Ponerologia: Psicopatas no Poder

Andrew Lobaczewski · Capítulo 11 de 43

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Ponerologia: Psicopatas no Poder

Capítulo IV - Ponerologia

PONEROLOGIA

 

DESDE OS TEMPOS ANTIGOS, OS FILÓSOFOS E OS PENSADORES religiosos, representando várias

atitudes em diferentes culturas, têm procurado a verdade em relação aos valores morais,

tentando encontrar um critério para o que é certo e o que constitui um bom conselho. Eles

descreveram extensivamente as virtudes do caráter humano e sugeriram que estas virtudes

deveriam ser adquiridas. Eles criaram uma herança contendo séculos de experiência e

reflexão. A despeito das diferenças óbvias nas culturas e atitudes, e apesar de trabalharem em

épocas e localidades totalmente distantes, a similaridade, ou a natureza complementar das

conclusões alcançadas pelos filósofos famosos da antiguidade são impressionantes. Isso

demonstra que qualquer coisa que seja valiosa é condicionada e causada pelas leis da

natureza, que agem sobre as personalidades tanto dos seres humanos individuais como das

sociedades coletivas.

 

É também intelectualmente instigante observar como foi dito relativamente pouco sobre o

lado oposto da moeda; a natureza, as causas e a gênese do mal. Estes assuntos são geralmente

ocultados atrás das conclusões gerais acima descritas, com uma certa dose de sigilo. Tal

estado de coisas pode ser parcialmente relacionado às condições sociais e às circunstâncias

históricas sob as quais esses pensadores trabalharam. Seu modus operandi pode ter sido

determinado, no mínimo em parte, pelo destino pessoal, pelas tradições herdadas ou mesmo

pelo puritanismo. Afinal de contas, justiça e virtude são os opostos de força e perversidade. O

mesmo se aplica à honestidade versus mendacidade e, da mesma forma, saúde é o oposto de

doença. É também possível que qualquer coisa que eles tenham pensado ou dito sobre a

verdadeira natureza do mal tenha sido expurgada ou escondida posteriormente, por aquelas

mesmas forças que procuraram expor.

O caráter e a gênese do mal, então, permaneceram escondidos nas sombras discretas,

ficando para a literatura o papel de lidar com o assunto em uma linguagem altamente

expressiva. Mas, por mais expressiva que a linguagem literária possa ser, ela nunca atingiu a

origem primária dos fenômenos. Um certo espaço cognitivo permaneceu como um bosque

inexplorado de questões morais, que resiste à compreensão e a generalizações filosóficas.

Os filósofos atuais, desenvolvendo uma meta-ética, estão tentando uma impulsão ao longo do

espaço elástico que leva a uma análise da linguagem da ética, contribuindo um pouco aqui e

ali para eliminar as imperfeições e hábitos da linguagem conceitual natural. Penetrar neste

núcleo sempre misterioso é altamente tentador para um cientista.

Ao mesmo tempo, tanto profissionais ativos na vida social como pessoais normais

procurando pelo seu caminho são condicionados de forma significativa pela sua confiança em

certas autoridades. Tentações eternas tais como banalizar os valores morais insuficientemente

comprovados, ou se aproveitar deslealmente do respeito de pessoas ingênuas por eles, não encontram um contrapeso adequado dentro de um entendimento racional da realidade.

Se os médicos tivessem se comportado como os estudiosos da ética, isto é, se tivessem

relegado os fenômenos relativamente não estéticos das doenças à sombra de suas experiências

pessoais, porque estavam primariamente interessados em estudar as questões de higiene física

e mental, nós não teríamos a medicina moderna. Mesmo as raízes desta ciência de manutenção

da saúde seriam escondidas em sombras similares. Apesar do fato da teoria da higiene estar

relacionada à medicina, desde as suas antigas origens, os médicos estavam certos em dar

ênfase ao estudo das doenças acima de tudo. Eles arriscaram sua própria saúde e fizeram

sacrifícios para descobrir as causas e as propriedades biológicas das doenças e, depois, para

entender a dinâmica patológica do curso destas doenças. Uma compreensão da natureza de

uma doença, e do curso de sua ocorrência, afinal de contas, possibilita a elaboração dos

meios curativos apropriados.

Enquanto estudavam a habilidade de um organismo de reagir a uma doença, os cientistas

inventaram a vacinação, que permitiu aos organismos se tornarem resistentes a uma doença,

sem passar por ela em sua manifestação completa. Graças a isso, a medicina venceu e

preveniu os fenômenos que, no seu campo de atividade, são considerados um tipo de mal.

A questão então aparece: não poderíamos usar um modus operandi análogo para estudar as

causas e a gênese de outros tipos de mal que torturam os indivíduos humanos, as famílias e a

sociedade, apesar do fato de que eles parecem muito mais ofensivos aos nossos sentimentos

morais do que as doenças? A experiência tem ensinado ao autor que o mal é similar a uma

doença em sua natureza, embora possivelmente mais complexo e fugidio ao nosso

entendimento. Sua gênese revela muitos fatores de caráter patológico, especialmente os

psicopatológicos, cuja essência a medicina e a psicologia já estudaram, ou cujo entendimento

demanda investigação adicional nesses campos.

Paralelamente à abordagem tradicional, os problemas comumente percebidos como sendo

morais podem também ser tratados com base nos dados fornecidos pela biologia, medicina e

psicologia, uma vez que fatores desse tipo estão presentes simultaneamente na questão como

um todo. A experiência nos ensina que a compreensão da essência e da gênese do mal

geralmente faz uso de informações dessas áreas. Somente a reflexão filosófica não é

suficiente. O pensamento filosófico pode ter gerado todas as disciplinas científicas, mas as

disciplinas científicas não amadureceram até que se tornaram independentes, baseadas em

informações detalhadas e em relações com outras disciplinas que fornecessem tais

informações.

Encorajado pelas freqüentes descobertas “por coincidência” destes aspectos naturalistas do

mal, o autor imitou a metodologia da medicina; sendo um psicólogo clínico e um colaborador

médico por profissão, ele tem tais tendências de qualquer forma. Como é o caso com os

médicos e as doenças, ele assumiu o risco de entrar em contato próximo com o mal e sofreu as

consequências. Seu objetivo foi averiguar as possibilidades de entendimento da natureza do

mal, seus fatores etiológicos, e rastrear sua dinâmica patológica.

Os desenvolvimentos da biologia, da medicina e da psicologia abriram tantas avenidas que

o procedimento acima mencionado não só se tornou praticável, mas excepcionalmente

produtivo. A experiência pessoal e os métodos apurados em psicologia clínica permitiram atingir conclusões ainda mais precisas.

Houve uma dificuldade maior: dados insuficientes, especialmente na área da ciência da

psicopatia. Esse problema teve que ser superado por meio das minhas próprias investigações.

Essa insuficiência foi causada por negligência dessas áreas, por dificuldades teóricas

encontradas pelos pesquisadores e pela natureza impopular desses problemas. Este trabalho

em geral, e este capítulo em particular, contêm referências utilizadas nas conclusões da

pesquisa que o autor foi impedido de publicar ou que não quis publicar por razões de

segurança pessoal. Infelizmente, elas foram perdidas, e a idade impede qualquer tentativa de

recuperação. Espera-se que minhas descrições, observações e experiência aqui condensadas a

partir da memória forneçam uma plataforma para um novo esforço, de forma a produzir os

dados necessários para confirmar novamente o que já havia sido confirmado à época.

Todavia, com base no meu trabalho e no trabalho de outros naquele tempo passado trágico,

uma nova disciplina surgiu e tornou-se nosso farol; dois filólogos gregos, monges, a batizaram

d e PONEROLOGIA (do grego poneros, que significa mal). O processo da gênese do mal foi

chamado de forma correspondente de “ponerogênese”. Eu espero que esse começo modesto

progrida, de forma que nos habilite a superar o mal através do entendimento de sua natureza,

de suas causas e do seu desenvolvimento.

***

A partir de 5000 pacientes psicóticos, neuróticos e saudáveis, o autor selecionou 384

adultos que se comportaram de uma maneira seriamente danosa a outras pessoas. Eles vieram

de todos os círculos da sociedade polonesa, mas principalmente de um grande centro

industrial caracterizado pelas condições miseráveis de trabalho e por uma poluição

substantiva do ar. Eles representavam várias atitudes morais, sociais e políticas. Cerca de 30

deles foram submetidos a medidas penais que foram, muitas vezes, excessivamente cruéis.

Uma vez libertados da prisão ou de outra pena, essas pessoas tentaram se readaptar à vida

social, o que fez com que tendessem a ser sinceras nas conversas comigo – o psicólogo.

Outros escaparam da punição; outros ainda tinham machucado seus companheiros de uma

forma que não os qualificou para tratamento judicial de acordo com a teoria e com a prática

legal. Alguns foram protegidos por um sistema político que é em si mesmo um derivado

ponerogênico. O autor teve a vantagem adicional de falar com pessoas cujas neuroses foram

causadas por algum abuso que elas experimentaram.

Todas as pessoas acima mencionadas foram submetidas a testes psicológicos e a uma

anamnese detalhada, de forma a determinar suas habilidades mentais gerais e com isso excluir

ou detectar possíveis lesões no tecido cerebral e avaliá-las uma em relação à outra.[ 33 ]

Outros métodos também foram usados de acordo com as necessidades reais dos pacientes, de

forma a criar uma imagem suficientemente precisa das condições psicológicas. Na maioria

dos casos, o autor teve acesso aos resultados dos exames médicos e de laboratório realizados

nas instalações médicas.

Um psicólogo pode compilar muitas observações valiosas, tais como essas utilizadas neste

trabalho, quando ele mesmo está sujeito ao abuso, desde que o seu interesse pelo

conhecimento sobreponha suas reações emocionais humanas, que são naturais. Se não, ele deve utilizar suas habilidades profissionais para resgatar primeiro a si mesmo. Ao autor nunca

faltaram tais oportunidades, uma vez que seu país infeliz está repleto de exemplos de injustiça

humana, às quais ele mesmo esteve sujeito em inúmeras ocasiões.

A análise de suas personalidades e da gênese de seus comportamentos revelou que somente

14 a 16% das 384 pessoas que feriram outras pessoas falharam em manifestar qualquer fator

psicopatológico que teria influenciado seu comportamento. Em relação a essa estatística, é

importante apontar que a não descoberta de tais fatores, pelo psicólogo, não prova a sua não

existência. Em uma parte significativa desse grupo de casos, a falta de prova foi, na verdade,

resultado de possibilidades insuficientes de entrevista, da imperfeição dos métodos de teste

ou da habilidade deficiente por parte da pessoa que realizou o teste. Então, a realidade natural

mostra-se diferente em princípio das atitudes do dia-a-dia, que interpretam o mal de uma

forma moralizante, e a partir das práticas judiciais, que somente em uma pequena parte dos

casos adjudicam uma comutação da sentença, em virtude das características patológicas do

criminoso em questão.

Nós podemos raciocinar freqüentemente por meio de hipóteses excludentes, isto é,

ponderando o que teria acontecido se a gênese de um delito não tivesse algum componente

patológico. Nós, então, geralmente chegamos à conclusão de que o feito não teria acontecido,

ou porque o fator patológico determina a sua ocorrência, ou porque se torna um componente

indispensável à sua origem.

A hipótese sugere então, por si mesma, que tais fatores são comumente ativos na gênese do

mal. A convicção de que os fatores patológicos geralmente participam nos processos

ponerogênicos parece ainda mais provável se levarmos também em consideração a convicção

de muitos estudiosos da ética de que o mal neste mundo representa um tipo de teia ou

sequência contínua de condicionamentos mútuos. Dentro desta estrutura integrada, um tipo de

mal alimenta e abre portas para outros, independentemente de qualquer motivação individual

ou doutrinal. Ela não respeita os limites de casos individuais, de grupos sociais e de nações.

Uma vez que os fatores patológicos estejam presentes na síntese de muitas ocorrências do mal,

eles estarão presentes também nessa sequência contínua.

Deliberações posteriores sobre as observações então obtidas consideraram somente uma

parte dos casos diversificados acima mencionados, especialmente aqueles que não geraram

dúvidas por entrar em confronto com atitudes morais naturais, e aqueles que não revelaram

dificuldades práticas para análise posterior (tal como a ausência de contato posterior com o

paciente). A abordagem estatística forneceu somente diretrizes gerais. A penetração intuitiva

em cada problema individual, e uma síntese similar do todo, provaram ser o método mais

produtivo nessa área.

O papel dos fatores patológicos no processo de origem do mal pode ser representado por

qualquer fenômeno psicopatológico conhecido, ou ainda não pesquisado suficientemente, e

também por assuntos patológicos relacionado à prática médica não inclusos na psicopatologia.

Contudo, sua atividade em um processo ponerogênico é dependente de características que não

são a obviedade ou a intensidade do distúrbio. Muito pelo contrário, a maior atividade

ponerogênica é alcançada pelos fatores patológicos em uma intensidade que geralmente

permite a detecção com a ajuda de métodos clínicos, embora eles não sejam ainda considerados patológicos pela opinião do ambiente social. Tal fator pode limitar

dissimuladamente a habilidade do portador de controlar sua conduta, ou ter um efeito sobre as

outras pessoas, traumatizando suas psiques, fascinando-as, fazendo com que suas

personalidades se desenvolvam incorretamente, ou incitando emoções vingativas ou um desejo

de punição. Uma interpretação moralista de tais agentes e de seu legado contraria a habilidade

da espécie humana em ver as causas do mal e de utilizar o senso comum para combatê-lo. É

por isso que identificar tais fatores patológicos, e revelar suas atividades, pode reprimir as

funções ponerogênicas com tanta frequência.

No processo da origem do mal, os fatores patológicos podem agir a partir do interior do

indivíduo que cometeu um ato prejudicial; tal atividade é reconhecida de forma relativamente

fácil pela opinião pública e pelas cortes. Muito menos freqüente é a consideração para com o

modo com que as influências externas emitidas por seus portadores agem sobre indivíduos ou

grupos. Tais influências, no entanto, têm um papel importante na gênese geral do mal. Para que

tal influência seja ativa, a característica patológica em questão deve ser interpretada de uma

forma moralista, isto é, diferentemente de sua natureza verdadeira. Existem muitas

possibilidades para tais atividades. Para o momento, vamos indicar a mais perigosa.

Toda pessoa, no decorrer de sua vida, e particularmente durante a infância e a juventude,

assimila material psicológico das demais pessoas através de ressonância mental,

identificação, imitação e outros meios de comunicação, em seguida transformando tudo isso

para construir sua própria personalidade e visão de mundo. Se tal material é contaminado por

fatores patológicos e deformidades, o desenvolvimento da personalidade também pode ser

deformado. O produto será uma pessoa incapaz de entender corretamente tanto ela mesma

como as outras pessoas, tanto as relações humanas normais como as morais. Ela se

desenvolve para ser uma pessoa que comete atos maus com um sentimento medíocre de

deficiência. Ela é realmente culpada?

A antiguidade do homem, as fraquezas morais e deficiências de inteligência na família, o

raciocínio apropriado, e o conhecimento combinam-se com a atividade de vários fatores

patológicos para criar uma rede complexa de causas que freqüentemente contém relações de

realimentação ou estruturas causais fechadas. Falando de forma prática, causa e efeito estão

freqüentemente bem separados no tempo, o que torna mais difícil traçar as ligações. Se nosso

campo de observação é suficientemente extenso, os processos ponerogênicos são

reminiscentes de sínteses químicas complexas, nas quais a mudança de um simples fator faz

com que o processo inteiro mude. Os botânicos estão cientes da lei do mínimo,[ 34 ] na qual o

crescimento de uma planta é limitado pelo conteúdo do componente que está deficiente no

solo. Similarmente, eliminando (ou no mínimo, limitando) a atividade de um dos fatores ou

deficiências mencionadas acima, deve-se obter uma redução correspondente no processo

inteiro de gênese do mal.

Durante séculos, os moralistas têm nos aconselhado a desenvolver a ética e os valores

humanos. Eles estiveram procurando pelo critério intelectual apropriado. Eles também

respeitaram a correção de raciocínio, cujo valor nessa área é inquestionável. Apesar de todos

os seus esforços, contudo, eles foram incapazes de superar os muitos tipos de mal que têm

aterrorizado a humanidade por séculos e que nos dias atuais têm tomado proporções nunca antes vistas.

Um ponerologista não deseja de forma alguma diminuir o papel dos valores morais e do

conhecimento nessa área; pelo contrário, ele quer sustentá-los com um conhecimento científico

desprezado até o momento, de forma a refinar a imagem como um todo e adaptá-la melhor à

realidade, e através disso tornar possível que uma ação seja mais efetiva na prática moral,

psicológica, social e política.

Essa nova disciplina está, assim, interessada primariamente no papel dos fatores patológicos

da origem do mal, considerando especialmente que o controle consciente e o monitoramento

desses fatores nos níveis científico, social e individual poderia efetivamente reprimir ou

desarmar esses processos. Algo que foi impossível por séculos é agora exequível na prática,

graças ao progresso do conhecimento naturalista. Refinamentos metodológicos dependem de

progresso posterior no detalhamento dos dados e da convicção de que tal procedimento é

valioso.

Por exemplo, no curso da psicoterapia, nós podemos informar o paciente que encontramos,

na gênese de sua personalidade e comportamento, os resultados de influências de alguma

pessoa que revelou características psicopatológicas. Através disso, realizamos uma

intervenção que é dolorosa para o paciente, o que exige que procedamos com tato e

habilidade. Como resultado dessa interação, contudo, o paciente desenvolve um tipo de

autoanálise que o libertará dos resultados dessas influências e o habilitará a desenvolver uma

distância crítica ao lidar com outros fatores de natureza similar. A reabilitação dependerá do

aperfeiçoamento da sua habilidade de entender a si mesmo e os outros. Graças a isso, ele será

capaz de superar mais facilmente suas dificuldades internas e interpessoais, e evitar erros que

machuquem seu ambiente imediato e ele mesmo.