contexto – embora

não seja mencionado em quaisquer códigos de leis.

Nós já discutimos a natureza de algumas personalidades patológicas, como por exemplo a

caracteropatia frontal, e como elas podem deformar as personalidades daqueles com quem

interagem. A psicopatia essencial tem efeitos excepcionalmente intensos. Alguma coisa

misteriosa consome a personalidade de um indivíduo à mercê de um psicopata, e passa a ser

combatida como se fosse um demônio. Suas emoções se tornam frias, seu senso de realidade

psicológica é reprimido. Isso leva à “descriterialização” do pensamento e a um sentimento de impotência, culminando em reações depressivas que podem ser tão graves que, em alguns

casos, os psiquiatras fazem o diagnóstico equivocado de psicose maníaco-depressiva. Muitas

pessoas se rebelam contra uma dominação psicopata muito antes de chegar a tal ponto de

crise, e começam a buscar por algum modo de se libertarem de tal influência.

Muitas situações na vida envolvem resultados bem menos misteriosos da influência de

outras anomalias psicológicas sobre as pessoas normais (que são sempre desagradáveis e

destrutivas) e as tendências inescrupulosas de seus portadores de dominar e levar vantagem

sobre os outros. Governadas por experiências e sentimentos desagradáveis, assim como por

um egoísmo natural, as sociedades têm, então, boas razões para rejeitar tais pessoas, ajudando

a empurrá-las para posições marginais na vida social, que incluem a pobreza e a

criminalidade.

Infelizmente, é praticamente uma regra que tal comportamento seja passível de justificativas

moralistas nas categorias da nossa visão de mundo natural. Muitos membros da sociedade

sentem-se no direito de proteger suas próprias pessoas e propriedades e, portanto, de aprovar

leis para tal propósito. Baseadas na percepção natural dos fenômenos e em motivações

emocionais, em vez de um entendimento objetivo dos problemas, tais leis, de forma alguma,

servem para garantir o tipo de ordem e de segurança que nós gostaríamos. Os psicopatas e

outros portadores de desvios percebem tais leis meramente como uma força que precisa ser

combatida.

Para indivíduos com várias anomalias psicológicas, a estrutura social dominada pelas

pessoas normais e seu mundo conceitual parecem ser um “sistema de força e opressão”. Os

psicopatas chegam a tal conclusão como uma regra. Se, ao mesmo tempo, um pouco de

injustiça de fato existir em uma dada sociedade, os sentimentos patológicos de falsidade e as

declarações sugestivas que emanam dos portadores de desvios podem ressoar entre aqueles

que estão verdadeiramente sendo tratados injustamente. As doutrinas revolucionárias podem,

então, ser facilmente propagadas entre ambos os grupos, embora cada grupo tenha razões

completamente diferentes para favorecer tais idéias.

***

A presença de bactérias patogênicas no nosso ambiente é um fenômeno comum. Contudo,

não é um único fator decisivo que determina se um indivíduo ou uma sociedade ficaram

doentes, uma vez que a imunidade natural ou artificial, assim como a assistência médica,

também têm um papel no cenário. Da mesma forma, os fatores psicopatológicos sozinhos – por

si mesmos – não decidem sobre a propagação do mal. Outros fatores têm importância

paralela: condições socioeconômicas e deficiências morais e intelectuais.

Os indivíduos e as nações que estão capacitados para suportar a injustiça em nome de

valores morais, podem encontrar mais facilmente uma saída para tais dificuldades, sem o uso

de métodos violentos. Nesse sentido, uma tradição moral rica contém experiências e reflexões

de séculos. Esse livro descreve a regra desses fatores adicionais na gênese do mal, que têm

sido insuficientemente compreendidos por séculos. Tais explicações são essenciais para

completar o quadro total e permitir que medidas práticas mais efetivas sejam formuladas.

Assim, enfatizar a regra dos fatores patológicos na gênese do mal não minimiza a responsabilidade das falhas sociais morais e das deficiências intelectuais em contribuir para a

situação. Os déficits morais reais e uma concepção grosseiramente inadequada da realidade

humana e das situações psicológicas e morais são freqüentemente causados por alguma

atividade anterior ou contemporânea da parte dos fatores patológicos.

Contudo, nós devemos também reconhecer a presença constante e biologicamente

determinada, dentro de toda sociedade humana, dessa minoria pequena de indivíduos

portadores de fatores patológicos qualitativamente diversos, mas ponerologicamente ativos.

Qualquer discussão sobre o que vem primeiro no processo de gênese do mal, as falhas morais

ou as atividades dos fatores patológicos, pode então ser considerada como especulação

acadêmica. Por outro lado, vale a pena reler a Bíblia, com os olhos de um ponerologista.

Análises detalhadas da personalidade das pessoas normais medianas quase sempre revelam

condições e dificuldades causadas pelos efeitos de algum tipo de fator patológico sobre elas.

Se a atividade foi removida para longe, seja no tempo ou no espaço, ou se o fator é

relativamente óbvio, o senso comum saudável é geralmente suficiente para corrigir tais

efeitos. Se o fator patológico permanece incompreensível, a pessoa tem dificuldade de

entender a causa desses problemas. Algumas vezes, essas pessoas parecem permanecer uma

vida inteira como escravas de imaginações e padrões de resposta comportamental que foram

originados sob a influência de indivíduos patológicos. Isso foi o que ocorreu na família acima

mencionada, na qual a origem da indução patológica foi a irmã mais velha com dano perinatal

dos campos pré-frontais de seu córtex cerebral. Mesmo quando ela, obviamente, abusou do

seu filho mais novo, seus irmãos tentaram interpretar o fato de um modo paramoralístico, um

sacrifício em nome da “honra da família”.

Tais assuntos deveriam ser ensinados para todo mundo, de forma a facilitar um

monitoramento auto-pedagógico automático. Certos psicopatologistas reconhecidos se

convenceram que é impossível desenvolver uma visão funcional saudável da realidade

humana sem detalhar as descobertas psicopatológicas, uma conclusão difícil de ser aceita

pelas pessoas que acreditam ter atingido uma visão de mundo amadurecida sem tais estudos

onerosos. Os defensores egotistas e mais antigos da visão de mundo natural têm a tradição, as

belas letras, e até mesmo a filosofia do seu lado. Eles realmente não percebem que, durante o

tempo atual, seu jeito de compreender as questões da vida torna a batalha contra o mal mais

problemática. Contudo, a geração mais nova é mais familiar com a biologia e com a

psicologia e, portanto, mais receptiva a um entendimento objetivo do papel dos fenômenos

patológicos no processo de gênese do mal.

A paralaxe,[ 58 ] muitas vezes até mesmo uma lacuna grande, ocorre freqüentemente entre as

realidades humana e da sociedade, que é biológica por natureza e com frequência influenciada

pela recusa, já mencionada, em detalhar os elementos psicopatológicos, assim como pelas

percepções tradicionais da realidade que foram ensinadas pela filosofia, pela ética e pelas

leis seculares e canônicas. Essa lacuna é facilmente discernível para aquelas pessoas cuja

visão de mundo psicológica foi formada de um modo diferente do caminho natural de uma

pessoa normal. Muitos deles, conscientemente e subconscientemente, tiram vantagem dessa

fraqueza, forçando a si mesmos para dentro dela, junto com suas atividades determinadas de

forma míope, caracterizadas por conceitos egoístas de interesse próprio. Todavia, as pessoas, seja pela indiferença patológica ao sofrimento de outras pessoas ou nações, ou seja por falta

de conhecimento do que é humano e decente, encontram assim uma porta aberta para impor seu

modo de vida diferente através das sociedades descomprometidas.

Nós estaremos, algum dia, aptos a superar esse antigo problema de humanidade, em algum

momento, nem que seja em um futuro indeterminado, com a assistência das ciências biológicas

e psicológicas que progridem no estudo dos vários fatores patológicos participantes dos

processos ponerogênicos? Isso dependerá do apoio das sociedades em questão. A consciência

científica e social dos papéis representados pelos fatores acima mencionados na gênese do

mal ajudará a opinião pública na elaboração de uma posição apropriada contra o mal, que

então deixará de ser tão misteriosamente fascinante. Se modificadas de modo apropriado,

baseado no entendimento da natureza dos fenômenos, as leis permitirão contramedidas

profiláticas para a origem do mal.

No decorrer dos séculos, todas as sociedades foram sujeitas a processos eugênicos naturais

que fizeram com que indivíduos com imperfeições, incluindo aqueles com as características

mencionadas acima, fossem colocados de lado na competição reprodutiva ou tivessem sua

taxa de nascimento reduzida. Esses processos raramente são vistos como tais, sendo

freqüentemente filtrados pelo mal que os acompanha ou por outras condições que os relegue,

aparentemente, a um pano de fundo. Uma compreensão consciente desses assuntos, com base

no entendimento apropriado e num critério moral aproximado, poderia tornar esses processos

menos tempestuosos em sua forma e não tão cheios de experiências amargas. Se a ciência e a

consciência humana fossem apropriadamente formadas e se a devida atenção fosse dada aos

bons conselhos, o balanço desses processos poderia ser inclinado de forma acentuada em uma

direção positiva. Depois de um certo número de gerações, a carga de pessoas da sociedade

com fatores patológicos herdados seria reduzida para baixo de um certo nível crítico, e sua

participação nos processos ponerogênicos começaria a desaparecer.