Ponerologia: Psicopatas no Poder
Anormalidades adquiridas
O tecido cerebral é muito limitado em sua capacidade regenerativa. Se ele é danificado e
esta alteração é ulteriormente cicatrizada, pode ocorrer um processo de reabilitação, de forma
que os tecidos saudáveis que estão próximos assumem a função das partes afetadas. Essa
substituição não é sempre perfeita, de forma que algumas deficiências de habilidade e nos
processos psicológicos apropriados podem ser detectadas, mesmo em casos de lesões bem
pequenas, através do uso de testes apropriados.
Os especialistas estão cientes das diferentes causas para a origem de tais lesões, incluindo
traumas e infecções. Nós devemos apontar aqui que os resultados psicológicos de tais
alterações, como pudemos observar muitos anos depois, são muito mais dependentes da
localização da lesão mesma na massa cerebral, tanto na superfície como dentro dela, do que
da causa que a originou. A qualidade dessas consequências também depende de quando elas
ocorreram no decorrer da vida da pessoa. Em relação aos fatores patológicos dos processos
ponerogênicos, lesões no período perinatal ou na primeira infância têm resultados mais ativos
que danos ocorridos em períodos posteriores.
Nas sociedades com assistência médica altamente desenvolvida, nós encontramos entre as
séries mais baixas do ensino fundamental (quando testes podem ser aplicados), que de 5 a 7%
das crianças sofreram lesões do tecido cerebral que causaram certas dificuldades acadêmicas
ou de comportamento. Esse percentual aumenta com a idade. A assistência médica moderna
contribuiu para um decréscimo quantitativo de tais fenômenos, mas em certos países
relativamente não civilizados, e durante tempos históricos, as indicações de dificuldades
causadas por tais mudanças foram e têm sido mais freqüentes.
A epilepsia e as suas muitas variações constituem o resultado conhecido mais antigo de tais
lesões; ela é observada em um número relativamente pequeno de pessoas sofrendo desta
lesão. Os pesquisadores nesses assuntos são mais ou menos unânimes em acreditar que Júlio
César e, mais tarde, Napoleão Bonaparte, tinham ataques epilépticos. Foram provavelmente
exemplos de epilepsia vegetativa causada por lesões que permaneceram profundamente,
dentro do cérebro, próximo aos centros vegetativos. Essa variedade não causa demência
subsequente. A extensão dos efeitos negativos dessas indisposições escondidas sobre o
caráter e o modo de tomar decisões, ou a afirmação de que as mesmas tiveram um papel
ponerogênico, pode ser o assunto de um estudo e de uma avaliação à parte, de grande
interesse. Na maioria dos casos, contudo, a epilepsia é uma indisposição evidente, o que
limita seu papel como fator ponerogênico.
Em um segmento muito mais amplo de portadores de lesões no tecido cerebral, a
deformação negativa de seus caracteres cresce com o decorrer do tempo. Ela assume
representações mentais variadas, dependendo das propriedades e da localização destas
alterações, de seu momento de origem e ainda das condições de vida do indivíduo após sua
ocorrência. Nós chamaremos esses transtornos de caráter – caracteropatias. Algumas
caracteropatias têm um papel importante como agente patológico nos processos de gênese do
mal. Vamos então caracterizar os transtornos mais ativos.
As caracteropatias revelam uma certa qualidade similar, se o quadro clínico não é ofuscado
pela coexistência de outras anomalias mentais (em geral, herdadas), que muitas vezes ocorrem na prática. O tecido cerebral sem lesões retém as propriedades psicológicas naturais da nossa
espécie. Isso é particularmente evidente nas respostas instintiva e afetiva, que são naturais,
embora sempre insuficientemente controladas. A experiência de pessoas com tais anomalias
cresce no meio do mundo das pessoas normais, ao qual elas pertencem por natureza. Então, o
seu modo de pensar diferente, sua violência emocional e o seu egotismo encontram uma
entrada relativamente fácil na mente das outras pessoas, e são percebidos dentro das
categorias do mundo cotidiano. Tal comportamento por parte das pessoas que possuem tais
transtornos de caráter traumatiza a mente e os sentimentos das pessoas normais, diminuindo
gradualmente a habilidade destas de usar seu senso comum. Apesar da sua resistência, as
vítimas da caracteropatia acabam se acostumando aos hábitos rígidos dos pensamentos e da
experiência patológica. Se as vítimas são pessoas jovens, o resultado é que a personalidade
sofre um desenvolvimento anormal, levando à sua malformação. As caracteropatias e suas
vítimas representam fatores ponerogênicos patológicos que, por sua atividade encoberta,
produzem facilmente novas fases na eterna gênese do mal, abrindo a porta para uma ativação
posterior de outros fatores que, por conta disso, assumem o papel principal.
Um exemplo relativamente bem documentado de tal influência de uma personalidade
caracteropática em uma escala macrossocial é o último imperador alemão, Guilherme II.[ 35 ]
Ele foi vítima de um trauma cerebral no nascimento. Durante seu reinado inteiro, e também
depois, sua deficiência física e psicológica foi escondida do conhecimento público. As
habilidades motoras da parte superior esquerda do seu corpo eram limitadas. Quando garoto,
ele tinha dificuldades para aprender gramática, geometria e desenho, que constituem a tríade
típica das dificuldades acadêmicas causadas pelas lesões cerebrais menores. Ele desenvolveu
uma personalidade com características infantis e com controle insuficiente sobre as suas
emoções, e também um modo de certa forma paranóico de pensar, que facilmente o fazia
colocar de lado o cerne de alguns assuntos importantes, no processo de esquivar-se dos
problemas.
Poses militaristas e um uniforme de general foram uma compensação para os seus
sentimentos de inferioridade e efetivamente ocultaram suas desvantagens. Politicamente, seu
controle emocional insuficiente e os fatores de rancor pessoal vieram à tona. O velho
Chanceler de Ferro[ 36 ] tinha que sair, aquele político perspicaz e cruel que tinha sido leal à
monarquia e que construiu o poder prussiano. Afinal, ele sabia demais sobre os defeitos do
príncipe e havia trabalhado contra a sua coroação. Um mesmo destino encontraram outras
pessoas muito críticas, que foram trocadas por pessoas com menos cérebro, mais
subserviência e, algumas vezes, com anomalias psicopatológicas discretas. A seleção
negativa aconteceu.
Uma vez que as pessoas comuns estavam inclinadas à identificação com o imperador e,
através do imperador, com um sistema de governo, o material caracteropático que emanava do
Kaiser trouxe como resultado, para muitos alemães, a privação progressiva de sua habilidade
para utilizar o seu senso comum. Uma geração inteira cresceu com deformidades psicológicas
em relação ao sentimento e entendimento das realidades moral, psicológica, social e política.
É extremamente típico que em muitas famílias alemãs onde houvesse um membro que fosse
psicologicamente não muito normal, tornou-se matéria de honra (mesmo desculpando condutas desprezíveis) esconder esse fato da opinião pública, e mesmo dos amigos mais próximos e
parentes. Grande parte da sociedade alemã ingeriu material psicopatológico, junto com o
modo não realístico de pensamento, no qual slogans assumem o poder da argumentação e
dados reais são sujeitos à seleção subconsciente.
Isso ocorreu durante uma época em que uma onda de histeria foi crescendo através da
Europa, incluindo uma tendência de predominância das emoções e da presença de um
elemento de histrionismo nos comportamentos humanos. O modo como o pensamento sóbrio
de um indivíduo pode ser aterrorizado por um comportamento colorido com tais materiais foi
evidenciado particularmente pelas mulheres. Isso dominou progressivamente três impérios e
outros países do continente.
Em que extensão Guilherme II contribuiu para isso, em conjunto com outros dois
imperadores cujas mentes também foram incapazes de captar os fatos reais da história e do
governo? Em que extensão foram eles mesmos influenciados por uma intensificação de histeria
durante seus reinados? Isso seria um tópico interessante para discussão entre historiadores e
ponerologistas.
As tensões internacionais aumentaram; o arquiduque Ferdinand foi assassinado em Sarajevo.
Infelizmente, nem o Kaiser nem qualquer outra autoridade governamental de seu país estavam
em posse de sua razão. O que dominou os eventos subseqüentes foi a atitude emocional de
Guilherme e os estereótipos de pensamento e ação herdados do passado. A guerra estourou.
Os planos de guerra gerais que tinham sido preparados anteriormente, e que tinham perdido
sua relevância sob as novas condições, acabaram se desdobrando em uma manobra militar.
Mesmo aqueles historiadores familiares com a gênese e o caráter do estado Prussiano,
incluindo a sujeição ideológica dos indivíduos à autoridade do rei e do imperador e sua
tradição de expansionismo sangrento, intuíram que essas situações continham alguma atividade
de uma fatalidade incompreensível , que impede uma análise em termos de causalidade
histórica.
Muitas pessoas atentas estão sempre fazendo a mesma pergunta ansiosa: como a nação alemã
pôde escolher como Fuehrer um psicopata ridículo que não deixou dúvidas a respeito da sua
visão patológica do super-homem? Sob sua liderança, a Alemanha desencadeou uma segunda
guerra criminosa e politicamente absurda. Durante a segunda parte dessa guerra, oficiais do
exército, altamente treinados, executaram honradamente as ordens mais desumanas, sem o
menor senso do ponto de vista político e militar, determinadas por um homem cujo estado
psicológico corresponde ao critério rotineiro para que seja internado à força em um hospital
psiquiátrico.
Qualquer tentativa de explicar as coisas que ocorreram durante a primeira metade do nosso
século, por meio das categorias geralmente aceitas no pensamento histórico, deixa um
sentimento perturbador de inadequação. Somente uma abordagem ponerológica pode melhorar
esta falha na nossa compreensão, uma vez que ela faz justiça em relação ao papel de vários
fatores patológicos na gênese do mal, em todos os níveis sociais.
A nação alemã, alimentada, por uma geração, de material psicológico alterado
patologicamente, caiu em um estado comparável ao que vemos em certos indivíduos que foram
criados por pessoas que são ao mesmo tempo caracteropatas e histéricos. Psicólogos sabem, pela experiência, quão freqüentemente tais pessoas acabam por cometer atos que machucam
seriamente os outros. Um psicoterapeuta precisa de uma boa dose de trabalho persistente,
habilidade e prudência para capacitar tal pessoa, de forma a restituir sua capacidade de
compreender problemas psicológicos com um realismo mais naturalista, e a utilizar sua
faculdade crítica saudável em relação ao seu próprio comportamento.
Os alemães impuseram e sofreram danos enormes e dor durante a primeira Guerra Mundial;
eles, assim, não sentiram nenhuma culpa substancial e até mesmo pensaram que eram eles os
que haviam sido ofendidos. Isso não surpreende, já que eles estavam se comportando de
acordo com seu hábito costumeiro, sem nenhuma ciência de suas causas patológicas. A
necessidade de que esse estado patológico fosse ocultado em um uniforme de herói depois da
guerra, de forma a evitar uma desintegração amarga, tornou-se comum a todos. Uma fome
misteriosa surgiu, como se o organismo social conseguisse se viciar em alguma droga. Esta
fome foi por mais material psicológico patologicamente modificado, um fenômeno conhecido
pela experiência psicoterapêutica. Ela somente podia ser satisfeita por uma personalidade e
um sistema de governo patologicamente similares. Uma personalidade caracteropática abriu a
porta para a liderança de um psicopata individual. Nós voltaremos mais tarde em nossas
deliberações sobre essa sequência da personalidade patológica, uma vez que ela aparece com
uma certa regularidade nos processos ponerogênicos.
Uma abordagem ponerológica facilita nosso entendimento de uma pessoa que sucumbe à
influência de uma personalidade caracteropática, assim como também a compreensão dos
fenômenos macrossociais causados pela contribuição de tais fatores. Infelizmente,
relativamente poucos desses indivíduos podem ser auxiliados por meio de psicoterapia
apropriada. Tal comportamento não pode estar relacionado às nações que defendem
orgulhosamente sua soberania, sem reações externas extremas. Contudo, nós devemos
considerar a solução de tais problemas, por meio do conhecimento apropriado, como uma
visão para o futuro.
***
Distúrbios de Caráter Paranóico: é característico do comportamento paranóico que as
pessoas sejam capazes de um raciocínio relativamente correto e de discussões, desde que a
conversa envolva pequenas diferenças de opinião. Isso é interrompido de forma abrupta
quando os argumentos do interlocutor começam a minar suas idéias supervalorizadas, quando
destroem seus estereótipos de raciocínio mantidos por muito tempo ou quando os força a
aceitar uma conclusão que eles já haviam rejeitado subconscientemente. Tal estímulo libera
sobre o interlocutor uma torrente de discursos pseudológicos, amplamente paramoralísticos,
quase sempre ofensivos e que sempre contêm algum grau de sugestionamento.
Discursos como esses inspiram a aversão entre pessoas lógicas e cultas, que tendem então a
evitar os tipos paranóicos. Contudo, o poder dos paranóicos reside no fato de que eles
escravizam facilmente as mentes menos críticas, como por exemplo as pessoas com outros
tipos de deficiências psicológicas, que têm sido vítimas da influência egotística de indivíduos
com distúrbios de caráter e, em particular, um grande segmento de pessoas jovens.
Um proletário pode perceber esse poder de escravização como um tipo de vitória sobre as pessoas de classe mais alta e então tomar partido da pessoa paranóica. Contudo, isso não é
uma reação normal entre as pessoas comuns, nas quais a percepção da realidade psicológica
ocorre tanto quanto entre os intelectuais.
No somatório, então, a resposta de aceitação de uma argumentação paranóica é
qualitativamente mais freqüente na proporção inversa ao nível de civilização da comunidade
em questão, embora nunca se aproxime da maioria. Todavia, os indivíduos paranóicos tornam-
se cientes de sua influência escravizadora através da experiência e das tentativas de dela obter
vantagem, de um modo patologicamente egotista.
Nós sabemos hoje que o mecanismo psicológico do fenômeno da paranóia é duplo: um deles
é causado por um dano do tecido cerebral e o outro é funcional ou comportamental. Dentro
dos processos de reabilitação acima mencionados, qualquer lesão de tecido cerebral causa um
certo enfraquecimento do pensamento preciso e, como consequência, da estrutura da
personalidade. Os mais típicos são os casos causados por uma agressão ao diencéfalo,[ 37 ]
por vários fatores patológicos, o que resulta em uma diminuição permanente na habilidade
tonal e, da mesma forma, do tônus de inibição no córtex cerebral. Particularmente durante
noites de insônia, pensamentos fugidios dão origem a um visão alterada e paranóica da
realidade humana, assim como também a idéias que podem ser tanto genuinamente ingênuas
como violentamente revolucionárias. Nós chamaremos este tipo de caracteropatia paranóica.
Em pessoas que não possuem lesões do tecido cerebral, tais fenômenos ocorrem com maior
frequência como resultado de uma educação feita por pessoas com caracteropatia paranóica,
em conjunto com o terror psicológico de sua infância. Tal material psicológico é então
assimilado, criando os estereótipos rígidos da experiência anormal. Isso dificulta o
desenvolvimento normal do pensamento e da visão de mundo, e os conteúdos bloqueados de
terror acabam se transformando em centros congestivos permanentes e funcionais.
Ivan Pavlov compreendeu todos os tipos dos estados de paranóia, de um modo similar a esse
modelo funcional, sem estar ciente dessa causa básica e primária. Apesar disso, ele forneceu
uma descrição vívida dos caracteres paranóicos e o modo fácil, mencionado acima, com que
os indivíduos paranóicos desligam-se repentinamente da disciplina factual e dos processos de
pensamento apropriados. Os leitores do seu trabalho sobre este assunto, que estão
suficientemente familiarizados com as condições soviéticas, coletam ainda outro significado
histórico de seu pequeno livro. Sua intenção parece óbvia. Ele dedicou seu trabalho, sem
nenhuma palavra de dedicatória, é lógico, ao modelo chefe de uma personalidade paranóica, o
líder revolucionário Lênin, quem o cientista conhecia bastante. Como um bom psicólogo,
Pavlov podia predizer que ele não seria objeto de vingança, uma vez que a mente paranóica
bloqueia as associações egocêntricas. Ele pôde, assim, morrer uma morte natural.
Lênin, todavia, deveria ser incluído com o primeiro e mais característico tipo de
personalidade paranóica, isto é, aquele provavelmente causado por dano cerebral no
diencéfalo. Vassily Grossman [ 38 ] o descreveu mais ou menos como segue:
Lênin era sempre educado, gentil e polido, mas caracterizado SINTOMA:
simultaneamente por uma atitude excessivamente dura, cruel e ASTENIZAÇÃO [ 39 ] }
brutal para com os adversários políticos. Ele nunca permitiu FIXAÇÃO E ESTEREOTIPIA
qualquer possibilidade de que eles estivessem minimamente EGOTISMO PATOLÓGICO }
certos, nem de que ele estivesse minimamente errado. Ele
freqüentemente os chamava de camelôs, lacaios, garotos de PARAMORALISMOS }
recado, mercenários, agentes ou Judas que se vendem por trinta
seu oponente durante uma disputa. Ele não se comunicava ENCANTADOR E CONSCIENTE DOS SEUS EFEITOS } moedas de prata. Ele não fazia nenhuma tentativa de persuadir
diretamente com eles, mas preferia fazê-lo com aqueles que
testemunhavam o conflito, de forma a comprometer e ridicularizar
os seus adversários. Algumas vezes, tais testemunhas eram } simplesmente algumas poucas pessoas, algumas vezes milhares FALTA DE AUTOCRÍTICA
de delegados de um congresso, algumas vezes milhões, a
multidão dos leitores de jornais.
Caracteropatia Frontal: as áreas frontais do córtex cerebral (10A e B conforme a divisão
Brodmann) não estão presentes em praticamente nenhuma criatura além do homem; elas são
compostas do tecido nervoso filogeneticamente mais novo. Sua estrutura celular é similar a
das áreas de projeção visual, muito mais antigas, que ficam no polo oposto do cérebro. Isso
sugere alguma similaridade funcional. O autor encontrou um modo relativamente fácil de testar
essa função psicológica, a qual nos capacita a entender um certo número de elementos
imaginários no nosso campo de consciência e sujeitá-los à contemplação interna. A
capacidade desse ato de projeção interna varia amplamente de uma pessoa para outra,
manifestando uma correlação estatística com uma variação similar na extensão anatômica de
tais áreas. A correlação entre essa capacidade e a inteligência geral é muito baixa. Como
descrito pelos pesquisadores (Luria et al.), as funções dessas áreas, aceleração e coordenação
do processo de pensamento, parecem resultar dessa função básica.
Danos a essa área ocorrem com alguma frequência: no nascimento ou na primeira infância,
especialmente em crianças prematuras e, mais tarde na vida, como resultado de diversas
causas. O número de tais lesões no tecido cerebral perinatal foi significantemente reduzido
devido ao desenvolvimento da assistência médica para mulheres grávidas e recém-nascidos.
Este papel ponerogênico espetacular, resultante dos transtornos de caráter causados por esse
tipo de dano, pode ser considerado, de certa forma, característico das gerações passadas e das
culturas primitivas.
A lesão do córtex cerebral nessas áreas prejudica, de forma seletiva, as funções acima
mencionadas, sem prejudicar a memória, a capacidade associativa ou, em particular, as
funções e sentimentos baseados no instinto, como por exemplo a habilidade de intuir uma
situação psicológica. A inteligência geral de um indivíduo não é, então, amplamente reduzida.
As crianças com tais defeitos são quase sempre estudantes normais; as dificuldades surgem
repentinamente nas séries mais elevadas, e afetam principalmente as partes do curriculum que
carregam a função acima.
O caráter patológico de tais pessoas, geralmente contendo um componente de histeria,
desenvolve-se através dos anos. As funções psicológicas não afetadas são superdesenvolvidas
como uma forma de compensação, o que significa que as reações instintivas e afetivas
predominam. Pessoas relativamente vitais tornam-se beligerantes, simpáticas ao risco e
brutais tanto na palavra quanto na ação.
Pessoas com um talento inato para intuir situações psicológicas tendem a levar vantagem
desse dom de uma forma egoísta e implacável. No processo de pensamento de tais pessoas,
um atalho se desenvolve para contornar a função deficiente, levando então das associações
diretamente para as palavras, ações e decisões que não estão sujeitas a qualquer dissuasão. Tais indivíduos interpretam seu talento para intuir situações e tomar decisões simplificadas
rapidamente como um sinal de sua superioridade em relação às pessoas normais, que
necessitam pensar por um longo período de tempo, experimentando a dúvida e as motivações
conflitantes. O destino de tais criaturas não merece ser levado em consideração por muito
tempo.
Tais “caracteres stalinistas” traumatizam e encantam ativamente os outros. Sua influência
faz com que seja excepcionalmente fácil contornar os controles do senso comum. Uma grande
parte das pessoas tende a atribuir poderes especiais a tais indivíduos, com isso sucumbindo às
suas crenças egotistas. Se um dos pais manifesta tal defeito, não importa quão mínimo, todas
as crianças na família evidenciam anomalias no desenvolvimento da personalidade.
O autor estudou uma geração inteira de pessoas mais velhas, educadas, nas quais a origem
de tal influência foi a irmã mais velha, que sofreu de lesão perinatal dos centros frontais.
Desde a primeira infância, seus quatro irmãos mais novos foram expostos ao material
psicologicamente alterado de um modo patológico, e o assimilaram, incluindo o componente
crescente de histeria de sua irmã. Eles retiveram bem, nos seus sessenta anos, as deformidades
de personalidade e de visão de mundo, assim como a características histéricas então causadas,
cuja intensidade diminuiu na proporção da maior diferença de idade.
A seleção subconsciente de informação tornou impossível para esses homens apreender
qualquer comentário crítico em relação ao caráter da sua irmã; também, qualquer desses
comentários era considerado como uma ofensa à honra da família.
Os irmãos aceitaram como reais as ilusões patológicas de sua irmã e as reclamações sobre o
seu marido “mau” (que era, na realidade, uma pessoa decente) e seu filho, em quem ela
encontrou o bode expiatório para vingar suas falhas. Eles, com isso, participaram de um
mundo de emoções vingativas, considerando sua irmã uma pessoa completamente normal a
qual eles foram preparados para defender, por meio dos métodos mais repugnantes, se
necessário fosse, contra qualquer sugestão de sua anormalidade. Eles pensaram que as
mulheres normais eram insípidas e ingênuas, que serviam para nada além de conquistas
sexuais. Nem um sequer entre os irmãos construiu uma família saudável, ou desenvolveu uma
sabedoria de vida ainda que mediana.
O desenvolvimento do caráter dessas pessoas incluiu ainda muitos outros fatores que foram
dependentes do tempo e do local em que eles foram criados: a virada do século, com um pai
polonês patriota e uma mãe alemã que obedecia os costumes contemporâneos de aceitar
formalmente a nacionalidade do seu marido, mas ainda agia como uma advogada do
militarismo e da aceitação costumeira da histeria intensificada que cobriu a Europa naquela
época. Essa foi a Europa dos três Imperadores: o esplendor de três pessoas com inteligência
limitada, dois dos quais revelaram características patológicas. O conceito de “honra”
santificou o triunfo. Encarar alguém por muito tempo já era pretexto para um duelo. Estes
irmãos, assim, foram educados para serem duelistas corajosos com cicatrizes de espada;
contudo, os golpes que eles infligiram sobre os seus oponentes foram cada vez mais freqüentes
e muito piores.
Quando as pessoas com uma educação humanista analisam as personalidades dessa família,
elas concluem que a causa para essa formação deve ser procurada no tempo contemporâneo e em seus costumes. Se, contudo, a irmã não tivesse sofrido a lesão cerebral e o fator patológico
não existisse (hipótese excludente), suas personalidades teriam se desenvolvido de modo mais
normal, mesmo durante aqueles tempos. Eles teriam se tornado mais críticos e recebido
conselhos mais sensíveis de suas mulheres, que teriam sido escolhidas de forma mais sábia.
No que se refere ao mal que eles semearam de forma tão liberal durante as suas vidas, ou ele
não teria sequer existido, ou talvez fosse reduzido a um nível condicionado por fatores
patológicos mais remotos.
Considerações comparativas também levam o autor a concluir que Iosif Vissarionovich
Dzhugashvili, também conhecido como Stálin, deveria ser incluído na lista dessa
caracteropatia ponerogênica particular, que foi desenvolvida contra um pano de fundo de um
dano perinatal aos campos pré-frontais do seu cérebro. A literatura e as notícias sobre ele
estão cheias de indicações: bruto, carismático, encantador, tomador de decisões irrevogáveis;
brutalidade desumana, vingança patológica dirigida a qualquer um que cruzasse o seu
caminho, crença egotística em sua própria genialidade, da parte de uma pessoa cuja mente era,
de fato, somente mediana. Esse estado explica também sua dependência psicológica sobre um
psicopata como Beria.[ 40 ] Algumas fotografias revelam a deformação típica de sua fronte
que aparece em pessoas que sofreram uma lesão, quando muito jovens, nas áreas mencionadas
acima. Sua filha descreve suas decisões tipicamente irrevogáveis, como segue:
***
Sempre que ele expulsava do seu coração alguém que ele tinha conhecido por um longo tempo, classificando-o entre os
seus “inimigos” em sua alma, era impossível falar com ele sobre aquela pessoa. O processo reverso se tornava impossível para ele, a saber, persuadi-lo de que aquela pessoa não era seu inimigo, e qualquer tentativa nessa direção o fazia se encolerizar. Redens, Tio Pavlusha e A.S. Svanidze foram incapazes de fazer alguma coisa sobre isso; todos eles conseguiram foi que meu pai rompesse contatos e retirasse sua confiança. Depois de ver qualquer um deles pela última
vez, ele disse adeus como se fosse para um adversário em potencial, um dos seus “inimigos”...[ 41 ]
***
Nós sabemos o efeito de ser “expulso do seu coração”, como foi documentado pela história
daqueles tempos.
Quando contemplamos o alcance do mal que Stálin ajudou a trazer, devemos sempre levar
em consideração essa caracteropatia mais ponerogênica e atribuir uma porção apropriada de
“culpa” a ela; infelizmente, ela ainda não foi suficientemente estudada. Nós temos que
considerar muitos outros transtornos patológicos, uma vez que eles têm um papel essencial
nesse fenômeno macrossocial. Desconsiderar os aspectos patológicos dessas ocorrências e
limitar a interpretação às considerações historiográficas e morais é abrir a porta para a
atividade de outros fatores ponerogênicos; tal raciocínio deveria ser então considerado não
somente cientificamente insuficiente, mas também imoral.
***
Caracteropatias induzidas por drogas : durante as últimas décadas, a medicina começou a
utilizar uma série de drogas com efeitos colaterais graves: elas atacam o sistema nervoso,
deixando para trás danos permanentes. Essas deformidades, geralmente discretas, algumas
vezes dão origem a alterações na personalidade, que são com frequência prejudiciais
socialmente. A estreptomicina [ 42 ] se mostrou uma droga muito perigosa; como resultado, alguns países limitaram o seu uso, enquanto outros a tiraram da lista de drogas cujo uso é
permitido.
As drogas citostáticas[ 43 ] utilizadas no tratamento de doenças neoplásicas[ 44 ]
geralmente atacam o tecido cerebral filogeneticamente mais velho, o portador principal do
nosso substrato instintivo e de nossos sentimentos básicos. As pessoas tratadas com tais
drogas tendem a perder progressivamente sua cor emocional e sua habilidade de intuir uma
situação psicológica. Elas retêm suas funções intelectuais mas tornam-se pessoas egocêntricas
ansiosas por elogios, facilmente conduzidas por aqueles que sabem como tirar vantagem
disso. Elas se tornam indiferentes aos sentimentos das outras pessoas e aos danos que estão
impondo sobre estas; qualquer crítica à sua própria pessoa ou ao seu comportamento é paga
com vingança. Tal alteração de caráter em uma pessoa que até recentemente apreciava o
respeito da parte de seu ambiente ou comunidade, o qual persevera nas mentes humanas, torna-
se um fenômeno patológico causador de resultados trágicos.
Este poderia ter sido um fator no caso do Xá do Irã? Novamente, diagnosticar pessoas
mortas é problemático e o autor não possui dados detalhados. Contudo, essa possibilidade
deveria ser aceita como uma probabilidade. A gênese da tragédia daquele país também
possui, sem dúvida alguma, fatores patológicos que tiveram papéis ponerologicamente ativos.
Resultados similares aos quadros psicológicos descritos acima podem ser causados por
toxinas endógenas[ 45 ] ou vírus. Quando, ocasionalmente, a caxumba progride com uma
reação no cérebro, ela deixa em seu rastro uma discreta palidez ou embotamento dos sentidos
e um leve decréscimo na eficiência mental. Fenômenos similares são testemunhados depois de
um difícil confronto com a difteria. Finalmente, a poliomielite ataca o cérebro, com maior
frequência na parte superior dos cornos anteriores, afetadas pelo processo. As pessoas com
paralisia nas pernas raramente manifestam esses efeitos, mas aquelas com paralisias no
pescoço e/ou nos ombros devem se achar sortudos, caso não tenham. Adicionalmente à
palidez afetiva, as pessoas manifestando esses efeitos geralmente evidenciam ingenuidade e
uma inabilidade de compreender o cerne das questões.
Nós, de certa forma, não acreditamos que o Presidente F.D. Roosevelt tenha manifestado
alguma dessas características citadas, uma vez que o vírus que o atacou quando ele tinha 40
anos causou a paralisia das suas pernas. Depois desse fato, anos de atividade criativa se
seguiram. Contudo, é possível que sua atitude ingênua em relação à política soviética durante
seu último mandato tenha um componente patológico relacionado a essa saúde deteriorada.
Anomalias de caráter desenvolvidas como resultado de danos no tecido cerebral se
comportam como fatores ponerogênicos insidiosos. Como resultado das características acima
descritas, especialmente a ingenuidade e a inabilidade de entender o cerne das questões, sua
influência facilmente se ancora nas mentas humanas, traumatizando nossas psiques,
empobrecendo e deformando nossos pensamentos e sentimentos, e limitando a habilidade de
indivíduos e sociedades de usar o senso comum e de ler as situações psicopatológicas e
morais de forma precisa. Isso abre a porta para a influência de outros caracteres patológicos
que, com maior frequência, são portadores de algum transtorno psicológico herdado; eles
então empurram os indivíduos caracteropáticos para as sombras e procedem com o seu
trabalho ponerogênico. É por isso que vários tipos de caracteropatias participam durante os períodos iniciais da gênese do mal, tanto na escala macrossocial como na escala individual
das famílias humanas.
Um sistema social melhorado, do futuro, deveria então proteger indivíduos e sociedades,
prevenindo que as pessoas com os transtornos acima, ou com certas características que serão
discutidas a seguir, ocupassem quaisquer funções sociais por meio das quais o destino de
outras pessoas poderia depender do seu comportamento. Isso, é claro, se aplica
principalmente às posições governamentais mais elevadas. Tais questões deveriam ser
tratadas por uma instituição apropriada, composta de pessoas com uma reputação de
sabedoria e com treinamento médico e psicológico.
As características das lesões do tecido cerebral e os resultados dos seus transtornos de
caráter são muito mais fáceis de serem detectados do que certas anomalias herdadas. Assim, é
efetivo, durante as fases iniciais da tal gênese, reprimir esses processos ponerogênicos
através da remoção desses fatores do processo de síntese do mal, e muito mais fácil na
prática.