Ponerologia: Psicopatas no Poder
Capítulo IV - Ponerologia
PONEROLOGIA
DESDE OS TEMPOS ANTIGOS, OS FILÓSOFOS E OS PENSADORES religiosos, representando várias
atitudes em diferentes culturas, têm procurado a verdade em relação aos valores morais,
tentando encontrar um critério para o que é certo e o que constitui um bom conselho. Eles
descreveram extensivamente as virtudes do caráter humano e sugeriram que estas virtudes
deveriam ser adquiridas. Eles criaram uma herança contendo séculos de experiência e
reflexão. A despeito das diferenças óbvias nas culturas e atitudes, e apesar de trabalharem em
épocas e localidades totalmente distantes, a similaridade, ou a natureza complementar das
conclusões alcançadas pelos filósofos famosos da antiguidade são impressionantes. Isso
demonstra que qualquer coisa que seja valiosa é condicionada e causada pelas leis da
natureza, que agem sobre as personalidades tanto dos seres humanos individuais como das
sociedades coletivas.
É também intelectualmente instigante observar como foi dito relativamente pouco sobre o
lado oposto da moeda; a natureza, as causas e a gênese do mal. Estes assuntos são geralmente
ocultados atrás das conclusões gerais acima descritas, com uma certa dose de sigilo. Tal
estado de coisas pode ser parcialmente relacionado às condições sociais e às circunstâncias
históricas sob as quais esses pensadores trabalharam. Seu modus operandi pode ter sido
determinado, no mínimo em parte, pelo destino pessoal, pelas tradições herdadas ou mesmo
pelo puritanismo. Afinal de contas, justiça e virtude são os opostos de força e perversidade. O
mesmo se aplica à honestidade versus mendacidade e, da mesma forma, saúde é o oposto de
doença. É também possível que qualquer coisa que eles tenham pensado ou dito sobre a
verdadeira natureza do mal tenha sido expurgada ou escondida posteriormente, por aquelas
mesmas forças que procuraram expor.
O caráter e a gênese do mal, então, permaneceram escondidos nas sombras discretas,
ficando para a literatura o papel de lidar com o assunto em uma linguagem altamente
expressiva. Mas, por mais expressiva que a linguagem literária possa ser, ela nunca atingiu a
origem primária dos fenômenos. Um certo espaço cognitivo permaneceu como um bosque
inexplorado de questões morais, que resiste à compreensão e a generalizações filosóficas.
Os filósofos atuais, desenvolvendo uma meta-ética, estão tentando uma impulsão ao longo do
espaço elástico que leva a uma análise da linguagem da ética, contribuindo um pouco aqui e
ali para eliminar as imperfeições e hábitos da linguagem conceitual natural. Penetrar neste
núcleo sempre misterioso é altamente tentador para um cientista.
Ao mesmo tempo, tanto profissionais ativos na vida social como pessoais normais
procurando pelo seu caminho são condicionados de forma significativa pela sua confiança em
certas autoridades. Tentações eternas tais como banalizar os valores morais insuficientemente
comprovados, ou se aproveitar deslealmente do respeito de pessoas ingênuas por eles, não encontram um contrapeso adequado dentro de um entendimento racional da realidade.
Se os médicos tivessem se comportado como os estudiosos da ética, isto é, se tivessem
relegado os fenômenos relativamente não estéticos das doenças à sombra de suas experiências
pessoais, porque estavam primariamente interessados em estudar as questões de higiene física
e mental, nós não teríamos a medicina moderna. Mesmo as raízes desta ciência de manutenção
da saúde seriam escondidas em sombras similares. Apesar do fato da teoria da higiene estar
relacionada à medicina, desde as suas antigas origens, os médicos estavam certos em dar
ênfase ao estudo das doenças acima de tudo. Eles arriscaram sua própria saúde e fizeram
sacrifícios para descobrir as causas e as propriedades biológicas das doenças e, depois, para
entender a dinâmica patológica do curso destas doenças. Uma compreensão da natureza de
uma doença, e do curso de sua ocorrência, afinal de contas, possibilita a elaboração dos
meios curativos apropriados.
Enquanto estudavam a habilidade de um organismo de reagir a uma doença, os cientistas
inventaram a vacinação, que permitiu aos organismos se tornarem resistentes a uma doença,
sem passar por ela em sua manifestação completa. Graças a isso, a medicina venceu e
preveniu os fenômenos que, no seu campo de atividade, são considerados um tipo de mal.
A questão então aparece: não poderíamos usar um modus operandi análogo para estudar as
causas e a gênese de outros tipos de mal que torturam os indivíduos humanos, as famílias e a
sociedade, apesar do fato de que eles parecem muito mais ofensivos aos nossos sentimentos
morais do que as doenças? A experiência tem ensinado ao autor que o mal é similar a uma
doença em sua natureza, embora possivelmente mais complexo e fugidio ao nosso
entendimento. Sua gênese revela muitos fatores de caráter patológico, especialmente os
psicopatológicos, cuja essência a medicina e a psicologia já estudaram, ou cujo entendimento
demanda investigação adicional nesses campos.
Paralelamente à abordagem tradicional, os problemas comumente percebidos como sendo
morais podem também ser tratados com base nos dados fornecidos pela biologia, medicina e
psicologia, uma vez que fatores desse tipo estão presentes simultaneamente na questão como
um todo. A experiência nos ensina que a compreensão da essência e da gênese do mal
geralmente faz uso de informações dessas áreas. Somente a reflexão filosófica não é
suficiente. O pensamento filosófico pode ter gerado todas as disciplinas científicas, mas as
disciplinas científicas não amadureceram até que se tornaram independentes, baseadas em
informações detalhadas e em relações com outras disciplinas que fornecessem tais
informações.
Encorajado pelas freqüentes descobertas “por coincidência” destes aspectos naturalistas do
mal, o autor imitou a metodologia da medicina; sendo um psicólogo clínico e um colaborador
médico por profissão, ele tem tais tendências de qualquer forma. Como é o caso com os
médicos e as doenças, ele assumiu o risco de entrar em contato próximo com o mal e sofreu as
consequências. Seu objetivo foi averiguar as possibilidades de entendimento da natureza do
mal, seus fatores etiológicos, e rastrear sua dinâmica patológica.
Os desenvolvimentos da biologia, da medicina e da psicologia abriram tantas avenidas que
o procedimento acima mencionado não só se tornou praticável, mas excepcionalmente
produtivo. A experiência pessoal e os métodos apurados em psicologia clínica permitiram atingir conclusões ainda mais precisas.
Houve uma dificuldade maior: dados insuficientes, especialmente na área da ciência da
psicopatia. Esse problema teve que ser superado por meio das minhas próprias investigações.
Essa insuficiência foi causada por negligência dessas áreas, por dificuldades teóricas
encontradas pelos pesquisadores e pela natureza impopular desses problemas. Este trabalho
em geral, e este capítulo em particular, contêm referências utilizadas nas conclusões da
pesquisa que o autor foi impedido de publicar ou que não quis publicar por razões de
segurança pessoal. Infelizmente, elas foram perdidas, e a idade impede qualquer tentativa de
recuperação. Espera-se que minhas descrições, observações e experiência aqui condensadas a
partir da memória forneçam uma plataforma para um novo esforço, de forma a produzir os
dados necessários para confirmar novamente o que já havia sido confirmado à época.
Todavia, com base no meu trabalho e no trabalho de outros naquele tempo passado trágico,
uma nova disciplina surgiu e tornou-se nosso farol; dois filólogos gregos, monges, a batizaram
d e PONEROLOGIA (do grego poneros, que significa mal). O processo da gênese do mal foi
chamado de forma correspondente de “ponerogênese”. Eu espero que esse começo modesto
progrida, de forma que nos habilite a superar o mal através do entendimento de sua natureza,
de suas causas e do seu desenvolvimento.
***
A partir de 5000 pacientes psicóticos, neuróticos e saudáveis, o autor selecionou 384
adultos que se comportaram de uma maneira seriamente danosa a outras pessoas. Eles vieram
de todos os círculos da sociedade polonesa, mas principalmente de um grande centro
industrial caracterizado pelas condições miseráveis de trabalho e por uma poluição
substantiva do ar. Eles representavam várias atitudes morais, sociais e políticas. Cerca de 30
deles foram submetidos a medidas penais que foram, muitas vezes, excessivamente cruéis.
Uma vez libertados da prisão ou de outra pena, essas pessoas tentaram se readaptar à vida
social, o que fez com que tendessem a ser sinceras nas conversas comigo – o psicólogo.
Outros escaparam da punição; outros ainda tinham machucado seus companheiros de uma
forma que não os qualificou para tratamento judicial de acordo com a teoria e com a prática
legal. Alguns foram protegidos por um sistema político que é em si mesmo um derivado
ponerogênico. O autor teve a vantagem adicional de falar com pessoas cujas neuroses foram
causadas por algum abuso que elas experimentaram.
Todas as pessoas acima mencionadas foram submetidas a testes psicológicos e a uma
anamnese detalhada, de forma a determinar suas habilidades mentais gerais e com isso excluir
ou detectar possíveis lesões no tecido cerebral e avaliá-las uma em relação à outra.[ 33 ]
Outros métodos também foram usados de acordo com as necessidades reais dos pacientes, de
forma a criar uma imagem suficientemente precisa das condições psicológicas. Na maioria
dos casos, o autor teve acesso aos resultados dos exames médicos e de laboratório realizados
nas instalações médicas.
Um psicólogo pode compilar muitas observações valiosas, tais como essas utilizadas neste
trabalho, quando ele mesmo está sujeito ao abuso, desde que o seu interesse pelo
conhecimento sobreponha suas reações emocionais humanas, que são naturais. Se não, ele deve utilizar suas habilidades profissionais para resgatar primeiro a si mesmo. Ao autor nunca
faltaram tais oportunidades, uma vez que seu país infeliz está repleto de exemplos de injustiça
humana, às quais ele mesmo esteve sujeito em inúmeras ocasiões.
A análise de suas personalidades e da gênese de seus comportamentos revelou que somente
14 a 16% das 384 pessoas que feriram outras pessoas falharam em manifestar qualquer fator
psicopatológico que teria influenciado seu comportamento. Em relação a essa estatística, é
importante apontar que a não descoberta de tais fatores, pelo psicólogo, não prova a sua não
existência. Em uma parte significativa desse grupo de casos, a falta de prova foi, na verdade,
resultado de possibilidades insuficientes de entrevista, da imperfeição dos métodos de teste
ou da habilidade deficiente por parte da pessoa que realizou o teste. Então, a realidade natural
mostra-se diferente em princípio das atitudes do dia-a-dia, que interpretam o mal de uma
forma moralizante, e a partir das práticas judiciais, que somente em uma pequena parte dos
casos adjudicam uma comutação da sentença, em virtude das características patológicas do
criminoso em questão.
Nós podemos raciocinar freqüentemente por meio de hipóteses excludentes, isto é,
ponderando o que teria acontecido se a gênese de um delito não tivesse algum componente
patológico. Nós, então, geralmente chegamos à conclusão de que o feito não teria acontecido,
ou porque o fator patológico determina a sua ocorrência, ou porque se torna um componente
indispensável à sua origem.
A hipótese sugere então, por si mesma, que tais fatores são comumente ativos na gênese do
mal. A convicção de que os fatores patológicos geralmente participam nos processos
ponerogênicos parece ainda mais provável se levarmos também em consideração a convicção
de muitos estudiosos da ética de que o mal neste mundo representa um tipo de teia ou
sequência contínua de condicionamentos mútuos. Dentro desta estrutura integrada, um tipo de
mal alimenta e abre portas para outros, independentemente de qualquer motivação individual
ou doutrinal. Ela não respeita os limites de casos individuais, de grupos sociais e de nações.
Uma vez que os fatores patológicos estejam presentes na síntese de muitas ocorrências do mal,
eles estarão presentes também nessa sequência contínua.
Deliberações posteriores sobre as observações então obtidas consideraram somente uma
parte dos casos diversificados acima mencionados, especialmente aqueles que não geraram
dúvidas por entrar em confronto com atitudes morais naturais, e aqueles que não revelaram
dificuldades práticas para análise posterior (tal como a ausência de contato posterior com o
paciente). A abordagem estatística forneceu somente diretrizes gerais. A penetração intuitiva
em cada problema individual, e uma síntese similar do todo, provaram ser o método mais
produtivo nessa área.
O papel dos fatores patológicos no processo de origem do mal pode ser representado por
qualquer fenômeno psicopatológico conhecido, ou ainda não pesquisado suficientemente, e
também por assuntos patológicos relacionado à prática médica não inclusos na psicopatologia.
Contudo, sua atividade em um processo ponerogênico é dependente de características que não
são a obviedade ou a intensidade do distúrbio. Muito pelo contrário, a maior atividade
ponerogênica é alcançada pelos fatores patológicos em uma intensidade que geralmente
permite a detecção com a ajuda de métodos clínicos, embora eles não sejam ainda considerados patológicos pela opinião do ambiente social. Tal fator pode limitar
dissimuladamente a habilidade do portador de controlar sua conduta, ou ter um efeito sobre as
outras pessoas, traumatizando suas psiques, fascinando-as, fazendo com que suas
personalidades se desenvolvam incorretamente, ou incitando emoções vingativas ou um desejo
de punição. Uma interpretação moralista de tais agentes e de seu legado contraria a habilidade
da espécie humana em ver as causas do mal e de utilizar o senso comum para combatê-lo. É
por isso que identificar tais fatores patológicos, e revelar suas atividades, pode reprimir as
funções ponerogênicas com tanta frequência.
No processo da origem do mal, os fatores patológicos podem agir a partir do interior do
indivíduo que cometeu um ato prejudicial; tal atividade é reconhecida de forma relativamente
fácil pela opinião pública e pelas cortes. Muito menos freqüente é a consideração para com o
modo com que as influências externas emitidas por seus portadores agem sobre indivíduos ou
grupos. Tais influências, no entanto, têm um papel importante na gênese geral do mal. Para que
tal influência seja ativa, a característica patológica em questão deve ser interpretada de uma
forma moralista, isto é, diferentemente de sua natureza verdadeira. Existem muitas
possibilidades para tais atividades. Para o momento, vamos indicar a mais perigosa.
Toda pessoa, no decorrer de sua vida, e particularmente durante a infância e a juventude,
assimila material psicológico das demais pessoas através de ressonância mental,
identificação, imitação e outros meios de comunicação, em seguida transformando tudo isso
para construir sua própria personalidade e visão de mundo. Se tal material é contaminado por
fatores patológicos e deformidades, o desenvolvimento da personalidade também pode ser
deformado. O produto será uma pessoa incapaz de entender corretamente tanto ela mesma
como as outras pessoas, tanto as relações humanas normais como as morais. Ela se
desenvolve para ser uma pessoa que comete atos maus com um sentimento medíocre de
deficiência. Ela é realmente culpada?
A antiguidade do homem, as fraquezas morais e deficiências de inteligência na família, o
raciocínio apropriado, e o conhecimento combinam-se com a atividade de vários fatores
patológicos para criar uma rede complexa de causas que freqüentemente contém relações de
realimentação ou estruturas causais fechadas. Falando de forma prática, causa e efeito estão
freqüentemente bem separados no tempo, o que torna mais difícil traçar as ligações. Se nosso
campo de observação é suficientemente extenso, os processos ponerogênicos são
reminiscentes de sínteses químicas complexas, nas quais a mudança de um simples fator faz
com que o processo inteiro mude. Os botânicos estão cientes da lei do mínimo,[ 34 ] na qual o
crescimento de uma planta é limitado pelo conteúdo do componente que está deficiente no
solo. Similarmente, eliminando (ou no mínimo, limitando) a atividade de um dos fatores ou
deficiências mencionadas acima, deve-se obter uma redução correspondente no processo
inteiro de gênese do mal.
Durante séculos, os moralistas têm nos aconselhado a desenvolver a ética e os valores
humanos. Eles estiveram procurando pelo critério intelectual apropriado. Eles também
respeitaram a correção de raciocínio, cujo valor nessa área é inquestionável. Apesar de todos
os seus esforços, contudo, eles foram incapazes de superar os muitos tipos de mal que têm
aterrorizado a humanidade por séculos e que nos dias atuais têm tomado proporções nunca antes vistas.
Um ponerologista não deseja de forma alguma diminuir o papel dos valores morais e do
conhecimento nessa área; pelo contrário, ele quer sustentá-los com um conhecimento científico
desprezado até o momento, de forma a refinar a imagem como um todo e adaptá-la melhor à
realidade, e através disso tornar possível que uma ação seja mais efetiva na prática moral,
psicológica, social e política.
Essa nova disciplina está, assim, interessada primariamente no papel dos fatores patológicos
da origem do mal, considerando especialmente que o controle consciente e o monitoramento
desses fatores nos níveis científico, social e individual poderia efetivamente reprimir ou
desarmar esses processos. Algo que foi impossível por séculos é agora exequível na prática,
graças ao progresso do conhecimento naturalista. Refinamentos metodológicos dependem de
progresso posterior no detalhamento dos dados e da convicção de que tal procedimento é
valioso.
Por exemplo, no curso da psicoterapia, nós podemos informar o paciente que encontramos,
na gênese de sua personalidade e comportamento, os resultados de influências de alguma
pessoa que revelou características psicopatológicas. Através disso, realizamos uma
intervenção que é dolorosa para o paciente, o que exige que procedamos com tato e
habilidade. Como resultado dessa interação, contudo, o paciente desenvolve um tipo de
autoanálise que o libertará dos resultados dessas influências e o habilitará a desenvolver uma
distância crítica ao lidar com outros fatores de natureza similar. A reabilitação dependerá do
aperfeiçoamento da sua habilidade de entender a si mesmo e os outros. Graças a isso, ele será
capaz de superar mais facilmente suas dificuldades internas e interpessoais, e evitar erros que
machuquem seu ambiente imediato e ele mesmo.